terça-feira, 17 de junho de 2014

Paixão Segundo Alcaçus

A Paixão Segundo Alcaçus, de Danilo Guanais, é uma obra para ator, solistas, coro e orquestra, tendo como base o Evangelho de Marcos, o Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, e poemas do próprio compositor. A obra, que é fruto da pesquisa de doutorado realizada na UNI-Rio, foi escrita entre 2011 e 2012, tendo sido apresentada parcialmente no Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM), em agosto do ano passado, na cidade de Natal-RN.

Alcaçus, comunidade nos arredores da capital potiguar, é conhecida por seus romances. Essa forma poético-musical, que mantém estreita relação com as narrativas encontradas na península ibérica à época da nossa colonização, ainda hoje está presente na região Nordeste do Brasil. As histórias cantadas naquele lugarejo, passadas oralmente numa tradição secular, foram recolhidas e publicadas pelo pesquisador Deífilo Gurgel, no Romanceiro de AlcaçusDanilo Guanais utiliza várias melodias do romanceiro na sua Missa de Alcaçus (1996) e também na Paixão, ratificando suas conexões com a cultura popular, a música armorial.

Danilo Guanais harmoniza as melodias modais do Romanceiro utilizando uma técnica denominada descante dual, alternando sistematicamente consonâncias e dissonâncias, criando um fluxo contínuo de tensão/repouso. Além desse procedimento, emprega também um quadrado mágico para elaborar séries, construir sequências melódicas e progressões harmônicas, bem como definir os dezesseis instrumentos da obra, que estão divididos em quatro grupos, cada um com quatro músicos. O ator tem papel fundamental, assumindo, ao mesmo tempo, a voz do narrador e a voz do Cristo. Os solistas descrevem as etapas da paixão, realçando passagens do texto de Saramago e da Bíblia, sublinhando os conflitos entre o Homem-Comum e o Homem-Deus. Os poemas de Danilo Guanais, escritos como décimas no melhor estilo do martelo agalopado, resgatam os temas dos membra Jesu nostri, abordando as diferentes partes do corpo de Jesus crucificado: pés, joelhos, mãos, lados, peito, coração e cabeça.

A Paixão está dividida em onze movimentos e cada um descreve uma etapa da caminhada rumo ao Calvário. A percussão tem função relevante na criação dos momentos mais intensos e dramáticos da narrativa, enquanto as intervenções da flauta, do violão e do tenor solista, por exemplo, sublinham o lirismo que também lhe é inerente. Recentemente, Danilo Guanais esteve ensaiando conosco. Vê-lo, ouvi-lo e compreendê-lo foi uma experiência apaixonante, que, indiscutivelmente, contribuiu para estreitar os laços entre compositor e intérpretes no processo de preparação desta obra, cuja estreia ocorrerá na abertura do V Festival Internacional de Música de Campina Grande e da qual farei parte juntamente com João Marcelino (ator), Alzeny Nelo (soprano), Malu Mestrinho (mezzo-soprano), Luiz Kleber Queiroz (barítono), Coro de Câmara de Campina Grande e Orquestra Sinfônica da UFRN, todos sob a regência de André Luiz Muniz Oliveira.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O canto que vem das Minas

Acabo de chegar de São João Del Rei, Minas Gerais, onde participei de mais um Painel FUNARTE de Regência Coral ao lado dos professores Ângelo Dias, Stella Junia e Maria José Queiroz. Trabalhamos com mais de cento e cinquenta alunos advindos de diferentes partes do Brasil. É certo que os doze participantes que vieram de Mossoró, no Rio Grande do Norte, atravessaram o Brasil e, por isso, merecem uma menção honrosa pela coragem, disposição e dedicação.

Os Paineis têm cumprido uma importante função no atual panorama do canto coral brasileiro, servindo como ponto de partida para os que desejam enveredar pelo caminho da regência, bem como momento de reflexão e reordenamento das ideias para aqueles que já estão no mercado de trabalho. Ao longo das aulas, trabalhamos vários temas, incluindo gestual, seleção de repertório, técnica vocal, metodologia e planejamento do ensaio. O repertório foi variado, abrangendo obras de diferentes períodos, estilos e autores. Nosso foco principal foi a interpretação de música originalmente escrita para coro, sobretudo a literatura brasileira, razão pela qual interpretamos Dá-nos paz!, de Ângelo Dias; Dois loucos no bairro, de Paulo Leminski e Eli-Eri Moura; Notícia de Jornal, fruto da minha parceria com Thúlio Antunes; e Salmo de Davi, do compositor paraibano Reginaldo Carvalho.

