domingo, 10 de março de 2019

Parabéns, Coro de Câmara!

Há exatamente nove anos, o Coro de Câmara de Campina Grande estreava na sala BW4, da Unidade Acadêmica de Artes, da UFCG. Formado por alunos do recém criado curso de Música e pessoas da comunidade, o grupo, em sua apresentação inaugural, contava com doze integrantes e interpretou música renascentista acompanhado por um pequeno consorte de flautas e percussão.

Ao longo desse ciclo, a identidade do ensemble tem sido definida por suas propostas artísticas, educacionais e políticas. Somos um laboratório para os alunos da Licenciatura e do Bacharelado, sobretudo aqueles com ênfase em Regência e Canto. O repertório contempla variadas tendências estéticas e estilísticas, incluindo peças históricas, assim como material inédito, especialmente a nossa produção musical. Cantamos Palestrina, Bach, Mozart, Schubert, Fauré, Puccini, Hogan, Amaral Vieira, Reginaldo Carvalho, Eli-Eri Moura, Beetholven Cunha, Adriano de Sousa, dentre tantos outros nomes novos e conhecidos no cenário internacional. Nosso foco é a literatura original, a cappella ou com acompanhamento.

A experiência com outros corais, orquestras e maestros, brasileiros e estrangeiros, aqui e alhures, expandiu nossa percepção e a capacidade de adaptação e interação. Os desafios dos novos projetos transformaram-se em inspiração, planejamento, motivação, disciplina, resiliência e superação. Foi desse modo que encaramos a interpretação de obras complexas e que conseguimos subir ao palco nos EUA, França, Teresina, Fortaleza, Juazeiro do Norte, Natal, João Pessoa, Recife e São Paulo, sem falar nas várias cidades do interior da Paraíba. É por isso que, no próximo mês, iremos para Portugal, participar do EuroFIMUS Festival de Ramos. As barreiras burocráticas e as limitações financeiras nunca nos impediram de sonhar e concretizar nossos desejos. E assim sempre será.


Nessa trajetória repleta de beleza e encantamento, alegro-me por conviver e compartilhar saberes e fazeres musicais com pessoas engajadas e comprometidas, que vestem a camisa deste time com um enraizado sentido de pertencimento. Essa força vital, que nos impulsiona a atingir objetivos e metas, nos faz ensaiar com sol ou chuva, durante a semana ou em dias feriados; nos permite apresentar-se por entre as fileiras de um supermercado ou no Carnegie Hall; nos dá o prazer de cantar uma melodia natalina em uníssono ou de estrear A Cachoeira de Paulo Afonso, de Danilo Guanais; nos possibilita viajar de avião ou num micro-ônibus sem banheiro e ar condicionado, cruzando o sertão nordestino, vendo a beleza que é a transposição do Rio São Francisco, na época mais quente do ano, no chamado bê-erre-o-bró, em alusão aos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro. Em todas essas situações, eu nunca vi um semblante infeliz nos membros desta linda família. Ao contrário, tudo o que testemunhei foram gestos de devoção recíproca, verdadeira, e de um amor intenso pela música, o canto coral, a vida.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 9 de março de 2019

EuroFIMUS

O Festival Internacional de Música de Campina Grande (FIMUS), evento promovido pela Fundação Parque Tecnológico (PaqTcPB), Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Affins Produções, chega à décima edição. Para celebrar este momento especial, realizaremos o EuroFIMUS, em Portugal, de 4 a 6 de abril. Participam desta edição o Coro de Câmara de Campina Grande (UFCG), Daniel Seixas (UFPB), Danilo Guanais (UFRN), Ivan Vilela (USP - Universidade de Aveiro), Andréa Teixeira (UFG - Universidade Nova de Lisboa), Matthias Heep (Universidade de Berne), Canto Sem Fronteiras (Suíça), dentre outros músicos portugueses.

Ao todo, serão realizados três concertos no Palácio Foz e no Museu Nacional da Música, ambos na região metropolitana de Lisboa. A programação contempla uma ampla variedade de repertórios, sacro e secular, instrumental e vocal, promovendo o diálogo entre a música de tradição oral e a música de concerto, tanto brasileira quanto europeia. Merece destaque, nesse contexto, a estreia de A Cachoeira de Paulo Afonso (Danilo Guanais), baseada no poema homônimo de Castro Alves, escrita para solistas, coro misto, quinteto de cordas e piano, bem como Dois Cânticos Espirituais (Matthias Heep), para coro misto a cappella. Além das apresentações artísticas, o compositor-residente Danilo Guanais fará uma palestra sobre a sua obra.

