domingo, 10 de fevereiro de 2019

Coleções de arranjos

Reginaldo Carvalho utilizou o canto coral no processo de educação musical de crianças, jovens e adultos, razão pela qual escreveu vários arranjos de música sacra e secular, para coro de vozes afins e mistas, com diferentes níveis de dificuldade. A análise documental tem revelado que o compositor pretendia compilar tais trabalhos em coleções, à semelhança do que fez com o livro Cantares Piauienses, uma antologia de arranjos de canções de variadas localidades do estado do Piauí.

No que concerne às cantigas populares brasileiras, Reginaldo compilou parte dos seus arranjos em cinco volumes. No primeiro constam Tutu Marambá (N° 1); Serenô (N° 1, Rio, 1956); Tristeza de Jeca (Rio, 1956); A Sertaneja (Luar da Serra); Canto de Natal e A maré encheu (Paris, 1953). No segundo estão Capelinha de melão; Sambalelê; Ciranda, cirandinha; Canção de Natal; A casa branca da serra; O cravo brigou com a rosa; e O lencinho branco. No terceiro aparecem Tôda gente no mundo; Você diz que você sabe tudo; Teresinha de Jesus; Que lindos olhos tem você; Canção do marinheiro; e Canto negro. No quarto encontam-se Alecrim; Marinheiro chora; Tutu Marambá (N° 4); A casinha pequenina; A Mulatinha; O trem; Praias do Ceará; Naquele tempo; Mensagem (Cantiga de Natal); e Canção gaúcha. Na lista do quinto, e último caderno, inserem-se Donzela formosa; Deixa eu ir; Ratoeira; O Rei mandô me chama; Ai! Baiana; Canto antigo; e Acordei de madrugada.

Outro grupo de arranjos é o de Modinhas Imperiais. Tomando como base o livro editado por Mário de Andrade, Reginaldo Carvalho arranjou para coro misto a quatro vozes as seguintes peças: Acaso são estes; Escuta, formosa Márcia; Busco a campina serena; Quando as glórias que gozei; Vem cá, minha companheira; Vem a meus braços; Róseas flores d’alvorada; Último adeus de amor; Eu tenho no peitoHei de amar-te até morrer; e Dei um ai, dei um suspiro. Até o momento, ainda não encontramos os manuscritos e/ou cópias dos arranjos de  Si te adoro; Deixa, Dália, flor mimosa; Que noites eu passo; e O coração perdido, que também integram o referido conjunto de canções brasileiras do século XIX.

Porque nutria uma grande admiração pela obra de Noel Rosa, Reginaldo escreveu arranjos corais dos maiores sucessos desse compositor, incluindo Feitio de oração; Feitiço da Vila; Conversa de botequim; Palpite infeliz; Com que roupa?; Último desejo; Já cansei de pedir; Arranjei um fraseado; Três apitos; e Silêncio de um minuto. Títulos como Quem não dança e Você vai se quiser aparecem em alguns programas, contudo ainda não foram localizados nos acervos investigados. À medida em que avançamos na pesquisa arquivística, descobrimos novos documentos que contribuem para a montagem deste quebra-cabeças que envolve as coleções que Reginaldo Carvalho organizou, mas nunca chegou a publicar.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 9 de dezembro de 2018

Um piano para Campina

Em 2019, o Festival Internacional de Música de Campina Grande completará dez anos. Para celebrar a data, pretendemos presentear o FIMUS com um piano. Para adquirirmos este instrumento, no entanto, precisamos da colaboração de todos. Nosso objetivo é congregar pessoas físicas e jurídicas, do país e do exterior, numa campanha coletiva, mediada pela Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PaqTcPB), que tem como objetivo arrecadar R$ 130.000,00 (cento e trinta mil Reais). Esse valor nos permitirá adquirir um piano com oitenta e oito teclas, três pedais e um banco, medindo 1,86 m x 1,50 m e com 101 cm de altura.