O Salmo de Reginaldo Carvalho, para coro misto e harmônio, evoca o modalismo do Nordeste e está dividido em duas partes: o refrão é polifônico e as antífonas, monofônicas. A inserção desta peça foi intencional, pois Reginaldo Carvalho atuou como regente em Minas Gerais, trabalhando com o coro dos Pequenos Cantores de São Domingos (http://goo.gl/8Lonxk). É dessa época, aliás, que datam quatro dos seus motetos mais expressivos: Oração para antes da refeição (Juiz de Fora, 1954), As sete palavras da oração dominical (Juiz de Fora, 1956), Salmo de Davi (Juiz de Fora, 1957) e Ave, Maria (São João Del Rei, 1959), obra recorrente no meu repertório (http://goo.gl/m0T6wM). O Salmo é dedicado a José Maria Neves, filho ilustre de São João Del Rei, que fora seu aluno no Instituto Villa-Lobos, no Rio de Janeiro.

Andando pelas ruas de São João Del Rei, viajei no tempo contemplando o rico patrimônio arquitetônico. Ao visitar o Centro de Referência Musicológica (http://goo.gl/SNhNAv), onde estão guardadas mais de quatro mil obras do acervo de José Maria Neves, pensei em Reginaldo Carvalho, na beleza da sua obra sacra, ecoando por ruas estreitas e paredes seculares, nas vozes dos jovens alunos, que, “beliscados” ao longo daquele Painel, como tão bem colocou Maria José Queiroz, continuarão a contar/cantar esta e outras histórias.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

terça-feira, 3 de junho de 2014

O canto coral na Paraíba: Gazzi de Sá

Gazzi de Sá (1901-1981) é a referência do canto orfeônico na Paraíba, na primeira metade do século XX. Nascido em João Pessoa, morou em Salvador e no Rio de Janeiro, onde conheceu de perto o trabalho de Heitor Villa-Lobos. Trabalhou em dois importantes centros educacionais e culturais da capital paraibana: o Liceu e a Escola Anthenor Navarro. Educador, pianista e compositor, atuou também como regente, tendo criado e dirigido o Coral Villa-Lobos, de João Pessoa, cujo repertório incluía clássicos da literatura, assim como novos arranjos e obras, muitas das quais de sua autoria e baseadas na música de tradição oral. Parte deste material foi publicado pela Editora da Universidade Federal da Paraíba, na década de oitenta, sob o título Obras Completas, com apresentação do musicólogo Adhemar Nóbrega, da Academia Brasileira de Música.

No livro Método de Musicalização, Gazzi de Sá apresenta alguns dos seus conceitos no campo da educação musical, propondo, dentre outros temas, a associação entre movimento e som, o solfejo relativo e um sistema de notação musical alternativo. Luceni Caetano, da Universidade Federal da Paraíba, tem investigado a vida, a obra e o trabalho desenvolvido por Gazzi de Sá, preenchendo uma importante lacuna nesta área. O resultado de uma das pesquisas foi publicado em 2006, na sua tese de doutorado (http://goo.gl/xZo0RP), intitulada Gazzi de Sá compondo o prelúdio da educação musical na Paraíba: uma história da educação musical na Paraíba nas décadas de 30 a 50, lançada ano passado pela EDUFPB.

O acesso à música de Gazzi de Sá ainda é restrito, porque as poucas obras editadas estão esgotadas. Provavelmente, a maior parte do acervo disponível está guardado no Rio de Janeiro, mais especificamente no Centro Educacional de Niterói, local onde trabalhou Hermano Soares de Sá, filho do compositor, e onde atua o regente Luiz Carlos Peçanha, que tem se dedicado à interpretação da obra de Gazzi de Sá. O Grupo Tandaradei, com direção de Theresia de Oliveira, gravou, em 1986, um CD com várias obras do compositor paraibano e que está disponível na internet (http://goo.gl/0UfF1Q).

