terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Ciclos

Chegamos ao final de mais um ciclo. É hora de parar, refletir, agradecer e planejar. Para o Coro de Câmara de Campina Grande, este foi mais um período de grandes realizações, fruto de muito esforço, empenho e dedicação.

Na Páscoa, apresentamos o Concerto da Paixão, no Mosteiro Santa Clara; no aniversário da Igreja Congregacional, o Festival dos Salmos e Hinos; na Primeira Igreja Batista, participamos da Noite da Voz. No Festival Internacional de Música de Campina Grande, estreamos a Paixão Segundo Alcaçus, de Danilo Guanais, obra para ator, solistas, coro e orquestra; cantamos em conjunto com o UCO Concert Chorale a première brasileira de Benedicite; no encerramento, juntamente com os demais participantes do evento, interpretamos várias obras, incluindo o hino de Campina Grande, por conta das celebrações do sesquicentenário (http://goo.gl/39vzF2). No segundo semestre vieram os recitais dos primeiros bacharéis em Regência graduados no estado da Paraíba e a participação na série Concertos do Nordeste, promovido pela PRODISC, com patrocínio do Banco do Nordeste e Ministério da Cultura. Voltamos para o Mosteiro, realizamos o quinto Concerto para o Advento e também para a Igreja Batista, tendo em vista o encerramento do Mês da Música. Por último, o Encontro de Coros da ENERGISA e a montagem da Cantata do Sol e da Lua, nas igrejas da região da Serra da Borborema. Para preparar esse eclético repertório, com música sacra e secular, literatura nova e tradicional, interagimos com diferentes músicos, o compositor Danilo Guanais e os maestros André Oliveira, Karl Nelson, Gunnar Silvestre, Jeter Maurício, Ulisses Azevedo, Jeonai Batista e Nelson Mathias. Cantamos em Campina Grande, João Pessoa, Natal e Juazeiro do Norte em igrejas e teatros, desbravando horizontes, selando novas parcerias.

Os projetos já estão definidos para o próximo ano. O maior deles é a turnê francesa que será realizada em abril. Durante uma semana, o grupo participará de um intercâmbio nas cidades de Olivet e Gien, apresentando música brasileira e também a Missa em Sol, de Franz Schubert, que será interpretada em conjunto com alunos e professores dos conservatórios das duas localidades.

Encerramos este ciclo agradecendo aos que contribuíram, de forma direta ou indireta, para a concretização das nossas metas. Iniciamos uma outra etapa com a missão de continuar transformando limites em possibilidades, sonhos em realidade. Que venham, portanto, o novo e seus desafios. Que a fé, a força, a coragem e a ousadia sejam abundantes. Se, por acaso, o temor aparecer, lembremos dos versos da canção Sol, do Jota Quest, que alegremente cantamos no nosso último encontro:  Ei, medo! Eu não te escuto mais. Você não me leva a nada. E se quiser saber pra onde eu vou, pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou…”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Mas o meu pires é de porcelana

Entre 1988 e 1992, estudei na Universidade Federal da Paraíba, Campus I, em João Pessoa. Foi o tempo da Licenciatura em Educação Artística, com habilitação em Música, época na qual também tive aulas de Composição com o professor José Alberto Kaplan, de Piano com Germana Vidal e de Técnica Vocal com Tika Porto. A Flauta Transversa, meu instrumento por mais de dez anos, ficou em segundo plano nesse período. Além dessas atividades, cantava no Coral Universitário da Paraíba “Gazzi de Sá” e também auxiliava o maestro Eli-Eri Moura.

Em 1989, quando Eli-Eri deixou a direção do coro para ingressar no mestrado em Composição na McGill University, no Canadá, assumi temporariamente, ao lado do colega Anderson Florentino, o CORALUP. Era assim que carinhosamente chamávamos o Gazzi de Sá. A tarefa não foi fácil, pois substituir alguém é sempre um grande desafio. E quando se trata de um coro o serviço é ainda mais delicado, especialmente por conta das relações de poder que se estabelecem entre o ex-cantor, agora em posição de liderança, e seus colegas. O certo é que era preciso continuar o trabalho e manter o mesmo nível de excelência do grupo.

