sábado, 18 de novembro de 2017

Música na UFPB

A criação do Núcleo de Extensão Cultural (NEC), no Campus II da Universidade Federal da Paraíba, iniciativa do Reitor Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, contribuiu para dinamizar a vida artística do município de Campina Grande. Há alguns anos, realizei pesquisa com Jeter Maurício da Silva Nascimento com o objetivo de analisar as práticas musicais na referida instituição, entre 1978 e 1982, época na qual o NEC teve importantes conjuntos, dentre os quais o Coral da UFPB, o Quinteto Armorial e o grupo Cordas e Sopros. Nossa meta foi contribuir para a preservação e o resgate da memória e história da cidade, região e do país, oferecendo subsídios para a compreensão da prática coral na época em questão e no momento atual.

O trabalho foi dividido em três partes. Na primeira seção, discutimos os princípios da Nova História Cultural, bem como o papel da Memória e da História Oral. Na segunda, tratamos da criação do Núcleo de Extensão Cultural da UFPB, tendo como base estudos variados, os depoimentos dos professores fundadores e dos sujeitos que viveram naquele contexto. Na terceira, e última etapa, descrevemos a estrutura e o funcionamento do Coral da UFPB, sob a direção dos professores Nelson Mathias e Célia Bretanha. A ênfase, nesta parte, recaiu sobre o processo de seleção dos cantores, o repertório, a metodologia do ensaio, os concertos e as viagens realizadas, bem como outros aspectos sociais, educativos e culturais.


As atividades desenvolvidas no Núcleo de Extensão Cultural abrangiam cursos nas áreas de teatro, fotografia, cinema, artes plásticas e música, incluindo o ensino de diversos instrumentos e matérias teóricas. Estes cursos foram responsáveis pela formação de um grande número de profissionais - eu, por exemplo, iniciei minha vida musical por lá. As contribuições de Nelson Mathias e Célia Bretanha foram determinantes para o surgimento de outros grupos corais na UFPB e na cidade, depois de 1982, dentre os quais o De Repente Canto (UFPB), coordenado por Fernando Rangel, e o Coro em Canto (UFPB-UFCG), que teve como regentes Marisa Nóbrega, Luciênio Teixeira e atualmente é conduzido por Lemuel Guerra.


Hoje, além do Coro em Canto, estão em pleno funcionamento seis outros coros, que integram o Laboratório Coral da Universidade Federal de Campina Grande e também estão vinculados ao Grupo de Pesquisas Unificadas em Artes e Música (GRUNAMUS-CNPq), a saber: Coro Infanto-Juvenil, Coro Feminino, Coro Masculino, Coro Intergeracional do PIATI, CorUNAMUS e Coro de Câmara de Campina Grande. Esses grupos funcionam como coro-escola, auxiliando os estudantes da Licenciatura e do Bacharelado em Música no desenvolvimento das suas habilidades, ratificando a conexão entre ensino, pesquisa e extensão. Para saber mais sobre esse capítulo da nossa história, leia o relato que apresentamos no XIII Encontro Regional da ABEM, na cidade de Teresina-PI, em 2015.


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Ai, Mouraria...

Fomos recebidos em Évora pela professora Liliana Bizineche, que nos levou para a estalagem, na Rua do Raymondo. Lá, no coração das muralhas, ficaríamos hospedados por uma semana numa bela construção histórica.

O maestro Yan Mirkitumov preparou o coro, formado por alunos da graduação em Música. Nos primeiros contatos, construímos a sonoridade do conjunto, lapidamos aspectos técnicos, expressivos e artísticos. A presença do Loiret’s Singers, liderado por Julie Cássia Cavalcante, da pianista Regiane Yamaguchi e do compositor Danilo Guanais deu à Missa de Alcaçus mais vida, força, sentido. O crescimento do grupo foi notório ao longo dos encontros e culminou com o concerto no Teatro Garcia de Rezende, encerrando o IV Festival de Música da Universidade de Évora. Os aplausos ininterruptos e calorosos indicavam o reconhecimento do trabalho.