Gazzi de Sá harmonizou, como ele mesmo especifica nas partituras, muitas canções para coro feminino, dentre as quais Corre, corre, lacoxia, Rosa Amarela, Ó mana deix’eu ir e A maré encheu. Nessas obras chamam a atenção a vivacidade rítmica, as harmonias sofisticadas e o uso sistemático das onomatopeias (nan, tum, tim, blingue, bigue), comumente empregadas para fazer referência aos instrumentos de percussão e ao caráter dançante das músicas. Gazzi de Sá contribuiu para a expansão da literatura coral paraibana, sobretudo na primeira metade do século XX, e sua obra, porque é diversa e ainda pouco conhecida, precisa ser promovida, estudada e interpretada.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Cantata pra Alagamar

A Cantata pra Alagamar, com texto de W. J. Solha e música de José Alberto Kaplan, é uma obra para solistas, atores, coro misto e orquestra de câmara, escrita em 1979, tendo como tema o conflito ocorrido na Fazenda Alagamar, localizada entre os municípios de Salgado de São Félix e Itabaiana, na Paraíba. A estreia aconteceu em junho daquele ano e obteve ampla aceitação do público e da crítica. A primeira gravação (http://goo.gl/KjkuDZ), realizada no mesmo período, foi regida pelo compositor.

José Alberto Kaplan dialoga com as formas setecentistas, mantendo-se, ao mesmo tempo, em sintonia com a modernidade. Na Cantata pra Alagamar, o tenor exerce o papel do evangelista, ligando seções, comentando o texto, refletindo sobre suas entrelinhas, rica em conotações políticas. Com melodias nos modos lídio-mixolídio e amparado harmonicamente pelo cravo, o tenor é simultaneamente profeta, cantador, repentista, aboiador, revelando as conexões do compositor com a música de tradição oral do Nordeste. O coco, o baião, o triângulo e a zabumba, empregados em momentos estratégicos da narrativa, reiteram estes vínculos culturais. Os âmbitos vocais são cômodos, tanto para os solistas quanto para o coro, e a formação camerística, com poucos instrumentos, torna a obra acessível. A confluência de elementos universais e regionais, velhos e novos, potencializa os conflitos entre tradição e ruptura, ditadura e liberdade, tão acentuados na sociedade brasileira daquela época.

Participei da quinta série dos Concertos SESC Partituras, quando ocorreu o lançamento da edição revisada da Cantata. Antes do início do concerto, o maestro Carlos Anísio leu uma mensagem de Dom José Maria Pires, Arcebispo da Emérito da Paraíba, e que à época participou do projeto: “A Cantata é uma obra de arte realizada com coragem e muito amor. Coragem porque vivíamos, então, o tempo da Ditadura e qualquer manifestação pública estava sujeita à censura, de modo que a Cantata só pôde ser apresentada porque, para isso, foi cedida uma de nossas igrejas. A Cantata foi não só obra de coragem, mas sobretudo expressão de amor, um amor que ultrapassa fronteiras ideológicas e religiosas. A realização da Cantata só foi possível graças a um trio composto por um judeu, um ateu e um bispo. Num tempo de tanta violência, a Cantata vem proclamar que todos devemos lutar para que, respeitada a liberdade de pensamento de cada um, busquemos juntos transformar em convergências nossas divergências, contribuindo assim para que o mundo vá deixando de ser um vale de lágrimas e vá se aproximando da visão bíblica de um paraíso.”

A Cantata pra Alagamar é uma obra representativa da literatura coral brasileira e a partitura completa está disponível gratuitamente no site do SESC (http://goo.gl/cYyXJu), podendo, desta forma, ser interpretada por nossos grupos vocais e instrumentais.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)  

sábado, 24 de maio de 2014

Bancos de partituras na internet

A internet é uma ferramenta de grande utilidade no trabalho de preparação do regente coral, sobretudo no que diz respeito à pesquisa e à aquisição de repertório. Vários são os portais que têm divulgado, gratuita e legalmente, a literatura originalmente escrita para coro a cappella ou com acompanhamento. O Choral Public Domain Library (www.cpdl.org) e o IMSLP Petrucci Music Library (www.imslp.org), por exemplo, já são bem conhecidos no meio acadêmico. Com relação à música coral brasileira, quatro projetos têm se destacado nesta área: Musica Brasilis, Museu da Música de Mariana, Projeto Coral e SESC Partituras.

