terça-feira, 5 de setembro de 2017

Reginaldo Carvalho e O Tablado

Uma das fases mais produtivas do compositor Reginaldo Carvalho, no campo da música incidental, foi no Rio de Janeiro entre o final da década de cinquenta e o início dos anos sessenta e, posteriormente, entre o final da década de sessenta e o início dos anos setenta, quando do seu retorno da França. O compositor trabalhou durante muito tempo para O Tablado, grupo fundado por Maria Clara Machado, em 1951.
Maria Clara Machado é uma referência no cenário literário e teatral brasileiro, tendo escrito livros e peças para adultos e crianças, a maioria delas estreadas por sua própria companhia. Entre os anos cinquenta e sessenta, O Tablado apresentou cinco espetáculos, sendo quatro infantis e um adulto, para os quais Reginaldo Carvalho compôs música original: O Embarque de Noé (1957), A Bruxinha Que Era Boa (1958), O Cavalinho Azul (1960), Andrócles e o Leão (1966) e As Interferências (1966). É importante ressaltar que, até o momento, não foram encontrados os manuscritos e/ou cópias das partituras d'A Bruxinha Que Era BoaAndrócles e o Leão e As Interferências.
O Embarque de Noé é uma farsa bíblica em dois atos, que, segundo notas do programa, “foi escrita e encenada sem que a autora cogitasse da natureza do público a que estaria destinada.” O enredo tem como base o dilúvio, descrevendo os momentos que antecederam o embarque na arca, a partida para a longa viagem e da qual participariam seres humanos e bichos. Muito embora recheada de passagens engraçadas, a peça foi criticada pela forma como tratou o mito; por seus anacronismos, representados sobretudo por objetos, elementos nonsense, que iam de encontro às expectativas dos especialistas; e pela indefinição do público alvo, se adulto ou infantil. Com relação à música, o manuscrito d’O Embarque de Noé contém partes cavadas para flauta, fagote e piano. Ainda não achamos aquela referente à bateria. Na parte do fagote identificam-se as seguintes seções: I - Andante; II - Largo (monólogo); III - Ciranda; IV - Alegre (Fim do primeiro ato). V - Lentamente (Ballet dos bichos, início do segundo ato). VI - Alegreto (com júbilo), final. No final da parte de fagote, o compositor indica: Tempestade (“sonoplastia”), uma segunda versão do monólogo (movimento II) e um tema para a “Entrada dos bichos”.
A pesquisa que estamos desenvolvendo tem como objetivo catalogar, analisar e editar estas obras, evidenciando a relação texto-imagem-música na construção da narrativa cênica, teatral. Os resultados parciais foram apresentados recentemente no I Simpósio Internacional de Investigação em Arte, realizado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Portugal, e publicados na European Review of Artistic Studies.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 3 de setembro de 2017

Here I Am, Lord.

Here I Am, Lord é o título de um hino muito popular nos Estados Unidos da América. A obra, composta em 1981 por Dan Schuttle e baseada nos livros de Isaías (Capítulo 6) e Samuel (Capítulo 3), é frequentemente cantada na liturgia católica em diversas ocasiões ao longo do ano. Logo após a minha chegada em Baton Rouge, ouvi pela primeira vez esta canção numa missa na capela Christ The King, no campus da Lousiana State University. Naquela manhã acinzentada e fria de domingo, fui aquecido por tais versos, que me fizeram pensar sobre os meus dias naquele tempo-lugar.

Alguns meses depois, quando entrei para o coro da First United Methodist Church, sob a direção de Lammar Drummonds, encontrei-me novamente com a obra, desta feita com o arranjo para coro misto a quatro vozes e piano escrito por Ovid Young. No ano seguinte, já regendo o coro da Zachary United Methodist Church, não tive dúvida sobre com qual música começar a minha temporada naquela comunidade. Assim que cheguei, pedi para que os cantores abrissem o hinário na página 593 para ensaiarmos o referido cântico. No meu último culto na ZUMC, na Páscoa, tive a oportunidade de interpretá-la mais uma vez, razão pela qual adquiriu um valor simbólico muito importante, marcando momentos de transição em minha trajetória pessoal e profissional.

