sábado, 11 de junho de 2016

Forró-Jazz-Sinfônico

Uma das novidades d’O Maior São João do Mundo este ano foi o Forró-Jazz-Sinfônico, uma iniciativa do Festival Internacional de Música de Campina Grande (FIMUS) em parceria com o Projeto Notas de Passagem e a Prefeitura Municipal.

A ideia surgiu com a possibilidade da inclusão da Rainha da Borborema no roteiro da Luther College Jazz Orchestra (LCJO), que estaria em turnê visitando estados do Sul e do Nordeste do Brasil. Quando Eduardo Lakschevitz, coordenador do Notas de Passagem, lançou a proposta, prontamente a abraçamos, tendo em vista o seu potencial sócio-educativo-cultural. A coordenação geral do São João acatou a ideia, sugerindo a inclusão da Filarmônica Estrelas da Serra, grupo ligado à entidade Vamos Fazer Arte, da cidade de Croatá-CE, e apoiada pela Expresso Guanabara. Ampliamos o leque e inserimos a FUPOP Orquestra, da Fundação Universitária de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (FURNE), bem como o acordeonista Marcos Farias, filho da cantora Marinês.

A Filarmônica Estrelas da Serra começou a noite em grande estilo, interpretando obras clássicas de Zé Ramalho e Luiz Gonzaga. A alegria do regente Hélio Júnior Bezerra contagiou a Filarmônica e o público presente. Logo após os cearenses, apresentou-se a Luther College Jazz Orchestra, formado por alunos da Luther College, do estado de Iowa, nos Estados Unidos da América. A big band, conduzida pelo compositor e regente Tony Guzmán, mostrou um repertório eclético e bastante complexo, tocando jazz e blues, assim como obras de referência da nossa música, incluindo bossa nova, frevo, samba, chorinho e baião. Duas interpretações foram marcantes na performance dos norte-americanos: Aquarela do Brasil e Asa Branca. A plateia encantou-se com o alto nível e a inserção da música brasileira no repertório do grupo estrangeiro, reconhecendo o trabalho dos músicos de forma calorosa, razão pela qual receberam aplausos várias vezes durante a execução das obras. Os integrantes da LCJO participaram de um intercâmbio com os alunos do curso de Música da UFCG. A FUPOP Orquestra levou ao Parque do Povo o trabalho que desenvolveu durante as comemorações do sesquicentenário da nossa cidade, com músicas sobre a Rainha da Borborema, merecendo destaque Kátia Virgínia, que também prestou homenagem ao seu esposo, pianista Gabmar Cavalcanti, falecido recentemente. O acordeão de Marcos Farias trouxe à tona a presença forte e singular de Marinês, que por tantas vezes cantou naquela praça.

O Forró-Jazz-Sinfônico, à semelhança do FIMUS, nasceu para ter vida longa, ser um evento de sucesso, uma referência na região. Nossa meta é estreitar as parcerias, fazendo com que Campina Grande seja conhecida não apenas por realizar O Maior São João do Mundo, mas, sobretudo, pela música de alta qualidade que produz, tanto a advinda das tradições populares e das salas de concerto, quanto aquela interpretada por músicos locais e internacionais.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Mark Hayes em Campina Grande

Foi com grande alegria que recebemos, entre os dias 11 e 16 de abril, Mark Hayes, pianista, compositor e regente norte-americano. Durante uma semana, ele ministrou aulas de composição e arranjo e também ensaiou e regeu nossos coros, interagindo com alunos e pessoas da região.

Além de abordar os aspectos diretamente ligados à prática composicional, Mark Hayes também falou da sua trajetória, destacando como iniciou a carreira como arranjador e compositor. Pianista por formação, ele descobriu, no tempo em que estava na universidade, que poderia escrever arranjos e, mais interessante ainda, ganhar dinheiro com esta atividade. Contou-nos que este foi um processo lento e que, gradualmente, ao longo dos anos, estabeleceu-se no mercado musical estadunidense, compondo e publicando obras instrumentais e vocais, sacra e secular, para diferentes formações e com variados níveis de dificuldade. A grande maioria das suas obras são para coro misto e de vozes afins, algumas a cappella, outras com acompanhamento, que vão do piano até grandes massas orquestrais, como é o caso do seu Requiem e do Te Deum, cujas partituras autografadas ganhei na perspectiva de futuramente incluí-las no repertório dos nossos coros. As palestras de Mark Hayes foram inspiradoras, motivando os alunos, que dialogaram com o compositor, perguntando-lhe questões práticas sobre o mercado, o processo de edição de partituras, a produção de CDs na América do Norte. Nosso convidado descreveu com propriedade os limites e possibilidades da sua opção profissional e do trabalho autônomo que desenvolve há mais de três décadas, revelando, de modo pragmático, segredos e atalhos da sua caminhada.

