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  • Foto do escritorVladimir Silva

Janequin e Marot

Atualizado: 18 de jan.

A relação entre música e texto sempre teve um papel fundamental dentro do processo criativo. Os compositores seiscentistas exploraram os aspectos expressivos e a potencialidade do poema para representar e suscitar emoções e sentimentos. Tais princípios foram aplicados a diversas formas de composição, incluindo a chanson.


A obra de Clément Janequin (1485-1558) é extensa e ele escreveu música sacra e secular, rica em onomatopeias e simbolismo musical. Em canções como La guerreLe chant des oyseauxLe cris de ParisLe caquet des femmes e La chasse, por exemplo, ele emprega figuras retóricas como a hypotypose, que potencializa a descrição poético-musical. Clément Marot (1496-1544), por sua vez, debocha da tradição, das práticas sexuais, das mulheres e dos homens traídos usando formas fixas, rondós, epigramas e blasons, forma na qual o poeta foca em um detalhe anatômico do corpo feminino e desenvolve seu elogio com um meticuloso jogo de palavras. Estudos indicam que ele teve mais de trezentos versos musicados por cinquenta compositores diferentes, dentre os quais Clément Janequin.


Da parceria entre Janequin e Marot nasceram obras singulares da literatura coral, tais como L’espoux a la première nuictMartin menoit son porceauDu beau tétin e Ung jour Robin, todas com forte apelo erótico. É interessante notar como a poesia narrativa contribuiu para a definição da canção polifônico-descritiva seiscentista e, mais particularmente, para a definição do estilo de Janequin. Em Martin menoit son porceau, por exemplo, o perfil melódico-rítmico, os contrastes na textura, a mudança tímbrica e as passagens declamatórias estão diretamente associadas ao texto, pontuando a fala das personagens, realçando aspectos semânticos importantes. O poema, com tradução de Eustáquio Rangel, apresenta-se assim: “Martin levava seu porco ao mercado com Alix, que lhe suplicava a plenos pulmões para que ele a possuísse. Estavam um sobre o outro, e Martin perguntou-lhe: ‘Mas quem ficará com nosso porco? – Quem?, perguntou Alix. Há uma solução!’ Enquanto o porco estava com as pernas amarradas, Martin abriu ostentosamente a braguilha. O porco assustou-se, e Alix gritou: ‘Fecha, Martin, nosso porco está me puxando!” Para perceber os diferentes sentidos do texto, ouça a interpretação do Ensemble Clement Janequin.


Janequin é considerado por muitos historiadores o grande nome da chanson parisienne. Sua música secular é satírica, erótica, carnavalesca, marcada pelo riso, que, como aponta José Luiz Fiorin, “dessacraliza e relativiza as coisas sérias, as verdades estabelecidas, e que é dirigido aos poderosos, ao que é considerado superior.” Janequin contribuiu para o estabelecimento de uma nova práxis composicional, optando pelo experimentalismo, pela construção de novas formas, pela instauração de um novo discurso. A (re) inserção destas obras emblemáticas em nossos repertórios exigirá dos intérpretes, além do apurado domínio técnico, musical e vocal, uma escuta mais atenta à filosofia geral do Humanismo e da vida.


Vladimir Silva



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