Nas horas vagas, passeamos. Uma das experiências mais impactantes foi a visita à Capela dos Ossos, uma construção do século XVII que nos fez pensar sobre a vaidade e a fragilidade da vida. A insígnia cravada no pórtico principal assim dizia: “nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos.” O acervo da Sé é deslumbrante, assim como o som do órgão da Igreja de São Francisco. Na Praça do Giraldo, preciosidades na livraria que abrigava autores portugueses clássicos e modernos. No meio das obras, uma rara coletânea de poemas eróticos e sobre outros temas de Bocage, muitos dos quais podem ser lidos na internet (veja aqui). No dia de Todos os Santos, entrei numa loja e me deparei com várias imagens sagradas: Fátima, Conceição e Iemanjá. Fotografei-as, porque fiquei pensando na globalização, no sincretismo religioso, nessa cidade medieval com uma bodega chinesa trans-meta-pós-moderna, cujo proprietário não fala português. O frenesi gastronômico foi intenso. Saboreamos, dentre tantas delícias, açorda, sopa de beldroegas, pezinhos e bochechas de porco preto, tudo isso temperado com coentros, poejos, louro, alho e azeite. A água Penacova e o vinho Pouca Roupa alimentaram nossa imaginação e também o senso de humor. O percussionista carioca David William apresentou-nos um sofisticado cardápio e uma seleta carta de bebidas, quando jantamos na simpática Chouriçaria da Praça, restaurante no qual trabalha como gerente. No dia do concerto, é certo que tive problemas com minha roupa, que já não cabia em meu corpo, parecia ter encolhido.

Naqueles dias no Alentejo fez calor e frio, teve sol, chuva, lua cheia. Comemos e bebemos, conversamos e cantamos, alimentamos o corpo, o espírito, a amizade, os sonhos, os projetos, o instante-já. Quando sentíamos a melancolia dos saciados, e à semelhança de Amália Rodrigues, Graça Arrais nos consolava cantarolando um fado muito conhecido, que ecoava por entre as ruas estreitas de Évora, traduzindo nossos afetos: “Ai, Mouraria... onde um dia eu deixei presa a minha alma.”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 12 de novembro de 2017

Rumo ao comboio, na direção do Alentejo.

Encontrei o professor Paulo Lourenço na Escola Superior de Música de Lisboa. Conheci a estrutura da instituição e tive a oportunidade de apresentar duas obras de minha autoria, Guajira Espúria e Cantate Domine, para o coro da graduação e o de câmara. Os resultados foram positivos, muito embora o curto período de tempo.

Na companhia do maestro, visitei a Fundação Calouste Gulbenkian, uma referência mundial quando o assunto é arte, ciência e educação. Andamos por vários espaços, incluindo a sala do coro, do qual ele é regente titular, bem como o palco principal onde a orquestra acabara de ensaiar sob a direção do maestro emérito Lawrence Foster, que também tive a oportunidade de cumprimentar nos camarins. Almoçamos no amplo restaurante, no andar superior, de cuja varanda contempla-se o jardim. Conversamos sobre a literatura coral luso-brasileira, as obras dos compositores Eurico Carrapatoso e Reginaldo Carvalho. Ouvi-o falar sobre a criação da Associação Portuguesa de Canto Coral, que nascera sob a sua direção e com o apoio da International Federation for Choral Music (IFCM), cuja presidente, Emily Kou Vong, esteve presente à cerimônia inaugural.

Despedi-me do professor e parti em direção à Santa Apolônia, onde estava o amigo Danilo Guanais, que havia chegado de São Paulo há poucas horas. Por conta do transbordo, fomos de lá até à estação Lisboa-Oriente. Como tínhamos tempo e estávamos com fome, resolvemos comer um pouco. Iniciamos nossas aventuras gastronômicas experimentando as queijadas alentejanas acompanhadas por um café cheio, uma bica com um pouco mais de café e a chávena quase totalmente completa. Depois, tentamos mudar nosso bilhete para a primeira classe, mas desistimos porque seria um luxo desnecessário para uma viagem tão curta.

