sábado, 30 de maio de 2020

É melhor saber tudo do que não saber nada

Monsenhor Pedro Ferreira da Costa, docente aposentado da UFRN, é uma figura importante no cenário regional, tendo sido responsável pela formação de um considerável número de regentes e coros no estado do Rio Grande do Norte. Além de músico, é aviador, mecânico, filósofo e quase-dentista, que o diga Tom K (eu vou contar essa aventura outro dia).

Conheci-o nos Paineis FUNARTE de Regência Coral, eventos nos quais frequentemente ele participava ministrando oficinas. Posteriormente, tive a oportunidade de conviver ao seu lado durante o Mestrado em Música, na Universidade Federal da Bahia, ocasião na qual ele lecionou algumas disciplinas para a nossa turma. Entre conteúdos e ensaios, contou-nos muitas histórias. Uma das narrativas mais interessantes foi sobre o seu período no Seminário. Disse-nos, com aquela gesticulação que lhe é bem peculiar, que o grego era obrigatório e que os seminaristas detestavam-no, alegando, dentre outros motivos, a falta de sincronia com as necessidades e imposições teológicas daquele tempo-povo-lugar. Desse modo, os colegas reuniram-se e decidiram questionar a possibilidade de mudança na grade curricular. Como ele era falante e sentava-se na primeira fila, sendo também o único ruivo da sala, disse-nos que fora o escolhido para a desafiadora tarefa de enfrentar o mestre que lecionava tal matéria. Pois bem. No dia combinado, o estudante pediu a palavra, dirigindo-se ao reverendo Theos (théos, em grego, quer dizer Deus), uma criatura alta, com aparência bastante austera, que ouvia seus argumentos entre a inclemência e a compaixão, com cara de peixe, que ninguém sabe quando ri ou chora. O acertado era que os colegas também entrariam no embate, fato que definitivamente não ocorreu. Ele brigou sozinho contra aquele moinho de vento, à semelhança de Quixote, e foi vencido.

Anos depois, Pedro concorreu a uma vaga como radialista numa conhecida emissora da capital cearense. O teste era simples. Primeiro, avaliaram a forma como ele apresentava as notícias. Segundo, para observar a sua capacidade de improvisação, mostraram-lhe várias fotos de um acidente automobilístico, material a partir do qual ele elaborou uma narrativa irretocável, com detalhes hollywoodianos. Por fim, solicitaram-lhe que recitasse algo memorizado e que pudesse ser um desafio do ponto de vista da dicção. Recorreu, então, aos versos Brekeke kex, koax-koaxda comédia As rãs, clássico de Aristófanes, que havia decorado naquelas inesquecíveis aulas. Sua performance, marcada pela pronúncia reconstruída desta língua milenar, foi fenomenal, imbatível, e ele ganhou o emprego.

Passado o momento de estresse, e com o coração agradecido, lembrou-se do experiente professor que, no dia daquela frustrada tentativa de enfrentamento, sabiamente o aconselhou, dizendo: — Αγαπητέ μαθητή, Είναι καλύτερο να γνωρίζεις οτιδήποτε, παρά να μην γνωρίζεις τίποτα. (Caro aluno, é melhor saber tudo do que não saber nada.) É isso: porque as parábolas nos ensinam, “quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Toré dos Caboclos e dos Mestres

Toré dos Caboclos e dos Mestres, de Antônio Carlos Batista Pinto Coelho (Tom K), é dedicado a Pedro Santos. A obra, escrita para coro a cappella em 1996, é inspirada num ritual de culto da jurema, realizado na cidade de Alhandra-PB, e que reúne vários caboclos, entre iniciantes e iniciados, e vários mestres, que detêm o conhecimento do ritual, que vai desde os cantos de chamamentos, momento em que os caboclos baixam no terreiro e os mestres incorporam, até os momentos de cura e bênçãos. Neste rito, bebe-se um vinho feito da planta jurema, que também é uma cabocla e uma região encantada do espaço.