O Musica Brasilis (www.musicabrasilis.org.br) se dedica à difusão do repertório de diferentes épocas, estilos e autores. Além das partituras, no portal é possível encontrar áudios, vídeos e o recurso da escuta guiada, que apresenta informações importantes sobre as obras, tanto do ponto de vista estrutural quanto formal. Essa associação audiovisual colabora no processo de compreensão das peças. A FUNARTE também tem disponibilizado, por meio da plataforma Projeto Coral (www.funarte.gov.br/projetocoral/), obras para vozes afins e mistas, incluindo as coleções Música Nova do Brasil para Coro A Cappella e Arranjos Corais de Música Folclórica Brasileira, ambas publicadas nas décadas de setenta e oitenta. A produção mais recente da instituição, na qual se inserem as onze canções para coro juvenil (2009) e as oito canções para coro infantil (2010), também podem ser obtidas no site.

O Museu da Música de Mariana (www.mmmariana.com.br/abertura.htm), voltado para a pesquisa do repertório desde os tempos do Brasil Colônia, oferece, na seção Restauração e Difusão de Partituras, relevante patrimônio, destacando-se os seguintes projetos temáticos: Pentecostes, Missa e Sábado Santo (2001); Conceição e Assunção de Nossa Senhora, Natal e Quinta-Feira Santa (2002); Devocionário Popular dos Santos, Ladainha de Nossa Senhora e Música Fúnebre (2003). Todas as obras editadas estão também disponíveis em CDs, que foram gravados por ícones do canto coral no país, dentre os quais Naomi Munakata e Orquestra Engenho Barroco; Júlio Moretzsohn e o Grupo Calíope; Carlos Alberto Pinto Fonseca, Ars Nova Coral da UFMG e músicos convidados. O Projeto SESC Partituras (www.sesc.com.br/SescPartituras/) contém o trabalho de vários compositores, abrangendo música de câmara, sinfônica, coral e para solistas. Dentre os nomes já inseridos neste banco de dados estão os de Guerra-Peixe e Alberto Nepomuceno, cujos centenário e sequiscentenário, respectivamente, estamos comemorando este ano.

As iniciativas do Musica Brasilis, da FUNARTE, do Museu da Música de Mariana, do SESC Partituras e muitas outras não incluídas nesta lista preenchem uma lacuna importante no mercado editorial, contribuindo para a preservação da música coral brasileira, ampliando as possibilidades de escolha de repertório, promovendo o trabalho de compositores de diferentes épocas, estilos e regiões do país.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

terça-feira, 20 de maio de 2014

O Festival do Sesquicentenário

O recital do duo Malu Mestrinho (mezzo-soprano) e Marcelo Fernandes (violão), realizado no último dia 15 de maio no auditório da Unidade Acadêmica de Arte e Mídia, da Universidade Federal de Campina Grande, marcou o lançamento do V Festival Internacional de Música de Campina Grande, que acontece entre os dias 21 e 26 de julho.

Como nas edições anteriores, este ano o Festival recebe convidados do Brasil, dos Estados Unidos e da França, artistas e grupos renomados, incluindo o duo Mestrinho-Fernandes, o Quinta Essentia Quarteto de Flautas, o University of Central Oklahoma Chamber Choir, o Quinteto de Metais do Conservatório de Tatuí e a Orquestra Sinfônica da UFRN. A soprano Julie Cassie (França) apresentará um recital temático com canções francesas, enquanto o barítono Robert Glaubitz (EUA) interpretará árias de óperas. O clarinetista Joel Barbosa vem falar sobre o ensino de música nas bandas, apresentando aos alunos seu famoso método Da Capo. A programação homenageará o sesquicentenário de Campina Grande e os compositores Alberto Nepomuceno (1864-1920) e César Guerra-Peixe (1914-1993). O Prêmio Radegundis Feitosa será outorgado a José Antônio Rezende de Almeida Prado (1943-2010) por sua contribuição à música brasileira. Para recebê-lo, convidamos a pianista Helenice Audi e a violinista Constanza Moreno, respectivamente, a viúva e a filha do homenageado. Na programação dos cursos, que são abertos aos estudantes de música e profissionais, duas novidades: Teatro Musical, que será ministrado pela norte-americana Jena Nelson, e Introdução à Regência Orquestral, ministrado pelo baiano José Maurício Valle Brandão.

