quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Reginaldo Carvalho e o Instituto Villa-Lobos

Em setembro deste ano, estive na Cidade Maravilhosa para participar das comemorações dos 50 anos do Instituto Villa-Lobos, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, que foi criado com o propósito de renovar, pedagógica e artisticamente, o antigo Conservatório Nacional de Canto, por meio do Decreto n° 61.400, de 22 de setembro de 1967. Integravam o IVL, segundo o Regimento Administrativo, a Escola de Educação Musical e o Centro de Pesquisas Musicais, este último subdividido em Pesquisa do Som-Imagem, Pesquisa Musical e Pesquisa do Comportamento Musical Brasileiro.

O guarabirense Reginaldo Carvalho foi fundador e diretor do Instituto. Na concepção dele, aquela escola precisava ter um corpo docente multifacetado, eclético, um pessoal “super pra frente
”, gente corajosa, equilibrada, criativa, inovadora, capaz de abrir novos caminhos para a educação. Grandes nomes da cena cultural carioca passaram pelas salas do IVL, incluindo Paulinho da Viola e Paulo Coelho. A escritora Rose Marie Muraro, que também lecionou naquele centro artístico-cultural, diz que migravam para lá “os jovens que iam abandonando as universidades porque não queriam mais servir ao sistema. Eles vinham de todos os lados. Havia o pessoal da área tecnológica, das ciências humanas, e apareciam basicamente artistas, músicos, pintores, cineastas.” O IVL era o foco para o qual convergiam as mentes em ebulição, politicamente engajadas, à procura de novas formas de expressão e criação artísticas.

É importante ressaltar que entre a criação e o efetivo funcionamento do Instituto Villa-Lobos houve um hiato, uma longa trajetória foi percorrida. Como havia sido instalado no antigo prédio da União Nacional dos Estudantes, incendiado em conflito com os militares, em virtude do estado de exceção que se vivia no país naquele momento, o Villa-Lobos passou muitos anos sem ter uma infraestrutura adequada para a realização das aulas e pesquisas. De modo geral, os déspotas não viam com bons olhos o trabalho liderado por Reginaldo Carvalho, tendo em vista seus ideais revolucionários e a participação maciça da juventude. Foi por esta razão que o IVL passou a ser administrado por um General do Exército, a partir do anos setenta, época na qual Reginaldo Carvalho mudou-se para Teresina-PI.

A análise da história do IVL nos mostra que muito pouco mudou nas políticas públicas para a arte, a educação e a cultura, de modo geral, em nosso país. Recentemente, a UNI-RIO lançou um livro com vários depoimentos e artigos sobre os 50 anos do IVL (livro completo). Nesta coletânea, contribuo, ao lado de outros pesquisadores, com um estudo (meu capítulo) sobre a trajetória de Reginaldo Carvalho naquela instituição, destacando que o seu legado atravessa o tempo, conectando Guarabira, Rio de Janeiro e Paris, ratificando a necessidade da utopia, da transgressão e da resistência em nossos gestos e ações.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 26 de novembro de 2017

Canção de esperança

A semana foi dinâmica na Universidade Federal de Campina Grande, porque, à semelhança de outras instituições, também celebramos o Dia do Músico, 22 de novembro, com uma vasta programação, organizada por um grupo de alunos e que contou com a supervisão de alguns professores. A meta é realizar o evento anualmente, tornando-o cada vez mais amplo e promovendo o diálogo entre ensino, pesquisa e extensão, expandindo a relação entre a UFCG e a sociedade.

Ao longo da SEMUS, discutimos temas atuais. Marisa Nóbrega falou sobre o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), que poderá ser interrompido por conta dos cortes nas verbas do Ministério da Educação. Cleisson Melo e Jorge Ribbas abordaram a produção musical na contemporaneidade, focando nas questões mercadológicas, tema que também serviu de mote para a rodada sobre marketing na música, coordenada por Fábio Cavalcanti. João Valter Ferreira Filho tratou das perspectivas para a pós-graduação para licenciados em música e Alda Leaby nos fez pensar sobre inclusão, dialogando e cantando em LIBRAS — indiscutivelmente, um dos pontos altos desta sessão ocorreu quando os participantes interpretaram Carinhoso, de Braguinha e Pixinguinha, usando a Língua Brasileira de Sinais.