O EuroFIMUS será bienal e a meta é realizá-lo em diferentes países do Velho Continente. Esta ação, em consonância com a política de internacionalização das universidades Estadual da Paraíba e Federal de Campina Grande, vem consolidar a trajetória do FIMUS, intensificando o intercâmbio entre estudantes, profissionais e estabelecimentos de ensino do Brasil e da Europa. É importante destacar que, na semana seguinte ao EuroFIMUS, o Coro de Câmara de Campina Grande continuará viajando por Portugal, participando do Festival de Ramos, projeto do VoxLaci que consiste na realização de um ciclo de concertos em Lisboa e cidades circunvizinhas. Na oportunidade, o grupo estreará, em parceria com os anfitriões, Domingo de Ramos (Danilo Guanais), um conjunto de obras para coro a cappella alusivas à Paixão de Cristo.

A turnê do Coro de Câmara e o EuroFIMUS estão sendo realizados com o apoio incondicional de diversas instituições, incluindo aquelas que o promovem, Universidade Federal da Paraíba, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Laços Culturais Produções, VoxLaci, Palácio Foz, Museu Nacional da Música e a Embaixada do Brasil em Portugal. O  que nos move é a crença na vivência musical compartilhada, na força da ação coletiva, que desconhece barreiras, supera diferenças, une povos-nações. É por isso que agradecemos a colaboração e a presença de todos e desejamos um excelente encontro/festival, convidando-os também para o X FIMUS e 3° FIMUS Jazz, de 5 a 14 de julho deste ano. Campina Grande está de braços abertos para recebê-los. 

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Coleções de arranjos

Reginaldo Carvalho utilizou o canto coral no processo de educação musical de crianças, jovens e adultos, razão pela qual escreveu vários arranjos de música sacra e secular, para coro de vozes afins e mistas, com diferentes níveis de dificuldade. A análise documental tem revelado que o compositor pretendia compilar tais trabalhos em coleções, à semelhança do que fez com o livro Cantares Piauienses, uma antologia de arranjos de canções de variadas localidades do estado do Piauí.

No que concerne às cantigas populares brasileiras, Reginaldo compilou parte dos seus arranjos em cinco volumes. No primeiro constam Tutu Marambá (N° 1); Serenô (N° 1, Rio, 1956); Tristeza de Jeca (Rio, 1956); A Sertaneja (Luar da Serra); Canto de Natal e A maré encheu (Paris, 1953). No segundo estão Capelinha de melão; Sambalelê; Ciranda, cirandinha; Canção de Natal; A casa branca da serra; O cravo brigou com a rosa; e O lencinho branco. No terceiro aparecem Tôda gente no mundo; Você diz que você sabe tudo; Teresinha de Jesus; Que lindos olhos tem você; Canção do marinheiro; e Canto negro. No quarto encontam-se Alecrim; Marinheiro chora; Tutu Marambá (N° 4); A casinha pequenina; A Mulatinha; O trem; Praias do Ceará; Naquele tempo; Mensagem (Cantiga de Natal); e Canção gaúcha. Na lista do quinto, e último caderno, inserem-se Donzela formosa; Deixa eu ir; Ratoeira; O Rei mandô me chama; Ai! Baiana; Canto antigo; e Acordei de madrugada.

Outro grupo de arranjos é o de Modinhas Imperiais. Tomando como base o livro editado por Mário de Andrade, Reginaldo Carvalho arranjou para coro misto a quatro vozes as seguintes peças: Acaso são estes; Escuta, formosa Márcia; Busco a campina serena; Quando as glórias que gozei; Vem cá, minha companheira; Vem a meus braços; Róseas flores d’alvorada; Último adeus de amor; Eu tenho no peitoHei de amar-te até morrer; e Dei um ai, dei um suspiro. Até o momento, ainda não encontramos os manuscritos e/ou cópias dos arranjos de  Si te adoro; Deixa, Dália, flor mimosa; Que noites eu passo; e O coração perdido, que também integram o referido conjunto de canções brasileiras do século XIX.

