segunda-feira, 20 de abril de 2020

As cartas de Thúlio

Conheci Thúlio Antunes em 1986, ao iniciar as atividades como regente do Coral Viva Voz, do Centro Cultural. Ele veio de Sousa para cursar Farmácia, na UEPB. Logo que entrou no grupo, nos identificamos e, pouco a pouco, fomos conhecendo a trajetória de cada um, incluindo hábitos, medos e sonhos. Conversávamos na rua, na praça, no sexto andar do Edifício Rique, onde ele morava, ou na minha casa. Nossas conversas eram intermináveis e regadas a muitos embates, animação e risadas.

Quando eu fui morar em João Pessoa, por conta do curso de Música, Thúlio também passou uma temporada por lá, especializando-se em Farmácia Industrial, cantando no Coral Universitário da Paraíba e no Grupo Ânima. Morávamos na Residência Universitária, em Jaguaribe, onde dividíamos o quarto com vários estudantes. Na capital paraibana, vivenciamos muitas aventuras na UFPB e nos ônibus da SETUSA, que sempre andavam lotados. À noite, lanchávamos num quiosque próximo ao Centro Administrativo do Estado. Enquanto ele pedia americano ou coxinhas, que comia com excesso de ketchup e uma Fanta laranja, eu pedia um caldo de cana para acompanhar as Cream Crackers que trouxera de casa. Porque odiava meu cardápio, afastava-se para mangar à distância.

Certo dia, choveu muito e tudo ficou alagado. A gente passou o dia andando pelo campus, pisando em poças. No fim da tarde, antes do coro, meu amigo mostrou-me seus pés expostos, roxos e engelhados, porque seu tênis se esfacelara por causa do lamaçal. Eu até tentei, mas não contive o riso. Chateado, Thúlio foi embora, perdeu o ensaio. Como era apaixonado por plantas medicinais, contou-me sobre uma experiência que fizera com a Brugmansia suaveolens: — Meu amigo, fo...foi a primeira e úúúltima vez que cu...cutuquuuei a onça com vara curta, ressaltou gaguejando e gargalhando. Por conta das nossas mentes irrequietas, criamos juntos o espetáculo Dia de suicídio (ou como atravessar a rua sem ser assaltado), com poemas dele e música de minha autoria, uma montagem do Grupo Vocal Nós em Voz, em 1990.

Recentemente, encontrei várias correspondências que ele me enviou no tempo em que visitava a família no sertão. Mostrei para os meus filhos como nós nos comunicávamos sem telefone à mão ou com todos os aplicativos que facilitam a vida atualmente. Os textos eram criativos e vinham acompanhados de poemas, desenhos e ilustrações recortadas de velhos álbuns ou revistas. Os anos passaram, a tecnologia avançou, os intervalos de tempo-espaço nos separaram eventualmente, mas a conexão só se sedimentou nessa caminhada. Ao ler as cartas de Thúlio, revivi muitas histórias, lembrei da nossa cumplicidade, do encantamento que nos move, das loucuras que fizemos, aqui e alhures, em nome da arte, do amor, da vida e de uma amizade que chegará aos quarenta anos brevemente.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

Um comentário:

Ralmon disse...

Muito bom Prof, Dr. Vladimir. Recordar é viver!

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