domingo, 22 de abril de 2018

Os cursos de Música da UFCG

A Licenciatura e o Bacharelado em Música da Universidade Federal de Campina Grande foram criados em 2008, por meio do programa REUNI. As primeiras turmas entraram no semestre 2009-2. Anualmente, oferecemos quarenta vagas, sendo trinta para a Licenciatura e dez para o Bacharelado, que tem ênfase em Composição, Regência, Canto, Produção Musical e Práticas Interpretativas, esta última contemplando Violão, Violino, Viola, Violoncelo, Contrabaixo, Piano, Clarinete, Tuba, Trombone e Bombardino. O corpo docente conta com dezesseis professores, dos quais oito são doutores, sete são mestres e um é especialista, todos com ampla experiência e formação, no Brasil e no exterior.

Os cursos têm duração de quatro anos. Neste período, o aluno, além de cursar matérias teóricas e práticas, participa de diversos projetos, programas e conjuntos, dentre os quais UFCG Brass, Cordas e Sopros, Big Band, Orquestra de Câmara, Orquestra de Violões e os seis coros ligados ao CanteMUS - Laboratório Coral da UFCG (Coro Infanto-Juvenil, Coro Feminino, Coro Masculino, Coro Intergeracional, CorUNAMUS e Coro de Câmara de Campina Grande). Esses conjuntos instrumentais e vocais têm se apresentado em diversos eventos artísticos e culturais no país, nos Estados Unidos e na Europa.

No que diz respeito à investigação científica, temos três equipes de trabalho: 1) Herança Cultural: patrimônio, memória, identidade e representação; 2) Grupo de Pesquisas Unificadas em Artes e Música (GRUNAMUS); e 3) Grupo de Pesquisa Musical Aplicada (MUSAP). Os resultados das pesquisas realizadas em tais núcleos têm sido apresentados em congressos promovidos por entidades como a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM), Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM), International Federation for Choral Music (IFCM) e International Association for Semiotic Studies (IASS). O Festival Internacional de Música de Campina Grande, fruto da parceria entre a UFCG, a UEPB e a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba, tem permitido a interação dos nossos alunos com nomes de referência na área. Alguns deles, por conta desse contato, ganharam bolsas de estudos em universidades norte-americanas. De modo geral, os alunos concluem os cursos no prazo mínimo, inserindo-se imediatamente no mercado de trabalho e/ou na pós-graduação. Atualmente, cerca de vinte egressos já estão em programas de Mestrado e Doutorado.

Almejamos a excelência e a ampliação das nossas ações no campo do ensino, da pesquisa e da extensão. Neste sentido, e para marcar a nossa primeira década de existência, estamos trabalhando na criação da Unidade Acadêmica de Música (UNAMUS) e na atualização do currículo, à medida que aguardamos a aprovação da proposta de um novo Mestrado Profissional em Música, já submetida à CAPES, e que irá preencher uma lacuna importante na região, ratificando que estamos no caminho certo. Para mais informações, visite nosso site.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 14 de abril de 2018

Festival de Música da UFG

O Festival Internacional de Música Belkiss S. Carneiro de Mendonça chegou à quadragésima segunda edição este ano. Promovido pela Universidade Federal de Goiás, é, nesta categoria, o mais antigo do país realizado de forma ininterrupta. Esta foi a terceira vez que tive a honra de participar deste importante projeto, que traz para a cidade de Goiânia estudantes e profissionais de diversas partes do Brasil e do mundo.

Na cerimônia de abertura, a professora Glacy Antunes compartilhou conosco um pouco da história do Festival, destacando o espírito empreendedor dos seus idealizadores, dentre os quais Dona Belkiss Spencieri. O professor Edward Madureira, Reitor da UFG, destacou que, ao longo dessas quatro décadas, as crises pelas quais o país passou ameaçaram a continuidade do evento inúmeras vezes. No entanto, o engajamento daqueles que fazem a Escola de Música e Artes Cênicas e o efetivo apoio da administração superior da UFG foram determinantes para a continuidade do empreendimento.

