segunda-feira, 12 de junho de 2017

O canto coral na Paraíba: Tom K

Antônio Carlos Batista Pinto Coelho, mais conhecido como Tom K, nasceu em Recife, Pernambuco, mas há muitos anos adotou a capital paraibana como sua terra natal. Graduado em Violão pela Universidade Federal da Paraíba, tornou-se uma referência no mundo musical por sua atuação como compositor e regente. Foi no final dos anos oitenta que tive o prazer de conhecê-lo, quando ingressei no curso de Licenciatura em Educação Artística, com habilitação em Música, no Campus I da UFPB. Tom K lecionava na graduação e foi um dos meus primeiros professores de Regência. Naqueles anos em João Pessoa, tive a oportunidade de acompanhar o trabalho que desenvolvera com o Madrigal Pedro Santos, indiscutivelmente um dos melhores coros que o estado já teve. Depois, por curto período, fui seu assistente no coral da Fundação Musical Isabel Burity.

Por conta da minha mudança para Teresina, passamos algum tempo afastados. Esse fato foi revertido quando nos reencontramos em Salvador. Na capital baiana, entre 1996 e 1999, fomos colegas no Mestrado em Música, na classe do professor Erick Vasconcelos. Vivemos intensamente aqueles três anos. Convivíamos diariamente na Escola de Música, no Vale do Canela. Caminhamos juntos, subindo e descendo ladeiras, pesquisando e conversando, às vezes em diferentes bibliotecas e salas, quase sempre no nosso apartamento, nos finais de semana. A avenida Princesa Isabel era reduto paraibano, o refúgio no qual eu, Jane, Tom K, Maurílio Rafael e Romério Zeferino, entre garfadas e goles, compartilhávamos nossas experiências, nos sentíamos em família. Há tanto o que contar sobre Tom K em terras soteropolitanas que certamente seria possível escrever um romance.

De modo geral, sua música é alegre, leve, reflete o seu espírito sagaz. O arranjo do Xote das Meninas, por exemplo, cantado mundo afora, eu considero um clássico. Ao longo de todos esses anos, Tom K contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da prática coral em vários campos. Foi ele o responsável pela criação de muitos grupos e também a iniciação e formação de um grande número de regentes na região. Eu, como já disse, orgulhosamente me incluo neste rol. Ele também compôs e arranjou inúmeras obras, propôs aquilo que denomino de repertórios possíveis, com graus de dificuldade variados e que atendem às necessidades de diferentes conjuntos. É por isso que, neste momento, todas as homenagens lhes são pertinentes e justas. Recebe, portanto, maestro-amigo, nosso abraço de gratidão, nosso respeito, nosso reconhecimento por tudo o que você fez, nossos votos de felicidades. Que a aposentadoria seja apenas o início de uma nova fase e que você continue embelezando o mundo com sua música-poética, e prossiga construindo esse legado que incontestavelmente já entrou para a história da música no estado da Paraíba.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Só para amar...

Hoje é um dia especial. Meus pais celebram cinquenta anos de matrimônio. Fazendo as contas por alto, cinco décadas totalizam aproximadamente dezenove mil dias, quase meio milhão de horas vividas por duas pessoas sob o mesmo teto. Numa época em que tudo é acelerado, instantâneo e líquido, esses números parecem uma eternidade.

Se nós pudéssemos projetar o filme da vida de vocês, Francisco e Luzenilde, certamente teríamos motivos para sorrir e chorar, pois a vida de um casal é uma colcha de retalhos formada pela dicotomia sim-não, dor-prazer, palavra-silêncio. A vida a dois não é fácil. Ela é repleta de desafios, limites, possibilidades. Cada um deve preservar a sua essência e aceitar a singularidade do outro. É mais ou menos assim como vocês: enquanto um é do Treze, o outro é do Campinense. Alguém me disse, certa vez, que um casamento só dá certo quando os dois são diferentes, quando há um besta e um sabido. O difícil é definir os papeis de cada um nesse jogo de permutas constantes. Meus vizinhos celebraram bodas de diamante, ano passado. Recentemente, Seu Silvério faleceu. Dona Lourdes perdera o homem da sua vida, o amigo inseparável, o companheiro fiel com o qual conviveu sessenta anos. Certo dia, perguntou-me atônita: e agora, meu filho, com quem eu vou arengar? Ouvimos nossas reticências como resposta.

