sábado, 13 de agosto de 2016

Pensar, agir e cantar como solista

Quando a aprendizagem do repertório coral ocorre apenas por meio da memorização, quase sempre é necessário repassar muitas vezes um mesmo trecho, fato que pode tornar os ensaios morosos, comprometendo o cronograma de atividades do grupo e a interpretação de outras obras. Nesse contexto, a inclusão de uma literatura mais complexa, elaborada e variada, seja sob o ponto de vista melódico, harmônico, rítmico ou textural, é quase sempre descartada, pois não há espaço, e em muitos casos interesse, para tal tipo de abordagem.

A situação é mais ou menos contornada se o conjunto tem integrantes que, muito embora não saibam ler partitura, têm boa memória musical. Em certa medida, eles são a referência para aqueles mais inseguros e assumem o papel de arrimos do naipe. O que parece ser uma solução, a priori, pode, na verdade, ser um problema, sobretudo quando se estabelece uma relação de dependência, viciosa, e o coro não consegue cantar sem tais líderes. Esse quadro se agrava quando esse cantor, consciente da responsabilidade que tem dentro do grupo, se considera insubstituível e passa a agir de forma inconveniente e perigosa, tratando os demais colegas e o regente como reféns dos seus caprichos, vontades e opiniões.

Algumas atitudes contribuem para ratificar esse status. Às vezes, o ensaio não começa enquanto esses indivíduos não chegam. Em outras ocasiões, as apresentações são canceladas porque tais coralistas não podem participar. Quando esse tipo de liderança involuntária ganha notoriedade no âmbito de um grupo e conta com a aquiescência dos seus integrantes, recebendo elogios excessivos e/ou tratamento diferenciado, os prejuízos se revelam a curto, médio e longo prazo. Tal conjuntura fortalece o vedetismo daqueles que se acham imprescindíveis, potencializam reações passionais, esvaziam o sentido sócio-político-cultural-educativo da prática coral.

Memória, ouvido e voz são, indiscutivelmente, atributos necessários para todo e qualquer intérprete. No entanto, como regentes, precisamos trabalhar objetivamente o solfejo e a técnica do canto, explorando o potencial de cada um dos membros do coro, indistintamente, seja num grupo religioso, de empresa ou universitário, de vozes afins ou mistas, adulto ou infanto-juvenil. À semelhança do que ocorre com o entrelaçamento dos sujeitos e contrassujeitos de uma composição polifônica, nossa ação deve favorecer a autonomia, estimular as relações interdependentes, tanto no plano afetivo quanto do saber/fazer musical, evitando, sob todas as perspectivas, os vínculos que criam dependência, relações doentias, o estrelato. Fomentar uma nova forma de atuação, criando mecanismos que assegurem a autossuficiência dos cantores, sem perder de vista, todavia, a coletividade que a prática coral exige, parece ser um caminho viável. Em outros termos, queremos que os nossos coralistas pensem, ajam e cantem como solistas, mas sempre em uníssono.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 31 de julho de 2016

A carta

Janeiro sempre foi um mês alegre. Além do meu aniversário natalício, nesta época recebíamos a visita de Tia Lúcia, a irmã da minha mãe que era freira e morava em Recife. No nosso reencontro, abraços, afetos e A Festa dos Santos Reis, um dos maiores sucessos de Tim Maia, que ela cantava suavemente, com voz de peito.

Durante aquele período, com a rotina alterada, o cardápio era variado, especial. As refeições eram mais longas e repletas de novidades, incluindo a tigela com o pirão quente, o queijo do reino envolto na embalagem avermelhada, a Coca-Cola quase congelada. Na cozinha, minha mãe, minha avó e minha Tia dialogavam em contraponto, como os temas de uma fuga barroca. E nós nos deliciávamos com aquelas histórias, repletas de temperos, aromas, ruídos, movimentos ao redor e sobre a mesa. Tia Lúcia orgulhava-se do seu tino comercial. – Eu era criança e já vendia macaíbas para os meus colegas de classe, dizia com os olhos vivos. Religiosa, filha da caridade, rezava no corredor estreito da casa de Vó Nuca, vizinha à carvoaria de Seu Dedé, defronte ao altar onde estavam Maria e a Medalha Milagrosa.

