domingo, 24 de setembro de 2017

Mão e contramão

Quando iniciei o doutorado em Regência Coral, na Louisiana State University, em Baton Rouge, Estados Unidos da América, tive a oportunidade de experimentar um momento único em minha caminhada pessoal e profissional. Aqueles anos provocariam revoluções, seriam responsáveis por mudanças radicais, verdadeiros divisores de águas, que afetariam o meu fazer/saber musical profundamente. Entre o encanto e o espanto, vivi um enorme choque cultural logo nos primeiros meses por conta do clima, da comida, das relações interpessoais. A adaptação foi complexa e gerou desconforto emocional, razão pela qual tive problemas psicossomáticos. Nessa mesma fase, muitos questionamentos vieram à tona, especialmente no que diz respeito a minha práxis pedagógica.

Logo nos primeiros ensaios com o LSU A Cappella Choir, por exemplo, fiquei impressionado com o repertório interpretado, a metodologia de trabalho, a sonoridade do conjunto, que, muito embora formado majoritariamente por alunos da graduação e da pós em canto, soava como um coro e não um grupo de solistas. O emprego do solfejo móvel, as partituras editadas e comercializadas por empresas especializadas, a relação entre os músicos, bem como a atitude colaborativa e proativa de todos os envolvidos naquele processo me faziam pensar no Brasil, na nossa realidade, no meu dia-a-dia e de tantos outros conjuntos e colegas.

Para extravasar, resolvi, então, escrever e refletir sobre o que me incomodava, sobre a minha responsabilidade ao voltar para o Brasil, ponto que já havia sido tratado com o CNPq durante o trâmite para a concessão da bolsa de estudos. Assim, o texto foi nascendo, na velocidade da minha ansiedade, resultando num artigo que foi publicado no site Piano Class, no Rio Grande do Sul. No texto, falo sobre a expansão do canto coral brasileiro, ressaltando os aspectos positivos e negativos dessa ampliação. Discuto, entre outros pontos, a relação entre música popular e erudita no repertório coral, a criação de arranjos e o mercado editorial nacional. Trato também do imediatismo que orienta as ações de muitos maestros, que priorizam o produto e não o processo, isto é, as apresentações públicas em detrimento dos ensaios, e do comportamento eminentemente bancário e passivo, usando a máxima Freiriana, que predomina neste cenário.

Como já mencionado, o texto foi escrito há dezesseis anos e reflete parte das minhas inquietações naquele período. Foi a partir daí que comecei a repensar o meu cotidiano e a reconsiderar verdades arraigadas. Há poucos dias alguém reencontrou esse material e me pediu permissão para publicá-lo novamente, alegando que a temática continuava atual. Fiquei em dúvida, mas prossegui. Longe de querer encerrar as discussões, espero que Mão e contramão: os (des) caminhos do canto coral brasileiro suscite o debate entre os colegas e nos faça rever valores, os paradigmas da nossa filosofia coral.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Reginaldo Carvalho e Heitor Villa-Lobos

O compositor Reginaldo Carvalho foi para o Rio de Janeiro a fim de estudar no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, instituição criada e dirigida pelo maestro Heitor Villa-Lobos, em 1942. No CNCO, entre 1950 e 1952, fez o Curso de Especialização, que formava professores para o ensino de música na educação básica. Foi nesta época que ele conheceu Villa-Lobos, que, além de seu professor, foi também conselheiro e amigo.

A aproximação entre Reginaldo e Villa-Lobos tem sido matéria controversa. No entanto, ela pode ser atestada por meio de vários documentos, um dos quais é a recomendação que o maestro enviara ao professor Paulo Silva e na qual pedia para que ele aceitasse Reginaldo como seu discípulo nas disciplinas contraponto e fuga. Na mensagem, assim está escrito: “Meu caro Paulo, o portador, Reginaldo Vilar de Carvalho, é um dos melhores elementos de vocação absoluta para composição musical. Jovem, entusiasta, franca inclinação e sério. Você não poderia ter melhor discípulo para seguir sua sábia orientação. Por conseguinte, espero que você  o encaminhe. Desde já, agradeço o que você fizer por ele. Um bom abraço do amigo e muito admirador Villa-Lobos. Rio, 3 de dezembro de 1951.”