Sob a perspectiva musical, o Toré está organizado em nove seções, assim dispostas: 1) Já vem abrindo os caminhos; 2) Salve a jurema na terra; 3) Arreia Caboclo; 4) Na jurema tem; 5) Interlúdio modulante; 6) Coda; 7) Oh! Jurema preta; 8) Mamãe Totonha; e 9) Sultão das matas. A peça começa e termina em Fá maior, indo para Dó maior e, depois, Sol maior, no sétimo e oitavo movimentos, respectivamente. Os cânticos utilizados como base composicional foram recolhidos por um antropólogo francês, Renné Vandézane, e foram transcritos para partitura pelo professor Reginaldo Salvador de Alcântara. O compositor, ao falar da sua criação, assim diz: “Eu usei uma parte dos cantos e os trabalhei na forma de um culto com a saudação inicial, o chamamento dos caboclos, a chegada dos caboclos, a cura e a benção. Eu termino com o ponto dos caboclos, sultão das matas, que não pertence ao culto da Jurema. Trabalho com ritmos e melodias originais; uso harmonias simples e a forma responsorial e antifonal; na partitura não consta dinâmica nem agógica nem indicação de andamentos, mas, quando ensaio, uso tudo que tenho direito, contudo eu sempre espero uma parceria com o intérprete, não apenas nessa obra mas em quase tudo que faço!”


Toré é vívido e dançante. As eventuais divisões nos naipes, assim como as passagens cromáticas, reiteram os aspectos expressivos e simbólicos da narrativa músico-textual. Tom K, nesta composição, trata de dois elementos sagrados, o toré e a jurema, marcadores nativos que indicam, afirmam e delimitam a presença indígena na sociedade brasileira, conforme afirma o pesquisador Rodrigo de Azeredo Grünewald.

Recentemente, participei com José Maurício Valle Brandão (UFBA) do V Simpósio Internacional de Investigação em Arte, cujo tema foi o Diálogo Intercultural e Ecumênico Através da Arte, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro (UTAD), em Portugal. Na ocasião, discutimos vários aspectos do toré na literatura coral brasileira (livro artigo), destacando a peça de Tom K, que nos autorizou a divulgar a partitura (PDF) e o áudio da gravação que ele fez com o Coro de Câmara Villa-Lobos, de João Pessoa, em 1998 (veja).

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Cantando spirituals

Ao redor do mundo, coros amadores e profissionais cantam spirituals. Compositores como William Dawson, Moses Hogan, Rollo Dilworth e Stacey Gibbs, para citar apenas alguns, arranjaram sucessos internacionais como Soon Ah Will Be Done, The Battle of Jericho, Elijah Rock e Rock’a My Soul. Seja a cappella ou com piano, em andamento lento ou rápido, com caráter reflexivo ou dançante, a interpretação dessas peças exige uma compreensão que vai além dos dados contidos na partitura.

O entendimento da linguagem figurada ajuda na definição do ethos, do tempo, da sonoridade e da concepção de cada peça. O simbolismo associado à água, por exemplo, é explorado recorrentemente nesse modelo de literatura. Logo, a referência à travessia dos rios Jordão ou Mississippi, mais do que uma caminhada em direção ao paraíso, representando a passagem da vida terrena para a eterna, poderia também ser um símbolo da transição entre o regime escravocrata e o abolicionista, numa provável alusão aos estados do norte que, diferentemente daqueles mais ao sul dos EUA, eram contrários à escravidão.