O CORALUP havia sido selecionado para participar de um festival em Córdoba, na Argentina. Estávamos empolgadíssimos, com tudo encaminhado, e o maestro havia nos orientado a não alterar os planos, mesmo com a saída dele. Continuamos a peregrinação pelos corredores da universidade, pedindo ajuda para viajar. Precisávamos do transporte, pois lá, na terra do tango, teríamos a hospedagem e a alimentação. Tomamos muito chá de cadeira, acompanhamos o Magnífico em várias solenidades, fomos ignorados e acalentados com promessas vazias. Depois de muita peleja, conseguimos o que queríamos. Viajamos de ônibus. Logo após cruzarmos Alagoas, o ar-condicionado quebrou. Passamos seis dias atravessando o Brasil, no meio do calor, parando para alguns concertos e muitos consertos. Na Argentina, fizemos sucesso com os Respingos, de Eli-Eri Moura e Paulo Leminski. Esse irreverente ciclo foi escrito para solistas, coro e banda, formada por trompete, baixo, teclado e bateria. Entramos para a história daquele tradicional encontro. O brilho dos flashes e o sol de verão não permitiram que a noite chegasse nem que o vento frio dos pampas, que invadia o ônibus por entre as frestas das janelas, congelasse nossos corações na viagem de volta.

Analisando o que vivenciei, percebo que muito pouco ou quase nada mudou. O discurso é o mesmo. Nossas instituições continuam sem recursos claramente definidos para a arte. Ainda prevalece, em muitos casos, a política do balcão, dos favores. Naquela época, estudante e sem trajetória, eu pedia com um pires de plástico à mão. Hoje, continuo pedinte, mendigando à procura de apoio, mas o meu pires é de porcelana.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Beethoven, Schiller e Irmã Dulce

A Sinfonia Nº 9, em Ré menor, Opus 125, de Ludwig van Beethoven, é uma obra de referência dentro da literatura sinfônica. A composição, em quatro movimentos, foi finalizada em 1824 e é singular em vários aspectos, destacando-se, sobretudo, pelo último movimento, escrito, de forma pioneira, para quarteto vocal solista, coro e orquestra. O texto, de Friedrich Schiller, também conhecido como Ode à Alegria, é uma canção de júbilo e esperança, que exalta o amor universal. Esta é uma das sinfonias mais interpretadas nas salas de concertos ao redor do mundo. No Brasil, só neste mês de dezembro, sabe-se que a Nona Sinfonia foi apresentada em várias cidades, incluindo Curitiba, Recife e Salvador.

Em Salvador, tive a oportunidade de atuar como solista na montagem que foi organizada pelo maestro José Maurício Valle Brandão. O empreendimento contou com a participação dos solistas Izadora França (soprano), Vanda Otero (mezzo) e Angelo Dias (barítono); do Madrigal e da Orquestra da UFBA; da Associação Lírica da Bahia (ALBA); e dos músicos que integram os Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (NEOJIBA). Ao todo, foram realizadas duas récitas, sendo uma no Salão Nobre da Reitoria da UFBA e outra no Teatro Castro Alves, ambas com entrada gratuita e público excedente.

Ao longo de uma semana em Salvador, entre ensaios e encontros, interagindo com músicos e plateia, tive a oportunidade de experimentar, mais uma vez, o poder que a música tem de mover as emoções. Essa vivência foi potencializada, provocando catarse, renovando utopias. Ao lado do amigo Angelo Dias, conheci parte do trabalho construído por Irmã Dulce (https://www.irmadulce.org.br). Na visita que fizemos ao complexo hospitalar e ao memorial, localizado na Cidade Baixa, nos arredores do Bonfim, acompanhamos os vários passos de uma trajetória de amor e doação, testemunhamos a história de uma vida dedicada ao próximo, às causas sociais, à construção de um mundo mais humano e fraterno.