A campanha ocorrerá ao longo de nove meses, entre julho de 2018 e março de 2019. Os interessados poderão doar quaisquer valores na conta corrente 18.490-X, agência 1591-1, Banco do Brasil, em nome da Fundação Parque Tecnológico da Paraíba, CNPJ 09.261.843/0001-16. Os contribuintes deverão enviar uma cópia do comprovante de depósito para o e-mail fimuscampinagrande@gmail.com para receber uma declaração confirmando a participação no projeto. Caso o valor arrecadado ultrapasse o limite estabelecido, os recursos excedentes serão utilizados para a manutenção do instrumento, incluindo afinação e reparos, quando necessários, bem como a realização dos programas artísticos e educativos ligados ao FIMUS. Todas as pessoas, empresas e instituições que colaborarem financeiramente com esta iniciativa terão seus nomes impressos numa placa comemorativa e no programa do X FIMUS e 3º FIMUS Jazz, que serão realizados de 5 a 14 de julho de 2019.
O instrumento será adquirido entre abril e maio de 2019 e inaugurado na abertura do  Festival Internacional de Música de Campina Grande. A Fundação Parque Tecnológico da Paraíba comprará e tombará o equipamento, que ficará alocado no Teatro Municipal Severino Cabral, em regime de comodato, por meio de um convênio. Caberá exclusivamente ao FIMUS a manutenção e a administração do piano. Como contrapartida, anualmente serão realizados dez concertos e/ou recitais de música de câmara, entre setembro e junho, todos gratuitos e com músicos locais e convidados, incluindo novos nomes e pianistas consagrados. Outras ações, sobretudo com caráter didático-pedagógico, serão desenvolvidas tendo como público alvo os alunos das escolas públicas municipais e estaduais. A meta é promover um programa de formação de plateia, fazendo com que as ações do FIMUS tenham caráter permanente, estimulando, ao mesmo tempo, o mercado musical em nossa cidade e região.
A aquisição de um instrumento com excelente qualidade técnica permitirá a vinda de vários artistas para a cidade, colocando-nos no circuito de concertos. Como já mencionado, esse novo piano será de grande importância para a ampliação das ações que queremos realizar nos anos vindouros. Agradecendo antecipadamente, coloco-me à disposição para maiores esclarecimentos, esperando contar com a colaboração de todos na realização deste projeto.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

terça-feira, 6 de novembro de 2018

O Canto Coral na Paraíba: Eli-Eri Moura

Eli-Eri Moura, natural de Campina Grande, é pesquisador, professor, pianista, regente e compositor. Durante muitos anos, inicialmente como funcionário e posteriormente como docente da UFPB, em João Pessoa, atuou como diretor do Grupo Ânima e do Coral Universitário da Paraíba “Gazzi de Sá”, exercendo papel relevante no estado.

Com o Ânima, dedicou-se à música antiga, à montagem de renascenças, que eram interpretadas por vozes e um consorte de flautas e percussão. Nos programas, destaque para a música de tradição ibérica, os cancioneiros de Upsala e Palacio. Com esse ensemble, apresentou espetáculos originais, que incluíam encenação. Os integrantes do conjunto eram escolhidos criteriosamente, tinham larga experiência e, em alguns casos, estavam vinculados ao movimento teatral, a exemplo de Tião Braga, Elton Veloso e Melânia Silveira, que também participaram de vários espetáculos produzidos por ele e W. J. Solha. O Coral Universitário da Paraíba, por sua vez, cantava o repertório tradicional, música popular brasileira, além de trabalhos inéditos. Com liderança, carisma e muita competência, Eli-Eri atraiu a comunidade acadêmica, expandiu as atividades do Gazzi de Sá, que, por conta do grande número de interessados, foi dividido em CORALUP I e II. Como regente assistente desses grupos, e sob a orientação do maestro, participei de vários eventos artísticos-culturais no estado e região, encontro e festivais de coros, no Brasil e no exterior, dentre os quais o IX Encuentro Coral de Ateneo del IES, na Argentina, cuja aventura narro na crônica Mas o meu pires é de porcelana.

Eli-Eri Moura é um compositor de técnica apurada e gosto refinado, que se identifica com o canto, razão pela qual sua escrita vocal é intensa, generosa, boa de se interpretar. Muitas das suas peças são leves, a exemplo do ciclo Respingos, baseado numa seleção de poemas do irreverente Paulo Leminsky. Outras são mais dramáticas, como o Réquiem Contestado Os Indispensáveis, para solistas, coro misto, banda de rock e orquestra sinfônica. Réquiem para um trombone, escrito em homenagem a Radegundis Feitosa, é lírico, dolente, repleto de poesia. Há também aquelas mais engajadas, com forte caráter político, como o Credo Explícito e a Missa Breve, esta última para tenor, coro e quarteto de madeiras. O Salmo 150, assinado sob o pseudônimo de Paulo Vinicius, e os arranjos de Sete cantigas para voar e Cio da Terra são construções delicadas e preciosas.