O Festival acolherá alunos de várias regiões e do exterior, a exemplo dos estudantes da University of Central Oklahoma, que vêm pela primeira vez ao Brasil com o objetivo de participar das aulas e concertos que serão realizados em Campina Grande (no Teatro Municipal, no Mosteiro Santa Clara e na Primeira Igreja Batista) e nas cidades de Patos e Remígio. Na abertura do evento ocorrerá a estreia da Paixão Segundo Alcaçus, do compositor Danilo Guanais, obra para solistas, coro e orquestra,  que será interpretada pelos convidados do Festival e a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob a regência do maestro André Muniz Oliveira.

Novamente, graças ao trabalho conjunto de diversas instituições públicas e privadas, Campina Grande se transformará, no mês de julho, no centro musical da Paraíba e do Nordeste. Para saber mais sobre o Festival, que se insere no calendário de comemorações do sesquicentenário da Rainha da Borborema, acessem nossa página na internet (www.fimus.art.br) e nas redes sociais. Sintam-se, portanto, convidados e sejam todos bem-vindos ao V Festival Internacional de Música de Campina Grande.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 23 de novembro de 2013

Teatro Municipal Severino Cabral - 50 anos

Esta semana Campina Grande está em festa por conta dos cinquenta anos do Teatro Municipal. A programação comemorativa inclui espetáculos de música, teatro, dança, eventos literários e vernissages. Este templo da arte e da cultura, arquitetado por Geraldino Pereira Duda, foi construído na administração do prefeito Severino Bezerra Cabral, um gestor que se notabilizou por seu espírito empreendedor.

O projeto inseriu Campina Grande no roteiro de importantes companhias e artistas, colocando a Rainha da Borborema em sintonia com as produções contemporâneas de diversas partes do Brasil e do mundo. Foi ali, no Teatro Municipal Severino Cabral, no início dos anos oitenta, que comecei meus estudos musicais, no Departamento de Artes, do Campus II, da Universidade Federal de Campina Grande. Minhas primeiras aulas de Flauta Doce, com o professor Carlos Alan, aconteciam no quinto andar. A Oficina de Música, sob a coordenação de Fernando Barbosa, funcionava no térreo, ao lado do Paulo Pontes, onde eram realizados os ensaios dos grupos de câmara, conduzidos por Luceni Caetano. Foi também no palco do Severino Cabral que me apresentei cantando no tenor do FACMADRIGAL, sob a direção de Sérgio Telles, e do Coro em Canto, regido por Fernando Rangel.

Ao longo destes anos, participei de vários eventos naquela casa: os Congressos de Teoria e Crítica Literárias, os Festivais de Inverno, os Festivais de Coros da Fundação Artístico-Cultural Manuel Bandeira e o primeiro Encontro para a Nova Consciência, cujo vídeo com a apresentação do Grupo Vocal Nós e Voz, àquela época cantando obras da Renascença, encontrei, recentemente, no site Retalhos Históricos de Campina Grande (http://www.youtube.com/watch?v=2Z8zTBj-3HI&list=FLL6bqg07ZCa6wMwc3X6u9aw). Entre o final dos anos oitenta e o início dos anos noventa, estreei um espetáculo cênico com o mesmo grupo, Dia de suicídio (ou como atravessar a rua sem ser assaltado), em parceria com Thúlio Antunes. Trabalhamos muito, ora encantados, ora espantados, porque uma pesada vara de luz balançava misteriosamente enquanto ensaiávamos na madrugada nublada da Serra. Nesse projeto, compartilhei ideias e emoções com Márcio Antunes, Almir Almeida, Fábio Dantas, Sérgio Abajur, Álvaro Fernandes, Renan Barbosa, Napoleão Gutenberg e tantos outros. Nos últimos anos, alegra-me ver a multidão enfileirada na porta do Teatro, aguardando as atuações magistrais dos convidados do Festival Internacional de Música de Campina Grande.

Com a janela da memória aberta, reverencio Joel Cavalcante, Raimundo Formiga, Hermano José, Carlos Santos, Wilson Maux, Eneida Maracajá, Gilmar Albuquerque, Saulo Queiroz, Alana Fernandes e Aluizio Guimarães pela dedicação ao Teatro. Que a iniciativa de Seu Cabral, o Pé de Chumbo, inspire outros gestores. E que no centenário possamos, quiçá, ao ver o balé, o coro e a orquestra do Municipal, incluir outros nomes na lista dos gestores, homens e mulheres, sensíveis e comprometidos com arte e cultura nesta cidade.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)