Foi também por incentivo e recomendação de Villa-Lobos que Reginaldo mudou-se para Paris, onde viveu entre 1953 e 1956. Aliás, foi o próprio Villa-Lobos quem patrocinou a sua viagem de navio e fez uma carta, semelhante àquela do professor Paulo Silva, dirigida, desta vez, ao compositor Paul Le Flem. A dedicatória numa foto autografada por Villa-Lobos também é bastante explícita: “Ao Reginaldo Carvalho, meu amigo, uma esperança e um talento. Lembrança grata de Villa-Lobos. Paris, 23 de março de 1954.” Outro dado interessante é a carta enviada por Mindinha, esposa de Villa-Lobos. Neste documento, escrito em Paris no dia 13 de abril de 1956, ela fala sobre a vida cotidiana, celebra o nascimento do primogênito do casal Carvalho, Serginho, e lamenta a morte do sogro do guarabirense. Reginaldo também escreveu duas crônicas intituladas Villa-Lobos, meu amigo, ainda não publicadas, nas quais ele descreve vários aspectos deste contato profissional e pessoal (veja vídeo).

A nomeação de Reginaldo Carvalho, em 1957, para fundar e dirigir o Instituto Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, hoje ligado à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, reforça a conexão entre os dois, ajudando a dirimir dúvidas pontuais. As pesquisas continuam nesse sentido, porque muito ainda há para ser revelado. Por meio do resgate e da interpretação de variados documentos, nunca antes analisados, nossa memória será preservada, os fatos serão (re) contados, (des) estabelecendo assim (in) verdades, fazendo com que acontecimentos e personagens relevantes da música paraibana e brasileira possam ocupar o lugar e o protagonismo que o tempo e a história lhes reservaram.


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Reginaldo Carvalho e O Tablado

Uma das fases mais produtivas do compositor Reginaldo Carvalho, no campo da música incidental, foi no Rio de Janeiro entre o final da década de cinquenta e o início dos anos sessenta e, posteriormente, entre o final da década de sessenta e o início dos anos setenta, quando do seu retorno da França. O compositor trabalhou durante muito tempo para O Tablado, grupo fundado por Maria Clara Machado, em 1951.
Maria Clara Machado é uma referência no cenário literário e teatral brasileiro, tendo escrito livros e peças para adultos e crianças, a maioria delas estreadas por sua própria companhia. Entre os anos cinquenta e sessenta, O Tablado apresentou cinco espetáculos, sendo quatro infantis e um adulto, para os quais Reginaldo Carvalho compôs música original: O Embarque de Noé (1957), A Bruxinha Que Era Boa (1958), O Cavalinho Azul (1960), Andrócles e o Leão (1966) e As Interferências (1966). É importante ressaltar que, até o momento, não foram encontrados os manuscritos e/ou cópias das partituras d'A Bruxinha Que Era BoaAndrócles e o Leão e As Interferências.
O Embarque de Noé é uma farsa bíblica em dois atos, que, segundo notas do programa, “foi escrita e encenada sem que a autora cogitasse da natureza do público a que estaria destinada.” O enredo tem como base o dilúvio, descrevendo os momentos que antecederam o embarque na arca, a partida para a longa viagem e da qual participariam seres humanos e bichos. Muito embora recheada de passagens engraçadas, a peça foi criticada pela forma como tratou o mito; por seus anacronismos, representados sobretudo por objetos, elementos nonsense, que iam de encontro às expectativas dos especialistas; e pela indefinição do público alvo, se adulto ou infantil. Com relação à música, o manuscrito d’O Embarque de Noé contém partes cavadas para flauta, fagote e piano. Ainda não achamos aquela referente à bateria. Na parte do fagote identificam-se as seguintes seções: I - Andante; II - Largo (monólogo); III - Ciranda; IV - Alegre (Fim do primeiro ato). V - Lentamente (Ballet dos bichos, início do segundo ato). VI - Alegreto (com júbilo), final. No final da parte de fagote, o compositor indica: Tempestade (“sonoplastia”), uma segunda versão do monólogo (movimento II) e um tema para a “Entrada dos bichos”.
A pesquisa que estamos desenvolvendo tem como objetivo catalogar, analisar e editar estas obras, evidenciando a relação texto-imagem-música na construção da narrativa cênica, teatral. Os resultados parciais foram apresentados recentemente no I Simpósio Internacional de Investigação em Arte, realizado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Portugal, e publicados na European Review of Artistic Studies.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 3 de setembro de 2017

Here I Am, Lord.