Na hora prevista, chegamos à plataforma. Havia dois trens estacionados. Ficamos no local indicado, aguardando o embarque. Enquanto nós contemplávamos as linhas paralelas, transversais e oblíquas do teto, acompanhando o sol que brincava de esconde-esconde naquela polifonia celestial, um suíço caminhava em círculos, tal qual os ponteiros do relógio no seu braço, sussurrando impropérios num arcaico dialeto Schwiizerdütsch. Não sei como, mas entendi tudo. Ele estava incomodado com a pontualidade lusitana, reclamava porque as portas ainda estavam fechadas, pois já eram dezessete horas e nós partiríamos em dois minutos. Guiado pela intuição, descobri que estávamos no lugar errado. Como bom tenor, disse enfaticamente: Corre, Danilo, nosso trem vai partir! Não sei se o suíço entendeu, mas ele foi o primeiro a disparar na direção da outra locomotiva. Fizemos o mesmo, pois não queríamos perder o transporte nem alimentar essa falsa ideia de que os brasileiros literalmente deixam tudo para o último minuto. Corremos desesperadamente, carregando o peso dos nossos corpos, dos estigmas e das malas, rumo ao comboio, em direção ao Alentejo.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Fátima

Eu já falei sobre Vó Nuca, essa mulher forte, com admirável senso ético e de justiça, devota de Nossa Senhora. Foi com ela que aprendi a rezar o terço e a entoar cantigas marianas, na hora do ângelus, durante a trezena do mês de maio, que culminava com uma procissão pelo bairro São José. Naquele dia de festa, à frente do cortejo, carreguei muitas vezes um quadro ornamentado com a foto das três crianças que testemunharam as aparições da Mãe de Deus em Portugal. Ir à Fátima, durante a minha curta passagem naquelas terras, significava, portanto, conhecer in loco o que ouvira da boca e do coração da minha avó materna.

A viagem até a região central do país foi tranquila, o caminho estava livre. A paisagem bucólica, entrecortada por vilarejos, parece ter diminuído o tempo e a distância. Cheguei antes do almoço e comecei a visita pela pequena casa onde viveram Lúcia, Jacinta e Francisco. No acervo museológico, os móveis e os utensílios eram coadjuvantes daquela narrativa de vida e fé. O balido das ovelhas, soltas no pequeno redil defronte à casa com paredes de pedras acinzentadas, recriava a atmosfera pastoril das primeiras décadas do século vinte, época na qual ocorreram as visões da Senhora do Rosário.

Caminhei sozinho, explorando aquele lugar. Desci pelo longo jardim e parei num dos locais onde a Virgem apareceu. Enquanto um grupo orava, outro, mais afastado, lia passagens bíblicas taciturnamente. Fui à Basílica da Santíssima Trindade, inaugurada nas celebrações dos noventa anos do Milagre do Sol. O templo, que tem sido alvo de muitas críticas por conta da sua modernidade, tem obras de vários artistas, incluindo a irlandesa Catherine Green, que produziu o enorme crucifixo em bronze suspenso sobre o altar e que apresenta o Cristo com traços do homem pré-histórico. Em matéria de arte, tais debates reiteram a prevalência do espírito conservador no ventre das igrejas, respaldando, em certa medida, o pensamento fundamentalista tão em voga em nosso meio e que tem reduzido a possibilidade do diálogo, da reflexão, da mudança, da diferença.

Explorei todo o espaço lembrando o que Dona Nuca contara e cantara, o que cultivei, aprendi e vivi na infância. Passei pela pequena capela, ao lado da Cova da Iria, adentrei o Santuário e prostrei-me silenciosamente, reordenando as memórias, revisitando a história, reverenciando os meus mortos, percebendo, ao longe, o badalar dos sinos e um cantochão familiar. Fechei os olhos, abri o peito, entrei em êxtase e ouvi o eco dos meus temores, de tantos sonhos, da minha gratidão. Renovado, andei um bocadinho pelo mercado, entrando em muitas lojas, à procura de mais uma peça para a minha coleção de imagens que representam as mulheres, as mães, o sagrado feminino, as Marias, Fátima.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Alecrim

Cheguei a Lisboa ao entardecer. Fui recebido pelo amigo Myguel Santos e Castro, que me fez andar por ruas, templos e praças, subindo e descendo ladeiras que me remetiam às cidades históricas brasileiras. Contemplamos o pôr-do-sol às margens do alaranjado Tejo, ouvindo um samba com sotaque moçambicano. Depois, entre taças e talheres, queijos e vinhos, conversamos sobre política, educação e música, comparando os limites e as possibilidades das nossas realidades. Entretidos, só percebemos a premência das horas e dos gestos quando vimos a lua crescente deslizando lentamente na janela de vidro.

