domingo, 26 de julho de 2015

E assim foi

A sexta edição do Festival Internacional de Música de Campina Grande foi realizada entre os dias 13 e 18 de julho. Foram mais de quinze concertos na região da Rainha da Borborema, totalizando aproximadamente sessenta horas de música para mais de dez mil pessoas. Além dos convidados dos Estados Unidos, Europa e Brasil, recebemos cerca de duzentos alunos oriundos de São Paulo, Minas Gerais e de vários estados do Nordeste.

A atuação dos voluntários da equipe de produção foi exemplar. O engajamento dos artistas e o trabalho do corpo docente tornaram a festa mais bonita. Enquanto os alunos, nas oficinas, ampliavam os horizontes profissionais, revendo saberes e práticas, a plateia se encontrava com Brahms, Poulenc, Villa-Lobos, Reginaldo Carvalho e John Rutter, ouvindo velhas e novas obras, alargando as possibilidades de escuta e de repertório. Tudo isso foi potencializado nos recitais de David Odom, Kayami Satomi, Eduardo Meirinhos, Ingrid Barancoski e Marília Vargas, que esbanjaram técnica, lirismo, virtuosismo e carisma. Os espectadores acompanharam atentamente todas as apresentações, reagindo sempre com muito entusiasmo. As lentes da TV Itararé e da TV IFPB registraram esses momentos de encanto e euforia, as emoções dos artistas e do público. Isso tudo será transformado em programas que serão veiculados na internet e na televisão aberta nas próximas semanas. 

Ao término desta semana, a conclusão é inequívoca: o mercado para a música de concerto está em plena expansão na terra do Maior São João do Mundo. Para que este crescimento ocorra de forma significativa, ainda é necessário envidar muitos esforços, unindo a inciativa privada e o poder público em torno de ações concretas que resultem, por exemplo, na aquisição de um piano de concertos para o Teatro Municipal Severino Cabral bem como na criação e manutenção da Orquestra Sinfônica de Campina Grande. E porque a cada dia encontramos mais parceiros, continuaremos trabalhando nessa direção, ampliando a presença do Festival Internacional de Música de Campina Grande em diferentes áreas do estado, incluindo o Cariri, o Sertão, o Brejo e o Agreste, contemplando cidades como Sumé, Monteiro, Patos, Pombal, Sousa, Cajazeiras, Pocinhos, Remígio e Cuité.

Num ano de crise generalizada, com vários festivais ameaçados no país, nós sobrevivemos. O cenário exigiu uma dose extra de coragem e ousadia, servindo para reiterar o compromisso da UFCG, da UEPB e do PaqTcPB no campo artístico-musical. As parcerias, motivo de alegria e gratidão, foram fundamentais. Agimos no campo do possível, mantendo o mesmo padrão de qualidade, movidos pelo espírito arrojado e empreendedor dos pioneiros da Serra, certos da perenidade deste projeto. Inspirados nos versos do poema Go Back, de Torquato Neto, nós só queríamos saber do que poderia dar certo, pois não tínhamos tempo a perder. E assim foi.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Merci, mes amis.

Considero que foi extremamente positiva a turnê do Coro de Câmara de Campina Grande. Tudo aquilo que planejamos foi realizado com êxito. A imersão em um novo contexto permitiu a vivência de diferentes aspectos, que, certamente, farão toda a diferença nos campos profissional e pessoal de todos aqueles que participaram desta iniciativa. Um dos aspectos importantes da viagem foi a liderança compartilhada. Quatro membros do coro foram designados para coordenar os dois grupos de cantores que viajaram em dias, horários e companhias aéreas diferentes. A missão, bastante complexa, foi cumprida exemplarmente.

Ao entrarem em contato com outra realidade musical, nossos alunos se auto-avaliaram, concluindo que, sob a perspectiva técnica e artística, estão no caminho certo. Eles perceberam, contudo, que ainda é preciso investir muito na infraestrutura das nossas instituições, sobretudo no que diz respeito à aquisição de instrumentos, partituras, dentre outros equipamentos básicos. Nas cidades visitadas, os integrantes do coro observaram como se dá a organização do espaço urbano, como funcionam os serviços públicos e privados, o exercício da cidadania, fato que estimulou a reflexão crítica sobre a realidade brasileira.