De volta ao Brasil, agora com o Madrigal da UFPI, inseri o mesmo arranjo no repertório do grupo. A peça passou a fazer parte dos nossos ensaios e foi estreada no I Festival Internacional de Música da UFPI, sob a direção do maestro norte-americano Gary Packwood com Bruna Vieira ao piano. Muito embora inexperiente, porque tinha apenas seis meses de fundação, o Madrigal trabalhou com afinco, identificando-se plenamente com a mesma. Ano passado, trabalhei a obra com o Coro de Câmara de Campina Grande, mas não cheguei a apresentá-la. Há poucos dias, não sei por qual razão, resolvi resgatá-la, tendo em vista a preparação do nosso Concerto para o Advento.

Os fatos e as reflexões da última semana me fizeram conectar pontos e perceber a sintonia das coincidências. Ainda há muito para construir, compartilhar, aprender, dizer, cantar, sentir, ouvir, tocar, transformar. E como meu trabalho está inacabado, é preciso, portanto, prosseguir com o ofício. Foi por isso que ontem, ao ouvir Here I Am, Lord (veja vídeo), renovei propósitos e recobrei forças no intuito de superar limites, vencer adversidades, sobrepujar medos. As provações só nos fortificam e tanto a música quanto a mística têm papel fundamental nesse processo de restauração emocional e espiritual. Assim, tal como o profeta ao ouvir a voz do Senhor perguntando quem Ele deveria enviar, quem iria em nosso nome, eu respondi: Eis-me aqui. Envia-me!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Por isso, minha gratidão, Teresina.

A primeira vez que estive em Teresina foi em outubro de mil novecentos e noventa e dois. Fui para a capital piauiense por conta do concurso público para professor da Universidade Federal do Piauí. Passei uma semana por lá, fazendo provas, semeando novas amizades. Voltei para casa feliz, aprovado, com a imagem dos fins de tarde alaranjados e o aroma dos cajueiros. Aqueles dias foram suficientes para compreender o sentido da expressão bê-erre-o bró, usada em referência ao quadrimestre final do ano e baseada nas últimas sílabas dos meses que o compõem, e que sintetiza as altas temperaturas da estação.

No ano seguinte, no dia do meu aniversário, fui contratado. Migrei para lá com o pouco que tinha, algumas roupas e livros, bem como todos os sonhos que poderia carregar comigo. Ao chegar, fui recepcionado pelo maestro Emmanuel Coelho Maciel, que me acolheu com carinho paternal. A professora Lúcia de Fátima também me recebeu como uma mãe, sempre muita atenciosa. Depois, quando Jane chegou, a caminhada ficou ainda melhor.

Gradualmente, conheci a cidade, incluindo sua história, seus lugares, suas gentes e seus sabores. Cruzei com o Cabeça-de-Cuia, o Troca-Troca, a Frei Serafim, a igreja de São Benedito, o Encontro dos Rios, o doce de buriti, a cajuína com Maria-Isabel. Interagi com vários alunos, profissionais e grupos, dentro e fora da universidade. Convivi com colegas como Reginaldo Carvalho, regi o Madrigal Vox Populi, conheci o Projeto Música Para Todos e também vi nascer, tocando flauta ao lado de Zé Rodrigues, a Orquestra Sinfônica de Teresina. Fiquei impressionado com o trabalho do professor Marcílio Flávio Rangel. Radicado na Chapada do Corisco há muitos anos, esse paraibano entrou para a história daquele lugar por conta das suas ações no campo humanitário e educacional. Seu legado está presente na Casa Dom Barreto, na Escola Popular Madre Maria Vilac, no Instituto Dom Barreto, onde Vinicius e Sofia estudaram. Foi para meus filhos e seus colegas que compus várias canções, muitas das quais ainda estão presentes no cancioneiro daquele educandário.