Ao longo das aulas, ensaios e palestras, reafirmei a necessidade de valorizarmos as oportunidades, de transformarmos o limite em possibilidade, de assumirmos a tripla dimensão da nossa missão profética, política e poética. Narrei um pouco da minha vida profissional, conectando o início de tudo, quando tocava flauta doce no topo da goiabeira, e a minha estreia no Carnegie Hall, ano passado, com a Missa de Alcaçus, de Danilo Guanais. Fiz paralelos entre o micro universo da prática coral e a estrutura macrossocial, reiterando a força dos nossos gestos nos dois contextos. Discuti os inúmeros aspectos da minha práxis artístico-pedagógica, mostrando a importância de conceber a música para além da frequência, do ritmo, da técnica. No que diz respeito ao repertório, selecionei para esta temporada obras da literatura coral europeia e norte-americana. Meu foco, contudo, foi a música coral brasileira. Para fugir do lugar comum, busquei novas obras, dentre as quais É madrugada, da carioca Stella Junia, e várias peças de compositores do Nordeste. O Padre Nuestro, de Eli-Eri Moura, e a Dança de Mariinha, de Beetholven Cunha, foram interpretados pela primeira vez no país. Um dos destaques foi a suíte formada pelo Tema para assovio, de Pedro Santos, e a Cantiga, de Reginaldo Carvalho com poema de Manuel Bandeira. O baixo-barítono Angelo Dias deu um show, desta vez, assoviando.

Encontros como este são essenciais para a divulgação da nossa produção musical e fortalecem nossos cursos, permitindo o intercâmbio entre novos e conhecidos professores e artistas, expandindo os horizontes dos alunos. Parabéns às professoras Ana Flávia Frazão e Gyovana Carneiro, pela organização e direção deste belo Festival. Após uma semana tão intensa, volto para casa banhado pela luz do dia, profundamente grato por tudo e a todos, com a mala repleta de novas experiências, pronto para continuar a caminhada.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 17 de março de 2018

Messias

Messias, de G. F. Händel, é um dos oratórios mais cantados em todo o mundo. Muito embora concebido para a Páscoa, é também interpretado durante o Advento em serviços litúrgicos de diferentes igrejas cristãs, auditórios e teatros. Por conta da sua extensão, frequentemente apresentam-se excertos da obra, incluindo recitativos, árias e coros da primeira, segunda e terceira parte.

Referência na literatura do período barroco, a peça pode ser facilmente adaptada. Quando não há possibilidade de incluir solistas, faz-se uma seleção contemplando os movimentos para coro. Se, por outro lado, não há orquestra, é possível interpretá-la com um quarteto de cordas e contínuo ou até mesmo apenas com um piano. Com relação à orquestração, é importante observar as múltiplas versões existentes, algumas com traços mais românticos, que incluem vários instrumentos diferentes daqueles da proposta original. Na Internet existem muitas edições que apresentam divergências nos tons de algumas árias, bem como na estrutura rítmica de alguns corais. Para dirimir dúvidas, é preciso compará-las e consultar documentos históricos, assim como ouvir performances conduzidas por autoridades da área, dentre os quais Robert Shaw e Vàclav Lucs.

O oratório apresenta desafios, como, por exemplo, as coloraturas, que, às vezes, intimidam regentes e cantores, sobretudo em coros amadores. Inicialmente, é preciso compreender tais passagens ritmicamente. Como os melismas estão agrupados, deve-se enfatizar a primeira nota de cada grupo, destacando-se os tempos estruturais do compasso com o intuito de criar micro e macro tensão fraseológica. Como exercício, as passagens melismáticas podem ser decompostas, e as notas, uma a uma, acrescentadas gradualmente. Fundamental é reduzir a velocidade da execução para fins de aprendizagem e precisão. Outra possibilidade é pedir aos cantores com mais domínio técnico que executem as coloraturas com clareza, articulando as notas sem colocar um “h” aspirado antes de cada vogal, enquanto aqueles que têm mais dificuldade poderão cantar o mesmo trecho com as sílabas “do” da”. A pronúncia da consoante “d”, de forma delicada e discreta, ajudará na projeção da voz, na articulação, na manutenção do tempo, na definição dos afetos, isso tudo, é certo, sem desconsiderar o suporte respiratório e a ressonância. Estes são alguns dos recursos amplamente utilizados em muitos coros e que têm dado excelentes resultados, não obstante seja matéria controversa.