Creio que é impossível voltar de uma experiência dessas do mesmo modo, pois o contato com o outro, com aquilo que é diferente, se projeta na nossa autoimagem e também na forma como percebemos o mundo. E isso estava refletido em muitos rostos, em tantos discursos, nos diferentes gestos dos meus cantores, gente que descobriu que é possível se reinventar, alterar as trajetórias, reescrever a própria história, ratificando, em termos poéticos, aquilo que José Roberto Torero, no romance Xadrez, truco e outras guerras, já havia preconizado: “se nós nos contentamos em ser como somos, nunca seremos aquilo que poderíamos ser.” É preciso, portanto, criar possibilidades, dar oportunidades. E esse é o objetivo de toda e qualquer ação educativa.

Esse processo transformador só foi possível porque contamos com a ajuda de parceiros sensíveis, que não mediram esforços para concretizá-lo. É por isso, então, que eu gostaria de agradecer ao Coro de Câmara de Campina Grande. Sem a confiança, dedicação, disposição, disciplina e trabalho árduo de todos vocês nada teria sido possível. Sou grato às instituições e às diversas pessoas que se engajaram de forma direta e indireta, mostrando caminhos, apontando soluções, especialmente quando tudo, muitas vezes, parecia inviável. Finalmente, meu reconhecimento à professora Julie Cássia Cavalcante e ao professor Olivier Petit, que, de forma tão gentil, nos acolheram naquele país, fazendo-nos sentir em casa. Sem a participação das prefeituras de Olivet e Gien, bem como das famílias anfitriãs, essa experiência não teria o mesmo sentido, a mesma relevância. Por isso, novamente, repito a frase que tantas vezes ouvimos em território francês: merci, mes amis!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

É clichê, eu sei, mas é verdade.

Depois de Olivet, o Coro de Câmara de Campina Grande seguiu para Gien, cidade com cerca de quinze mil habitantes. Ambas ficam na região do Vallée de la Loire, onde estão localizados suntuosos castelos. A estrada entre as duas comunidades é plana e colorida, especialmente nos dias em que a natureza mostra toda a sua exuberância. Apenas uma imponente usina nuclear, localizada nos arredores de Gien, faz contraponto com a paisagem campestre.

Quando chegamos na Église de Jeanne d’Arc, totalmente reconstruída após a Segunda Guerra Mundial, o sol começava a se por. A luz que passava por entre os vitrais refletia nas paredes, criando um ambiente avermelhado, acolhedor. Era domingo e o público não tardou a chegar, dando sinais de que a igreja ficaria lotada naquele anoitecer. Em pouco tempo, os mais de seiscentos programas que preparamos para a turnê haviam se esgotado. Toda a primeira parte do concerto foi dedicada à música sacra. Nosso programa realçou as conexões entre a França e o Brasil por meio das composições de Reginaldo Carvalho, Amaral Vieira e Maurice Duruflé. Finalizamos com uma sequência de spirituals e gospels, obras nas quais Paulo César Vitor mostrou toda a sua habilidade e competência. A atmosfera era contemplativa, mística. Pedro Furtado me disse que foi tomado pela emoção e não conseguiu cantar The Lord Is My Shepherd, de Allen Pote, porque lembrou-se de Carlos Lima, um amigo em comum que também era apaixonado por esta música.

As manifestações de apreço foram intensas ao longo do concerto. No intervalo, enquanto fazíamos a preparação para a interpretação da Messe en Sol, de Franz Schubert, o público fez pequenas ofertas em reconhecimento ao nosso trabalho. Ao término, fomos calorosamente aplaudidos por cerca de dez minutos. Repetimos o Gloria. A alegria novamente se fez presente e nos seguiu até o final da recepção, quando fomos saudados pelo prefeito de Gien e integrantes da administração local. Outra vez, ouvimos promessas de reencontro e continuidade do projeto.

Todos mereciam um prêmio pela brilhante atuação. Por isso, logo cedo, naquela fria segunda-feira, uma parte do grupo partiu para Paris. Os outros iriam no dia seguinte. Enquanto o trem desparecia lentamente na névoa rarefeita, embaçando temporariamente nossos gestos e olhares, corremos para visitar a Faïencerie de Gien, que produz utensílios e objetos em cerâmica de modo artesanal há mais de dois séculos. Depois, vimos castelos, pontes e ruas, tentando estabelecer relações entre passado e presente. À noite, eu, Paulo César Vitor e Julie Cássia Cavalcante apresentamos um recital-palestra sobre a canção de câmara brasileira. Finalmente, agradeci por tudo e, recorrendo ao Pequeno Príncipe, disse: “nós nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos.” É clichê, eu sei, mas é verdade.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

En avant, tous!