Porque nutria uma grande admiração pela obra de Noel Rosa, Reginaldo escreveu arranjos corais dos maiores sucessos desse compositor, incluindo Feitio de oração; Feitiço da Vila; Conversa de botequim; Palpite infeliz; Com que roupa?; Último desejo; Já cansei de pedir; Arranjei um fraseado; Três apitos; e Silêncio de um minuto. Títulos como Quem não dança e Você vai se quiser aparecem em alguns programas, contudo ainda não foram localizados nos acervos investigados. À medida em que avançamos na pesquisa arquivística, descobrimos novos documentos que contribuem para a montagem deste quebra-cabeças que envolve as coleções que Reginaldo Carvalho organizou, mas nunca chegou a publicar.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Ano Jackson do Pandeiro

José Gomes Filho, mais conhecido como Jackson do Pandeiro, nasceu em Alagoa Grande‐PB, no dia 31 de agosto de 1919, e faleceu em Brasília‐DF, no dia 10 de julho de 1982. Muito embora filho do brejo, foi na região do agreste, em Campina Grande, que ele despontou para os palcos, profissionalizando‐se. É, indiscutivelmente, um dos nomes mais importantes ligados à Rainha da Borborema, no campo artístico.
A relevância de Jackson para a música brasileira é atestada em diferentes depoimentos e documentos, pois, com criatividade e irreverência, mostrou ao Brasil sua versatilidade cantando coco, frevo, marchinha e samba, dentre outros ritmos. Aqui na Paraíba, alguns projetos já homenageiam o referido artista, a exemplo do Memorial Jackson do Pandeiro, em sua terra natal; o monumento de bronze Farra de Bodega, de Joás Pereira Passos, localizado em Campina e que põe lado a lado Jackson e Gonzaga; e o próprio Museu de Arte Popular da Paraíba (MAPP - UEPB), popularmente chamado de Museu dos Pandeiros, por conta da sua estrutura.
O projeto Ano Jackson do Pandeiro celebra esse artista por meio de várias ações, incluindo a produção de um espetáculo musical inédito, a publicação de um livro, a realização de concertos didáticos, a promoção de eventos acadêmicos e científicos, a execução de oficinas de percussão regional, dentre outras. A meta é oferecer atividades gratuitas para a comunidade em geral, ao longo de vários meses. Lançado em julho de 2018, numa parceria da Affins Produções com o Festival Internacional de Música de Campina Grande, a proposta foi também concebida para festejar os dez anos do FIMUS. Desde então, percebe-se que a iniciativa inspirou o poder público e outras instituições a decretarem 2019 como Ano Cultural Jackson do Pandeiro. Os atos administrativos do Governo do Estado da Paraíba (Decreto), da Câmara Municipal de Campina Grande (Lei), da cidade de Alagoa Grande (Decreto) e da Universidade Estadual da Paraíba (Decreto) ratificam a nossa premissa. Seria interessante que, à semelhança do que ocorreu no ano do centenário de Luiz Gonzaga, em 2012, projetos no âmbito nacional, sob a tutela da Secretaria Especial da Cultura (Ministério da Cidadania) e da FUNARTE, também pudessem ganhar mais evidência.
Muito embora o reconhecimento da obra jacksoniana seja ponto pacífico entre fãs e estudiosos, é certo que suas gravações originais não estão mais nas playlists dos meios de comunicação. Este projeto tem, portanto, a missão de apresentar, sobretudo às novas gerações, quem foi esse artista e a sua música, contribuindo, deste modo, para a preservação da nossa memória e história. Para a realização deste empreendimento, pretendemos firmar parcerias com órgãos públicos e privados a fim de conseguir apoio para as diferentes atividades que serão desenvolvidas.
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 9 de dezembro de 2018

Um piano para Campina

Em 2019, o Festival Internacional de Música de Campina Grande completará dez anos. Para celebrar a data, pretendemos presentear o FIMUS com um piano. Para adquirirmos este instrumento, no entanto, precisamos da colaboração de todos. Nosso objetivo é congregar pessoas físicas e jurídicas, do país e do exterior, numa campanha coletiva, mediada pela Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PaqTcPB), que tem como objetivo arrecadar R$ 130.000,00 (cento e trinta mil Reais). Esse valor nos permitirá adquirir um piano com oitenta e oito teclas, três pedais e um banco, medindo 1,86 m x 1,50 m e com 101 cm de altura.