A Universidade Federal do Piauí foi também minha escola. Lá aprendi a lecionar, a ampliar meu espírito empreendedor e a participar ativamente da administração universitária, percebendo os limites e possibilidades da gestão pública. Naquela instituição, atuei de forma intensa e vivi uma das maiores histórias de amor da minha vida ao lado dos integrantes do Madrigal da UFPI (veja vídeo), grupo que regi por quatro anos e no qual tive grandes cantores, muitos dos quais hoje são meus amigos e frequentam a minha casa, o meu coração. Como o tempo decanta tudo, encontrei hoje essas memórias guardadas bem no fundo do peito. Por isso, minha gratidão, Teresina.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

*Para Teresina, no dia da celebração dos 165 anos.

domingo, 13 de agosto de 2017

Se não se amarrar, não vende!

Tocar ou cantar em grupo é uma tarefa desafiadora, pois, além de interpretar o repertório, executando-o no tempo, afinado e com técnica, é preciso observar o outro, interagindo, ao mesmo tempo, de forma autônoma e interdependente. Para ler o que há por trás de cada olhar e movimento, um grupo necessita ensaiar de forma consistente por um período considerável de tempo. Muitas vezes, as informações são sutis e passadas discretamente, suprimindo toda e qualquer necessidade de verbalização. Mas esse conhecimento só brota com a intimidade, que, por sua vez, é fruto de uma convivência saudável e pautada no respeito e na confiança.

Como regentes, desenvolvemos um cabedal de gestos com o qual nossos coros, bandas e orquestras se familiarizam. Muito embora pretensamente universais, eles carregam elementos idiossincráticos, com os quais chamamos a atenção para pontos específicos, dentre os quais a sonoridade, o fraseado, a precisão rítmica, os formatos das vogais, as passagens mais complexas. O olhar fixo nas mãos, o vai-e-vem do tronco e a forma como nos dirigimos para um determinado naipe falam sobre as verdades construídas ao longo de várias horas de ensaio. Quanto mais conseguimos ler as entrelinhas, captando, assim, o não-dito, mais diligente e carregada de sentido será a nossa performance. Quando há correspondência mútua, aí, então, a fruição estética se torna mais intensa, atingindo também o público, que reage proporcionalmente ao grau de envolvimento e cumplicidade que demonstramos no palco.

No documentário Sob o Céu de Zabé (veja o vídeo), produzido por Márcia Paraíso, em 2014, e que trata da vida e obra de Isabel Marques da Silva (1924-2017), mais conhecida como Zabé da Loca, uma passagem chama a atenção. Pitó, que integrava o terno-de-zabumba dessa famosa agricultora-musicista que viveu no Cariri Oriental paraibano, dá um depoimento singular, no qual, ao descrever suas experiências, diz que “a música é uma entremelagem de juntamento.” Analisando a sua fala, nota-se que, ao usar o vocábulo entremelagem, provavelmente uma corruptela do verbo francês entrêmeler, ele reitera o sentido de entrelaçamento que as práticas de conjunto, tanto instrumentais quanto vocais, evocam, convidando-nos também a refletir sobre a complexa relação que se estabelece entre o indivíduo e o grupo nestas e em outras instâncias do saber/fazer musical.

O emblemático discurso do percussionista revela a força da construção coletiva e reforça a crença de que para tocar e cantar com outras pessoas é preciso observar muito mais que as frequências, as durações e suas respectivas articulações e variações de intensidade. Sem diálogo e interação não há conjunto. Por isso, Pitó, de forma sábia e graciosa, é enfático ao comparar um grupo musical a um leirão de coentro dentro de um balaio num dia de feira. Nos dois contextos, “se não se amarrar, não vende!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 30 de julho de 2017

Utopia e ousadia

O 11th World Symposium on Choral Music (WSCM), promovido pela International Federation for Choral Music (IFCM), aconteceu em Barcelona. Nesta edição, participaram grupos convidados e selecionados dos cinco continentes, que interpretaram repertórios variados, incluindo obras de referência da literatura, assim como novas composições encomendadas especialmente para o evento.