Esta semana, enquanto dirigia, escutei numa emissora local a canção Foi Deus Quem Fez Você, clássico imortalizado na voz de Amelinha. As emoções vieram à tona evocando as memórias da nossa casa, na Rua das Imbiras, quando ouvíamos música num pequeno aparelho de som, deitados no chão vermelho, escuro e denso como o sangue que corre no coração dos amantes. Naquela hora, pensei em vocês, nas tantas narrativas que escrevemos, na celebração que estava por começar, em todos os membros da nossa família.

Posteriormente, quando eu estava escolhendo o que iria oferecer-lhes para marcar essa data tão significativa, decidi comprar um relógio e um perfume. O seu presente, meu Pai, é para lembrá-lo que o amor, diferentemente do tempo cronológico, não pode ser fatiado, medido, visto que o tempo de quem ama confunde-se com o eterno. É por isso que esses cinquenta anos passaram rapidamente. Vocês nem perceberam e, de repente, já eram pais, avós, viram a casa ficar vazia. Para você, minha Mãe, escolhi um perfume, porque eu acredito que o amor é a fragrância de Deus. Vaporizem-no para que todos sintam o seu odor. Que tudo o que vocês tocarem, nos próximos cinquenta anos, fique impregnado com o aroma do Divino, e que todos nós, tal como Luiz Bandeira, na sua célebre canção, possamos continuar cantando que “foi Deus que fez a gente somente para amar. Só para amar...”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 5 de março de 2017

Academia de Música Santa Cecília

A Academia de Música Santa Cecília (AMSC) é um projeto da Diocese de Campina Grande, realizado em parceria com a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba e a Universidade Federal de Campina Grande por meio de um acordo de cooperação técnica. A AMSC tem como objetivo atuar no campo educativo e artístico, atendendo, inicialmente, alunos entre 8 e 17 anos. A nossa ação tem caráter inclusivo e visa, além dos aspectos técnicos, a integração e a interação entre crianças e adolescentes oriundos de diferentes contextos econômicos, sociais e culturais.

As atividades da AMSC contemplam múltiplas dimensões, dentre as quais o canto coral, a teoria e a flauta doce. Além de estimular a formação profissional e o aprofundamento nestas áreas, pretendemos também sensibilizar e socializar os participantes usando a música como elemento fundamental. As turmas, organizadas por faixa etária, têm entre 10 e 20 alunos, e a carga horária semanal é de 3 horas-aula. Os professores-bolsistas, alunos da graduação em Música da UFCG, ministram aulas e elaboram material didático, tendo a oportunidade de avaliar na prática, e de modo orientado e supervisionado, os resultados das investigações do Grupo de Pesquisa em Regência, Canto e Educação Musical (GREC-CNPq). Em acréscimo aos conteúdos específicos, os alunos da AMSC têm aulas de técnica vocal e interpretam repertório variado, apresentando-se regularmente em distintas localidades. O repertório do Coral da AMSC, por exemplo, contempla tanto música sacra quanto secular, pois queremos que os alunos tenham um amplo leque de oportunidades, expandam seus horizontes perceptivos. Em dezembro do ano passado, o grupo estreou no Mosteiro Santa Clara, durante a realização do Concerto para o Advento, cantando canções originalmente escritas para vozes infanto-juvenis (veja o vídeo).

Para a viabilizar o projeto, várias fontes de financiamento estão sendo estudadas. Os gestores da AMSC têm buscado parceiros, pessoas físicas e jurídicas, que possam contribuir economicamente com a iniciativa, ajudando a manter todas as atividades propostas em andamento. Todo semestre, os alunos são convidados a contribuir com o pagamento da taxa de inscrição, cujo valor é simbólico, dispensando-se aqueles que não dispõem de recursos financeiros. O Parque Tecnológico é o órgão responsável pela captação e gerenciamento do empreendimento.