A campanha ocorrerá ao longo de nove meses, entre julho de 2018 e março de 2019. Os interessados poderão doar quaisquer valores na conta corrente 18.490-X, agência 1591-1, Banco do Brasil, em nome da Fundação Parque Tecnológico da Paraíba, CNPJ 09.261.843/0001-16. Os contribuintes deverão enviar uma cópia do comprovante de depósito para o e-mail fimuscampinagrande@gmail.com para receber uma declaração confirmando a participação no projeto. Caso o valor arrecadado ultrapasse o limite estabelecido, os recursos excedentes serão utilizados para a manutenção do instrumento, incluindo afinação e reparos, quando necessários, bem como a realização dos programas artísticos e educativos ligados ao FIMUS. Todas as pessoas, empresas e instituições que colaborarem financeiramente com esta iniciativa terão seus nomes impressos numa placa comemorativa e no programa do X FIMUS e 3º FIMUS Jazz, que serão realizados de 5 a 14 de julho de 2019.
O instrumento será adquirido entre abril e maio de 2019 e inaugurado na abertura do  Festival Internacional de Música de Campina Grande. A Fundação Parque Tecnológico da Paraíba comprará e tombará o equipamento, que ficará alocado no Teatro Municipal Severino Cabral, em regime de comodato, por meio de um convênio. Caberá exclusivamente ao FIMUS a manutenção e a administração do piano. Como contrapartida, anualmente serão realizados dez concertos e/ou recitais de música de câmara, entre setembro e junho, todos gratuitos e com músicos locais e convidados, incluindo novos nomes e pianistas consagrados. Outras ações, sobretudo com caráter didático-pedagógico, serão desenvolvidas tendo como público alvo os alunos das escolas públicas municipais e estaduais. A meta é promover um programa de formação de plateia, fazendo com que as ações do FIMUS tenham caráter permanente, estimulando, ao mesmo tempo, o mercado musical em nossa cidade e região.
A aquisição de um instrumento com excelente qualidade técnica permitirá a vinda de vários artistas para a cidade, colocando-nos no circuito de concertos. Como já mencionado, esse novo piano será de grande importância para a ampliação das ações que queremos realizar nos anos vindouros. Agradecendo antecipadamente, coloco-me à disposição para maiores esclarecimentos, esperando contar com a colaboração de todos na realização deste projeto.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

terça-feira, 6 de novembro de 2018

O Canto Coral na Paraíba: Eli-Eri Moura

Eli-Eri Moura, natural de Campina Grande, é pesquisador, professor, pianista, regente e compositor. Durante muitos anos, inicialmente como funcionário e posteriormente como docente da UFPB, em João Pessoa, atuou como diretor do Grupo Ânima e do Coral Universitário da Paraíba “Gazzi de Sá”, exercendo papel relevante no estado.

Com o Ânima, dedicou-se à música antiga, à montagem de renascenças, que eram interpretadas por vozes e um consorte de flautas e percussão. Nos programas, destaque para a música de tradição ibérica, os cancioneiros de Upsala e Palacio. Com esse ensemble, apresentou espetáculos originais, que incluíam encenação. Os integrantes do conjunto eram escolhidos criteriosamente, tinham larga experiência e, em alguns casos, estavam vinculados ao movimento teatral, a exemplo de Tião Braga, Elton Veloso e Melânia Silveira, que também participaram de vários espetáculos produzidos por ele e W. J. Solha. O Coral Universitário da Paraíba, por sua vez, cantava o repertório tradicional, música popular brasileira, além de trabalhos inéditos. Com liderança, carisma e muita competência, Eli-Eri atraiu a comunidade acadêmica, expandiu as atividades do Gazzi de Sá, que, por conta do grande número de interessados, foi dividido em CORALUP I e II. Como regente assistente desses grupos, e sob a orientação do maestro, participei de vários eventos artísticos-culturais no estado e região, encontro e festivais de coros, no Brasil e no exterior, dentre os quais o IX Encuentro Coral de Ateneo del IES, na Argentina, cuja aventura narro na crônica Mas o meu pires é de porcelana.