Here I Am, Lord é o título de um hino muito popular nos Estados Unidos da América. A obra, composta em 1981 por Dan Schuttle e baseada nos livros de Isaías (Capítulo 6) e Samuel (Capítulo 3), é frequentemente cantada na liturgia católica em diversas ocasiões ao longo do ano. Logo após a minha chegada em Baton Rouge, ouvi pela primeira vez esta canção numa missa na capela Christ The King, no campus da Lousiana State University. Naquela manhã acinzentada e fria de domingo, fui aquecido por tais versos, que me fizeram pensar sobre os meus dias naquele tempo-lugar.

Alguns meses depois, quando entrei para o coro da First United Methodist Church, sob a direção de Lammar Drummonds, encontrei-me novamente com a obra, desta feita com o arranjo para coro misto a quatro vozes e piano escrito por Ovid Young. No ano seguinte, já regendo o coro da Zachary United Methodist Church, não tive dúvida sobre com qual música começar a minha temporada naquela comunidade. Assim que cheguei, pedi para que os cantores abrissem o hinário na página 593 para ensaiarmos o referido cântico. No meu último culto na ZUMC, na Páscoa, tive a oportunidade de interpretá-la mais uma vez, razão pela qual adquiriu um valor simbólico muito importante, marcando momentos de transição em minha trajetória pessoal e profissional.

De volta ao Brasil, agora com o Madrigal da UFPI, inseri o mesmo arranjo no repertório do grupo. A peça passou a fazer parte dos nossos ensaios e foi estreada no I Festival Internacional de Música da UFPI, sob a direção do maestro norte-americano Gary Packwood com Bruna Vieira ao piano. Muito embora inexperiente, porque tinha apenas seis meses de fundação, o Madrigal trabalhou com afinco, identificando-se plenamente com a mesma. Ano passado, trabalhei a obra com o Coro de Câmara de Campina Grande, mas não cheguei a apresentá-la. Há poucos dias, não sei por qual razão, resolvi resgatá-la, tendo em vista a preparação do nosso Concerto para o Advento.

Os fatos e as reflexões da última semana me fizeram conectar pontos e perceber a sintonia das coincidências. Ainda há muito para construir, compartilhar, aprender, dizer, cantar, sentir, ouvir, tocar, transformar. E como meu trabalho está inacabado, é preciso, portanto, prosseguir com o ofício. Foi por isso que ontem, ao ouvir Here I Am, Lord (veja vídeo), renovei propósitos e recobrei forças no intuito de superar limites, vencer adversidades, sobrepujar medos. As provações só nos fortificam e tanto a música quanto a mística têm papel fundamental nesse processo de restauração emocional e espiritual. Assim, tal como o profeta ao ouvir a voz do Senhor perguntando quem Ele deveria enviar, quem iria em nosso nome, eu respondi: Eis-me aqui. Envia-me!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Por isso, minha gratidão, Teresina.

A primeira vez que estive em Teresina foi em outubro de mil novecentos e noventa e dois. Fui para a capital piauiense por conta do concurso público para professor da Universidade Federal do Piauí. Passei uma semana por lá, fazendo provas, semeando novas amizades. Voltei para casa feliz, aprovado, com a imagem dos fins de tarde alaranjados e o aroma dos cajueiros. Aqueles dias foram suficientes para compreender o sentido da expressão bê-erre-o bró, usada em referência ao quadrimestre final do ano e baseada nas últimas sílabas dos meses que o compõem, e que sintetiza as altas temperaturas da estação.

