sexta-feira, 10 de abril de 2020

Os dias mais doces da minha existência

O quintal da nossa casa, na Rua das Imbiras, era repleto de árvores frutíferas, cujos frutos ingeríamos in natura ou usávamos para preparar sucos. Por lá, tínhamos graviola, goiaba, pinha, pitanga, mamão, manga e cana-de-açúcar, com a qual montávamos roletes e exercitávamos os músculos da mastigação.

Aos sábados, meus pais iam à Feira Central e traziam muitas iguarias. De longe, eu farejava a rapadura, as sordas e uns caramelos psicodélicos, que se apresentavam em diferentes tamanhos, cores e formatos, incluindo o que parece uma ave, por isso o chamávamos de galinha-de-açúcar. Outra delícia era a fuba, que é diferente do fubá. Os dois alimentos são feitos com milho maduro, seco e moído, sendo que este é cru e aquele é torrado. Esse pozinho amarelado, a fuba, podia ser consumido puro ou com mel. Na época do umbu, minha mãe preparava uma cremosa umbuzada. Eu gostava de sorvê-la bem gelada. O mousse do cariri tinha uma consistência e um sabor indescritíveis, que provocavam em mim um êxtase, a mesma sensação que sinto quando ouço um coral cantando no tempo, afinado, com técnica e expressivamente.

Nós também comprávamos guloseimas na rua, como, por exemplo, os pirulitos de mel em forma cônica e enrolados num delicado pedaço de papel. O vendedor organizava os pequenos guarda-chuvas numa tábua furada: a parte mais fina ficava para baixo e a área mais larga, para cima, deixava à mostra a ponta de um palito, que servia como suporte. Às vezes, chegava um rapaz tocando triângulo e oferecendo cavaco chinês, um biscoito fino, crocante e quebradiço feito com uma massa de polvilho ou de farinha de trigo, untada em margarina e açúcar. Noutras, alguém vendia puxa-puxa, alfenim, quebra-queixo ou cocada, sempre cantando pregões. Vó Nuca nos ofertava dindins. A culminância era comprar o algodão doce do velhinho que soprava melodias encantadoras em tons aleatórios, num realejo furta-cor. Eu não sabia se era melhor vê-lo em ação ou se preferia degustar o produto que ele criara, porque tudo era mágico. Quando o interpelávamos, como um mago a iniciar um ritual, acomodava o carrinho, ajustava o avental, acendia o fogo, colocava a sacarose colorida no bojo da panela e, com a mão trêmula e os dedos longos, começava a girar uma manivela, aumentando a velocidade e o calor gradativamente, fazendo surgir daquele não-lugar um novelo sólido quase translúcido, tão frágil e fugaz quanto a própria vida.

Só de pensar nas calorias e na glicemia, senti que minhas taxas foram alteradas, provocando palpitações desconhecidas. A emoção seguiu o mesmo percurso, é verdade, pois essas são reminiscências de um povo-tempo-lugar já distante, sagrado e secreto, mas que guardo dentro da alma e do coração, afinal foram os dias mais doces da minha existência.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

3 comentários:

Unknown disse...

Que maravilha! Viajei no tempo, desde o primeiro parágrafo, nas tardes quentes do triângulo mineiro, sendo criança, como toda criança daquele tempo, os mesmos bolinhos (queijo), os doces de leite (na palha), a pururuca crocante, as balas thoffe, pipocas, algodão doce, os realejos, as bonecas de pano(bruxinhas feitas no asilo de mendicidade), a cantiga dos sapos e a corrida para pegar vagalumes. Que bom que vivemos uma inocência chamada infância.

Obrigada por partilhar comigo esse momento precioso de felicidade.

Feliz Páscoa!

Abraço XGG

Vladimir Silva disse...

Que bom que você trouxe à tona essas experiências. Que mundo mágico o que tivemos em nossa infância. E, é verdade, por conta dos doces e guloseimas, hoje temos que dar abraços XGG. Mas eles são plenos de amor e amizade. Beijos.

Unknown disse...

Viajei no tempo e fiquei salivando. Que saudades da minha infância vivida plenamente graças à Deus e aos meus pais. Um grande abraço.

Postar um comentário