quarta-feira, 13 de maio de 2020

A festa das lanternas

Treze de Maio. Amanheci ouvindo o tema do filme Em algum lugar do passado, de Rachmaninov, embalado pela lembrança da minha avó materna, essa mulher forte e determinada, a matriarca admirada pelo povo do gueto das Imbiras, local onde viveu até o fim dos seus dias, ali, às margens do Açude Novo. Maria Luiza ficou viúva jovem demais e criou os onze filhos praticamente sozinha. Se hoje essa tarefa ainda é desafiadora, imagina naquela época, antes das conquistas feministas e das revoluções que mudaram o mundo.

Os percalços que ela superou estão intrinsicamente ligados a sua fé. Eu já tratei desse assunto no texto Obrigado, Dona Nuca, e peço licença para sintetizá-lo. Minha avó era católica, devota de Nossa Senhora e todo mês de maio celebrava o milagre de Fátima com uma trezena. Nesse período, rezava o terço em sua casa, por volta da hora do ângelus. Eu chegava da escola e ia correndo ao seu encontro, porque me sentia acolhido e adorava ouvir a sua voz tenra entoando as melodias marianas. Tudo era simples, vivo e intenso, como a chama da pequena vela sob a mesa-altar improvisado e que dissipava as sombras da noite que se aproximava.

Na prática corrente da igreja, quando se reza o terço deve-se observar o dia da semana, visto que cada um tem seu próprio ethos. Segundas e sábados, por exemplo, são dedicados aos mistérios da alegria, os chamados gozosos; terças e sextas, aos da dor; quartas e domingos, aos da glória; a quinta, por fim, aos da luz. Eu não sei se ela sabia daquele protocolo e se, mesmo sabendo, o seguia rigorosamente, tendo em vista que era muito pragmática. O certo é que ela puxava a primeira parte do Pai-Nosso e da Ave-Maria, enquanto nós recitávamos a segunda metade. Entre uma dezena e outra, uma pequena pausa para reflexão, oportunidade na qual ela nos pedia para revelarmos silenciosamente os desejos do nosso coração, as graças que esperávamos alcançar. A culminância da festa era na data de hoje, ocasião na qual uma multidão, em procissão e carregando as lanternas artesanais que ela cuidadosamente confeccionara, iluminava a rua cantando a aparição na Cova da Iria, que já tive a oportunidade de visitar algumas vezes em Portugal.

Porque somos um espelho que reflete o mosaico das memórias, fui invadido por uma lufa de saudade e afeto nesses dias de reencontro comigo mesmo e todos aqueles que me constituem e definem. Vovó, a inesquecível, está inserida nesse seleto rol e, na sua singularidade, ensinou-me sobre a mística do amor que alimenta essa relação pessoal, íntima e intransponível com o divino, para além dos templos e denominações, e que é representado pelo sagrado feminino das muitas Mães-Marias que povoam o meu (in) consciente-coração (ver vídeo).

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

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