quarta-feira, 15 de abril de 2020

Fica em casa, gente.

Estamos vivendo um período de quarentena por conta da pandemia provocada pelo COVID-19. O vírus espalhou-se pela Ásia, Europa e o resto do mundo rapidamente, chegando ao Brasil. A luta contra o inimigo invisível é grande e promete ser longa. Nessa temporada de isolamento social, nós ressignificamos o cotidiano, os hábitos, a vida. E isso é uma coisa boa.

Desde que iniciei o retiro, tive a oportunidade de me dedicar a muitos projetos. Atualizei o blog Música e Poética, escrevendo crônicas que há muito tempo começaram a ser esboçadas. Resgatei as reflexões sobre prática coral, técnica vocal, regência, música, de modo geral, textos que serão usados em sala de aula e em pesquisas futuras. Participei de reuniões online, com colegas de outras instituições, do Brasil e do exterior. Fiz também arranjos, que irei ensaiar com os coros que dirijo, e ouvi obras encostadas na estante há bastante tempo, como as sinfonias de Brahms. Selecionei as melhores gravações e intérpretes, acompanhando tudo com as partituras empoeiradas, revendo marcas do passado. Organizei os livros nas prateleiras. Folheei romances, limpando-os carinhosamente, revendo anotações, espantado e encantado com as narrativas de Ubaldo, Saramago, Scliar e tantos outros que povoam o meu imaginário e coração.

Para exercitar os músculos e fugir da cozinha, limpei o jardim, podei árvores, reguei as plantas da floresta encantada da minha companheira, a maga Jane Cely. Suas aceroleiras responderam aos meus afagos e ficaram entumecidas, suculentas e ruborizadas. Hum... aquelas gostosas atiçaram o fogo do desejo, abriram o meu apetite. Na garagem, enquanto o carro dorme, brinco com Capitu, que balança a cauda ininterruptamente, celebrando a calmaria e a minha não-transitoriedade. Aurora, indiferentemente, debocha, pois estou integralmente presente. Ela está cansada dos meus excessos, exceto quando tem fome ou sede. Foi por isso que fiquei pensando nas similaridades dos comportamentos dos felinos e dos humanos: em ambos, há sempre um interesse não revelado por trás do miado manso.

Comecei a organizar o acervo no qual guardo programas, cartazes, partituras, documentos em geral. Coloquei tudo no chão, fora das caixas, e fui categorizando por datas, iniciando em 1982 até os dias atuais. Quanta coisa. O trabalho será longo, posto que eventualmente me detenho para rever algo, dedicando mais atenção a um ou a outro papel, a esta ou aquela fotografia. Foi nessa arrumação que encontrei várias cartas, como aquelas que Thúlio Antunes me mandava regularmente quando estava em Sousa, com sua família, durante as férias de verão. Mas isso eu vou contar noutra ocasião. Esta tem sido uma experiência fantástica, com dias intensos, sobre os quais falaremos no futuro. Por hora, redescubro meus espaços, celebro a vida e digo: fica em casa, gente. Esse é o melhor e mais seguro lugar.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

4 comentários:

vitoria mota disse...

Suas crônicas, lembranças, memórias são sempre um afago em meio a tantas incertezas e pouca luz. Adorei a similaridades dos comportamentos dúbios de humanos e felinos! E da Maga Jane Cely. Maravilha de texto e de esperança! Sou fã desde sempre!

O canto lírico disse...

Adoro ler suas crônicas

Vladimir Silva disse...

Vitória Mota, diga se não é verdade, se não existe uma semelhança entre esse miado manso dos felinos e as segundas intenções de certos indivíduos? Sim, aqui não temos um jardim. Temos um floresta, que é velada por uma maga. E aí de quem mexer num talo de capim! Beijos.

Vladimir Silva disse...

Oi, Canto Lírico. Grato pela sua companhia. Tem muita história pela frente. Beijos.

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