Certo fim de janeiro, quando Tia Lúcia voltou para Recife ao término das férias, eu senti a sua ausência. Como a necessidade é a mãe da invenção, decidi enviar-lhe uma carta. Fui até a Mercearia do Louro, na esquina da Major Belmiro com a Doutor João Moura, para comprar algumas folhas, um envelope e um selo. Na cristalinidade do papel meus sentimentos transpareciam. Eu tinha dez anos. Descrevi os vários momentos que passamos juntos, incluindo os nossos passeios, a viagem para João Pessoa no ônibus da Real, a parada na entrada de Sapé, quando prontamente lhe dissera: – Titia, Café do Vento. É hora do lanche! O tempo passou. Tia Lúcia sofreu um AVC que a deixou com sequelas na fala. Monossilábica, todas as palavras e frases que conseguia pronunciar eram variações sobre a partícula “tá”. Para entendê-la era necessário avaliar a entonação, o contexto, os gestos. Comentei com Vinicius e Sofia que nessa época eles carinhosamente a apelidaram de “Tia Tatatá”. E nós nos entreolhamos e sorrimos.

Hoje, amanheci assim, com um desejo enorme de mandar notícias novamente para a minha Tia, tal como fizera naquela ocasião, quando a saudade invadiu uma clara manhã, e era verão. Talvez porque hoje, quando comemoramos o seu aniversário de setenta anos, eu queira prestar-lhe uma homenagem, dizer-lhe o quanto nós a amamos. Talvez porque Tia Lúcia, assim como Elizabeth Gilbert, tenha nos ensinado que o bom da vida é comer, amar e rezar. Que a festa comece. Que a sua vida seja plena, feliz. E que eu possa ter a graça de escrever-lhe muitas outras cartas.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 22 de julho de 2016

De mãos dadas, ao redor do Teatro

Dirigir artisticamente um evento é uma tarefa complexa. Por mais espetaculares que sejam as nossas ideias, elas sempre esbarram numa questão fundamental: o limite orçamentário. Tal situação se agrava em época de crise econômica, quando as restrições são mais evidentes, definindo, assim, as fronteiras das nossas escolhas, a liberdade criativa. Quando idealizamos um Festival, além do aspecto financeiro, nós também pensamos na sua dimensão sócio-educativa-política, posto que a música é produto da cultura, de um determinado povo-tempo-lugar, da sua historicidade. É por meio do repertório, por exemplo, que expandimos a percepção do mundo e do outro, que compreendemos generalidades e idiossincrasias, aquilo que nos aproxima e nos distancia.

Nesta edição do FIMUS, celebramos o centenário do violonista Dilermando Reis. Ouvimos o panelaço do oratório profano Stella Splendens, de Eli-Eri Moura, que incomodou parte da plateia, que optou por sair do Teatro por considerar a obra “excessivamente provocativa”. Cantamos a Misa Criolla, de Ariel Ramirez, acompanhados por instrumentos típicos da região, numa referência à resistência dos povos da América Latina na luta contra as ditaduras. Homenageamos Antônio José Madureira, fundador do Quinteto Armorial e pioneiro no ensino de música no âmbito da UFPB, Campus II, nos anos setenta. Optamos por uma programação centrada majoritariamente em obras e compositores nacionais, incluindo Osvaldo Lacerda, Camargo Guarnieri, Ernst Mahle, Paulo Rios Filho, Liduino Pitombeira, Dimitri Cervo, Vilani-Côrtes, Guerra-Peixe, Villa-Lobos e o jovem Rafael Meira.

Colocamos a par e passo o permanente e o transitório, o novo e o velho, o tradicional e o moderno, a identidade e o pertencimento. Evidenciamos, em outros termos e como diria Bakhtin, o problema da relação recíproca entre a infraestrutura e as superestruturas, isto é, como a realidade determina o signo e como o signo reflete e refrata a realidade em transformação, sobretudo tendo em vista a ubiquidade social da palavra/música (grifo nosso).