A AMSC tem coordenação geral do Padre Luciano Guedes; Arlindo Almeida responde pela parte administrativa; eu assino a direção pedagógica e artística. A parceria entre a Catedral Diocesana, o PaqTcPB e a Universidade Federal de Campina Grande alarga as possibilidades para as práticas musicais na Rainha da Borborema, evidencia a relevância desse tipo de ação colaborativa, ratifica a necessidade de expandirmos nossos campos de atuação para além dos muros e paredes institucionais, democratiza o acesso à arte, socializa o conhecimento e o patrimônio cultural de diferentes países e períodos históricos, contribui para a consolidação da cidadania.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Não sei, só sei que foi assim!

No próximo mês de maio, estarei em Nova Iorque, debutando no Carnegie Hall, uma das salas mais famosas dos Estados Unidos. Na ocasião, participarei como convidado da série Distinguished Concerts International New York. Nesta temporada, que inclui grandes nomes do cenário musical norte-americano, sou o único regente brasileiro, fato que muito me honra, uma enorme responsabilidade.

Durante o processo de produção deste concerto, discutimos o repertório, selecionamos os grupos participantes e também a logística do evento. Por conta da relevância da proposta, decidi inserir no programa uma obra brasileira. Foi aí que surgiu a ideia da Missa de Alcaçus, de Danilo Guanais, paulista radicado no Rio Grande do Norte há vários anos. Escrita originalmente em 1996 para celebrar os trinta anos do Madrigal da UFRN, desde a estreia na capital potiguar, sob o comando do maestro André Oliveira, a missa já foi interpretada em diferentes partes do Brasil e no exterior. Eu mesmo já tive a oportunidade de regê-la duas vezes.

Convidei Danilo Guanais para fazer parte do projeto, provocando-o a reescrever a referida composição. Sugeri que nessa nova versão, que celebra os vinte anos do seu lançamento, ele tornasse a obra ainda mais atrativa e acessível. E assim ele procedeu, preservando o texto em latim e os ritmos de dança do Nordeste do Brasil, substituindo a parte do violão e da orquestra de cordas por um piano. Na estreia, contaremos com a participação de quase setenta cantores oriundos do Brasil, da França e dos Estados Unidos. O Coro de Câmara de Campina Grande abraçou o projeto sem hesitação, assim como o Tutti Choir BSB, sob a direção de Daniel Moraes, e o Loiret’s Singers, da França, sob a liderança de Julie Cássia Cavalcante. Regiane Yamaguchi, que integra o quadro docente da Universidade Federal de Campina Grande, será a pianista. O compositor também estará conosco em Nova Iorque, proferindo palestra sobre a música brasileira, acompanhando os ensaios e a performance, testemunhando esse momento ímpar das nossas trajetórias.

Estrear a Missa de Alcaçus, no Carnegie Hall, é celebrar a arte armorial, da qual Danilo Guanais é um dos seus representantes na contemporaneidade. Certamente, o aroma do Nordeste invadirá as ruas de Manhattan e por entre seus arranha-céus ecoarão as vozes e os romances da região de Alcaçus, coletados por Deífilo Gurgel e ressignificados nesta peça, bem como os gestos políticos e poéticos de Ariano Suassuna, que, diga-se de passagem, nunca pediu a bênção ao Tio Sam. Nesta reta final, lembrei-me de Gilberto Gil falando sobre o cosmopolitismo de Campina Grande e Nova Iorque (veja o vídeo) e fiquei pensando que se, algum dia, me perguntarem como tudo isso aconteceu, talvez, tal qual Chicó no Auto da Compadecida, eu diga, entre o riso e o espanto, a fé e a descrença: “Não sei, só sei que foi assim!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 3 de setembro de 2016

Cheiro da Terra

Estive em Aracaju-SE, há poucos dias, participando do I Simpósio de Música Nordestina, organizado pela Universidade Federal de Sergipe, Fundação Cultural de Aracaju e Prefeitura Municipal de Aracaju. O convite foi feito pelo coordenador do evento, Antônio Sérgio Telles das Chagas, campinense que reside naquela capital há mais de três décadas e que também foi meu regente no Coral Cecília Meireles (FACMADRIGAL), nos anos oitenta. Participaram do encontro vários músicos e pesquisadores, oriundos de diferentes localidades, dentre os quais os amigos Poty Fontenelle (Fortaleza-CE) e José Renato Accioly (Recife-PE). Ao longo de três dias, discutimos as várias realidades do Nordeste.

