quarta-feira, 29 de abril de 2020

A alta performance no canto coral brasileiro

Nelson Mathias e Célia Bretanha dirigiram o Coral do SESI, em Brasília, nos anos setenta, e gravaram um LP em 16 canais, na RCA, no Rio de Janeiro, com direção artística de Carlos Guarany. O álbum contém nove faixas, todas dedicadas à música brasileira, incluindo Saia bonita (Baião - Carlos Alberto Pinto Fonseca), Suíte dos pescadores (Dorival Caymmi - Damiano Cozzella), Beira mar (Tema afro-brasileiro - Esther Scliar), Rolinha (Chula marajoara - Waldemar Henrique), Cromo (Kindemiro Teixeira - Pedro S. de Amorim - Nivaldo Santiago), Ofulú Lorêrê (Osvaldo Lacerda), Cambinda elefante (Maracatu - Ernst Mahle), Construção (Chico Buarque - Damiano Cozzella) e Carnaval I (Vários autores - Damiano Cozzella).

A interpretação do coro é exemplar em muitos aspectos. O grupo canta no tempo, afinado, com técnica e expressão. Destaco tudo isso porque o disco foi gravado em 1975, numa época em que não existiam esses produtos mágicos que muitos usam em estúdio atualmente para afinar ou duplicar vozes. Ali não há maquiagem. A sonoridade desse coro assemelha-se àquela do Coral da UFPB, Campus II, Campina Grande, que os dois também dirigiram entre 1978 e 1982, ratificando que a identidade de um ensemble é definida pelos seus dirigentes. A comparação pode ser observada no texto/vídeo Um som inconfundível.

A qualidade dos arranjos é outro ponto que chama a atenção, sobretudo aqueles escritos por Damiano Cozzella e que são interpretados com a orquestração original. Construção e Carnaval I são pérolas, especialmente por conta das madeiras e dos metais. Já a Suíte dos Pescadores inclui um quinteto de cordas, que pouca gente conhece e que toca, a maior parte do tempo, colla voce. Na verdade, pode-se dizer que este acompanhamento é non obbligato, razão pela qual comumente se executa a versão a cappella. Não obstante, compartilharei uma versão completa desse arranjo brevemente para que todos possam conhecê-lo e quem sabe interpretá-lo.

Henrique Morelebaum, Marlos Nobre e Alberto Jafé assinam a apresentação desta preciosidade. Este último, inclusive, destaca a prevalência do uníssono e a beleza da homogeneidade, que ultimamente certas linhas de pensamento tentam refutar e considerar démodé equivocadamente e com argumentos dúbios. A unidade é tudo na prática de conjunto, seja num trio de forró, coro ou orquestra. Esses mestres exemplificam o que é excelência, o que é gravar sem Auto-Tune, sem placebos cênicos ou excessiva voz de peito em nome de uma brasilidade ou livre auto-expressão duvidosas. Eles nos mostram que, sim, é possível cantar qualquer repertório com qualidade com um coral formado por gente comum, “50 figurantes, moças e rapazes, filhos dos operários das indústrias e trabalhadores”, como foi o caso do Coral do SESI, da Capital Federal (ouça a playlist). Nelson Mathias e Célia Bretanha, em outros termos, nos ensinam o que é a alta performance no canto coral brasileiro.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

terça-feira, 28 de abril de 2020

A quarentena mais longa da vida

Na pequena rua em que morei, havia um terreno que usávamos como área de lazer. Lá, jogávamos futebol e vôlei, brincávamos de baleada e barra-bandeira. O espaço, que durante longo período ficou ao leu, era o palco no qual nos divertíamos diariamente.