O Coro de Câmara de Campina Grande começou a sua turnê na França pela cidade de Olivet, localizada na região central, nos arredores de Orléans, lugar onde Jeanne d’Arc deu os primeiros passos para o processo de libertação daquele país. Em Olivet, o grupo ficou hospedado em várias residências, tendo a oportunidade de vivenciar in loco os múltiplos aspectos da cultura francesa.

No dia seguinte à nossa chegada, a animação era grande. Os cantores falavam sobre a arquitetura e a decoração das casas, os jardins floridos anunciando a chegada da primavera e, é claro, as maravilhas da cozinha francesa. Todos queriam contar o que haviam saboreado, descrever em detalhes o ritual das refeições e suas múltiplas etapas. Tal como nosso repertório, o cardápio era rico e incluía aperitivos, vinhos, pães, queijos e chocolates.

Nosso primeiro contato musical aconteceu no Conservatório. Para aproximar os dois grupos de alunos, desenvolvemos várias atividades. Inicialmente, trabalhamos conjuntamente La Marseillaise e o Hino Nacional Brasileiro, porque iríamos apresentá-los na cerimônia de encerramento. Depois, seguimos para a Église Saint Martin, onde ensaiamos a Messe en Sol, de Franz Schubert. Fundamentalmente, a orquestra e o coro eram formados por alunos e professores do Conservatoire de Rayonnement Communal d’Olivet
e da École Municipale de Musique de Gien, bem como músicos convidados, a exemplo de Damien Colcomb, famoso organista da região. Nosso som encheu de vida aquele templo de paredes grossas e frias, colunas altas e acinzentadas, marcadas pela ação dos séculos. No dia seguinte, no Espaces Desfriches, na Biblioteca Municipal, cantamos para o seleto público que assina a série de concertos Heures Musicales. A plateia interagiu conosco. Ao final do concerto, fomos recebidos pelo prefeito de Olivet e demais autoridades ligadas à arte e à cultura. As crianças anfitriãs, vestidas com as camisetas do Coro de Câmara de Campina Grande, nos homenagearam com mensagens em francês, inglês e português. Logo depois, deixaram o ambiente e foram brincar no jardim. Pela larga janela de vidro no fundo da sala, vi que Sofia e Vinicius também estavam inseridos naquele mundo sem barreiras.

A importância do intercâmbio e a necessidade de continuá-lo foi a tônica nos discursos ao longo da cerimônia. Por isso, não hesitei e convidei-os para conhecerem o Brasil, o Nordeste, a Paraíba e a Rainha da Borborema. Eufóricos, brindamos com champagne. Aos poucos nos contagiamos com a alegria que a música faz brotar nos corações. E logo nos tornamos cúmplices no canto e no riso. Terminada a cerimônia, nos reunimos em diferentes casas para continuar a celebração. E tudo isso, é claro, foi acompanhado de muito vinho, pães, foie gras, cassoulet, fromage, chocolat, samba, coco, forró e quadrilha. En avant, tous!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Só não vê quem não quer

Foi durante o congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM), realizado na UNESP, em São Paulo, na última semana de agosto do ano passado, que oficializamos a turnê do Coro de Câmara de Campina Grande. Juntamente com a professora Julie Cássia Cavalcante, que havia participado do Festival Internacional de Música de Campina Grande, discutimos e definimos as estratégias. É certo que um empreendimento dessa natureza exige ousadia e investimentos dos dois lados. Por isso, ficamos responsáveis pelas despesas com passaportes, seguros e passagens, enquanto os anfitriões se encarregaram da hospedagem, alimentação e transporte local.