No que concerne à performance, certos grupos têm interpretado esse repertório numa perspectiva historicamente informada, com um inglês estilizado, que tenta reconstruir a pronúncia das nações africanas que participaram do processo de colonização da América do Norte, evitando estereótipos, como no auge do blackface minstrelsy. Por isso, a prática tem sido cantar o fonema 
th como “d” (than = dan; with = wid) ou “f” (mouth = mouf), dependendo da posição no vocábulo. O “r” final e pós-vocálico é praticamente inaudível (Summer = summah; Lord = lawd; your = yo). Há ainda um certo tipo de apócope, no meio da palavra, que objetiva simplificar e permitir ajustes rítmico-textuais, a exemplo do substantivo céu, que, nesses casos, é grafado de modo distinto àquele que consta nos dicionários (Heaven = hev’en). O artigo definido the pode ser cantado de duas formas, isto é, “dee”, antes dos sons vocálicos, e “duh”, precedendo os sons consonantais. Essa espécie de abordagem tem alimentado o debate sobre apropriação cultural. Ademais, porque intrinsecamente associadas à história dos negros escravizados nos Estados Unidos, essas canções espirituais, herança dos povos africanos e afro-norte-americanos, ainda hoje suscitam a discussão em torno do racismo, tema controverso em muitas sociedades, incluindo a estadunidense. Então, para ampliar os estudos, anexo uma lista com artigos e livros que tratam do tema (PDF).

Penso que para cantar spirituals, assim como a literatura sacra afro-brasileira, deve-se extrapolar o aspecto musical. É necessário posicionar-se crítica e reflexivamente, numa perspectiva mística e dialética, que aborde as identidades negras das diásporas e contemple a análise estrutural e discursiva, abrangendo a teia econômica, política e cultural em conexão com a obra em foco, no contexto da sua produção, circulação e recepção, hoje e em diferentes épocas.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 17 de maio de 2020

Confiar é bom... desconfiar é melhor ainda.

Em 2012, o Coro de Câmara de Campina Grande realizou sua primeira turnê internacional. Não foi fácil, mas, com planejamento, organização e foco, a gente conseguiu superar as barreiras e concretizou o projeto, apresentando-se no Mississippi, Louisiana e Texas, nos EUA.

Chegamos em Birmingham, no Alabama, e de lá seguimos para a Mississippi State University, nosso ponto de partida em terras estadunidenses. Depois, fomos para a Louisiana e cantamos no interior e em Baton Rouge, capital do estado, na United Methodist Church, no campus da LSU. Por fim, nos dirigimos para a Texas A&M University, na pequena cidade de Commerce, nos arredores de Dallas. Em todos esses lugares, os anfitriões, dentre os quais os professores Gary Packwood, John Dickson e Randall Hooper, além de toda a logística, também prepararam os seus coros, que dividiram o palco conosco durante as performances.

O roteiro foi seguido criteriosamente, muito embora o extravio das malas entre Recife e Miami já sinalizasse que o acaso tem sua própria agenda. Essa situação estressante, de ficar horas no aeroporto resolvendo esse tipo de problema, foi, na verdade, um ensaio para o que iríamos passar entre Starkville e Zachary. Os dois carros que foram reservados não tinham espaço suficiente para transportar os passageiros e as bagagens. Só percebemos isso na hora do embarque. Como não era possível substituí-los por um veículo maior, lembrei-me de um colega que mora em Baton Rouge e que havia ido assistir ao nosso concerto. Liguei para ele e perguntei-lhe se poderia nos ajudar, tendo em vista que viajara sozinho numa van e talvez fosse possível carregar parte das nossas valises, fato que resolveria o problema. Ele topou e  gentilmente veio nos socorrer, razão pela qual separamos o que iria conosco e o que ele levaria.

Por conta disso, saímos atrasados, sabendo que não haveria como nos prepararmos adequadamente. Para aumentar o drama, iríamos inaugurar o auditório de uma escola pública. Na estrada, inutilmente pedia à mãe distância e ao pai tempo que nos ajudassem. Desembarcamos em cima da hora. Na agonia, não achei o meu sapato e usei o de alguém. No palco, fomos acalmando com os aplausos do público que lotou o teatro. Em reverência e cabisbaixo, percebi que os bicos do calçado que me emprestaram estavam roídos, acentuando a sua idade e um falso aspecto bicolor, corpo preto e ponta fubenta, no couro cru, tal como os cascos de um pangaré surrado, que podiam ser vistos ao longe por conta do poderoso canhão que me iluminava. Muito embora grato por ter o que calçar, naquele instante de queda e coice, decidi que, a partir de então, sempre usaria sapatos de concerto nas minhas viagens, porque, como diz o ditado, confiar é bom... desconfiar é melhor ainda.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 15 de maio de 2020