Seguindo as aulas e palestras, Mark Hayes ensaiou o Credo, de sua autoria, com o Madrigal Ars Femina, grupo coordenado pela professora Malu Mestrinho. Já com o Coro de Câmara de Campina Grande, ensaiou Grace, obra baseada no conhecido hino Amazing Grace, tema bastante recorrente em suas composições. Os dois coros, ao final, interpretaram conjuntamente Swingin’ With the Saints, um dos seus arranjos mais populares. Na noite de encerramento das atividades, fomos brindados com um concerto no qual ele apresentou várias peças solo e com acompanhamento, destacando-se a versão jazz-bossa nova da tradicional canção de John Newton. A interação com os músicos e a plateia marcaram a interpretação desta e de outras melodias conhecidas.

A vinda de Mark Hayes para Campina Grande estava prevista para o Festival Internacional de Música de 2015. Por questões superiores, o projeto não se concretizou naquela data, tendo sido realizado somente agora. Graças à ação conjunta da Primeira Igreja Batista, da Universidade Estadual da Paraíba e da Universidade Federal de Campina Grande, realizamos mais esta atividade, colocando a Rainha da Borborema na rota de passagem dos grande mestres da música.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O ocaso e os acasos

Sexta-feira, enquanto a cidade se preparava para as folias de momo, resolvi limpar o carro. Segui até o posto onde costumeiramente faço a faxina. Fui recebido pelo atendente, que me perguntou se a lavagem seria completa. Acenei positivamente e caminhei para a área de espera. Por ali, outro funcionário trabalhava embalado pelos sucessos da temporada.

No largo terreno, um casal New Hampshire passeava majestosamente. Com corpos robustos e passos firmes, envoltos numa plumagem avermelhada e preta, as aves esbanjavam beleza e poesia, como os brincantes, os foliões. Se, por um lado, Jackson me fazia pensar no desfile do Galo da Madrugada que ocorreria dentro de poucas horas, Jaqueline, por outro, era uma referência às porta-bandeiras da Marquês de Sapucaí. Intrigado, pensei se seria prudente deixar os animais soltos, pois eles tanto poderiam usar nossos carros como poleiros, sujando-os novamente, quanto poderiam ser atropelados por um dos veículos ali estacionados. Quando Jackson chegou aqui, disse o empregado que acompanhava meu olhar à distância, ele tomou conta do terreiro, demarcando o território, conquistando a vizinhança. Mas havia uma certa tristeza em seu cantar, completou mudando o tom da voz. Eu acho que ele estava se sentido muito sozinho e a solidão, o senhor sabe, não é boa companhia. Foi por isso que eu trouxe Jaqueline para viver aqui. Desde então, as manhãs dos nossos quintais são invadidas pelo som brilhante do seu clarinar e o frenesi percussivo do tatalar das suas asas.

O latido do labrador negro nos interrompeu. Dirigi meu olhar para o fundo da garagem, de onde também ele nos observava fixamente, querendo participar da conversa. Esse aí tem dois anos, disse o homem espremendo a flanela ensopada. Apoiando-se no braço da cadeira, acocorou-se ao meu lado e, com a urgência de quem compartilha segredos, completou com voz grave: ele e o irmão eram muito parecidos. Tinham o pelo liso, preto retinto. Os olhos eram cor de mel, assim como esse céu de fim de tarde. Eles eram tão semelhantes que eu acho que eram gêmeos idênticos. Às vezes, eu me confundia e não conseguia distingui-los, porque a cara de um era o focinho do outro. Por isso, resolvi chamá-los de King Kong. Quando um deles desapareceu, a dúvida só aumentou. E como eu nunca tive certeza de quem era quem, passei a chamar o que ficou comigo de King Kong, para evitar confusão, entende, disse arrematando.