Na mesa de abertura, o foco foi o ensino de música no âmbito universitário. Falei sobre o que temos desenvolvido na Universidade Federal de Campina Grande, enquanto o professor Eduardo Conde Garcia Júnior fez o mesmo no contexto da Universidade Federal de Sergipe. À tarde, o tema foi a música de tradição oral. José Renato Accioly falou sobre o Movimento Armorial, enfatizando a Grande Missa Nordestina, do compositor Clóvis Pereira, obra para solistas, coro e orquestra. Odílio Saminez abordou a música dos Lambe Sujo, da cidade de Laranjeiras. A professora Aglaé D’Ávila Fontes, presidente da FUNCAJU, octogenária ativista cultural que esbanja vitalidade, energia e histórias sobre a cultura popular daquele estado, relatou suas experiências pioneiras no campo da educação musical. Encerramos o dia dançando Samba de Côco com um grupo quilombola.

Silvério Pessoa discutiu o hibridismo em sua produção. Falou do frevo, do maracatu, da infância em Carpina, destacando, com grande emoção e afeto, o primeiro contato que teve com a música de Jackson do Pandeiro e como isso foi determinante para a definição do seu estilo. Profundo conhecedor da obra deste alagoa-grandense, ele tem dedicado parte da sua produção fonográfica para a regravação das obras do Rei do Ritmo, como assim o nomeou Fernando Moura. Poty Fontenelle, que foi arranjador da banda Mastruz Com Leite durante vários anos, discutiu a música numa perspectiva comercial, desmistificando muitos aspectos deste fazer/saber, aproximando o universo acadêmico do mercado de trabalho. Lucas Campelo encerrou as conferências descrevendo a trajetória de Dominguinhos, sua formação e obra.

Neste encontro, o  debate foi acirrado e pautado em cima da dicotomia limite/possibilidade, tradição/modernidade, popular/erudito, licenciatura/bacharelado, a missão poética/profética do educador/artista. Estou certo que todos expandiram seus universos sonoros, ampliaram as formas de percepção de si e dos outros, compreenderam que é preciso respeitar as diferenças e as peculiaridades das práticas musicais da região. Na despedida, guardei na mala e na memória os sabores e o Cheiro da Terra, uma canção de Chiko Queiroga e Antônio Rogério que ressalta as belezas de Aracaju, enquanto fechava a janela do quarto, no hotel defronte à praia de Atalaia, mirando as ondas do mar.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 13 de agosto de 2016

Pensar, agir e cantar como solista

Quando a aprendizagem do repertório coral ocorre apenas por meio da memorização, quase sempre é necessário repassar muitas vezes um mesmo trecho, fato que pode tornar os ensaios morosos, comprometendo o cronograma de atividades do grupo e a interpretação de outras obras. Nesse contexto, a inclusão de uma literatura mais complexa, elaborada e variada, seja sob o ponto de vista melódico, harmônico, rítmico ou textural, é quase sempre descartada, pois não há espaço, e em muitos casos interesse, para tal tipo de abordagem.

A situação é mais ou menos contornada se o conjunto tem integrantes que, muito embora não saibam ler partitura, têm boa memória musical. Em certa medida, eles são a referência para aqueles mais inseguros e assumem o papel de arrimos do naipe. O que parece ser uma solução, a priori, pode, na verdade, ser um problema, sobretudo quando se estabelece uma relação de dependência, viciosa, e o coro não consegue cantar sem tais líderes. Esse quadro se agrava quando esse cantor, consciente da responsabilidade que tem dentro do grupo, se considera insubstituível e passa a agir de forma inconveniente e perigosa, tratando os demais colegas e o regente como reféns dos seus caprichos, vontades e opiniões.

Algumas atitudes contribuem para ratificar esse status. Às vezes, o ensaio não começa enquanto esses indivíduos não chegam. Em outras ocasiões, as apresentações são canceladas porque tais coralistas não podem participar. Quando esse tipo de liderança involuntária ganha notoriedade no âmbito de um grupo e conta com a aquiescência dos seus integrantes, recebendo elogios excessivos e/ou tratamento diferenciado, os prejuízos se revelam a curto, médio e longo prazo. Tal conjuntura fortalece o vedetismo daqueles que se acham imprescindíveis, potencializam reações passionais, esvaziam o sentido sócio-político-cultural-educativo da prática coral.

