terça-feira, 28 de abril de 2020

A quarentena mais longa da vida

Na pequena rua em que morei, havia um terreno que usávamos como área de lazer. Lá, jogávamos futebol e vôlei, brincávamos de baleada e barra-bandeira. O espaço, que durante longo período ficou ao leu, era o palco no qual nos divertíamos diariamente.

Seu Machado morava por ali. Ele era um homem alto, usava óculos e tinha as pernas finas e o tronco largo, tal como Dr. Nefrario, da animação Meu malvado favorito. Essa aparência ganhava ares sinistros pois, muito embora falasse com os transeuntes, ele era um sujeito de pouca conversa, talvez por causa da voz aguda e abafada, que era desproporcional ao seu corpanzil e que poderia ser até mesmo uma disforia, sabe-se lá. Os moradores, observando esse detalhe, o apelidaram de Machadão. Raras vezes flagramos gente entrando ou saindo daquela residência, com paredes marcadas pelo lodo das épocas, que mais parecia abandonada, sobretudo em razão da luz rarefeita que escapava pelas frestas das janelas quando o céu escurecia. O mistério pairava sobre o recinto de pouco movimento, muitas sombras e gente calada. Eventualmente, víamos a sua esposa. Apenas Machado Filho, único rebento do casal, dava o ar da graça e espiava o nosso alvoroço. Machadinho, para ser preciso, passava boa parte do tempo dentro de casa. Daquele reduto, acompanhava a algazarra das andorinhas e da molecada, de longe, no fim da tarde, posto que jamais teve permissão para juntar-se a nenhum dos dois grupos.

O afastamento gerava embate. Enquanto uns afirmavam que eles eram abastados, outros, porque não dominavam a língua, os classificavam como abestados. Teriam alguma doença, afinal? Bom, naqueles dias não se falava abertamente sobre certos males. Com crianças, então, nem pensar. Por isso, até hoje não tenho essa resposta e acho que quem soube ou suspeitou já está morto ou prestes a morrer. O certo é que Machadão ficava furioso quando nós cantávamos “pula, machadinha, para o meio da rua.” O velho dizia impropérios que cortavam o vento, pois, para ele, estávamos ofendendo o varão, que se vestia como um colegial, usando uma meia social no meio da canela que não combinava nem com o Bamba azul, nem com o Kichute preto, nem com o Conga branco, que ele calçava em dias alternados.


Em todos os anos no São José, nunca o vi dançar quadrilha, nunca o ouvi cantando nas procissões de Vó Nuca, nunca o encontrei nas matinês dominicais, nunca o avistei no boi do carnaval. Imagino que em seu lar só se ouviam os ecos do silêncio, e aquele que não tem música no coração não merece confiança, como disse Shakespeare. A julgar por hoje, não tenho dúvidas: eles viveram em isolamento social, numa quarentena permanente, a mais longa da vida.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

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