Naquele ocaso de verão, lembrei de tantos acasos. Sorri por conta daquele homem e suas histórias, vendo Jackson, Jaqueline, King (e) Kong. Refleti sobre a nossa existência, a condição animal-humana, o carnaval e as infinitas possibilidades de reinvenção do ordinário, da vida cotidiana.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 23 de janeiro de 2016

Como selecionar repertório

Quando estou selecionando repertório para meus grupos, as variáveis são tantas que costumo trabalhar muitos dias nesta tarefa. Geralmente, organizo as obras que pretendo interpretar a curto, médio e longo prazo em três categorias: na primeira estão as composições mais simples, que podem ser incorporadas ao dia-a-dia do conjunto rapidamente; na segunda, aquelas que exigem elevado nível técnico e cuja preparação demanda mais tempo; na terceira, as masterpieces, obras que necessitam de muitos recursos humanos e financeiros para serem executadas e que não dependem exclusivamente da minha iniciativa. Além desses critérios, analiso o potencial das peças e vejo se elas contemplam múltiplas dimensões do fazer musical.

Prefiro trabalhar com literatura original, escrita por diferentes autores e em períodos distintos, seja para coro, banda ou orquestra. Eventualmente, para variar e de acordo com as necessidades, insiro arranjos, versões e adaptações. Faço isso porque, no caso específico do canto coral, percebo que muitos colegas têm priorizado um repertório de qualidade duvidosa, com forte apelo midiático, deixando de lado obras de referência, alegando os mais variados argumentos, muitos dos quais infundados.

Combino o velho e o novo, o local e o regional, os compositores consagrados e aqueles em ascensão, cuja produção, além de tecnicamente adequada e acessível, seja igualmente expressiva e bela. Às vezes, exploro um autor, uma época, um estilo, um tema, o repertório a cappella; outras, música com solistas, coro e acompanhamento instrumental. Sempre busco a variedade de andamentos, tons, articulações, dinâmicas, textos, texturas e caráteres. É preciso paciência para garimpar e organizar esse quebra-cabeças, pois quando o repertório não é selecionado criteriosamente é possível que aja desânimo, que os ensaios se tornem morosos, que o desgaste entre regente e músicos se acentue, que a experiência musical não seja afetiva, lúdica. A plateia também reage diante de escolhas inconsistentes, equivocadas, bocejando, mexendo-se nas poltronas, desejando, ansiosamente, o fim do concerto.

Selecionar o repertório da temporada é uma ação que requer calma, posto que a pressa é inimiga da perfeição, e muita racionalidade, visto que a emoção não é sábia conselheira. Antes de tomar uma decisão, esboço várias possibilidades, equilibro os princípios que norteiam a minha práxis artística e pedagógica com as necessidades e as expectativas daqueles com os quais irei conviver e trabalhar. Tento resistir, na medida do possível, às pressões extrínsecas, muitas das quais podem ser motivadas pelo modismo, pelas imposições do mercado, pelas exigências dos chefes imediatos, pelos caprichos dos mecenas, pela opinião dos impertinentes. Todo ano, nessa época, meu desafio – e o de muitos regentes – é sempre o mesmo: organizar o repertório sem perder de vista o ideal, sem abrir mão da excelência, sem excluir a possibilidade de mudança ao longo do percurso.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Se queres ser universal, canta primeiro a tua aldeia