Nos próximos dias, interpretaremos passagens deste repertório de formação, patrimônio da humanidade, em Teresina e Campina Grande. A experiência, pioneira nas duas cidades, promoverá o intercâmbio entre músicos do Projeto Música Para Todos, IFPI, IFG, UFRN, UFPI e UFCG. Será, sem dúvidas, um marco em nossas trajetórias pessoais e profissionais, tanto pela relevância do desafio artístico-musical quanto pela mensagem do texto, que fala do Nascimento, Paixão e Redenção de Cristo, o Messias.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Encontro de Coros da UFCG

O canto coral na cidade de Campina Grande sempre esteve muito ligado ao contexto universitário. Nos anos setenta e oitenta, a Fundação Universidade Regional do Nordeste (FURNE) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Campus II, ganharam projeção nacional por conta dos seus corais. Durante muito tempo, grupos de diferentes partes do Brasil participaram do Festival de Inverno de Campina Grande e dos encontros promovidos pela Fundação Artístico-Cultural Manuel Bandeira, iniciativas que foram interrompidas por conta de vários fatores mas que serão retomadas amanhã, dia 20 de dezembro, com a realização do I Encontro de Coros da Universidade Federal de Campina Grande.

O evento tem como objetivo apresentar à comunidade o trabalho que tem sido desenvolvido na UFCG. Além do Coro em Canto, o mais antigo da instituição, atualmente estão em atividade o Coral Assum Preto, sediado no Campus VI, na cidade de Sousa, o Coro Infanto-Juvenil, o Coro Feminino, o Coro Masculino, o Coro Intergeracional, o CorUNAMUS e o Coro de Câmara de Campina Grande, estes últimos ligados à graduação em Música, no Campus I.

Este encontro marca o nascimento do CanteMUS - Laboratório Coral da UFCG, criado com o propósito de congregar cantores e regentes, oferecendo-lhes subsídios técnicos e artísticos que possam contribuir para a consolidação desta prática sócio-cultural-educativa. Os coros ligados ao CanteMUS são regidos por alunos da Licenciatura e do Bacharelado, que têm a oportunidade de associar teoria e prática, aplicando os conteúdos estudados em sala de aula, bem como os resultados das pesquisas desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisa Unificadas em Artes e Música (GRUNAMUS - UFCG/CNPq), conectando assim, ensino, pesquisa e extensão.

A proposta de cada coral tem como base a faixa etária e a experiência musical dos seus integrantes. De modo geral, cada um trabalha entre duas e quatro horas semanais. Nesses encontros, além de aulas de técnica vocal e teoria musical, ensaiam o repertório, que inclui tanto música sacra quanto secular, brasileira e internacional, de diferentes períodos, épocas e autores, a cappella e com acompanhamento. A pretensão é realizar o encontro duas vezes por ano, sempre ao final de cada semestre. A meta é também promover o intercâmbio com outros grupos, maestros e instituições. Ano que vem, por exemplo, durante a nona edição do Festival Internacional de Música de Campina Grande, os integrantes do Laboratório Coral da UFCG terão a oportunidade de interagir com maestros convidados, brasileiros e do exterior. Indiscutivelmente, essa expansão quantitativa e qualitativa influenciará, a curto, médio e longo prazo, o movimento coral na cidade, no estado e na região, estimulando a formação de novos grupos, criando mais oportunidades no mercado de trabalho para compositores, arranjadores, cantores, regentes e preparadores vocais, que poderão atuar em diferentes segmentos, com coros amadores e profissionais.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Reginaldo Carvalho e o Instituto Villa-Lobos

Em setembro deste ano, estive na Cidade Maravilhosa para participar das comemorações dos 50 anos do Instituto Villa-Lobos, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, que foi criado com o propósito de renovar, pedagógica e artisticamente, o antigo Conservatório Nacional de Canto, por meio do Decreto n° 61.400, de 22 de setembro de 1967. Integravam o IVL, segundo o Regimento Administrativo, a Escola de Educação Musical e o Centro de Pesquisas Musicais, este último subdividido em Pesquisa do Som-Imagem, Pesquisa Musical e Pesquisa do Comportamento Musical Brasileiro.