Por isso, ressignificamos nossa atuação como intérpretes, extrapolando os limites linguísticos da partitura e do texto poético, dando sentido, como preconiza Keith Swanwick, às nossas experiências musicais. Mais que notas, ritmos e frases, cantamos a vida, compartilhamos sentimentos, vivemos um momento único da condição humana, ignorando as diferenças, sublinhando as equivalências. A obra de Beethoven, o texto de Schiller e o legado de Irmã Dulce são revelações da face mais sublime e divina da nossa existência, do Criador. Os mais de duzentos músicos no palco, incluindo pessoas inseridas em diferentes realidades econômicas, sociais e culturais, motivados pela alegria que a música provoca, reiteraram a força ecumênica dos nossos gestos, ratificaram a premissa de que aquilo que nos une é mais forte que aquilo que nos separa, fizeram toda a diferença nesse Natal.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

*Para os amigos José Maurício Valle Brandão e Angelo Dias.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Cantata do Sol e da Lua

A Cantata do Sol e da Lua é um cordel baseado nas escrituras sagradas e narra a trajetória de Jesus. O texto está dividido em cinco partes, incluindo a anunciação à Maria, o nascimento na estrebaria, a visita dos três reis magos, a fuga para o Egito, as ações de Cristo na Galileia.

As músicas, compostas de forma independente e em períodos distintos, foram concebidas originalmente para coro infantil, em uníssono, com acompanhamento harmônico. Motivado pelos desafios da diretora da escola na qual meu filhos estudavam, comecei a compor canções para os projetos de Natal daquele educandário, sempre numa perspectiva lúdica e didático-pedagógica, explorando variados elementos musicais. Por isso, algumas canções são modais (Maria é a mãe de Jesus de Nazaré e O bercinho) e evocam a ambiência melódico-harmônica do Nordeste, bem como os seus ritmos mais comuns, a exemplo do xote (O burrinho) e do baião (Belém, Belém, blem, blem). Três reizinhos é uma canção pentatônica, enquanto Noite de amor é uma valsa com harmonia jazzística. Jesus nasceu, peça que inaugura o ciclo, é baseada no tema da ária Qui sedes ad dexteram patris, da Missa em Si Menor, de Johann Sebastian Bach. Todas as canções apresentam cômodo âmbito vocal e podem ser transpostas, adequando-se à realidade vocal dos intérpretes, sejam solistas-atores ou um grupo de cantores. Muito embora concebidas para vozes infantis, as obras podem ser interpretadas por adultos, tanto na versão original quanto na versão polifônica, essa última escrita para duas e três vozes com instrumentos (flauta, clarinete, saxofone e percussão).

Ano passado, resolvi agrupar as canções e escrever um texto para unificar a obra, dando origem, assim, a Cantata do Sol e da Lua. Para a montagem inicial, convidei o Grupo Teatro Bodega, que tem se dedicado ao trabalho de contação de histórias, misturando teatro tradicional e de rua com a linguagem dos clowns. As duas atrizes que interpretam o Sol e a Lua recitam, dançam, pulam, correm e interagem com músicos e plateia, criando uma ambiência lírica e ao mesmo tempo recheada de bom humor e irreverência. Além das músicas originais, a trilha incidental inclui temas do pastoril extraídos do Cancioneiro Paraibano. 

Neste espetáculo, o Sol e a Lua recontam a história de Jesus, falando sobre guerra e paz, realidade e utopia, combinando elementos sagrados e seculares, tradicionais e modernos, universais e regionais. A narrativa é dinâmica e as passagens bíblicas são o ponto de partida para reflexões sobre corrupção, consumismo e preconceito. A desafiadora tarefa de falar sobre esse tema fez brotar, ao longo dos séculos, obras variadas, algumas complexas, outras simples, como esta cantata, um jogo dramático vivido intensamente pelos  intérpretes, neste caso o Grupo Teatro Bodega e o Coro de Câmara de Campina Grande.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Refletor

O Refletor, de José Alberto Kaplan, é uma ópera de câmara para solistas, coro e piano, composta entre dezembro de 1987 e junho de 1988, baseada na peça Lux in Tenebris, escrita em 1919 por Bertolt Brecht. Além dos protagonistas, João (tenor) e a Cafetina (soprano), integram o elenco uma Mulher (soprano), a Repórter (mezzo-soprano), o Ajudante (barítono), um Homem (baixo), o Capelão (baixo) e o coro misto e o de vozes femininas. A estreia ocorreu no Teatro Guaíra, em Curitiba, Paraná, no dia 16 de agosto de 1988, tendo sido apresentada posteriormente no Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, no dia 23 de agosto do mesmo ano.