No Brasil, nossas propostas não ecoaram nos gabinetes superiores. Não obstante, seguimos adiante, resolutos. Gradualmente, alçamos degraus. Para custear todo o investimento, contamos com o apoio de diversas pessoas, instituições e empresas de Campina Grande e de Teresina, no Piauí. Arregaçamos as mangas. Coletamos roupas, utensílios e objetos para vendê-los em brechós, nas feiras livres. Alguns se valeram do velho e conhecido livro de ouro. Outros recorreram aos empréstimos bancários. Vários cantores arcaram com suas próprias passagens e também contaram com a ajuda dos familiares. O processo foi bastante complicado por conta da crise econômica, pois a oscilação do dólar, nesse período, alterou consideravelmente o preço das passagens.

Enquanto lutávamos para conseguir os recursos, na França todos se preparavam, dividindo os locais onde ficaríamos hospedados, fazendo um planejamento detalhado, incluindo atividades educativas, artísticas, sociais e culturais. Professores e alunos do Conservatório de Olivet e da Escola de Música de Gien se engajaram nesse projeto, sob a liderança de Julie Cássia e Olivier Petit. Várias vezes, por telefone, buscamos soluções para situações inesperadas, fazendo os ajustes necessários.

Na mala, além dos agasalhos, presentes para os anfitriões, dentre os quais cachaça, rapadura, cuscuz, massa de tapioca e produtos artesanais paraibanos. No que diz respeito ao repertório, apresentamos um pouco da nossa diversidade, interpretando obras sacras e seculares do período colonial aos dias de hoje, destacando, sobretudo, os compositores da região. A proposta de promover um grande encontro entre culturas, explorando outros aspectos além dos musicais, foi extremamente positiva e enriqueceu o intercâmbio. Após uma semana de convívio intenso, aprendemos sobre a história da França, seus símbolos, valores, tradições, língua e, naturalmente, a culinária, tão rica em sabores, aromas, cores e texturas. A recíproca foi verdadeira e eles também aprenderam muito sobre nosso país. Conforme destacado na reportagem publicada no jornal da cidade de Gien, no dia seguinte à nossa apresentação, o Brasil é muito mais que futebol e carnaval. Em outros termos, poderíamos acrescentar: Campina Grande não é só festa junina e a UFCG, além dos cursos de engenharia, tem muito o que mostrar ao mundo.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Valsa para um amor

O casamento do compositor Reginaldo Carvalho com Liliane Penna foi amplamente divulgado no noticiário carioca da época. Toda a história do encontro do casal é narrada no jornal Última Hora, edição do dia 6 de junho de 1955. Segundo o documento, Liliane, 19 anos, era filha de João Teixeira Penna[1], vice-cônsul do Brasil em Marselha. Reginaldo, que àquela época estava com 22 anos, conheceu Liliane em Paris, na casa de amigos. Foi amor à primeira vista e, por esta razão, ele pediu a mão da moça em casamento pouco tempo depois. O pai de Liliane foi desfavorável à proposta, alegando que ela ainda era muito jovem. Descontentes, os jovens apaixonados decidiram fugir para a Escócia, pois lá poderiam realizar o sonho do matrimônio sem o consentimento dos pais. O filho do embaixador do México em Paris, Fernando Luís Legardi, que também estava voltando de Gretna Green, onde acabara de casar-se com uma italiana, orientou os dois nesse processo.

Conforme relato do jornal, “agora, a Lei exige que o casamento seja realizado pelo ‘Registrar’, o oficial do registro civil, o qual, mediante a importância de 10 shillings entrega a certidão sem que seja necessário publicar os corriqueiros ‘banhos’ ou proclamas. Mas as três semanas de residência na Escócia continuam obrigatórias. Liliana (sic) e Reginaldo explicaram ao ‘Registrar’ o seu caso. O ‘magistrado’ preencheu as formalidades. Restam agora apenas alguns documentos a assinar. Eram precisas duas testemunhas. Liliana (sic) e Reginaldo não conheciam pessoa nenhuma de Gretna Green, mas dois habitantes da aldeia ofereceram seus serviços. Agora os dois namorados esperam apenas o prazo das três semanas. (Jornal Última Hora, Rio de Janeiro, página 3, 6 de junho de 1955).”

Quando indagada sobre quantos filhos gostaria de ter, Liliane menciona seis ou sete, como nos grandes romances, ressaltou. Segundo o repórter, Reginaldo confirmou as expectativas da futura esposa, mexendo apenas com os ombros. O certo é que desse casamento nasceram três filhos: Sérgio (já falecido), Marcos e Naire.