O encontro entre o iniciante e o experiente, o micro e o macro, o som e o ruído, nos fez superar limites, conectar extremos: Júlia Abdalla e Fredi Gerling; o Municipal e a Capela de São Bento, na zona rural de Remígio; o Concerto para dois trompetes em Ré Maior, de Manfredini, e Plangeon, para flauta solo, de Januibe Tejera, magistralmente interpretada por Lucas Robatto. O trabalho de Phillipe Xadai, que assinou o projeto gráfico deste ano, e a animação de Kadu Camilo também estão vinculados. À rigidez das retas do tetragrama contrapõe-se um pontilhismo liquefeito e indefinido, verde e amarelo, misturado, ora em tons pasteis, por vezes em tons vibrantes, tal como o som das marchinhas carnavalescas executadas pela orquestra, na noite do encerramento do Festival, e que nos fizeram dançar de mãos dadas, ao redor do Teatro, enquanto renovávamos as utopias individuais e coletivas.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Três anos sem Reginaldo Carvalho

Há três anos Reginaldo Carvalho partiu. Era véspera da abertura do quinto Festival Internacional de Música de Campina Grande, quando recebi o telefonema que me trouxe tão triste notícia. Um filme passou pela minha cabeça. As imagens afloraram buliçosamente. Um misto de choro e riso invadiu os instantes seguintes, que foram (in)tensos. Hoje, melhor mesmo é pensar na vida, como tão bem fez o experiente compositor.

Quando eu estava morando em Salvador, por conta do Mestrado na UFBA, fiz uma análise da obra Rezação, de Reginaldo Carvalho. Como a composição fora publicada entre os anos 70 e 80, e os recursos editoriais naquele período eram precários, propus uma nova edição da Cantata. Preparei a partitura e enviei o manuscrito para ele, que morava em Teresina há muitos anos. Ao receber o material, pediu-me tempo para analisá-lo. Decorridas algumas semanas, contatei-o, porque precisava concluir o trabalho. Reginaldo Carvalho, que àquela época possuía um fusquinha azul celeste do início da década de setenta, disse-me que fizera várias anotações no documento. No entanto, com o riso contido, continuou: “Nego Véi, não tenho como enviar a edição final, porque, ao cruzar a ponte no sentido Zona Leste-Centro, um vento forte invadiu o meu carro e levou todos os papeis para o leito do Rio Poty. O paradeiro, agora, só o Crispim, o Cabeça de Cuia, sabe. Tem coragem de perguntar para ele?”

Reginaldo Carvalho, conhecedor da cultura de tradição oral e da música do povo de tantos lugares, em sua fala e gestos ouvíamos os causos daqui e de algures, de ontem e de hoje, os resquícios de Guarabira, sua terra natal, de Ipuarana, do brejo paraibano, do sertão piauiense, das terras fluminenses, da Cidade Luz. Contador de histórias, gostava de falar, como diria Décio Pignatari, sobre o que ouviveu, narrativas sui generis, o fundamento da sua literatice de cordão, como ele assim ironicamente denominava.

Nestes dias, nos quais encerramos mais um ciclo junino, recorro ao diálogo do Sol e da Lua, extraído da Cantata que escrevi há pouco tempo: “Tolos aqueles que acham / que, matando, vão calar / a voz do artista-profeta / que nos  ensina a pensar, / pois o espírito não morre / vai viver noutro lugar. / A morte não é final, / nossa existência é infinita; / toda essência se renova / para quem nela acredita / e guarda no dentro do peito / num coração que palpita.” Reginaldo Carvalho continua cá, entre nós, e, dentro de um ano, em julho de 2017, terei a oportunidade de mostrar isso ao mundo, numa conferência que apresentarei sobre a sua obra, no 11th World Symposium on Choral Music, que será realizado em Barcelona.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com) 

sábado, 11 de junho de 2016

Forró-Jazz-Sinfônico

Uma das novidades d’O Maior São João do Mundo este ano foi o Forró-Jazz-Sinfônico, uma iniciativa do Festival Internacional de Música de Campina Grande (FIMUS) em parceria com o Projeto Notas de Passagem e a Prefeitura Municipal.