O Canto Coral na Paraíba: Grupo Anima

O Grupo Anima, criado em meados de 1985 pela flautista cearense Sandra Albano, dedicou-se em sua fase inicial à interpretação do repertório renascentista e barroco para flautas doces. Além da fundadora, integraram as primeiras formações Helena Rodrigues, Eli-Eri Moura, Marisa Nóbrega, Déa Santos, Luciênio Macedo, Roderick Fonseca, Didier Guigue, dentre outros. Foi com essa proposta que realizou o Circuito de Música Antiga, apresentando-se em várias cidades do interior do estado, em Natal, Fortaleza e Maceió, bem como em Porto Alegre, onde participou do 3º Festival Internacional de Coros.

Posteriormente, já em novo formato e sob a direção de Eli-Eri Moura, tive a oportunidade de conhecer o trabalho do consorte em 1986, durante o III Festival Nordestino de Corais, em Campina Grande. Digitalizamos o áudio que foi gravado ao vivo nesta ocasião, em fita K-7, e produzimos uma animação (veja aqui). Na ocasião, apresentaram-se combinando vozes e instrumentos na execução de clássicos extraídos dos cancioneiros ibéricos, muito embora os espetáculos fossem mais complexos, abarcando também números de dança com os bailarinos do Ballet Espaço. A presença do Anima na Serra da Borborema nos fez entrar em contato com uma literatura específica, interpretada com propriedade e que chamou a atenção do público. A seleção e a sequência das peças nos permitiram ouvir canções lentas e rápidas, o diálogo entre solistas e tutti, ressaltando os elementos poéticos essenciais à compreensão da diversidade temática que aqueles textos abarcavam, alguns mais líricos e solenes, outros mais irônicos e com duplo sentido. Foi uma aula inspiradora. 

Na sua terceira fase, o agrupamento dedicou-se à música brasileira, focando em criações inéditas, como, por exemplo, a Missa Breve, para solista, coro e quarteto de madeiras, e a opereta Os reis simultâneos, ambas frutos da parceira Moura-Solha. Obras seletas da MPB também foram incorporadas ao Anima, que também fez a estreia da Misa Criolla, de Ariel Ramirez, na Paraíba.

Em 1989, porque Eli-Eri Moura foi para o Canadá, passei a coordenar a equipe, que recebeu novos integrantes e ampliou o repertório. Participamos de vários eventos, incluindo o 5º Encontro Sergipano de Corais, em Aracaju. Infelizmente, por uma série de razões, nossas atividades foram interrompidas naquele mesmo ano. Contudo, o ciclo da vida, que tudo renova, fez brotar, há poucos anos, o IAMAKÁ, sob a liderança de Eli-Eri Moura, que segue, resguardadas as devidas proporções, a mesma linha da música de câmara produzida pelo Anima, nos anos oitenta. Acompanhar e reger esse conjunto foi relevante para a consolidação da minha carreira musical. À semelhança das iniciativas do professor José Alberto Kaplan e do maestro Carlos Veiga, que também se dedicaram à música antiga com o Collegium Musicum e o Pró-Música, na capital paraibana, o Anima é uma referência na história do canto coral estadual, pela excelência da sua proposta estética, artística e musical.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com


*Sobre o Canto Coral na Paraíba, veja também: Antônio GuimarãesClóvis PereiraEli-Eri MouraGazzi de Sá, José Alberto KaplanNabor Nunes, Nelson Mathias e Célia Bretanha JunkerReginaldo Carvalho, e Tom K.


domingo, 10 de maio de 2020

Por uma péinha de nada (ou A aventura de Ramon em NY)

Em 2017, debutei no Carnegie Hall regendo a première da Missa de Alcaçus, de Danilo Guanais, para solistas, coro, piano e percussão. O processo de arrecadação dos recursos, a preparação dos cantores, tudo, de modo geral, foi desafiador e fascinante. Formamos um grande grupo, incluindo gente do Brasil, França e Estados Unidos.