Minha conexão com Eli-Eri Moura vem de longas datas, tanto na sala de aula/ensaio quanto no palco, na realização de vários projetos. Ao longo desta convivência, aprendi e cresci muito. Atualmente, ele dirige o Iamaká, uma camerata formada por cantores e instrumentistas que tem se dedicado à interpretação da música seiscentista e contemporânea. Suas obras ocupam lugar de destaque na literatura coral brasileira e estão, indiscutivelmente, entre as minhas preferidas.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 21 de outubro de 2018

Campina FM

Hoje a Campina Grande FM completa quarenta anos. Pioneira na Paraíba, e segunda no Nordeste, a rádio inaugurou um novo tempo na comunicação no estado, oferecendo à população da Rainha da Borborema e circunvizinhança uma vasta grade com música, jornalismo e temas especiais. Lembro que a primeira transmissão foi precedida por muito frenesi e expectativa.

Nomes importantes do rádio-jornalismo passaram por essa estação. Certamente, seu fundador e diretor, Hilton Motta, foi uma das vozes mais representativas. Aquele timbre inconfundível invadia nosso cotidiano, anunciando os jogos da seleção brasileira, os resultados das eleições, o réveillon. Na Serra, durante muito tempo, na passagem do ano, as luzes da cidade se apagavam, marcando o fim de um ciclo e o começo de outro. A contagem regressiva era feita por Seu Hilton, que com entusiasmo contagiante despertava em cada um dos ouvintes a esperança em dias melhores, a sensação de recomeço a partir daquela zero hora. Wilson Maux, teatrólogo, escritor, radialista, professor e ator, é também personagem marcante nessa história. Diariamente, nossas manhãs eram banhadas por sua voz potente. Começava na alvorada, com o Desperta, Campina e a Ave-Maria; depois, no Jornal Integração; por fim, ao meio-dia, com o quadro Bom dia para você, no qual lia crônicas de sua autoria. Dizem que, ao todo, ele redigiu mais de mil textos, muitos dos quais verdadeiras pérolas. A lista de ouro da 93.1 é vasta e inclui Flávio Barros, Jorgito, Toninho Lima, José Lyra, Zé Nobre, Inaudete Amorim, Fátima Silva, Kalilka Vólia, Alan Ferreira, dentre tantos outros, da velha e nova geração.

Curiosamente, programas computacionais eram transmitidos aos sábados, à tarde. Escutávamos frequências, no limiar entre o som e o ruído, assim como uma música difusa, que os aficionados gravavam em fitas K-7, que serviam como unidades de memória auxiliar dos primeiros computadores. Tratava-se, portanto, de um protótipo de um sistema para transmissão de dados em um ambiente wireless, utilizando o rádio. As canções da Noite dos Namorados embalaram meus sonhos, meu encontro com Jane Cely.

A minha relação com a emissora intensificou-se quando passei a colaborar com o Clássicos Eternos. Mesmo sem conhecimentos específicos na área, ofereci-me para a tarefa. Queria adentrar no fascinante mundo da radiodifusão. Comecei auxiliando Marilena Motta na seleção das obras, escrevendo o roteiro. Em seguida, assumi-o integralmente, produzindo-o e apresentando-o. Foram quatro anos de intensa atividade matinal, sempre aos domingos, no nevoento topo da Colina da Palmeira. Divulgamos eventos e exploramos a música de diferentes períodos e compositores, obras instrumentais e vocais, com apresentações ao vivo e entrevistas. Esta foi uma experiência inesquecível, transformadora. É por isso que, nesse dia de festa, faço votos de vida longa, reforço minha gratidão, receba meus parabéns, Campina FM.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 20 de outubro de 2018

Gente Feliz

A Fundação Nacional de Artes e a Universidade Federal do Rio de Janeiro realizaram esta semana o Seminário Música Popular Brasileira Em Pauta. Realizado na Escola de Música da UFRJ, o evento contou com a presença de representantes de várias regiões do país que trabalham com a música em suas variadas configurações, incluindo ensino, pesquisa, difusão, produção, gestão e preservação.