No que diz respeito à programação artística, realizamos várias apresentações. Ocupamos a praça do Centro de Humanidades, que serviu de palco para o Coro em Canto, a Orquestra e o Coro de Câmara, bem como para os alunos que prepararam um show dedicado à MPB, enquanto na Primeira Igreja Batista e na sala BW4 apresentaram-se a Big Band, a Orquestra de Violões, o Coro Feminino, o Consort Vivace, dentre outros grupos. Foi no nosso auditório que vimos a estreia de mais uma promessa, um quinteto de choro, formado por dois violões, cavaquinho, percussão e trombone.

A iniciativa dos alunos do curso de Música nos ensina que é preciso agir. Eles saíram da zona de conforto, provocaram colegas, professores, administradores, a comunidade, demonstrando que não se contaminaram com aqueles que arrotam insolências travestidas de discursos politizados, que criticam sem ter trajetória, que tentam justificar a inércia acadêmica e profissional na qual se encontram com argumentos questionáveis, alegando a escassez de recursos, os tempos temerosos que vivemos, as inadequadas condições de trabalho, como se a conquista do paraíso fosse pura mágica. Todos os que participaram deste empreendimento estão de parabéns, sobretudo a comissão organizadora. A Semana de Música da UFCG serviu para que pudéssemos reafirmar nosso compromisso, a força do engajamento e o sentido de pertencimento, que, não obstante os limites impostos pela macroestrutura econômica, política e social, nos faz resistir e valorizar as possibilidades, inspirados pela Canção de Esperança que o advento traz e que, nos versos de Flávia Wenceslau, tece a linha do horizonte e nos ensina que o amor jamais nos deixará.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Um som inconfundível

O maestro Nelson Mathias regeu o Coral da UFPB, Campus II, Campina Grande, entre 1978 e 1982. Formado por cerca de sessenta cantores, o coro ensaiava nas dependências do Núcleo de Extensão Cultural, no Teatro Municipal Severino Cabral, duas horas por dia, de segunda a sexta-feira. A preparação vocal do conjunto estava a cargo da professora Célia Bretanha Junker, cuja ação didático-pedagógica tinha como base os princípios propostos por Madeleine Mansion. A sonoridade era leve e ágil, razão pela qual o grupo dedicou-se à interpretação de várias obras da renascença francesa.

As gravações das apresentações do Coral da UFPB, arquivadas em fitas k-7, em diferentes eventos entre 1978 e 1979, reiteram o que estamos falando. Muito embora parcialmente comprometidos pela ação do tempo, nestes áudios é possível identificar vários elementos. A técnica vocal está em processo de consolidação e há equilíbrio e controle da dinâmica e da articulação. Percebe-se o fraseado musical, bem como o diálogo entre os diferentes naipes. Também é notória a precisão rítmica, que ressalta os aspectos percussivos da nossa música popular, assim como as sutilezas e as entrelinhas dos excelentes arranjos assinados por Arlindo Teixeira, Clóvis Pereira, Damiano Cozzella e o próprio Nelson Mathias.


Célia Bretanha e Nelson Mathias concebiam a música para além dos aspectos técnicos. Para eles, era necessário que os cantores compreendessem poética, filosófica e espiritualmente o que era cantado, a polissemia músico-textual, motivo pelo qual o Coral da UFPB normalmente não se apresentava com partituras, pois, na concepção do seu regente, os cantores deveriam estar livres para ver o maestro e para transmitir com mais liberdade o sentido musical daquilo que se cantava.


O Coral da UFPB, sob a direção desses profissionais, foi premiado em festivais, recebeu o reconhecimento do público e da crítica. A proposta, além de artística e educativa, foi também política. Como atestado em alguns dos relatos coletados na pesquisa que realizamos, repetidas vezes o público surpreendeu-se com a atuação do coro. Mesmo sabendo que o grupo era coordenado por dois expoentes nacionais, frequentemente esperava-se do “Coral da Paraíba” um direcionamento técnico e artístico inconsistente, um repertório predominantemente regional e adornado com o placebo cênico, recurso em voga àquela época e que até hoje continua sendo usado, na maioria das vezes, para mascarar incompetências.
A admiração era proporcional ao preconceito. Por isso, quando o coral interpretava com maestria a literatura de diferentes países, autores e períodos, o silêncio, o encantamento, a curiosidade e o respeito também preenchiam todos os espaços. Os Cantores da Rainha contrariaram expectativas, desconstruíram estereótipos, romperam barreiras. Para conhecer mais sobre essa página da nossa história, ouça o inconfundível som do Coral da UFPB e leia a nossa comunicação no XXII Congresso Nacional da ABEM, realizado em Natal-RN, em 2015.
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