Muito embora todos os coros participantes tenham apresentado elevado grau técnico e artístico, alguns se destacaram. O Ansan City Choir, da Coreia, regido pelo Dr. Shin-Shwa Park, por exemplo, além do domínio músico-vocal, ensinou-nos sobre a conexão entre corpo-movimento-som. O concerto na Sagrada Família, e do qual participaram mais de duzentos cantores da Catalunha, foi todo dedicado à música sacra da região, incluindo obras da Idade Média aos dias atuais. A culminância foi ouvir Nigra Sum, de Pablo Casals, que acompanhou parte da construção daquele templo e escreveu este moteto em homenagem à Virgem Negra de Montserrat. Foi uma experiência única, mística e musical, que nos enlevou, um verdadeiro bálsamo para os ouvidos e o coração.

O WSCM também ofereceu uma programação acadêmica. A conferência da professora Sharon Paul, intitulada Regendo com o cérebro: técnicas para aumentar a capacidade de engajamento dos cantores, foi uma das mais concorridas, reiterando a correlação entre autonomia e interdependência na prática coral. A música brasileira também esteve nas discussões. Enquanto Isak Lucena, da Universidade Potiguar, fez uma retrospectiva da nossa tradição coral do período colonial até os dias atuais, destacando autores e obras, eu me detive no século XX, mais particularmente no trabalho do compositor Reginaldo Carvalho. Em minha comunicação, destaquei os momentos mais importantes da trajetória deste paraibano, falando do seu estilo composicional, analisando pequenos trechos de suas obras, usando como exemplo as interpretações do Coro de Câmara de Campina Grande, gravadas recentemente em Nova Iorque. Houve, ainda, uma palestra dedicada às composições para vozes femininas, de Heitor Villa-Lobos, fruto das pesquisas de Elian Hingrid Kujawinski.

A décima primeira edição do WSCM nos fez refletir sobre muitos aspectos da nossa práxis. Precisamos intensificar as ações formativas, tanto sob a perspectiva do regente quanto dos coralistas. Ao mesmo tempo, temos que organizar o movimento no âmbito nacional, agregando o maior número de coros possível, a exemplo do que já fazem tantas associações e federações, dentre as quais a ACDA e a ADICORA. Sem tal organismo, nossa inserção no panorama internacional e em eventos deste porte será limitada, fruto de iniciativas pessoais e não de um todo organizado e legitimado por seus pares e a sociedade. A estrada é longa e repleta de curvas. Continuemos a caminhada, alimentando as utopias, sem esquecer, é claro, da ousadia.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

VIII FIMUS e I FIMUS Jazz

Iniciamos a contagem regressiva para a oitava edição do Festival Internacional de Música de Campina Grande e a primeira versão do FIMUS Jazz. Com o coração a mil, estamos finalizando os detalhes. É sempre bom lembrar que a realização de um evento deste porte, em nosso país e no atual contexto, é uma missão difícil. Sem o comprometimento daqueles que gerenciam as instituições promotoras do Festival, mais notadamente a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba, a Universidade Estadual da Paraíba e a Universidade Federal de Campina Grande, nada disso seria possível.

Este ano, nossos convidados vêm de diferentes estados brasileiros, dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Alemanha. A flautista Dagmar Wilgo e a cravista Luciana Câmara apresentarão o programa Duo Tweets, com obras de diferentes períodos e que têm como base o canto dos pássaros. O norte-americano Michael Pendowski vem da Auburn University para lecionar saxofone e também reger a nossa Big Band. Mais de cem pessoas integram as equipes de produção do Festival, que este ano recebe cerca de trezentos alunos.