Nas mesas redondas, tratamos do espaço que a música tem ocupado nas políticas públicas de cultura, a música brasileira no contexto universitário, o intercâmbio entre universidades e instituições culturais. Constatamos que temos caminhado numa mesma direção, diminuindo as fronteiras do erudito/popular, inserindo essas duas formas de representação do fazer/saber musical na academia, nas agências de fomento à arte. Os relatos dos gestores Marcos Souza (Centro de Música da FUNARTE), Elizeth Higino (Biblioteca Nacional), Mário Chagas (Instituto Brasileiro de Museus), Ana Lígia de Medeiros (Casa Rui Barbosa), Cláudia Castro (Museu Villa-Lobos) e Ellen Krohn (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico e Nacional) ratificaram o que já sabíamos, isto é, que a  escassez de investimentos e a precarização de tais órgãos vêem gradualmente pondo em risco a preservação da nossa memória e identidade.

O clima de apreensão marcou o encontro. O temor é que a ascensão da extrema direita ao poder agrave ainda mais esse quadro, colocando em risco todas as conquistas dos últimos anos, a liberdade de expressão. A análise dos programas de governo dos candidatos revela os retrocessos que estão por vir numa eventual vitória desse grupo. Tirem suas próprias conclusões, confiram os dois projetos disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (Fernando Haddad -  Jair Bolsonaro). Pesquisem, nestes documentos, palavras-chaves como diversidade, cultura, arte, museus, bibliotecas, IPHAN, ANCINE e FUNARTE. Vejam quantas vezes elas aparecem em cada um, o que dizem, quais as propostas, o que enfrentaremos pela frente. Os discursos dos candidatos também denunciam o que eles pensam sobre financiamento de projetos artísticos, sobretudo em relação à Lei Rouanet.

Na diversa capital fluminense, realimentei a esperança em dias melhores, distantes dessa sombra de medo, violência e atraso que nos ronda. Pensei nos meus filhos, nos meus alunos, no meu papel enquanto educador, artista, cidadão, ser político. Reencontrei velhos amigos. Renovei o compromisso, o engajamento na luta por uma sociedade mais justa, livre, civil, sem o controle das forças armadas. Ví que não estou sozinho. Andei por becos e vielas, pela Rua do Passeio e os Arcos da Lapa, contemplando o contorno imprevisível das manhãs, das montanhas e do mar, dando asas à imaginação, num Circo Voador, ouvindo Vanessa da Mata, com sua voz maviosa e desafiadora, cantar-dizer que não se incomoda com pouco, que se cuida para não ficar amargurada, que não é do tipo que reclama e fica sentada. Vamos à luta, Gente Feliz!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

É preciso saber viver

A Licenciatura e o Bacharelado em Música da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), frutos do Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), foram oficializados por intermédio das Resoluções Nº 8/2008, Nº 8/2012 e Nº 3/2013, da Câmara Superior de Ensino, que aprovaram a criação dos referidos cursos e definiram as suas estruturas curriculares, respectivamente. A abertura desse espaço para a formação profissional teve grande impacto na área polarizada pela Rainha da Borborema. Frequentemente, recebemos pessoas oriundas de várias cidades da Paraíba, incluindo as microrregiões do agreste, brejo, cariri, curimataú, litoral e sertão, bem como de outros estados, dentre os quais Piauí, Ceará e Pernambuco. Os jovens advém das tradicionais bandas de música, de grupos de diferentes denominações religiosas, das mais variadas escolas especializadas destes recantos.

Além de uma vasta e rica experiência, que contempla múltiplas facetas do fazer/saber musical, esses estudantes trazem consigo a certeza de que só por meio da educação poderão alçar patamares cada vez mais altos no competitivo e especializado mundo de trabalho. Sem formação técnica e qualificada, suas carreiras estarão incompletas, ficarão comprometidas. O ingresso destes profissionais no mercado tem alterado a realidade local, promovendo ruptura, contribuindo para a criação de um novo panorama, fato que temos testemunhado ao longo de quase uma década. Os shows que assistimos essa semana, Roberto por elas e Tributo a Dominguinhos, foram assinados por uma equipe da UFCG. Os dois produtos são reflexos dessa mudança.


Os egressos também estão por aí, disseminando o que vivenciaram na Serra. Muito embora ainda não tenhamos pós-graduação, hoje mais de vinte ex-alunos estão nos âmbitos do mestrado e do doutorado, no Brasil e no exterior. Alguns, já concursados, lecionam nos Institutos Federais, enquanto outros atuam como cantores, instrumentistas, maestros, compositores, arranjadores e produtores em instituições privadas, projetos sociais, empreendimentos diversos.