A ópera, divida em três quadros, é ambientada na zona do meretrício. No primeiro quadro, João convida a população para assistir à sua palestra, na qual serão tratados os problemas decorrentes da prostituição, a exemplo das doenças sexualmente transmissíveis. No segundo quadro, a Cafetina fala com João e pede-lhe desculpas por um pequeno mal-entendido ocorrido, anos atrás, quando João, confundido com um baderneiro, fora expulso do bordel. Ele parece aceitar as desculpas da Cafetina, alegando que não guardava rancor. O último quadro inicia com João, que está preocupado com a calmaria da rua, antes tão agitada, e o pouco movimento nos bordeis, que estavam em falência em virtude da luz que ele trouxera àquela região. A Cafetina entra em cena e inicia um longo diálogo com João, mostrando-lhe que os negócios que eles dois gerenciam são, na verdade, as duas faces de uma mesma moeda. O embate entre João e a Cafetina ganha força quando ela diz que João, agindo daquela forma, vai acabar com o bordel e também por fim ao seu negócio de Profeta de Israel. A Cafetina propõe uma parceria e convence João, afirmando que todos os problemas do passado já foram superados.

O Refletor é uma ópera intertextual. Kaplan cita trechos conhecidos de várias obras, dentre as quais Carmem (Bizet), Pompa e Circunstância (Elgar), a Marcha Fúnebre (Chopin), bem como o hino da revolução francesa. Todos esses elementos reforçam o caráter irônico e crítico do enredo, provocando o riso incômodo. A catarse brechtiana evidencia os conflitos éticos e morais da vida social, sobretudo quando o foco são os interesses pessoais, o dinheiro, a religião, o sexo e o poder.

Os resultados da pesquisa inicial sobre essa obra, ainda pouco conhecida do público brasileiro, foram apresentados no XXIV Congresso da ANPPOM sob o título Riso e estranhamento na ópera O Refletor, de José Alberto Kaplan. Recentemente, interpretamos alguns trechos na série de Concertos SESC Partituras (assista ao vídeoveja a partitura). Nossa meta é apresentá-la integralmente, divulgando a nossa produção operística.


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 13 de setembro de 2014

A nova safra de regentes da Paraíba

A Universidade Federal de Campina Grande está colocando no mercado de trabalho os três primeiros Bachareis em Regência formados no estado da Paraíba: Gunnar Silvestre, Jeter Maurício e Ulisses Azevedo. Tive a oportunidade de acompanhá-los ao longo dos últimos quatro anos, pois foram meus alunos em diversas disciplinas e integrantes do Coro de Câmara de Campina Grande. Nesta caminhada, eles vivenciaram intensamente, de forma teórica e prática, as várias etapas do contínuo processo de formação da profissão que abraçaram. Como de praxe, para concluir o curso, cada um desenvolveu um projeto de pesquisa e apresentou um recital.

Gunnar Silvestre trabalhou com a obra do compositor paraibano Reginaldo Carvalho, que tem sido tema dos nossos estudos nos últimos anos. Juntos, analisamos As Flô de Puxinanã e A Cacimba, ambas com poema de Zé da Luz, nascido em Itabaiana. Focamos na relação música e texto, nas diferentes formas que o compositor usou para realçar os aspectos irônicos e satíricos da narrativa, o dito e o não-dito, o conflito entre tradição e modernidade. No concerto, no Museu Assis Chateaubriand, da UEPB, obras sacras e seculares, que nos permitiram viajar de Guarabira à Paris com e pela música de Reginaldo Carvalho.

Jeter Maurício investigou as atividades desenvolvidas no Coral da UFPB, Campus II, entre 1978 e 1982, período no qual o grupo estava sob a coordenação do maestro Nelson Mathias e da professora Célia Bretanha. Fundamentados nos pressupostos metodológicos da Nova História Cultural, realizamos entrevistas, analisamos documentos, fotos e programas no intuito de compreender, sob a perspectiva sócio-educativa-cultural, o trabalho realizado àquela época. No concerto, obras do repertório interpretado pelo Coral da UFPB, incluindo música da renascença, clássica, contemporânea e popular brasileira. Para ver de perto os resultados, convidamos Nelson Mathias e Célia Bretanha para acompanhar e participar do recital.