Encerramos, no último sábado, 12 de setembro, a temporada de concertos do projeto SESC Partituras, que este ano, na Paraíba, homenageou Reginaldo Carvalho. Ao todo, realizamos três récitas, sendo uma na Sala Radegundis Feitosa, na UFPB, em abril; outra em Campina Grande, em julho, durante o Festival Internacional de Música; e a derradeira, em Guarabira, brejo paraibano, terra natal do referido compositor. Este concerto final, apresentado pelo Coro de Câmara de Campina Grande, foi todo dedicado à música coral, incluindo obras sacras e seculares, bem como arranjos escritos por Reginaldo Carvalho em diferentes momentos da sua atuação como compositor e regente. Dentre as peças sacras, interpretamos o Kyrie, da Missa Breve Nº 2, em Dó menor, para coro misto a cappella, escrita em Paris, em 1954, e dedicada ao Frei Adriano Hypólito, um dos seus professores no Convento Ipuarana, em Lagoa Seca, no início da década de quarenta. É importante observar que a missa está incompleta e até o momento só foram encontradas duas partes, o Kyrie e o Glória. Merece destaque também a estreia do Bendito de São Benedito, moteto cuja melodia foi coletada na cidade de Mulungu, nas proximidades de Guarabira.

A plateia reagiu positivamente e teve a oportunidade de conhecer detalhes da vida e da música de Reginaldo Carvalho. Ao término da apresentação, relatos variados do público. Para muitos, aquele foi o primeiro contato com o compositor. Um dos espectadores, habitante da localidade, desculpou-se por desconhecer um guarabirense tão ilustre. Naquele instante, percebemos, novamente, que o trabalho investigativo e artístico que desenvolvemos na Universidade Federal de Campina Grande ultrapassava os limites da academia, colaborando para a preservação da nossa memória e da história da música brasileira.

Representantes do poder público municipal estavam presentes e falaram dos projetos em andamento, no âmbito da Secretaria de Cultura, e que têm como objetivo divulgar a produção do maestro. Em breve, Guarabira terá um museu e nele haverá um espaço especial para Reginaldo Carvalho. Naire Vilar, filha do homenageado, prestigiou o evento e aproveitou a oportunidade para conhecer a cidade, visitando os lugares onde viveram seus antepassados e por onde provavelmente seu pai andou, brincou e ouviu muitas das melodias que serviram de base para seu processo criativo. No roteiro, ela percorreu a região na qual estava localizada a Fazenda Cachoeira dos Guedes, um dos redutos familiares.

No retorno, sentindo o vento na subida da Serra, meu pensamento voava enquanto eu folheava o livro Guarabira: nos passos de uma criança, escrito por Gilberto Vilar, irmão de Reginaldo Carvalho. A cada curva, mais revelações, outros mistérios por desvendar, inspirado pelo pensamento de L. Tolstoi, que assim diz: “Se queres ser universal, canta primeiro a tua aldeia.” Continuemos, portanto.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 29 de agosto de 2015

Deus já fez o céu bem alto, foi para viver sossegado.

Eventualmente, regentes corais passam por momentos delicados, especialmente quando o assunto é música sacra. Vários são os casos. Alguns cantores, com certas restrições a esse tipo de repertório, evitam interpretá-lo. Há os que não o fazem por conta da orientação doutrinária e dos vínculos religiosos. Outros são ateus. Há ainda quem cante parcialmente, dublando ou omitindo passagens do texto, palavras e expressões que não estão em consonância com os princípios que professam. O problema se agrava quando certos integrantes, muitas vezes essenciais dentro de um grupo, decidem não participar de uma apresentação pública, porque a mesma será realizada num templo. Para eles não importa a denominação e se o concerto é ou não parte de um serviço litúrgico. Simplesmente, não se envolvem.

É preciso cuidado no trato da questão, pois a liberdade religiosa, um direito constitucional, é uma opção pessoal e está diretamente vinculada à história de vida de cada indivíduo. No entanto, músicos, por mais fervorosos que sejam nas suas convicções espirituais, não podem ignorar a literatura coral produzida por diferentes tradições religiosas, especialmente quando os mesmos atuam em contextos laicos. Sabe-se, por exemplo, que, há alguns anos, um coro profissional brasileiro, mantido com os cofres públicos, só cantou uma obra com temática do candomblé por força de mandato judicial. A exclusão do repertório ligado à cultura afro-brasileira dos acervos dos nossos coros e das salas de concerto é consequência de vários fatores, dentre os quais a estigmatização e o preconceito. A análise superficial do tema, que é amplo e complexo, revela o desconhecimento e a rejeição da diversidade cultural do país, o nosso nível de (in) tolerância e a correlação existente entre o microuniverso da prática coral e a macroestrutura social na qual estamos inseridos.