E o que isso nos revela? Que o conhecimento amplia horizontes, transformando a vida de um indivíduo, de um povo, de uma nação. Que o REUNI, mesmo não sendo unanimidade, foi o maior projeto que o Governo Federal desenvolveu na esfera superior nas últimas décadas. Que é necessário continuá-lo, visto que tem contribuído para a democratização do acesso à universidade, a consolidação da cidadania, a construção de um país mais justo. Que é papel das instituições universitárias produzir e socializar ciência, arte e cultura através do ensino, da pesquisa e da extensão, visando a melhoria da qualidade de vida. Que estamos no caminho certo e que nele devemos permanecer, avaliando-o e aprimorando-o. Que nossos gestos, ações e discursos estão carregados de múltiplos sentidos, que poderão inspirar nossos discentes, despertando em cada um a chama da esperança e o compromisso profético, político e poético que sulca e molda a nossa atividade pedagógica, criativa e artística e pelos quais é preciso saber viver.


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 8 de setembro de 2018

Coral do Amazonas

Durante a minha estadia em Manaus, além de participar do Congresso da ANPPOM, trabalhei com o Coral do Amazonas, grupo oficial do estado e que é formado por 64 cantores. A trajetória do coro, que já foi regido por maestros brasileiros e estrangeiros, a exemplo de Zacarias Fernandes, é repleta de grandes realizações, dentre as quais se destaca a participação em mais de trinta montagens do Festival Amazonas de Ópera.

Os ensaios do ensemble, realizados de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 11h30, ocorrem num prédio suntuoso, o Centro Cultural Palácio da Justiça, localizado no coração da capital, por trás do imponente teatro. O dia-a-dia começa com a organização do espaço, sob a supervisão de Cacilmara Pinto. Em seguida, o renomado tenor Juremir Vieira conduz a preparação corporal e vocal. O maestro titular, Otávio Simões, conta com o auxílio do regente assistente, Fabiano Cardoso, e do pianista Renan Branco.

Para esta experiência, selecionei peças de compositores paraibanos, aqui nascidos ou radicados, englobando música sacra e profana, nomes consagrados e em ascensão, composições a cappella e com acompanhamento. A Missa Brevis N° 2 (Reginaldo Carvalho, 1932-2013), escrita em 1954 e que contém apenas Kyrie e Gloria, foi interpretada integralmente pela primeira vez, porque o manuscrito do Gloria só fora descoberto e editado recentemente. O ineditismo do momento potencializou os aspectos emocionais da nossa performance, visto que o aniversário natalício do compositor ocorrera naquela semana. No campo sacro, apresentamos também Padre Nuestro (Eli-Eri Moura, n. 1965) e Santo! Santo! Santo! (Samuel Cavalcanti, n. 1982). Na parte secular, começamos com Madrigal (José Siqueira, 1907-1985), uma livre adaptação que fiz, preservando a parte original do piano. Do manauara Pedro Santos (1932-1986), que viveu muitos anos em João Pessoa, cantamos Tema para assovio, que integra a trilha sonora do filme Romeiros da Guia, uma produção de 1962 e que tem a assinatura do cineasta Wladimir de Carvalho. Além da Cantiga (Manuel Bandeira e Reginaldo Carvalho), inseri minha Guajira espúria, baseada num tema recolhido por Mário de Andrade em suas andanças pelo Nordeste. Encerramos com Vamo vadiá (José Alberto Kaplan, 1935-2009), um coco animado e cheio de malícia. Deliberadamente, todas as peças da segunda seção, de algum modo, faziam referência à água, unificando, dessa maneira, arte, natureza e vida, elementos tão abundantes naquela região.

A minha curta temporada com esse seleto conjunto profissional foi espetacular. O grupo, muito receptivo e aberto, encarou os desafios musicais e vocais com grande habilidade técnica e artística, ao longo dos ensaios e no recital, ampliando o seu repertório. Por sua estrutura, proposta e qualidade, esse coro é uma referência no cenário brasileiro, razão pela qual sinto-me honrado e feliz por ter tido essa oportunidade única. Parabéns e muito obrigado, Coral do Amazonas.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)