Ao todo, passamos uma semana em Nova Iorque. O cronograma incluiu ensaios, concertos e lazer, atividades que foram desenvolvidas individual e conjuntamente. Cada um teve tempo livre para visitar os locais que queria, fazer compras, andar pela Broadway, Central Park, Times Square, a Catedral de St. Patrick e o monumento em homenagem às vítimas do Onze de Setembro. Com sol ou com lua, a pé, usando metrô, trem ou táxi, todos aproveitaram ao máximo aquela cidade em constante movimento e que parece não dormir. Os mais preparados levaram um roteiro detalhado, como foi o caso do nosso percussionista.

Ramon Almeida, aluno da UFCG naquela época, é pianista, arranjador, produtor, tem um estúdio, enfim, é um músico multimídia, desses que topa qualquer parada. A maior prova é que ele participou do projeto como zabumbeiro. A proposta não era simples, porque era a estreia de uma peça de um compositor premiado, naquele templo, com um coral formado por aproximadamente setenta pessoas de distintas nacionalidades, para uma sala lotada, tocando um instrumento solista, parte fundamental nas passagens mais rítmicas e dançadas da obra. Ele não se intimidou, preparou-se e, além de nos acompanhar, apresentou-se com sucesso em vários bares de Manhattan, dentre os quais o Harlem Coffee Jazz e o Blue Note.

Nós voltamos, mas Ramon continuou por lá. Seu regresso aconteceria no domingo seguinte, em torno da meia-noite. Acostumado à rotina, esqueceu-se de que o tráfego dos trens era restrito naqueles dias e horários. Aperreado, correu em direção ao JFK com a sensação de que algo iria dar errado, como, de fato, deu. Ele perdeu o voo. Passou a noite e o dia tentando remarcar o bilhete, que custaria o dobro daquilo que já havia pago. Sem dinheiro suficiente, em vão dialogou com diferentes agentes. Contudo, alguém na fila ouviu a sua história e o reconheceu. Era um brasileiro que ele havia encontrado nos clubes por onde passara. Enquanto conversava com essa pessoa na fila do check-in, já exausto física e emocionalmente e quase perdendo as esperanças, o inesperado (ou seria um milagre?) aconteceu. Uma das atendentes, devidamente autorizada pelos superiores, o chamou e ofereceu-lhe, comovida e com um discreto sorriso, uma passagem de cortesia de volta para casa. Ramon transfigurou-se, indo do pranto ao espanto, e ao receber o novo voucher, feliz exclamou: — Eita... E é na primeira classe! (Ufa, essa foi por uma péinha de nada – grifos nossos.)

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Proteja-se contra a infecção

(English version)
Protect yourself from infection, de David Lang, é uma composição para coro misto a cappella,  baseada numa série de orientações apresentadas pelo governo norte-americano, em 1918, por conta da epidemia provocada pela influenza, a conhecida Gripe Espanhola, que dizimou milhões de pessoas em todo o mundo.

A obra, predominantemente homorrítmica e em estilo antifonal, assemelha-se a uma litania na qual os solistas anunciam os nomes dos cidadãos da Filadélfia vitimados por esta doença infectocontagiosa. Com poucos recursos, o compositor consegue criar uma ambiência intimista, quase sagrada, muito embora, como já mencionado, trata-se de um documento legal, que teoricamente carece de elementos líricos ou místicos. Fundamentalmente, David Lang emprega a técnica do recto tonus para enfatizar componentes textuais relevantes e que têm como meta esclarecer a população sobre os riscos da pandemia, orientando-a a manter-se segura e saudável naquele contexto. Esse caráter reservado é sublinhado por vários fatores. Todas as vozes foram escritas numa região central, cômoda, sem extremos agudos ou graves. Do ponto de vista da intensidade, inexistem grandes contrastes. Quanto à harmonia, estruturas simples e complexas, consonantes e dissonantes, reiteram aspectos semânticos, chamando a atenção do ouvinte-intérprete.