No ano seguinte, no dia do meu aniversário, fui contratado. Migrei para lá com o pouco que tinha, algumas roupas e livros, bem como todos os sonhos que poderia carregar comigo. Ao chegar, fui recepcionado pelo maestro Emmanuel Coelho Maciel, que me acolheu com carinho paternal. A professora Lúcia de Fátima também me recebeu como uma mãe, sempre muita atenciosa. Depois, quando Jane chegou, a caminhada ficou ainda melhor.

Gradualmente, conheci a cidade, incluindo sua história, seus lugares, suas gentes e seus sabores. Cruzei com o Cabeça-de-Cuia, o Troca-Troca, a Frei Serafim, a igreja de São Benedito, o Encontro dos Rios, o doce de buriti, a cajuína com Maria-Isabel. Interagi com vários alunos, profissionais e grupos, dentro e fora da universidade. Convivi com colegas como Reginaldo Carvalho, regi o Madrigal Vox Populi, conheci o Projeto Música Para Todos e também vi nascer, tocando flauta ao lado de Zé Rodrigues, a Orquestra Sinfônica de Teresina. Fiquei impressionado com o trabalho do professor Marcílio Flávio Rangel. Radicado na Chapada do Corisco há muitos anos, esse paraibano entrou para a história daquele lugar por conta das suas ações no campo humanitário e educacional. Seu legado está presente na Casa Dom Barreto, na Escola Popular Madre Maria Vilac, no Instituto Dom Barreto, onde Vinicius e Sofia estudaram. Foi para meus filhos e seus colegas que compus várias canções, muitas das quais ainda estão presentes no cancioneiro daquele educandário.

A Universidade Federal do Piauí foi também minha escola. Lá aprendi a lecionar, a ampliar meu espírito empreendedor e a participar ativamente da administração universitária, percebendo os limites e possibilidades da gestão pública. Naquela instituição, atuei de forma intensa e vivi uma das maiores histórias de amor da minha vida ao lado dos integrantes do Madrigal da UFPI (veja vídeo), grupo que regi por quatro anos e no qual tive grandes cantores, muitos dos quais hoje são meus amigos e frequentam a minha casa, o meu coração. Como o tempo decanta tudo, encontrei hoje essas memórias guardadas bem no fundo do peito. Por isso, minha gratidão, Teresina.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

*Para Teresina, no dia da celebração dos 165 anos.

domingo, 13 de agosto de 2017

Se não se amarrar, não vende!

Tocar ou cantar em grupo é uma tarefa desafiadora, pois, além de interpretar o repertório, executando-o no tempo, afinado e com técnica, é preciso observar o outro, interagindo, ao mesmo tempo, de forma autônoma e interdependente. Para ler o que há por trás de cada olhar e movimento, um grupo necessita ensaiar de forma consistente por um período considerável de tempo. Muitas vezes, as informações são sutis e passadas discretamente, suprimindo toda e qualquer necessidade de verbalização. Mas esse conhecimento só brota com a intimidade, que, por sua vez, é fruto de uma convivência saudável e pautada no respeito e na confiança.

Como regentes, desenvolvemos um cabedal de gestos com o qual nossos coros, bandas e orquestras se familiarizam. Muito embora pretensamente universais, eles carregam elementos idiossincráticos, com os quais chamamos a atenção para pontos específicos, dentre os quais a sonoridade, o fraseado, a precisão rítmica, os formatos das vogais, as passagens mais complexas. O olhar fixo nas mãos, o vai-e-vem do tronco e a forma como nos dirigimos para um determinado naipe falam sobre as verdades construídas ao longo de várias horas de ensaio. Quanto mais conseguimos ler as entrelinhas, captando, assim, o não-dito, mais diligente e carregada de sentido será a nossa performance. Quando há correspondência mútua, aí, então, a fruição estética se torna mais intensa, atingindo também o público, que reage proporcionalmente ao grau de envolvimento e cumplicidade que demonstramos no palco.