Seu Machado morava por ali. Ele era um homem alto, usava óculos e tinha as pernas finas e o tronco largo, tal como Dr. Nefrario, da animação Meu malvado favorito. Essa aparência ganhava ares sinistros pois, muito embora falasse com os transeuntes, ele era um sujeito de pouca conversa, talvez por causa da voz aguda e abafada, que era desproporcional ao seu corpanzil e que poderia ser até mesmo uma disforia, sabe-se lá. Os moradores, observando esse detalhe, o apelidaram de Machadão. Raras vezes flagramos gente entrando ou saindo daquela residência, com paredes marcadas pelo lodo das épocas, que mais parecia abandonada, sobretudo em razão da luz rarefeita que escapava pelas frestas das janelas quando o céu escurecia. O mistério pairava sobre o recinto de pouco movimento, muitas sombras e gente calada. Eventualmente, víamos a sua esposa. Apenas Machado Filho, único rebento do casal, dava o ar da graça e espiava o nosso alvoroço. Machadinho, para ser preciso, passava boa parte do tempo dentro de casa. Daquele reduto, acompanhava a algazarra das andorinhas e da molecada, de longe, no fim da tarde, posto que jamais teve permissão para juntar-se a nenhum dos dois grupos.

O afastamento gerava embate. Enquanto uns afirmavam que eles eram abastados, outros, porque não dominavam a língua, os classificavam como abestados. Teriam alguma doença, afinal? Bom, naqueles dias não se falava abertamente sobre certos males. Com crianças, então, nem pensar. Por isso, até hoje não tenho essa resposta e acho que quem soube ou suspeitou já está morto ou prestes a morrer. O certo é que Machadão ficava furioso quando nós cantávamos “pula, machadinha, para o meio da rua.” O velho dizia impropérios que cortavam o vento, pois, para ele, estávamos ofendendo o varão, que se vestia como um colegial, usando uma meia social no meio da canela que não combinava nem com o Bamba azul, nem com o Kichute preto, nem com o Conga branco, que ele calçava em dias alternados.


Em todos os anos no São José, nunca o vi dançar quadrilha, nunca o ouvi cantando nas procissões de Vó Nuca, nunca o encontrei nas matinês dominicais, nunca o avistei no boi do carnaval. Imagino que em seu lar só se ouviam os ecos do silêncio, e aquele que não tem música no coração não merece confiança, como disse Shakespeare. A julgar por hoje, não tenho dúvidas: eles viveram em isolamento social, numa quarentena permanente, a mais longa da vida.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 25 de abril de 2020

O Canto Coral na Paraíba: Clóvis Pereira

Clóvis Pereira nasceu em Caruaru-PE, em 1932. Filho de pai músico, ao mudar-se para Recife, por volta dos anos cinquenta, deu continuidade aos estudos no Conservatório Pernambucano de Música e na Escola de Belas Artes da UFPE, instituições em que teve contato com nomes de referência, a exemplo do compositor Guerra-Peixe, e das quais viria a ser professor posteriormente. Sua formação acadêmica também inclui uma temporada na Berklee College of Music, em Boston, nos Estados Unidos. Em seu catálogo composicional encontram-se obras vocais e instrumentais para diferentes formações, algumas com grande notoriedade por conta da conexão com o Movimento Armorial.

Como docente, atuou em diferentes universidades. Na UFPB, além de lecionar, regeu o Coral Universitário da Paraíba, grupo com o qual representou o Brasil, em 1974, no Fourth International Choir Festival, apresentando-se no Kennedy Center (Washington, D.C) e no Lincoln Center (Nova Iorque, NY). Um dos trabalhos mais representativos que ele realizou em João Pessoa, nesta época, foi a Grande Missa Nordestina, escrita para solistas, coro e orquestra de câmara, em 1977, criação que reitera seus vínculos com a proposta estética encabeçada por Ariano Suassuna. Encomendada pela UFPB para celebrar o primeiro ano de gestão do Reitor Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, esta obra-prima está dividida em cinco movimentos (Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus-Benedictus e Agnus Dei) e foi gravada pelo coro da referida instituição, no auditório do CPM. O lançamento do LP, com selo Marcus Pereira, ocorreu em 1978. Posteriormente, ele revisou a Missa, acrescentando outros instrumentos (vídeo).