sábado, 18 de novembro de 2017

Música na UFPB

A criação do Núcleo de Extensão Cultural (NEC), no Campus II da Universidade Federal da Paraíba, iniciativa do Reitor Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, contribuiu para dinamizar a vida artística do município de Campina Grande. Há alguns anos, realizei pesquisa com Jeter Maurício da Silva Nascimento com o objetivo de analisar as práticas musicais na referida instituição, entre 1978 e 1982, época na qual o NEC teve importantes conjuntos, dentre os quais o Coral da UFPB, o Quinteto Armorial e o grupo Cordas e Sopros. Nossa meta foi contribuir para a preservação e o resgate da memória e história da cidade, região e do país, oferecendo subsídios para a compreensão da prática coral na época em questão e no momento atual.

O trabalho foi dividido em três partes. Na primeira seção, discutimos os princípios da Nova História Cultural, bem como o papel da Memória e da História Oral. Na segunda, tratamos da criação do Núcleo de Extensão Cultural da UFPB, tendo como base estudos variados, os depoimentos dos professores fundadores e dos sujeitos que viveram naquele contexto. Na terceira, e última etapa, descrevemos a estrutura e o funcionamento do Coral da UFPB, sob a direção dos professores Nelson Mathias e Célia Bretanha. A ênfase, nesta parte, recaiu sobre o processo de seleção dos cantores, o repertório, a metodologia do ensaio, os concertos e as viagens realizadas, bem como outros aspectos sociais, educativos e culturais.


As atividades desenvolvidas no Núcleo de Extensão Cultural abrangiam cursos nas áreas de teatro, fotografia, cinema, artes plásticas e música, incluindo o ensino de diversos instrumentos e matérias teóricas. Estes cursos foram responsáveis pela formação de um grande número de profissionais - eu, por exemplo, iniciei minha vida musical por lá. As contribuições de Nelson Mathias e Célia Bretanha foram determinantes para o surgimento de outros grupos corais na UFPB e na cidade, depois de 1982, dentre os quais o De Repente Canto (UFPB), coordenado por Fernando Rangel, e o Coro em Canto (UFPB-UFCG), que teve como regentes Marisa Nóbrega, Luciênio Teixeira e atualmente é conduzido por Lemuel Guerra.


Hoje, além do Coro em Canto, estão em pleno funcionamento seis outros coros, que integram o Laboratório Coral da Universidade Federal de Campina Grande e também estão vinculados ao Grupo de Pesquisas Unificadas em Artes e Música (GRUNAMUS-CNPq), a saber: Coro Infanto-Juvenil, Coro Feminino, Coro Masculino, Coro Intergeracional do PIATI, CorUNAMUS e Coro de Câmara de Campina Grande. Esses grupos funcionam como coro-escola, auxiliando os estudantes da Licenciatura e do Bacharelado em Música no desenvolvimento das suas habilidades, ratificando a conexão entre ensino, pesquisa e extensão. Para saber mais sobre esse capítulo da nossa história, leia o relato que apresentamos no XIII Encontro Regional da ABEM, na cidade de Teresina-PI, em 2015.


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Ai, Mouraria...

Fomos recebidos em Évora pela professora Liliana Bizineche, que nos levou para a estalagem, na Rua do Raymondo. Lá, no coração das muralhas, ficaríamos hospedados por uma semana numa bela construção histórica.

O maestro Yan Mirkitumov preparou o coro, formado por alunos da graduação em Música. Nos primeiros contatos, construímos a sonoridade do conjunto, lapidamos aspectos técnicos, expressivos e artísticos. A presença do Loiret’s Singers, liderado por Julie Cássia Cavalcante, da pianista Regiane Yamaguchi e do compositor Danilo Guanais deu à Missa de Alcaçus mais vida, força, sentido. O crescimento do grupo foi notório ao longo dos encontros e culminou com o concerto no Teatro Garcia de Rezende, encerrando o IV Festival de Música da Universidade de Évora. Os aplausos ininterruptos e calorosos indicavam o reconhecimento do trabalho.