Oito grupos da Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia participam dos concertos que acontecem à tarde, no Teatro Municipal e também nas cidades circunvizinhas. Em todos os conjuntos, notamos um forte diálogo entre tradição e vanguarda, a combinação do regional e do universal, elementos que demonstram o processo de reinvenção da nossa música. Ao longo da semana estão previstos lançamentos de CDs, incluindo Tempo Oportuno, de Paulo César Vitor. Outros grupos, como, por exemplo, o Trio Paraibô e o Tryá também farão o mesmo. No que diz respeito ao aspecto didático-pedagógico, oferecemos, pela primeira vez, oficinas de guitarra, baixo elétrico, bateria e piano com ênfase na música popular e no jazz. Hércules Gomes, uma das revelações da nova safra de pianistas brasileiros, além de tocar, também ministrará aula ao lado de Jow Ferreira, Cléber Campos e Júnior Primata. A inclusão da Missa de Alcaçus, de Danilo Guanais, cuja estreia ocorreu recentemente no Carnegie Hall, sob minha direção, também promete ser um grande momento da próxima semana. A obra será interpretada pelo Coro de Câmara de Campina Grande, Licio Bruno, Fellipe Oliveira, Alzeny Nelo e Regiane Yamaguchi.

O Festival Internacional de Música de Campina Grande já está no calendário de festivais do Brasil, sendo, portanto, uma excelente oportunidade para estudantes e profissionais renovarem seus horizontes. Para a população da Serra, trata-se de mais uma opção de entretenimento neste mês de férias. É muito bom ver que a Rainha da Borborema, ainda no clima junino, já se prepara para uma semana de grandes emoções com a chegada do VIII FIMUS e do I FIMUS Jazz.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com) 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

O canto coral na Paraíba: Tom K

Antônio Carlos Batista Pinto Coelho, mais conhecido como Tom K, nasceu em Recife, Pernambuco, mas há muitos anos adotou a capital paraibana como sua terra natal. Graduado em Violão pela Universidade Federal da Paraíba, tornou-se uma referência no mundo musical por sua atuação como compositor e regente. Foi no final dos anos oitenta que tive o prazer de conhecê-lo, quando ingressei no curso de Licenciatura em Educação Artística, com habilitação em Música, no Campus I da UFPB. Tom K lecionava na graduação e foi um dos meus primeiros professores de Regência. Naqueles anos em João Pessoa, tive a oportunidade de acompanhar o trabalho que desenvolvera com o Madrigal Pedro Santos, indiscutivelmente um dos melhores coros que o estado já teve. Depois, por curto período, fui seu assistente no coral da Fundação Musical Isabel Burity.

Por conta da minha mudança para Teresina, passamos algum tempo afastados. Esse fato foi revertido quando nos reencontramos em Salvador. Na capital baiana, entre 1996 e 1999, fomos colegas no Mestrado em Música, na classe do professor Erick Vasconcelos. Vivemos intensamente aqueles três anos. Convivíamos diariamente na Escola de Música, no Vale do Canela. Caminhamos juntos, subindo e descendo ladeiras, pesquisando e conversando, às vezes em diferentes bibliotecas e salas, quase sempre no nosso apartamento, nos finais de semana. A avenida Princesa Isabel era reduto paraibano, o refúgio no qual eu, Jane, Tom K, Maurílio Rafael e Romério Zeferino, entre garfadas e goles, compartilhávamos nossas experiências, nos sentíamos em família. Há tanto o que contar sobre Tom K em terras soteropolitanas que certamente seria possível escrever um romance.

De modo geral, sua música é alegre, leve, reflete o seu espírito sagaz. O arranjo do Xote das Meninas, por exemplo, cantado mundo afora, eu considero um clássico. Ao longo de todos esses anos, Tom K contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da prática coral em vários campos. Foi ele o responsável pela criação de muitos grupos e também a iniciação e formação de um grande número de regentes na região. Eu, como já disse, orgulhosamente me incluo neste rol. Ele também compôs e arranjou inúmeras obras, propôs aquilo que denomino de repertórios possíveis, com graus de dificuldade variados e que atendem às necessidades de diferentes conjuntos. 

É por isso que, neste momento, todas as homenagens lhes são pertinentes e justas. Recebe, portanto, maestro-amigo, nosso abraço de gratidão, nosso respeito, nosso reconhecimento por tudo o que você fez, nossos votos de felicidades. Que a aposentadoria seja apenas o início de uma nova fase e que você continue embelezando o mundo com sua música-poética, e prossiga construindo esse legado que incontestavelmente já entrou para a história da música no estado da Paraíba.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)