Ulisses Azevedo adentrou pelo universo da música coral sacra, analisando o trabalho de Nabor Nunes, outro paraibano de Itabaiana, que deixou vasto conjunto de obras para diferentes formações instrumentais e vocais. Por meio das entrevistas realizadas na capital paulista, onde ele viveu e trabalhou durante muitos anos, várias informações e documentos foram coletados, incluindo fotos, partituras, depoimentos de familiares, material importante para que pudéssemos realizar uma pesquisa inédita sobre esse compositor tão profícuo, mas ainda tão pouco conhecido. Além do famoso Pai-Nosso Sertanejo, Nabor Nunes escreveu muitas obras baseadas na música de tradição oral do Brasil, trabalho realizado em sintonia com os princípios da Teologia da Libertação. No recital, realizado na Primeira Igreja Batista, incluímos uma seleção das peças mais representativas do compositor. Parabéns à nova safra de regentes do estado da Paraíba. E que venham, portanto, novos desafios.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Técnica vocal e movimento corporal

O corpo em movimento: um estudo do gesto aplicado à técnica vocal é o título do trabalho apresentado, em conjunto com Merlia Helen Faustino da Silva, no Congresso da Associação Nacional de Pesquisa em Música (ANPPOM), realizado em São Paulo, capital, este ano. O artigo completo está disponível para download gratuito nos Anais do evento (http://goo.gl/oy7Hdh).

A pesquisa discute a relação entre movimento e som e teve como objetivo criar subsídios teóricos auxiliares à atuação dos regentes no trabalho de técnica vocal com coros. A primeira etapa abordou a fisiologia do movimento, o alongamento, o relaxamento e o aquecimento corporal e vocal. A segunda descreveu e analisou alguns exercícios que combinam som e movimento, fundamentado em autores como James Jordan, Henry Leck e Randy Stenson. Percebeu-se que há na literatura especializada uma forte preocupação com as diferentes fases de preparação do cantor, incluindo o aquecimento, o alongamento, o relaxamento e a realização de exercícios vocais que favoreçam uma atuação eficaz do intérprete. Muito embora as opiniões sejam divergentes quanto aos procedimentos, sequência e quantidade de exercícios usados para tal finalidade, vários autores convergem para a necessidade de desenvolver um amplo programa de treinamento baseado na estreita relação entre mente e corpo, tendo como objetivo a ampliação do repertório gestual do cantor, permitindo desta forma, uma atuação mais fluente, espontânea e, consequentemente, mais expressiva.

A combinação entre gestos e sons enriquece a prática musical, fazendo com que os cantores percebam as sutilezas do discurso musical, a importância de determinadas notas, acordes, frases, elementos textuais. Henry Leck, por exemplo, acredita que a inclusão dos gestos nas atividades de técnica vocal contribui para o aprimoramento da prática coral, baseado nos resultados obtidos em seus coros. Para ele, a fusão do som com o movimento corporal faz com que os cantores se expressaram mais livremente, tendo maior controle sobre a entonação, a homogeneidade, o ritmo, a dinâmica e a articulação. Além disso, cria um maior nível de comunicação entre os cantores, público e regente, promovendo uma grande experiência musical para todos os envolvidos.

A recorrência sistemática às metáforas e outras imagens estimula a exploração de diferentes sonoridades, evoca sensações específicas. A associação dos exercícios de aquecimento com os elementos propostos por Laban (peso, espaço, tempo fluência) contribui para tal finalidade, educando a inteligência musical e sinestésica. Para ver a aplicação prática da associação entre som e movimento, sugiro assistir alguns vídeos (http://goo.gl/iEsVYN e http://goo.gl/N8CsDd). O St. Mary’s International School Show Choir, regido por Randy Stenson, é conhecido por suas performances que combinam música e movimento (http://goo.gl/NtnDgu). A compreensão destes princípios está em consonância com a visão de música como uma forma de discurso impregnada de metáfora, conforme explica Keith Swanwick.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)