Gretna Green Romantic Waltz, disponível no endereço http://goo.gl/lhR4oN, foi escrita em 1955 para piano solo. A obra é, em certa medida, uma homenagem à pequena vila de Gretna Green, localizada no sul da Escócia, traduzindo, portanto, o espírito de Reginaldo Carvalho naquele momento de intensa paixão. A valsa, dividida em três partes, tem uma curta introdução, notadamente jazzística. Melodia e harmonia, nas demais seções, criam uma atmosfera romântica, que nos remete aos salões de bailes nos quais casais enamorados dançam, celebrando a vida e o amor.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)


[1] No Jornal Última Hora, o nome do pai de Liliane aparece como Ricardo Penna. Em entrevista a este pesquisador, a filha de Reginaldo Carvalho fez a correção, informando que o nome do seu avô materno era João Teixeira Penna. Na ocasião, ela também confirmou que o nome da mãe é Liliane e não Liliana, como consta no jornal.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Ladrão em noite de chuva

A obra Do tamanho de um defunto, de Millôr Fernandes, foi escrita originalmente para teatro e publicada pela Civilização Brasileira, em 1957. A estreia do espetáculo aconteceu no Teatro de Bolso (Rio de Janeiro). Posterirormente, o texto foi adaptado pelo próprio autor para o cinema, recebendo o título Ladrão em noite de chuva, cuja trilha sonora tem a assinatura de Reginaldo Carvalho.

O longa Ladrão em noite de chuva foi produzido por Aloísio Leite e Armando Cavalcanti de Albuquerque. Conforme dados da Cinemateca Nacional, “o projeto do filme começou em 1955 numa associação entre Millôr Fernandes, Armando Couto e Ludy Veloso na empresa Lu-Mi-Ar com distribuição pela Unida Filmes de Mário Falaschi. As filmagens começaram, porém, somente em 1958. O nome de Millôr Fernandes também aparece como Vão Gogo, Emanuel, que assinava na revista O Cruzeiro. Mosquito é pseudônimo de Paulo Nunes. A fonte ACPJ/I indica distribuição pela B. C. Filmes com apresentação da Satélite Filmes; Armando Cavalcanti de Albuquerque teria se encarregado da sonografia. A fonte ALSN/DFB-LM indica produção de 1961.”[1] Este filme foi censurado e a única cópia disponível provavelmente encontra-se na Cinemateca Nacional.

Sábato Magaldi, no livro Panorama do Teatro Brasileiro, publicado pela Global Editora (2013), ressalta que, neste texto, Millôr faz uma crítica à organização administrativa do Rio nos anos cinquenta “com a anedota do ladrão que escolheu a casa do médico, entre outros motivos, porque pertence a um distrito policial, enquanto a casa ao lado já pertence a outro, cujo delegado não perdoa os presos. Sente-se a tremenda solidão de uma cidade em noite de chuva, em que ninguém deixa o seu recolhimento para o gesto de solidariedade, a ponto de levar o ladrão ao raciocínio: “... vou-lhe ensinar uma coisa, madame: quando precisar socorro não grite ‘Ladrão! Assassino!’, que ninguém vem. Grite ‘Fogo, Incêndio!’, que logo corre uma multidão. A gente não é boa, madame, mas é curiosa.”

A trilha, escrita para clarineta em si bemol, trompete, contrafagote e percussão (tambor e tarol), tem 35 seções, totalizando cerca de 30 minutos. A edição, elaborada por mim e Alexsandro Lima para o projeto SESC Partituras, foi feita a partir da grade manuscrita (medindo 33 cm x 23,5 cm) elaborada pelo próprio Reginaldo Carvalho. A obra editada está disponível no endereço http://goo.gl/OXWQSZ. Para definir o tempo da performance de cada quadro, os intérpretes devem observar a duração indicada pelo compositor. A textura é homorrítmica, muito embora apresente pontos de imitação. Nota-se uma alusão à canção Rosa Amarela e às Bachianas Brasileiras Nº 2, mais particularmente a conhecida melodia d’O trenzinho caipira, reforçando as conexões de Reginaldo Carvalho com Heitor Villa-Lobos.
  
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

[1] Disponível no site http://cinemateca.gov.br Último acesso em 20 de março de 2015.