Eli-Eri Moura é um compositor de técnica apurada e gosto refinado, que se identifica com o canto, razão pela qual sua escrita vocal é intensa, generosa, boa de se interpretar. Muitas das suas peças são leves, a exemplo do ciclo Respingos, baseado numa seleção de poemas do irreverente Paulo Leminsky. Outras são mais dramáticas, como o Réquiem Contestado Os Indispensáveis, para solistas, coro misto, banda de rock e orquestra sinfônica. Réquiem para um trombone, escrito em homenagem a Radegundis Feitosa, é lírico, dolente, repleto de poesia. Há também aquelas mais engajadas, com forte caráter político, como o Credo Explícito e a Missa Breve, esta última para tenor, coro e quarteto de madeiras. O Salmo 150, assinado sob o pseudônimo de Paulo Vinicius, e os arranjos de Sete cantigas para voar e Cio da Terra são construções delicadas e preciosas.

Minha conexão com Eli-Eri Moura vem de longas datas, tanto na sala de aula/ensaio quanto no palco, na realização de vários projetos. Ao longo desta convivência, aprendi e cresci muito. Atualmente, ele dirige o Iamaká, uma camerata formada por cantores e instrumentistas que tem se dedicado à interpretação da música seiscentista e contemporânea. Suas obras ocupam lugar de destaque na literatura coral brasileira e estão, indiscutivelmente, entre as minhas preferidas.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 21 de outubro de 2018

Campina FM

Hoje a Campina Grande FM completa quarenta anos. Pioneira na Paraíba, e segunda no Nordeste, a rádio inaugurou um novo tempo na comunicação no estado, oferecendo à população da Rainha da Borborema e circunvizinhança uma vasta grade com música, jornalismo e temas especiais. Lembro que a primeira transmissão foi precedida por muito frenesi e expectativa.

Nomes importantes do rádio-jornalismo passaram por essa estação. Certamente, seu fundador e diretor, Hilton Motta, foi uma das vozes mais representativas. Aquele timbre inconfundível invadia nosso cotidiano, anunciando os jogos da seleção brasileira, os resultados das eleições, o réveillon. Na Serra, durante muito tempo, na passagem do ano, as luzes da cidade se apagavam, marcando o fim de um ciclo e o começo de outro. A contagem regressiva era feita por Seu Hilton, que com entusiasmo contagiante despertava em cada um dos ouvintes a esperança em dias melhores, a sensação de recomeço a partir daquela zero hora. Wilson Maux, teatrólogo, escritor, radialista, professor e ator, é também personagem marcante nessa história. Diariamente, nossas manhãs eram banhadas por sua voz potente. Começava na alvorada, com o Desperta, Campina e a Ave-Maria; depois, no Jornal Integração; por fim, ao meio-dia, com o quadro Bom dia para você, no qual lia crônicas de sua autoria. Dizem que, ao todo, ele redigiu mais de mil textos, muitos dos quais verdadeiras pérolas. A lista de ouro da 93.1 é vasta e inclui Flávio Barros, Jorgito, Toninho Lima, José Lyra, Zé Nobre, Inaudete Amorim, Fátima Silva, Kalilka Vólia, Alan Ferreira, dentre tantos outros, da velha e nova geração.

Curiosamente, programas computacionais eram transmitidos aos sábados, à tarde. Escutávamos frequências, no limiar entre o som e o ruído, assim como uma música difusa, que os aficionados gravavam em fitas K-7, que serviam como unidades de memória auxiliar dos primeiros computadores. Tratava-se, portanto, de um protótipo de um sistema para transmissão de dados em um ambiente wireless, utilizando o rádio. As canções da Noite dos Namorados embalaram meus sonhos, meu encontro com Jane Cely.

A minha relação com a emissora intensificou-se quando passei a colaborar com o Clássicos Eternos. Mesmo sem conhecimentos específicos na área, ofereci-me para a tarefa. Queria adentrar no fascinante mundo da radiodifusão. Comecei auxiliando Marilena Motta na seleção das obras, escrevendo o roteiro. Em seguida, assumi-o integralmente, produzindo-o e apresentando-o. Foram quatro anos de intensa atividade matinal, sempre aos domingos, no nevoento topo da Colina da Palmeira. Divulgamos eventos e exploramos a música de diferentes períodos e compositores, obras instrumentais e vocais, com apresentações ao vivo e entrevistas. Esta foi uma experiência inesquecível, transformadora. É por isso que, nesse dia de festa, faço votos de vida longa, reforço minha gratidão, receba meus parabéns, Campina FM.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)