Nas horas vagas, passeamos. Uma das experiências mais impactantes foi a visita à Capela dos Ossos, uma construção do século XVII que nos fez pensar sobre a vaidade e a fragilidade da vida. A insígnia cravada no pórtico principal assim dizia: “nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos.” O acervo da Sé é deslumbrante, assim como o som do órgão da Igreja de São Francisco. Na Praça do Giraldo, preciosidades na livraria que abrigava autores portugueses clássicos e modernos. No meio das obras, uma rara coletânea de poemas eróticos e sobre outros temas de Bocage, muitos dos quais podem ser lidos na internet (veja aqui). No dia de Todos os Santos, entrei numa loja e me deparei com várias imagens sagradas: Fátima, Conceição e Iemanjá. Fotografei-as, porque fiquei pensando na globalização, no sincretismo religioso, nessa cidade medieval com uma bodega chinesa trans-meta-pós-moderna, cujo proprietário não fala português. O frenesi gastronômico foi intenso. Saboreamos, dentre tantas delícias, açorda, sopa de beldroegas, pezinhos e bochechas de porco preto, tudo isso temperado com coentros, poejos, louro, alho e azeite. A água Penacova e o vinho Pouca Roupa alimentaram nossa imaginação e também o senso de humor. O percussionista carioca David William apresentou-nos um sofisticado cardápio e uma seleta carta de bebidas, quando jantamos na simpática Chouriçaria da Praça, restaurante no qual trabalha como gerente. No dia do concerto, é certo que tive problemas com minha roupa, que já não cabia em meu corpo, parecia ter encolhido.

Naqueles dias no Alentejo fez calor e frio, teve sol, chuva, lua cheia. Comemos e bebemos, conversamos e cantamos, alimentamos o corpo, o espírito, a amizade, os sonhos, os projetos, o instante-já. Quando sentíamos a melancolia dos saciados, e à semelhança de Amália Rodrigues, Graça Arrais nos consolava cantarolando um fado muito conhecido, que ecoava por entre as ruas estreitas de Évora, traduzindo nossos afetos: “Ai, Mouraria... onde um dia eu deixei presa a minha alma.”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 12 de novembro de 2017

Rumo ao comboio, na direção do Alentejo.

Encontrei o professor Paulo Lourenço na Escola Superior de Música de Lisboa. Conheci a estrutura da instituição e tive a oportunidade de apresentar duas obras de minha autoria, Guajira Espúria e Cantate Domine, para o coro da graduação e o de câmara. Os resultados foram positivos, muito embora o curto período de tempo.

Na companhia do maestro, visitei a Fundação Calouste Gulbenkian, uma referência mundial quando o assunto é arte, ciência e educação. Andamos por vários espaços, incluindo a sala do coro, do qual ele é regente titular, bem como o palco principal onde a orquestra acabara de ensaiar sob a direção do maestro emérito Lawrence Foster, que também tive a oportunidade de cumprimentar nos camarins. Almoçamos no amplo restaurante, no andar superior, de cuja varanda contempla-se o jardim. Conversamos sobre a literatura coral luso-brasileira, as obras dos compositores Eurico Carrapatoso e Reginaldo Carvalho. Ouvi-o falar sobre a criação da Associação Portuguesa de Canto Coral, que nascera sob a sua direção e com o apoio da International Federation for Choral Music (IFCM), cuja presidente, Emily Kou Vong, esteve presente à cerimônia inaugural.

Despedi-me do professor e parti em direção à Santa Apolônia, onde estava o amigo Danilo Guanais, que havia chegado de São Paulo há poucas horas. Por conta do transbordo, fomos de lá até à estação Lisboa-Oriente. Como tínhamos tempo e estávamos com fome, resolvemos comer um pouco. Iniciamos nossas aventuras gastronômicas experimentando as queijadas alentejanas acompanhadas por um café cheio, uma bica com um pouco mais de café e a chávena quase totalmente completa. Depois, tentamos mudar nosso bilhete para a primeira classe, mas desistimos porque seria um luxo desnecessário para uma viagem tão curta.