A ideia surgiu com a possibilidade da inclusão da Rainha da Borborema no roteiro da Luther College Jazz Orchestra (LCJO), que estaria em turnê visitando estados do Sul e do Nordeste do Brasil. Quando Eduardo Lakschevitz, coordenador do Notas de Passagem, lançou a proposta, prontamente a abraçamos, tendo em vista o seu potencial sócio-educativo-cultural. A coordenação geral do São João acatou a ideia, sugerindo a inclusão da Filarmônica Estrelas da Serra, grupo ligado à entidade Vamos Fazer Arte, da cidade de Croatá-CE, e apoiada pela Expresso Guanabara. Ampliamos o leque e inserimos a FUPOP Orquestra, da Fundação Universitária de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (FURNE), bem como o acordeonista Marcos Farias, filho da cantora Marinês.

A Filarmônica Estrelas da Serra começou a noite em grande estilo, interpretando obras clássicas de Zé Ramalho e Luiz Gonzaga. A alegria do regente Hélio Júnior Bezerra contagiou a Filarmônica e o público presente. Logo após os cearenses, apresentou-se a Luther College Jazz Orchestra, formado por alunos da Luther College, do estado de Iowa, nos Estados Unidos da América. A big band, conduzida pelo compositor e regente Tony Guzmán, mostrou um repertório eclético e bastante complexo, tocando jazz e blues, assim como obras de referência da nossa música, incluindo bossa nova, frevo, samba, chorinho e baião. Duas interpretações foram marcantes na performance dos norte-americanos: Aquarela do Brasil e Asa Branca. A plateia encantou-se com o alto nível e a inserção da música brasileira no repertório do grupo estrangeiro, reconhecendo o trabalho dos músicos de forma calorosa, razão pela qual receberam aplausos várias vezes durante a execução das obras. Os integrantes da LCJO participaram de um intercâmbio com os alunos do curso de Música da UFCG. A FUPOP Orquestra levou ao Parque do Povo o trabalho que desenvolveu durante as comemorações do sesquicentenário da nossa cidade, com músicas sobre a Rainha da Borborema, merecendo destaque Kátia Virgínia, que também prestou homenagem ao seu esposo, pianista Gabmar Cavalcanti, falecido recentemente. O acordeão de Marcos Farias trouxe à tona a presença forte e singular de Marinês, que por tantas vezes cantou naquela praça.

O Forró-Jazz-Sinfônico, à semelhança do FIMUS, nasceu para ter vida longa, ser um evento de sucesso, uma referência na região. Nossa meta é estreitar as parcerias, fazendo com que Campina Grande seja conhecida não apenas por realizar O Maior São João do Mundo, mas, sobretudo, pela música de alta qualidade que produz, tanto a advinda das tradições populares e das salas de concerto, quanto aquela interpretada por músicos locais e internacionais.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Mark Hayes em Campina Grande

Foi com grande alegria que recebemos, entre os dias 11 e 16 de abril, Mark Hayes, pianista, compositor e regente norte-americano. Durante uma semana, ele ministrou aulas de composição e arranjo e também ensaiou e regeu nossos coros, interagindo com alunos e pessoas da região.

Além de abordar os aspectos diretamente ligados à prática composicional, Mark Hayes também falou da sua trajetória, destacando como iniciou a carreira como arranjador e compositor. Pianista por formação, ele descobriu, no tempo em que estava na universidade, que poderia escrever arranjos e, mais interessante ainda, ganhar dinheiro com esta atividade. Contou-nos que este foi um processo lento e que, gradualmente, ao longo dos anos, estabeleceu-se no mercado musical estadunidense, compondo e publicando obras instrumentais e vocais, sacra e secular, para diferentes formações e com variados níveis de dificuldade. A grande maioria das suas obras são para coro misto e de vozes afins, algumas a cappella, outras com acompanhamento, que vão do piano até grandes massas orquestrais, como é o caso do seu Requiem e do Te Deum, cujas partituras autografadas ganhei na perspectiva de futuramente incluí-las no repertório dos nossos coros. As palestras de Mark Hayes foram inspiradoras, motivando os alunos, que dialogaram com o compositor, perguntando-lhe questões práticas sobre o mercado, o processo de edição de partituras, a produção de CDs na América do Norte. Nosso convidado descreveu com propriedade os limites e possibilidades da sua opção profissional e do trabalho autônomo que desenvolve há mais de três décadas, revelando, de modo pragmático, segredos e atalhos da sua caminhada.