No documentário Sob o Céu de Zabé (veja o vídeo), produzido por Márcia Paraíso, em 2014, e que trata da vida e obra de Isabel Marques da Silva (1924-2017), mais conhecida como Zabé da Loca, uma passagem chama a atenção. Pitó, que integrava o terno-de-zabumba dessa famosa agricultora-musicista que viveu no Cariri Oriental paraibano, dá um depoimento singular, no qual, ao descrever suas experiências, diz que “a música é uma entremelagem de juntamento.” Analisando a sua fala, nota-se que, ao usar o vocábulo entremelagem, provavelmente uma corruptela do verbo francês entrêmeler, ele reitera o sentido de entrelaçamento que as práticas de conjunto, tanto instrumentais quanto vocais, evocam, convidando-nos também a refletir sobre a complexa relação que se estabelece entre o indivíduo e o grupo nestas e em outras instâncias do saber/fazer musical.

O emblemático discurso do percussionista revela a força da construção coletiva e reforça a crença de que para tocar e cantar com outras pessoas é preciso observar muito mais que as frequências, as durações e suas respectivas articulações e variações de intensidade. Sem diálogo e interação não há conjunto. Por isso, Pitó, de forma sábia e graciosa, é enfático ao comparar um grupo musical a um leirão de coentro dentro de um balaio num dia de feira. Nos dois contextos, “se não se amarrar, não vende!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 30 de julho de 2017

Utopia e ousadia

O 11th World Symposium on Choral Music (WSCM), promovido pela International Federation for Choral Music (IFCM), aconteceu em Barcelona. Nesta edição, participaram grupos convidados e selecionados dos cinco continentes, que interpretaram repertórios variados, incluindo obras de referência da literatura, assim como novas composições encomendadas especialmente para o evento.

Muito embora todos os coros participantes tenham apresentado elevado grau técnico e artístico, alguns se destacaram. O Ansan City Choir, da Coreia, regido pelo Dr. Shin-Shwa Park, por exemplo, além do domínio músico-vocal, ensinou-nos sobre a conexão entre corpo-movimento-som. O concerto na Sagrada Família, e do qual participaram mais de duzentos cantores da Catalunha, foi todo dedicado à música sacra da região, incluindo obras da Idade Média aos dias atuais. A culminância foi ouvir Nigra Sum, de Pablo Casals, que acompanhou parte da construção daquele templo e escreveu este moteto em homenagem à Virgem Negra de Montserrat. Foi uma experiência única, mística e musical, que nos enlevou, um verdadeiro bálsamo para os ouvidos e o coração.

O WSCM também ofereceu uma programação acadêmica. A conferência da professora Sharon Paul, intitulada Regendo com o cérebro: técnicas para aumentar a capacidade de engajamento dos cantores, foi uma das mais concorridas, reiterando a correlação entre autonomia e interdependência na prática coral. A música brasileira também esteve nas discussões. Enquanto Isak Lucena, da Universidade Potiguar, fez uma retrospectiva da nossa tradição coral do período colonial até os dias atuais, destacando autores e obras, eu me detive no século XX, mais particularmente no trabalho do compositor Reginaldo Carvalho. Em minha comunicação, destaquei os momentos mais importantes da trajetória deste paraibano, falando do seu estilo composicional, analisando pequenos trechos de suas obras, usando como exemplo as interpretações do Coro de Câmara de Campina Grande, gravadas recentemente em Nova Iorque. Houve, ainda, uma palestra dedicada às composições para vozes femininas, de Heitor Villa-Lobos, fruto das pesquisas de Elian Hingrid Kujawinski.

A décima primeira edição do WSCM nos fez refletir sobre muitos aspectos da nossa práxis. Precisamos intensificar as ações formativas, tanto sob a perspectiva do regente quanto dos coralistas. Ao mesmo tempo, temos que organizar o movimento no âmbito nacional, agregando o maior número de coros possível, a exemplo do que já fazem tantas associações e federações, dentre as quais a ACDA e a ADICORA. Sem tal organismo, nossa inserção no panorama internacional e em eventos deste porte será limitada, fruto de iniciativas pessoais e não de um todo organizado e legitimado por seus pares e a sociedade. A estrada é longa e repleta de curvas. Continuemos a caminhada, alimentando as utopias, sem esquecer, é claro, da ousadia.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)