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We love you, Gary!

  • Foto do escritor: Vladimir Silva
    Vladimir Silva
  • 25 de jul.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 26 de jul.

(English version below)


Há pessoas que atravessam a nossa vida e permanecem. O doutorado, muito mais do que um título, me deu o privilégio de construir amizades que resistiram ao tempo, às distâncias e às mudanças da vida. Uma das mais preciosas foi a de Gary Packwood. Eu o conheci em janeiro de 2001, quando cheguei à Louisiana State University. Aos poucos, entre aulas, ensaios, concertos e longas conversas, a convivência acadêmica transformou-se em uma amizade que seguiria viva por mais de duas décadas.


Um dos dias mais marcantes da nossa caminhada foi quando Dr. Fulton entrou na sala para nos dizer que não haveria aula. Gary havia sofrido um grave acidente automobilístico que resultou na perda do braço direito. O silêncio tomou conta de todos. Durante dias acompanhamos, apreensivos, as notícias sobre sua recuperação. Poucas semanas depois, porém, ele voltou. Ali ele iniciava um dos recomeços mais extraordinários que já testemunhei. Gary jamais permitiu que a tragédia definisse sua existência. Reaprendeu as tarefas mais simples do cotidiano com serenidade e coragem, sempre acompanhado por um sorriso sincero e uma alegria que parecia desafiar qualquer adversidade. Com o tempo, a ausência do braço deixou de ser percebida e a música continuava inteira, porque sua verdadeira força nunca esteve nas mãos, mas no coração. Seus gestos reinventados permaneciam expressivos, e seu olhar transmitia uma rara combinação de energia, sensibilidade e esperança.


Depois que encerramos nossa temporada em Baton Rouge, seguimos nos encontrando em diferentes cidades e estados dos Estados Unidos, sempre reunidos pela música. Gary estava na plateia do Carnegie Hall quando apresentamos a Missa de Alcaçus, de Danilo Guanais, em 2017, e também veio diversas vezes ao Brasil, ministrando aulas, regendo e cantando em Teresina, João Pessoa e Campina Grande. No Festival Internacional de Música de Campina Grande, ofereceu bolsas de estudos a nossos alunos e foi decisivo para que o Coro de Câmara de Campina Grande realizasse sua primeira turnê internacional, pelos estados do Mississippi, Louisiana e Texas. Seu legado permanece vivo em cada estudante que encontrou novos horizontes graças à sua generosidade.


Nos últimos anos, a vida lhe impôs desafios gigantescos. Problemas diversos o afastaram dos palcos e da sala de aula, numa tentativa de diminuir um pouco do brilho que sempre irradiou, e eu percebi isso quando o visitei, em 2024 e novamente em 2025, na Louisiana. Passamos dias conversando, rindo, cuidando da sua casa no Garden District e lembrando histórias que somente velhos amigos compartilham. Falamos sobre música, sobre o futuro e sobre a vida, tentando afastar, ainda que por alguns instantes, a sombra discreta da tristeza que às vezes insistia em aparecer sobre sua face. Hoje permanece a dor da despedida, mas ela é menor do que a gratidão por tudo o que você foi. Sua história nunca será lembrada pela perda de um braço, mas pela grandeza de um espírito que transformou dificuldades em possibilidades e fez da música uma forma de amar o mundo. Algumas pessoas deixam obras, enquanto outras deixam caminhos. Você deixou ambos. Que Deus o receba em Sua infinita paz. E que a música que sempre habitou seu coração continue ecoando na memória de todos aqueles que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado.


We love you, Gary!


Vladimir Silva




We love you, Gary!


Some people come into our lives and never truly leave. My doctoral years gave me far more than a degree. They gave me lifelong friendships that endured through time, distance, and life's many changes. One of the greatest of those friendships was with Gary Packwood. I met Gary in January 2001, when I arrived at Louisiana State University. Through classes, rehearsals, concerts, and countless conversations, what began as an academic acquaintance gradually became a friendship that would span more than two decades.


One of the most unforgettable days of that journey came when Dr. Fulton walked into class to tell us there would be no rehearsal that day. Gary had been involved in a devastating car accident and had lost his right arm. The room fell silent. For days, we anxiously followed every update about his condition. Then, only a few weeks later, he returned. It was the beginning of one of the most extraordinary demonstrations of resilience I have ever witnessed. Gary refused to let tragedy define him. He patiently relearned the simplest tasks of everyday life with quiet determination, remarkable grace, and an unfailing smile. His joy seemed stronger than his suffering. Before long, the absence of his arm no longer mattered. The music was still there because it had never come from his hands alone. It came from his heart. His conducting gestures, reimagined and transformed, remained expressive and inspiring. His eyes carried a rare combination of strength, kindness, and hope that touched everyone around him.


After our years in Baton Rouge came to an end, our paths continued to cross in different cities and states across the United States, always because of music. Gary was in the audience at Carnegie Hall when we performed Danilo Guanais's Missa de Alcaçus in 2017. He also traveled to Brazil several times to teach, conduct, and sing in Teresina, João Pessoa, and Campina Grande. At the Campina Grande International Music Festival, he left an extraordinary legacy. He offered scholarships to our students and helped make the Campina Grande Chamber Choir's first international tour possible, taking the ensemble through Mississippi, Louisiana, and Texas. His generosity opened doors and changed the lives of countless young musicians.


In recent years, however, life placed new burdens on his shoulders. A series of personal struggles gradually drew him away from the stage and the classroom, dimming some of the light that had always surrounded him. I could see it when I visited him in Louisiana in 2024 and again in 2025. We spent days talking, laughing, repairing his house in the Garden District, and remembering stories that only lifelong friends can share. We talked about music, about the future, and about life itself, hoping to push back the quiet sadness that would sometimes find its way into our conversations. Today, there is sorrow in saying goodbye, but there is even greater gratitude for having shared part of life's journey with you. You will never be remembered for the arm you lost, but for the heart you never lost, for the generosity, resilience, and love you poured into music and into the lives of everyone fortunate enough to know you. Some people leave behind achievements; others leave behind a legacy. You left both. May God welcome you into His eternal peace. And may the music that always lived within you continue to echo in the hearts of all of us who had the privilege of calling you our friend.


We love you, Gary!


Vladimir Silva





 
 
 

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