domingo, 3 de maio de 2020

Um episódio com Reginaldo Carvalho

Há mais de vinte anos, pesquiso a obra de Reginaldo Carvalho. Neste tempo, além de catalogar, analisar e editar suas composições, interpretei-as com diferentes coros e grupos, no Brasil e exterior. Com o Madrigal da UFPI, cantamos música sacra e secular, incluindo motetos e arranjos de canções tradicionais, em vários eventos artísticos e culturais.

Costumeiramente, convidava o amigo paraibano para assistir aos nossos concertos, mas ele resistia, desculpava-se e nunca ia. No dia em que fomos cantar em Campo Maior, que fica nos arredores de Teresina, ele nos surpreendeu, aceitou a proposta e foi ao nosso encontro na terra da carne de sol. Ao chegar, comentou: “Nego Velho (era assim que às vezes tratava os mais próximos)­, estou aqui e vou prestigiar o seu trabalho.” A minha alegria foi enorme. Aliás, a do grupo igualmente, que, já sentindo o peso da responsabilidade, encontrou uma motivação, animou-se para a cantoria daquela noite.

Antes de começar a apresentação na Catedral de Santo Antônio, falei um pouco do repertório. Como parte das peças eram do guarabirense, fiz menção ao seu nome, contei um pouco da sua trajetória e pedi ao público que o acolhesse com palmas. Entretanto, eu esqueci de um detalhe: Reginaldo Carvalho era muito tímido e fugia das homenagens, sobretudo quando ele era o foco. Pois bem. Enquanto a plateia o aplaudia calorosamente, eu apontava em direção ao último banco da igreja, no qual estava sentado, a fim de que todos o reconhecessem. Ele, com a maior naturalidade, virou a cabeça para trás, como se também estivesse à procura do ilustre homenageado, deixando-nos, digamos assim, no vácuo. Como ele não se levantou ou sequer acenou para os curiosos campo-maiorenses, ninguém ficou sabendo, afinal, quem era a figura em destaque. Sorrindo sem graça e sem mais delongas, seguimos.

Na primeira parte do programa, duas peças de sua autoria: As sete palavras da oração dominical e Ave-Maria. Essas obras primas da literatura coral brasileira ecoaram naquele espaço sagrado e que tem acústica generosa. Ao término do concerto, cumprimentou-nos e disse que iria me entregar a versão correta da prece mariana. Dias depois, recebi outra edição que era, na verdade, uma transcrição da nossa performance. Ele observou criteriosamente o fraseado, as variações de intensidade e agógica, registrando tudo nesse novo documento. Ao me entregá-lo, acrescentou:  Essa é a partitura. Cante do jeito que está aí! E eu sorri, porque sabia que, de forma discreta e sofisticada, ele estava aprovando a nossa interpretação, que prezava pela fluxão do texto, a exatidão prosódico-musical. Como me dissera em entrevista, “me dá uma satisfação enorme ouvir uma cantoria com a prosódia musical totalmente bem aplicada e compreendida.” Este é só um dos muitos episódios que tenho para contar sobre Reginaldo Carvalho.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

Um comentário:

Ralmon disse...

Show, Bom demais!

Postar um comentário