Na hora prevista, chegamos à plataforma. Havia dois trens estacionados. Ficamos no local indicado, aguardando o embarque. Enquanto nós contemplávamos as linhas paralelas, transversais e oblíquas do teto, acompanhando o sol que brincava de esconde-esconde naquela polifonia celestial, um suíço caminhava em círculos, tal qual os ponteiros do relógio no seu braço, sussurrando impropérios num arcaico dialeto Schwiizerdütsch. Não sei como, mas entendi tudo. Ele estava incomodado com a pontualidade lusitana, reclamava porque as portas ainda estavam fechadas, pois já eram dezessete horas e nós partiríamos em dois minutos. Guiado pela intuição, descobri que estávamos no lugar errado. Como bom tenor, disse enfaticamente: Corre, Danilo, nosso trem vai partir! Não sei se o suíço entendeu, mas ele foi o primeiro a disparar na direção da outra locomotiva. Fizemos o mesmo, pois não queríamos perder o transporte nem alimentar essa falsa ideia de que os brasileiros literalmente deixam tudo para o último minuto. Corremos desesperadamente, carregando o peso dos nossos corpos, dos estigmas e das malas, rumo ao comboio, em direção ao Alentejo.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Fátima

Eu já falei sobre Vó Nuca, essa mulher forte, com admirável senso ético e de justiça, devota de Nossa Senhora. Foi com ela que aprendi a rezar o terço e a entoar cantigas marianas, na hora do ângelus, durante a trezena do mês de maio, que culminava com uma procissão pelo bairro São José. Naquele dia de festa, à frente do cortejo, carreguei muitas vezes um quadro ornamentado com a foto das três crianças que testemunharam as aparições da Mãe de Deus em Portugal. Ir à Fátima, durante a minha curta passagem naquelas terras, significava, portanto, conhecer in loco o que ouvira da boca e do coração da minha avó materna.

A viagem até a região central do país foi tranquila, o caminho estava livre. A paisagem bucólica, entrecortada por vilarejos, parece ter diminuído o tempo e a distância. Cheguei antes do almoço e comecei a visita pela pequena casa onde viveram Lúcia, Jacinta e Francisco. No acervo museológico, os móveis e os utensílios eram coadjuvantes daquela narrativa de vida e fé. O balido das ovelhas, soltas no pequeno redil defronte à casa com paredes de pedras acinzentadas, recriava a atmosfera pastoril das primeiras décadas do século vinte, época na qual ocorreram as visões da Senhora do Rosário.

Caminhei sozinho, explorando aquele lugar. Desci pelo longo jardim e parei num dos locais onde a Virgem apareceu. Enquanto um grupo orava, outro, mais afastado, lia passagens bíblicas taciturnamente. Fui à Basílica da Santíssima Trindade, inaugurada nas celebrações dos noventa anos do Milagre do Sol. O templo, que tem sido alvo de muitas críticas por conta da sua modernidade, tem obras de vários artistas, incluindo a irlandesa Catherine Green, que produziu o enorme crucifixo em bronze suspenso sobre o altar e que apresenta o Cristo com traços do homem pré-histórico. Em matéria de arte, tais debates reiteram a prevalência do espírito conservador no ventre das igrejas, respaldando, em certa medida, o pensamento fundamentalista tão em voga em nosso meio e que tem reduzido a possibilidade do diálogo, da reflexão, da mudança, da diferença.

Explorei todo o espaço lembrando o que Dona Nuca contara e cantara, o que cultivei, aprendi e vivi na infância. Passei pela pequena capela, ao lado da Cova da Iria, adentrei o Santuário e prostrei-me silenciosamente, reordenando as memórias, revisitando a história, reverenciando os meus mortos, percebendo, ao longe, o badalar dos sinos e um cantochão familiar. Fechei os olhos, abri o peito, entrei em êxtase e ouvi o eco dos meus temores, de tantos sonhos, da minha gratidão. Renovado, andei um bocadinho pelo mercado, entrando em muitas lojas, à procura de mais uma peça para a minha coleção de imagens que representam as mulheres, as mães, o sagrado feminino, as Marias, Fátima.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)