Com o dia claro, no Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa continental, contemplei o horizonte azul, entre o mar levemente agitado e o sólido e despido céu. Imaginei o tráfego das caravelas e o vai-e-vem em direção ao Novo Mundo, rasgando o Atlântico pesadamente. Na ida, partiam carregadas com o ouro negro. Na volta, abarrotadas com o mineral. Nesse instante, o vento forte me fez lembrar as muitas aventuras do romance Terra Papagalli, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, uma “narração para preguiçosos leitores da luxuriosa, irada, soberba, invejável, cobiçada e gulosa história do primeiro rei do Brasil.”

Nas curvas da estrada de Sintra, avistei castelos e casarios suntuosos, escondidos por entre a vegetação rica e multicolorida, acentuando a nostalgia que a estação evoca, tudo em tons pasteis, no modo menor, tal qual em Chant d’Autoumne, de Armand Silvestre e Gabriel Fauré. No meu percurso, fui da Boca do Inferno à igreja da Freguesia de São Domingos de Rana, onde ocorrem as folias de reis, época na qual também celebro meu nascimento. Numa das áreas mais nobres da região metropolitana da capital portuguesa, tive a oportunidade de conhecer o Vox Laci, um projeto dedicado ao canto coral, coordenado pelo meu anfitrião e que está em funcionamento há muitos anos.

Fui convidado para uma maratona de ensaios com o coro infantil, o jovem, o comunitário e o de câmara. Ouvi-os, apresentei minhas obras e juntos cantamos Movimentando, O bercinho de Jesus e Na manjedoura. Depois, a surpresa: um arranjo bem simples de uma canção tradicional portuguesa, Alecrim, com arranjo de Gabriel Levy. A ideia era transitar numa pista de mão dupla, ensinando e aprendendo, cantando e ouvindo o repertório daqui e dalhures. Sorrimos muito, descobrindo nossas comunalidades e especificidades, tanto as linguísticas quanto as musicais. Enquanto na minha concepção a peça deveria ser cantada lentamente, por conta do jogo contrapontístico e da harmonia, para os nativos tratava-se de uma dança campesina, festiva, alegre. Como se diz informalmente nas terras lusitanas, a experiência foi brutal. Superamos nossas dicotomias e vimos florescer, gradualmente e de forma espontânea, a música, a amizade e os novos projetos, tal qual o alecrim dourado, que nasce no campo sem ser semeado.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 24 de setembro de 2017

Mão e contramão

Quando iniciei o doutorado em Regência Coral, na Louisiana State University, em Baton Rouge, Estados Unidos da América, tive a oportunidade de experimentar um momento único em minha caminhada pessoal e profissional. Aqueles anos provocariam revoluções, seriam responsáveis por mudanças radicais, verdadeiros divisores de águas, que afetariam o meu fazer/saber musical profundamente. Entre o encanto e o espanto, vivi um enorme choque cultural logo nos primeiros meses por conta do clima, da comida, das relações interpessoais. A adaptação foi complexa e gerou desconforto emocional, razão pela qual tive problemas psicossomáticos. Nessa mesma fase, muitos questionamentos vieram à tona, especialmente no que diz respeito a minha práxis pedagógica.

Logo nos primeiros ensaios com o LSU A Cappella Choir, por exemplo, fiquei impressionado com o repertório interpretado, a metodologia de trabalho, a sonoridade do conjunto, que, muito embora formado majoritariamente por alunos da graduação e da pós em canto, soava como um coro e não um grupo de solistas. O emprego do solfejo móvel, as partituras editadas e comercializadas por empresas especializadas, a relação entre os músicos, bem como a atitude colaborativa e proativa de todos os envolvidos naquele processo me faziam pensar no Brasil, na nossa realidade, no meu dia-a-dia e de tantos outros conjuntos e colegas.