Seguindo as aulas e palestras, Mark Hayes ensaiou o Credo, de sua autoria, com o Madrigal Ars Femina, grupo coordenado pela professora Malu Mestrinho. Já com o Coro de Câmara de Campina Grande, ensaiou Grace, obra baseada no conhecido hino Amazing Grace, tema bastante recorrente em suas composições. Os dois coros, ao final, interpretaram conjuntamente Swingin’ With the Saints, um dos seus arranjos mais populares. Na noite de encerramento das atividades, fomos brindados com um concerto no qual ele apresentou várias peças solo e com acompanhamento, destacando-se a versão jazz-bossa nova da tradicional canção de John Newton. A interação com os músicos e a plateia marcaram a interpretação desta e de outras melodias conhecidas.

A vinda de Mark Hayes para Campina Grande estava prevista para o Festival Internacional de Música de 2015. Por questões superiores, o projeto não se concretizou naquela data, tendo sido realizado somente agora. Graças à ação conjunta da Primeira Igreja Batista, da Universidade Estadual da Paraíba e da Universidade Federal de Campina Grande, realizamos mais esta atividade, colocando a Rainha da Borborema na rota de passagem dos grande mestres da música.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O ocaso e os acasos

Sexta-feira, enquanto a cidade se preparava para as folias de momo, resolvi limpar o carro. Segui até o posto onde costumeiramente faço a faxina. Fui recebido pelo atendente, que me perguntou se a lavagem seria completa. Acenei positivamente e caminhei para a área de espera. Por ali, outro funcionário trabalhava embalado pelos sucessos da temporada.

No largo terreno, um casal New Hampshire passeava majestosamente. Com corpos robustos e passos firmes, envoltos numa plumagem avermelhada e preta, as aves esbanjavam beleza e poesia, como os brincantes, os foliões. Se, por um lado, Jackson me fazia pensar no desfile do Galo da Madrugada que ocorreria dentro de poucas horas, Jaqueline, por outro, era uma referência às porta-bandeiras da Marquês de Sapucaí. Intrigado, pensei se seria prudente deixar os animais soltos, pois eles tanto poderiam usar nossos carros como poleiros, sujando-os novamente, quanto poderiam ser atropelados por um dos veículos ali estacionados. Quando Jackson chegou aqui, disse o empregado que acompanhava meu olhar à distância, ele tomou conta do terreiro, demarcando o território, conquistando a vizinhança. Mas havia uma certa tristeza em seu cantar, completou mudando o tom da voz. Eu acho que ele estava se sentido muito sozinho e a solidão, o senhor sabe, não é boa companhia. Foi por isso que eu trouxe Jaqueline para viver aqui. Desde então, as manhãs dos nossos quintais são invadidas pelo som brilhante do seu clarinar e o frenesi percussivo do tatalar das suas asas.

O latido do labrador negro nos interrompeu. Dirigi meu olhar para o fundo da garagem, de onde também ele nos observava fixamente, querendo participar da conversa. Esse aí tem dois anos, disse o homem espremendo a flanela ensopada. Apoiando-se no braço da cadeira, acocorou-se ao meu lado e, com a urgência de quem compartilha segredos, completou com voz grave: ele e o irmão eram muito parecidos. Tinham o pelo liso, preto retinto. Os olhos eram cor de mel, assim como esse céu de fim de tarde. Eles eram tão semelhantes que eu acho que eram gêmeos idênticos. Às vezes, eu me confundia e não conseguia distingui-los, porque a cara de um era o focinho do outro. Por isso, resolvi chamá-los de King Kong. Quando um deles desapareceu, a dúvida só aumentou. E como eu nunca tive certeza de quem era quem, passei a chamar o que ficou comigo de King Kong, para evitar confusão, entende, disse arrematando.

Naquele ocaso de verão, lembrei de tantos acasos. Sorri por conta daquele homem e suas histórias, vendo Jackson, Jaqueline, King (e) Kong. Refleti sobre a nossa existência, a condição animal-humana, o carnaval e as infinitas possibilidades de reinvenção do ordinário, da vida cotidiana.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)