terça-feira, 7 de abril de 2020

Uma noite barulhenta!

Quando uma pessoa sai de casa e vai morar em outra cidade, estado, região ou país, geralmente ela enfrenta dificuldades para superar certas barreiras culturais. Parece bobagem, mas quem nunca passou por isso não sabe do que estou falando. Ao nos inserirmos em um novo contexto inevitavelmente o comparamos com outros, sobretudo aquele que é a nossa origem. Muitas são as analogias, que vão desde os aspectos linguísticos até os gastronômicos.

Na minha temporada nos Estados Unidos, por exemplo, demorei a me acostumar com a comida. À exceção das French fries, cujo sabor configura-se como algo pretensamente universal, todo o resto foi mais difícil de deglutir e familiarizar-se. As compras no supermercado eram sempre muito criteriosas. Com relação às frutas, não me apetecia o gosto das bananas sem aqueles pontinhos pretos e minúsculos, os óvulos não fecundados da flor da bananeira, que fazem um lindo contraponto com a textura macia e esbranquiçada que constitui o corpo do pseudofruto. O mesmo valia para o ananás advindo dos países da América Central. Usando os princípios básicos da teoria piagetiana, passei meses assimilando e acomodando odores e sabores. Reeduquei o meu paladar ao menu da créole cuisine e da cajun food, ambos predominantes na zona urbana e rural da Louisiana.

Às quartas-feiras, antes do ensaio do coral na Zachary United Methodist Church, era servida uma ceia com variados pratos, incluindo gumbo, jambalaya ou crawfish boil, este último uma especialidade da família Kaster. Como o intercâmbio é uma experiência permanente numa via de mão dupla, certa vez resolvi oferecer aos membros da igreja um pouco do tempero brasileiro. Muito embora inapropriada para o jantar, nada poderia ser mais sugestivo do que uma suculenta feijoada. Compramos os ingredientes e servimos a iguaria acompanhada de arroz, couve refogada, laranja e farofa, que encontramos numa pequena loja de produtos indianos, na Government Street, no centro de Baton Rouge. Uma breve explicação acerca do cardápio e como ocorrera o processo de preparação antecedeu o banquete. Tenho certeza que isso aumentou a curiosidade, deu água na boca. Superada essa etapa, começaram a saborear, a repetir e a embalar o excedente das leguminosas em pequenas marmitas. A panela ficou vazia em pouco tempo. Instintivamente, pensei n’O clube dos anjos, romance que trata da gula, um dos pecados capitais, e no qual Luís Fernando Veríssimo define o desafio filosófico da gastronomia: a apreciação que exige a destruição do apreciado.

Ensaiamos com a barriga cheia, cantando e comentando a respeito daquela vivência, durante o lento e pesado processo digestivo, enquanto as fibras e carboidratos do feijão preto fermentavam. No domingo, antes do culto, encontrei-me com o coro e perguntei sobre a feijoada, ao que me responderam sorrindo timidamente: maestro, it was a noisy night!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

2 comentários:

Luiz Kleber disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Vladimir Silva disse...

Luiz... Luiz, parece que você gosta de feijoada!

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