domingo, 10 de maio de 2020

Por uma péinha de nada (ou A aventura de Ramon em NY)

Em 2017, debutei no Carnegie Hall regendo a première da Missa de Alcaçus, de Danilo Guanais, para solistas, coro, piano e percussão. O processo de arrecadação dos recursos, a preparação dos cantores, tudo, de modo geral, foi desafiador e fascinante. Formamos um grande grupo, incluindo gente do Brasil, França e Estados Unidos.

Ao todo, passamos uma semana em Nova Iorque. O cronograma incluiu ensaios, concertos e lazer, atividades que foram desenvolvidas individual e conjuntamente. Cada um teve tempo livre para visitar os locais que queria, fazer compras, andar pela Broadway, Central Park, Times Square, a Catedral de St. Patrick e o monumento em homenagem às vítimas do Onze de Setembro. Com sol ou com lua, a pé, usando metrô, trem ou táxi, todos aproveitaram ao máximo aquela cidade em constante movimento e que parece não dormir. Os mais preparados levaram um roteiro detalhado, como foi o caso do nosso percussionista.

Ramon Almeida, aluno da UFCG naquela época, é pianista, arranjador, produtor, tem um estúdio, enfim, é um músico multimídia, desses que topa qualquer parada. A maior prova é que ele participou do projeto como zabumbeiro. A proposta não era simples, porque era a estreia de uma peça de um compositor premiado, naquele templo, com um coral formado por aproximadamente setenta pessoas de distintas nacionalidades, para uma sala lotada, tocando um instrumento solista, parte fundamental nas passagens mais rítmicas e dançadas da obra. Ele não se intimidou, preparou-se e, além de nos acompanhar, apresentou-se com sucesso em vários bares de Manhattan, dentre os quais o Harlem Coffee Jazz e o Blue Note.

Nós voltamos, mas Ramon continuou por lá. Seu regresso aconteceria no domingo seguinte, em torno da meia-noite. Acostumado à rotina, esqueceu-se de que o tráfego dos trens era restrito naqueles dias e horários. Aperreado, correu em direção ao JFK com a sensação de que algo iria dar errado, como, de fato, deu. Ele perdeu o voo. Passou a noite e o dia tentando remarcar o bilhete, que custaria o dobro daquilo que já havia pago. Sem dinheiro suficiente, em vão dialogou com diferentes agentes. Contudo, alguém na fila ouviu a sua história e o reconheceu. Era um brasileiro que ele havia encontrado nos clubes por onde passara. Enquanto conversava com essa pessoa na fila do check-in, já exausto física e emocionalmente e quase perdendo as esperanças, o inesperado (ou seria um milagre?) aconteceu. Uma das atendentes, devidamente autorizada pelos superiores, o chamou e ofereceu-lhe, comovida e com um discreto sorriso, uma passagem de cortesia de volta para casa. Ramon transfigurou-se, indo do pranto ao espanto, e ao receber o novo voucher, feliz exclamou: — Eita... E é na primeira classe! (Ufa, essa foi por uma péinha de nada – grifos nossos.)

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

6 comentários:

Ralmon disse...

Bom demais, Prof!

Vladimir Silva disse...

Grande Ralmon. Veja você o que aconteceu com o seu quase xará! Abraço e obrigado por ler e comentar.

Nana Siqueira disse...

Nao Conhecia essa historia!!! Hilaria, desesperadora e emocionante!! Ufa!

Sílvia Raposo disse...

Essa história é maravilhosa... Kkkkkkkkk... Lembro muito bem de quando ela foi contada, na nossa saudosa sala 10. Eu ri muito e fiquei bestinha com o "milagre". ������

Liliane Amorim disse...

Gente do céu?! Ele tem o santo forte né?! Tô rindo aqui porque não foi comigo; mas tô boba com o "milagre".

Ralmon disse...

Foi por uma "péinha de nada."

Postar um comentário