O guarabirense Reginaldo Carvalho foi fundador e diretor do Instituto. Na concepção dele, aquela escola precisava ter um corpo docente multifacetado, eclético, um pessoal “super pra frente
”, gente corajosa, equilibrada, criativa, inovadora, capaz de abrir novos caminhos para a educação. Grandes nomes da cena cultural carioca passaram pelas salas do IVL, incluindo Paulinho da Viola e Paulo Coelho. A escritora Rose Marie Muraro, que também lecionou naquele centro artístico-cultural, diz que migravam para lá “os jovens que iam abandonando as universidades porque não queriam mais servir ao sistema. Eles vinham de todos os lados. Havia o pessoal da área tecnológica, das ciências humanas, e apareciam basicamente artistas, músicos, pintores, cineastas.” O IVL era o foco para o qual convergiam as mentes em ebulição, politicamente engajadas, à procura de novas formas de expressão e criação artísticas.

É importante ressaltar que entre a criação e o efetivo funcionamento do Instituto Villa-Lobos houve um hiato, uma longa trajetória foi percorrida. Como havia sido instalado no antigo prédio da União Nacional dos Estudantes, incendiado em conflito com os militares, em virtude do estado de exceção que se vivia no país naquele momento, o Villa-Lobos passou muitos anos sem ter uma infraestrutura adequada para a realização das aulas e pesquisas. De modo geral, os déspotas não viam com bons olhos o trabalho liderado por Reginaldo Carvalho, tendo em vista seus ideais revolucionários e a participação maciça da juventude. Foi por esta razão que o IVL passou a ser administrado por um General do Exército, a partir do anos setenta, época na qual Reginaldo Carvalho mudou-se para Teresina-PI.

A análise da história do IVL nos mostra que muito pouco mudou nas políticas públicas para a arte, a educação e a cultura, de modo geral, em nosso país. Recentemente, a UNI-RIO lançou um livro com vários depoimentos e artigos sobre os 50 anos do IVL (livro completo). Nesta coletânea, contribuo, ao lado de outros pesquisadores, com um estudo (meu capítulo) sobre a trajetória de Reginaldo Carvalho naquela instituição, destacando que o seu legado atravessa o tempo, conectando Guarabira, Rio de Janeiro e Paris, ratificando a necessidade da utopia, da transgressão e da resistência em nossos gestos e ações.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 26 de novembro de 2017

Canção de esperança

A semana foi dinâmica na Universidade Federal de Campina Grande, porque, à semelhança de outras instituições, também celebramos o Dia do Músico, 22 de novembro, com uma vasta programação, organizada por um grupo de alunos e que contou com a supervisão de alguns professores. A meta é realizar o evento anualmente, tornando-o cada vez mais amplo e promovendo o diálogo entre ensino, pesquisa e extensão, expandindo a relação entre a UFCG e a sociedade.

Ao longo da SEMUS, discutimos temas atuais. Marisa Nóbrega falou sobre o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), que poderá ser interrompido por conta dos cortes nas verbas do Ministério da Educação. Cleisson Melo e Jorge Ribbas abordaram a produção musical na contemporaneidade, focando nas questões mercadológicas, tema que também serviu de mote para a rodada sobre marketing na música, coordenada por Fábio Cavalcanti. João Valter Ferreira Filho tratou das perspectivas para a pós-graduação para licenciados em música e Alda Leaby nos fez pensar sobre inclusão, dialogando e cantando em LIBRAS — indiscutivelmente, um dos pontos altos desta sessão ocorreu quando os participantes interpretaram Carinhoso, de Braguinha e Pixinguinha, usando a Língua Brasileira de Sinais.

No que diz respeito à programação artística, realizamos várias apresentações. Ocupamos a praça do Centro de Humanidades, que serviu de palco para o Coro em Canto, a Orquestra e o Coro de Câmara, bem como para os alunos que prepararam um show dedicado à MPB, enquanto na Primeira Igreja Batista e na sala BW4 apresentaram-se a Big Band, a Orquestra de Violões, o Coro Feminino, o Consort Vivace, dentre outros grupos. Foi no nosso auditório que vimos a estreia de mais uma promessa, um quinteto de choro, formado por dois violões, cavaquinho, percussão e trombone.