Esse trabalho foi gravado entre 9 e 12 de julho de 2019 pelo The Crossing, na igreja de St. Peter, Great Valley/Malvern, Pensilvânia. O filme de Brett A. Snodgrass, concebido e dirigido por Donald Nally, potencializa os aspectos da narrativa poético-musical, que também conta com a expressiva criação de Steven Bradshaw (artwork), Kevin Vondrak e John Grecia (assistentes musicais). Paul Vazquez foi o responsável pela gravação, compilação e produção, enquanto a mixagem ficou por conta de Dante Portella e a pós-produção sob a responsabilidade de Paul Vazquez (Digital Mission Audio Services). A sonoridade do grupo é leve e senza vibrato, em sintonia com o espírito devocional e contemplativo que a peça evoca. Nesta interpretação, especial atenção é dada à prosódia e à fluxão do texto, que é enunciado de forma homogênea e clara, permitindo-nos ouvir sutilezas no fraseado e no timbre (veja o vídeo).

A realização desse projeto, ano passado, causa-nos espanto por conta dos ares proféticos que revela, visto que parecia anunciar a crise que agora atravessamos. Surpreendentemente, os conselhos do início do século XX continuam válidos. Eles são atuais, precisam ser observados para o bem de todos e nos falam sobre novos-velhos problemas que a humanidade ainda está longe de resolver. Assim, precisamos evitar aglomerações, ficar em casa e cuidar da saúde física e mental. Se adoecermos, devemos evitar o desespero e procurar ajuda médica, tratando o problema racionalmente. Só o isolamento social, o conhecimento científico e o investimento em políticas públicas voltadas para a saúde, educação, habitação, renda e emprego, aliados ao bom senso e uma boa dose de paciência, poderão mudar esse status quo.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

terça-feira, 5 de maio de 2020

Cancioneiro da Paraíba

O Cancioneiro da Paraíba, organizado por Idelette Fonseca dos Santos e Maria de Fátima Barbosa de Mesquita Batista, foi publicado em João Pessoa, pela GRAFSET, em 1993. A obra, com capa de Milton Nóbrega e ilustrações de Domingos Sávio, é resultado de uma pesquisa realizada pelos alunos da Pós-Graduação em Letras da UFPB e que teve como meta “ser um registro da memória popular, um momento na trajetória de tradição e de criação da poesia e da canção.”

Após as explanações iniciais das editoras, segue-se uma coletânea de canções, divididas em oito categorias: Cantigas de ninar, Cantigas de brincar, Cantigas de folguedo, Parlendas, Cantigas religiosas, Orações e crenças, Aboios e toadas de vaquejada e Cantos políticos e de costume. As melodias e parlendas foram coletadas em diferentes comunidades do estado (Araruna, Cacimba de Dentro, Bananeiras, Pedras de Fogo, Queimadas, Serra Branca, Areia, Catolé do Rocha, Campina Grande e João Pessoa), iniciativa que contou com a colaboração de pessoas de múltiplas faixas etárias. Cada texto vem acompanhado por várias informações, incluindo o título e os dados relativos ao informante, assim como o processo de gravação. As transcrições musicais, feitas por Maria Alix Nóbrega Ferreira de Melo, são acompanhadas por breves comentários de Luiz Oliveira Maia. Esgotada, a obra só é encontrada em lojas de livros usados ou em formato digital, na internet (PDF).

Este trabalho oferece à comunidade, de modo geral, e aos educadores e artistas, mais especificamente, um vasto material para uso em sala de aula e também nos processos criativos. As peças da coletânea podem ser usadas na composição de obras originais e arranjos para diferentes formações instrumentais, vocais e mistas, integrando, portanto, o repertório de coros, bandas, orquestras e outros conjuntos de câmara. Similarmente, elas podem ser inseridas na trilha sonora de espetáculos teatrais e audiovisuais. Na Universidade Federal de Campina Grande, por exemplo, um dos alunos da Licenciatura em Música compôs uma série de arranjos para consorte de flautas doces, contrabaixo e percussão, com graus distintos de dificuldade, material adequado às finalidades didático-pedagógicas e também performáticas.