Memória, ouvido e voz são, indiscutivelmente, atributos necessários para todo e qualquer intérprete. No entanto, como regentes, precisamos trabalhar objetivamente o solfejo e a técnica do canto, explorando o potencial de cada um dos membros do coro, indistintamente, seja num grupo religioso, de empresa ou universitário, de vozes afins ou mistas, adulto ou infanto-juvenil. À semelhança do que ocorre com o entrelaçamento dos sujeitos e contrassujeitos de uma composição polifônica, nossa ação deve favorecer a autonomia, estimular as relações interdependentes, tanto no plano afetivo quanto do saber/fazer musical, evitando, sob todas as perspectivas, os vínculos que criam dependência, relações doentias, o estrelato. Fomentar uma nova forma de atuação, criando mecanismos que assegurem a autossuficiência dos cantores, sem perder de vista, todavia, a coletividade que a prática coral exige, parece ser um caminho viável. Em outros termos, queremos que os nossos coralistas pensem, ajam e cantem como solistas, mas sempre em uníssono.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 31 de julho de 2016

A carta

Janeiro sempre foi um mês alegre. Além do meu aniversário natalício, nesta época recebíamos a visita de Tia Lúcia, a irmã da minha mãe que era freira e morava em Recife. No nosso reencontro, abraços, afetos e A Festa dos Santos Reis, um dos maiores sucessos de Tim Maia, que ela cantava suavemente, com voz de peito. Durante aquele período, com a rotina alterada, o cardápio era variado, especial. As refeições eram mais longas e repletas de novidades, incluindo a tigela com o pirão quente, o queijo do reino envolto na embalagem avermelhada, a Coca-Cola quase congelada. Na cozinha, minha mãe, minha avó e minha Tia dialogavam em contraponto, como os temas de uma fuga barroca. E nós nos deliciávamos com aquelas histórias, repletas de temperos, aromas, ruídos, movimentos ao redor e sobre a mesa. Tia Lúcia orgulhava-se do seu tino comercial: – Eu era criança e já vendia macaíbas para os meus colegas de classe, dizia com os olhos vivos. Religiosa, filha da caridade, rezava no corredor estreito da casa de Vó Nuca, vizinha à carvoaria de Seu Dedé, defronte ao altar onde estavam Maria e a Medalha Milagrosa.

Certo fim de janeiro, quando Tia Lúcia voltou para Recife ao término das férias, eu senti a sua ausência. Como a necessidade é a mãe da invenção, decidi enviar-lhe uma carta. Fui até a Mercearia do Louro, na esquina da Major Belmiro com a Doutor João Moura e comprei algumas folhas, um envelope e um selo. Na cristalinidade do papel meus sentimentos transpareciam. Eu tinha dez anos. Descrevi os vários momentos que passamos juntos, incluindo os nossos passeios, a viagem para João Pessoa, no ônibus da Real, a parada na entrada de Sapé, quando prontamente lhe dissera: – Titia, Café do Vento. É hora do lanche!

O tempo passou. Tia Lúcia sofreu um AVC que a deixou com sequelas na fala. Monossilábica, todas as palavras e frases que conseguia pronunciar eram variações sobre a partícula “tá”. Para entendê-la era necessário avaliar a entonação, o contexto, os gestos. Comentei com Vinicius e Sofia que nessa época eles carinhosamente a apelidaram de “Tia Tatatá”. E nós nos entreolhamos e sorrimos.

Hoje, amanheci assim, com um desejo enorme de mandar notícias novamente para a minha Tia, tal como fizera naquela ocasião, quando a saudade invadiu uma clara manhã, e era verão. Talvez porque hoje, quando comemoramos o seu aniversário de setenta anos, eu queira prestar-lhe uma homenagem, dizer-lhe o quanto nós a amamos. Talvez porque Tia Lúcia, assim como Elizabeth Gilbert, tenha nos ensinado que o bom da vida é comer, amar e rezar. Que a festa comece. Que a sua vida seja plena, feliz. E que eu possa ter a graça de escrever-lhe muitas outras cartas.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)