A iniciativa dos alunos do curso de Música nos ensina que é preciso agir. Eles saíram da zona de conforto, provocaram colegas, professores, administradores, a comunidade, demonstrando que não se contaminaram com aqueles que arrotam insolências travestidas de discursos politizados, que criticam sem ter trajetória, que tentam justificar a inércia acadêmica e profissional na qual se encontram com argumentos questionáveis, alegando a escassez de recursos, os tempos temerosos que vivemos, as inadequadas condições de trabalho, como se a conquista do paraíso fosse pura mágica. Todos os que participaram deste empreendimento estão de parabéns, sobretudo a comissão organizadora. A Semana de Música da UFCG serviu para que pudéssemos reafirmar nosso compromisso, a força do engajamento e o sentido de pertencimento, que, não obstante os limites impostos pela macroestrutura econômica, política e social, nos faz resistir e valorizar as possibilidades, inspirados pela Canção de Esperança que o advento traz e que, nos versos de Flávia Wenceslau, tece a linha do horizonte e nos ensina que o amor jamais nos deixará.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Um som inconfundível

O maestro Nelson Mathias regeu o Coral da UFPB, Campus II, Campina Grande, entre 1978 e 1982. Formado por cerca de sessenta cantores, o coro ensaiava nas dependências do Núcleo de Extensão Cultural, no Teatro Municipal Severino Cabral, duas horas por dia, de segunda a sexta-feira. A preparação vocal do conjunto estava a cargo da professora Célia Bretanha Junker, cuja ação didático-pedagógica tinha como base os princípios propostos por Madeleine Mansion. A sonoridade era leve e ágil, razão pela qual o grupo dedicou-se à interpretação de várias obras da renascença francesa.

As gravações das apresentações do Coral da UFPB, arquivadas em fitas k-7, em diferentes eventos entre 1978 e 1979, reiteram o que estamos falando. Muito embora parcialmente comprometidos pela ação do tempo, nestes áudios é possível identificar vários elementos. A técnica vocal está em processo de consolidação e há equilíbrio e controle da dinâmica e da articulação. Percebe-se o fraseado musical, bem como o diálogo entre os diferentes naipes. Também é notória a precisão rítmica, que ressalta os aspectos percussivos da nossa música popular, assim como as sutilezas e as entrelinhas dos excelentes arranjos assinados por Arlindo Teixeira, Clóvis Pereira, Damiano Cozzella e o próprio Nelson Mathias.


Célia Bretanha e Nelson Mathias concebiam a música para além dos aspectos técnicos. Para eles, era necessário que os cantores compreendessem poética, filosófica e espiritualmente o que era cantado, a polissemia músico-textual, motivo pelo qual o Coral da UFPB normalmente não se apresentava com partituras, pois, na concepção do seu regente, os cantores deveriam estar livres para ver o maestro e para transmitir com mais liberdade o sentido musical daquilo que se cantava.


O Coral da UFPB, sob a direção desses profissionais, foi premiado em festivais, recebeu o reconhecimento do público e da crítica. A proposta, além de artística e educativa, foi também política. Como atestado em alguns dos relatos coletados na pesquisa que realizamos, repetidas vezes o público surpreendeu-se com a atuação do coro. Mesmo sabendo que o grupo era coordenado por dois expoentes nacionais, frequentemente esperava-se do “Coral da Paraíba” um direcionamento técnico e artístico inconsistente, um repertório predominantemente regional e adornado com o placebo cênico, recurso em voga àquela época e que até hoje continua sendo usado, na maioria das vezes, para mascarar incompetências.
A admiração era proporcional ao preconceito. Por isso, quando o coral interpretava com maestria a literatura de diferentes países, autores e períodos, o silêncio, o encantamento, a curiosidade e o respeito também preenchiam todos os espaços. Os Cantores da Rainha contrariaram expectativas, desconstruíram estereótipos, romperam barreiras. Para conhecer mais sobre essa página da nossa história, ouça o inconfundível som do Coral da UFPB e leia a nossa comunicação no XXII Congresso Nacional da ABEM, realizado em Natal-RN, em 2015.
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com