Há alguns anos, conheci a professora Maria de Fátima no PPGL-UFPB, na avaliação de uma tese de doutorado que tratava dos aspectos semióticos do referido Cancioneiro em processos de criação coletiva (vídeo). Depois, foi a vez de encontrar a emérita Idelette Muzart, na École doctorale 138 (Letter, langue, spectale) da Université Paris-Nanterre, na apresentação de uma pesquisa sobre Capiba e o Movimento Armorial. Nas duas oportunidades, percebi o quanto as docentes são apaixonadas pela cultura brasileira e quão relevantes são as suas contribuições no campo dos estudos sobre oralidade, literatura e música, fato que merece amplo reconhecimento, porque, como diz o ditado, “na boca de quem não presta, quem é bom não tem valia!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Les chansons de mai

(Texto em Português)
Les chansons de mai pourraient être appelées chansons de printemps. Si Ce jour le doibt, ballade médiévale écrite par Guillaume Dufay, parle avec lyrisme de l'amour, le prince de la saison, Ce moy de May, de Clément Janequin, décrit avec double sens l'angoisse d'une jeune femme à la recherche de son amant. Alors que William Byrd, dans le madrigal This Sweet and Mary May, fait l'éloge de la reine Elizabeth, Thomas Morley, dans Now is the Month of Maying, explore différentes couleurs, arômes et saveurs pour parler de la vie et de la libido.

Ce thème a également été exploré par les compositeurs baroques. Dans Le violette, par exemple, Alessandro Scarlatti, en plus de mettre en évidence la beauté des violettes fraîches, parfumées et gracieuses qui sont gênées et cachées parmi les feuilles, leur demande de supprimer ses pensées, qui sont très ambitieuses. Claudio Monteverdi, dans Madrigali Guerrieri et Amorosi, et plus particulièrement dans Su, su pastorelli vezzosi, met en évidence l'exubérance de la nature, en corrélant les éléments bucoliques et sentimentaux.

Fanny Mendelssohn-Hensel et Robert Schumann ont composé différentes versions pour Im wunderschönen Monat Mai, poème de Heinrich Heine, dans lequel il décrit sa passion pour un être cher sans nom: « Au magnifique mois de mai, / Lorsque tous les bourgeons ont germé, / L'amour a aussi éclaté dans mon cœur. / Au magnifique mois de mai, / Lorsque les oiseaux chantaient, / Je lui ai avoué / Mes aspirations et mes envies. » Le traitement accordé au texte est différent dans les deux œuvres: la première a été écrite en 1837, à deux voix, allegro molto, en do majeur, avec un accompagnement de danse; le second, en 1840, pour soliste, lent, harmonieusement ambigu et avec un piano expressif, essentiel dans la narration poétique et musicale.

Bien qu'ici, dans l'hémisphère sud, la renaissance de la terre n'intervienne qu'entre septembre et décembre, dans la musique brésilienne il y a plusieurs exemples qui célèbrent ce moment de vie et de nature. Já vem chegando a primavera, par Henrique de Curitiba, il est l'un d'eux. En fait, cette œuvre, pour chœur mixte a cappella, serait insérée dans la Suíte das Estações, un projet inachevé en raison de sa mort. Canção da Primavera, de Murilo Santos, est une œuvre tripartite, notamment rythmique, comme le suggère la poésie sur laquelle elle est basée, et avec des blocs harmoniques formés par des intervalles d'un quart. En cette période difficile, il faut s'épanouir, il faut écouter ce qui nous fait jaillir, renaître (voici la playlist avec ces chansons). Et, comme dans les versets de Mário Quintana, «Dansons tous, dansons / Bien-aimés, morts, amis, / Dansons tous jusqu'à / Ne connaissons plus la raison / Jusqu'à ce que les paineiras aient / Au-dessus des murs fleuris!»

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)