Para extravasar, resolvi, então, escrever e refletir sobre o que me incomodava, sobre a minha responsabilidade ao voltar para o Brasil, ponto que já havia sido tratado com o CNPq durante o trâmite para a concessão da bolsa de estudos. Assim, o texto foi nascendo, na velocidade da minha ansiedade, resultando num artigo que foi publicado no site Piano Class, no Rio Grande do Sul. No texto, falo sobre a expansão do canto coral brasileiro, ressaltando os aspectos positivos e negativos dessa ampliação. Discuto, entre outros pontos, a relação entre música popular e erudita no repertório coral, a criação de arranjos e o mercado editorial nacional. Trato também do imediatismo que orienta as ações de muitos maestros, que priorizam o produto e não o processo, isto é, as apresentações públicas em detrimento dos ensaios, e do comportamento eminentemente bancário e passivo, usando a máxima Freiriana, que predomina neste cenário.

Como já mencionado, o texto foi escrito há dezesseis anos e reflete parte das minhas inquietações naquele período. Foi a partir daí que comecei a repensar o meu cotidiano e a reconsiderar verdades arraigadas. Há poucos dias alguém reencontrou esse material e me pediu permissão para publicá-lo novamente, alegando que a temática continuava atual. Fiquei em dúvida, mas prossegui. Longe de querer encerrar as discussões, espero que Mão e contramão: os (des) caminhos do canto coral brasileiro suscite o debate entre os colegas e nos faça rever valores, os paradigmas da nossa filosofia coral.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Reginaldo Carvalho e Heitor Villa-Lobos

O compositor Reginaldo Carvalho foi para o Rio de Janeiro a fim de estudar no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, instituição criada e dirigida pelo maestro Heitor Villa-Lobos, em 1942. No CNCO, entre 1950 e 1952, fez o Curso de Especialização, que formava professores para o ensino de música na educação básica. Foi nesta época que ele conheceu Villa-Lobos, que, além de seu professor, foi também conselheiro e amigo.

A aproximação entre Reginaldo e Villa-Lobos tem sido matéria controversa. No entanto, ela pode ser atestada por meio de vários documentos, um dos quais é a recomendação que o maestro enviara ao professor Paulo Silva e na qual pedia para que ele aceitasse Reginaldo como seu discípulo nas disciplinas contraponto e fuga. Na mensagem, assim está escrito: “Meu caro Paulo, o portador, Reginaldo Vilar de Carvalho, é um dos melhores elementos de vocação absoluta para composição musical. Jovem, entusiasta, franca inclinação e sério. Você não poderia ter melhor discípulo para seguir sua sábia orientação. Por conseguinte, espero que você  o encaminhe. Desde já, agradeço o que você fizer por ele. Um bom abraço do amigo e muito admirador Villa-Lobos. Rio, 3 de dezembro de 1951.”

Foi também por incentivo e recomendação de Villa-Lobos que Reginaldo mudou-se para Paris, onde viveu entre 1953 e 1956. Aliás, foi o próprio Villa-Lobos quem patrocinou a sua viagem de navio e fez uma carta, semelhante àquela do professor Paulo Silva, dirigida, desta vez, ao compositor Paul Le Flem. A dedicatória numa foto autografada por Villa-Lobos também é bastante explícita: “Ao Reginaldo Carvalho, meu amigo, uma esperança e um talento. Lembrança grata de Villa-Lobos. Paris, 23 de março de 1954.” Outro dado interessante é a carta enviada por Mindinha, esposa de Villa-Lobos. Neste documento, escrito em Paris no dia 13 de abril de 1956, ela fala sobre a vida cotidiana, celebra o nascimento do primogênito do casal Carvalho, Serginho, e lamenta a morte do sogro do guarabirense. Reginaldo também escreveu duas crônicas intituladas Villa-Lobos, meu amigo, ainda não publicadas, nas quais ele descreve vários aspectos deste contato profissional e pessoal (veja vídeo).

A nomeação de Reginaldo Carvalho, em 1957, para fundar e dirigir o Instituto Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, hoje ligado à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, reforça a conexão entre os dois, ajudando a dirimir dúvidas pontuais. As pesquisas continuam nesse sentido, porque muito ainda há para ser revelado. Por meio do resgate e da interpretação de variados documentos, nunca antes analisados, nossa memória será preservada, os fatos serão (re) contados, (des) estabelecendo assim (in) verdades, fazendo com que acontecimentos e personagens relevantes da música paraibana e brasileira possam ocupar o lugar e o protagonismo que o tempo e a história lhes reservaram.


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com