Num contexto acadêmico, profissional, secularizado, de modo geral, acredito que não há espaço para o proselitismo religioso ou certos melindres teológicos, passionais, com os quais frequentemente temos que lidar. Como regentes, precisamos gerenciar tais conflitos, sem, contudo, privilegiar um ou outro grupo de pessoas em detrimento desta ou daquela verdade.

Para além da fé, devemos cantar com técnica, no tempo, afinado, expressivamente. Precisamos revelar os múltiplos sentidos do texto, seja ele sobre dor ou júbilo, céu ou inferno, ressurreição ou reencarnação, a criação ou o fim da humanidade. Nossa voz precisa ecoar no teatro, no templo, no centro espírita, no terreiro, na sinagoga e na catedral gótica. É por isso que somos educadores, músicos, artistas. Esta é a missão: cuidar da obra musical, prioritariamente, deixando de lado nossas (des) crenças, porque, segundo o sertanejo escolado, como disse W. J. Solha, “Deus já fez o céu bem alto, foi para viver sossegado.”

Vladimir Silva (silvladimrir@gmail.com)

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Saravá, saravá.

Hoje, 27 de agosto, é o aniversário de Reginaldo Carvalho (in memoriam) e Eneida Maracajá. Tive a oportunidade de conviver, trabalhar e aprender com esses profissionais em diferentes contextos. Com a professora Eneida Maracajá, o contato ocorreu, inicialmente, por meio do Festival de Inverno de Campina Grande. No Departamento de Artes da UFPB, Campus II, fui seu aluno no curso de Teatro na Educação. Na ocasião, descobri o Teatro e a Pedagogia do Oprimido, universos de Augusto Boal e Paulo Freire.

Já o compositor Reginaldo Carvalho, tive o prazer de conhecê-lo em Uberlândia, Minas Gerais, em 1988, durante a realização do Painel FUNARTE de Regência Coral, do qual ele era professor convidado. Nos reencontramos no início da década de noventa, quando estive em Teresina por conta da realização do concurso público que permitiu meu ingresso na UFPI. Posteriormente, passei a conviver mais próximo do maestro, no dia-a-dia do Departamento de Educação Artística, no Centro de Ciências da Educação. Sedimentamos a amizade gradualmente, conversando sobre tudo, banalidades e temas sérios, especialmente a sua obra, que tem sido objeto de minhas pesquisas há mais de uma década.

Reginaldo Carvalho e Eneida Maracajá se encontraram em Campina Grande, em 1975, por ocasião da realização do I Festival Nacional de Teatro, evento que deu origem ao Festival de Inverno de Campina Grande. Folheando documentos recentemente, revi o programa do espetáculo apresentado pelo grupo teresinense no FENAT: Circo-Cinco, escrito e dirigido por Antônio Murilo Eckhardt e com música original de Reginaldo Carvalho. O espírito da época pode ser traduzido na mensagem impressa no panfleto do espetáculo: “Despertar – de gente, de estado, de país, de mundo, de mundos. Despertar. O que tentamos pregar e viver. Neste mundo repleto de desencontros com a vida e com os outros. Confiamos em nossa juventude, assim como confiamos no pó, na água, no fogo e no ar. Confiamos naquilo que sentimos: em nossa pele, em nosso coração, em nossos pulmões.  Sabemos também que alguém sempre confiará em nós. Nosso estado, nosso país, nossos irmãos paraibanos, canadenses ou chineses. O sangue será sempre vermelho. Não queremos só fazer um espetáculo. Queremos conhecer o maior número possível de irmãos novos, jovens, que também sentem o contato da ponta do dedo da Criação, do Criador, do contato vital.”

O legado de Eneida Maracajá e Reginaldo Carvalho atravessa o tempo, ecoando aqui e alhures, fazendo história, ratificando a necessidade do sonho, da utopia, da transgressão, da resistência, da arte, da educação, do encontro, do despertar, do estar vivo e com o sangue vermelho, em ebulição, correndo nas veias. E porque hoje é dia de celebrar a vida em suas múltiplas formas e dimensões, cumprimento-os com alegria, saravá, saravá.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)