Clóvis Pereira escreveu arranjos antológicos. O pato (Jayme Silva - Neuza Teixeira), por exemplo, sintetiza a essência da bossa nova, com suas harmonias e síncopes, e parece ter sido inspirado nas big bands e orquestras de frevo, cujas sonoridades eram familiares ao compositor. Aliás, essa releitura e a de Garota de Ipanema (Tom Jobim - Vinicius de Morais) foram dedicadas ao Coral da UFPB, Campus II, regido por Nelson Mathias. Numa pesquisa que realizamos, descobrimos que o regente da capital, querendo desafiar o agrupamento de Campina Grande, escrevera este último a oito vozes e de forma bem complexa. Na partitura manuscrita, inclusive, há um registro do arranjador, dizendo que ele teria iniciado a escrevê-lo às 8h30min, do dia 25 de maio de 1979, e terminado às 15h00min do mesmo dia. Um mês após aceitar o desafio, ele ouviu a estreia da peça que havia escrito, reconhecendo a excelência do trabalho apresentado por Nelson (vídeo).

A passagem do maestro Clóvis Pereira pela Paraíba ampliou os horizontes musicais em nosso estado, enriquecendo sobremaneira a atividade coral. Seu vasto corpus está aí para ser editado, publicado, estudado e interpretado, não só pelo valor histórico que possui, mas porque é belo e transcende a essência desse povo-tempo-lugar.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

*Sobre o Canto Coral na Paraíba, veja também: Antônio GuimarãesEli-Eri MouraGazzi de SáGrupo AnimaJosé Alberto KaplanNabor NunesNelson Mathias e Célia Bretanha JunkerReginaldo Carvalho, e Tom K.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

As convenções de regentes nos Estados Unidos

As convenções das associações de regentes realizadas nos Estados Unidos da América são eventos únicos. Quem trabalha nesse campo deveria prestigiar um encontro desses, pelo menos uma vez na vida, porque são oportunidades para encontrar nomes de referência, ouvir corais com excelente padrão de qualidade, conhecer as novas tendências do mercado, adquirir materiais diversos e expandir os contatos, os horizontes.

As reuniões podem acontecer anual ou bienalmente. A American Choral Directors Association (ACDA), por exemplo, realiza conferências regionais e nacionais alternadamente. Os primeiros congregam maestros de determinadas áreas do país, enquanto os segundos ocorrem em grandes cidades e juntam mais de vinte mil participantes dos EUA e do mundo, que são divididos em diferentes categorias. Tive uma experiência inesquecível em 2005, numa convenção nacional, na Califórnia, como tenor do LSU A Cappella Choir, que se apresentou como grupo convidado, sob a direção do professor Kenneth Fulton. Cantamos na Catedral de Los Angeles e na Disney Hall, ao lado do Mormon Tabernacle Choir.

No Texas, TODA, TCDA e TBA são, respectivamente, confrarias que reúnem diretores de orquestra, de coros e de bandas. Anualmente, a cidade de San Antonio é invadida por profissionais que se encontram para trocar ideias e discutir variados temas. Em 2014, participei como palestrante de uma dessas mesas-redondas, ensejo no qual falei sobre a obra de Reginaldo Carvalho. Além dos concertos, estive em muitas sessões e também visitei o espaço destinado à exposição. Durante os dias do congresso, há um local reservado para conhecimento de repertório. Selecionam-se peças para todo tipo de agrupamento. As editoras imprimem cadernos com cerca de quinze obras, que são distribuídos gratuitamente nas entradas das salas, que ficam lotadas. Um ou dois líderes, acompanhados por um pianista, conduzem o corão, que, após breves explanações, lê à primeira vista, cantando a peça uma única vez. Essa atividade dura aproximadamente uma hora e é muito enriquecedora. Concluída a leitura, muitos se dirigem aos quiosques, onde é possível obter ou encomendar tais composições e arranjos.

O volume de negócios nessas feiras é elevado. No centro comercial, compram-se livros, partituras e manuais impressos e digitais; vestimentas e sapatos; instrumentos, DVDs, softwares, hardwares, acessórios e muito mais, recursos que ampliam as possibilidades da nossa atuação em sala de aula, no ensaio e no palco. Entretanto, é preciso estar atento para não consumir excessivamente e ter cuidado com o lixo que é distribuído livremente. National Collegiate Choral OrganizationChorus America e Barbershop Harmony Society são outras organizações que também promovem esse modelo de iniciativa, cada uma voltada para uma clientela específica. Muito embora o investimento seja relativamente alto, o retorno é inestimável. Por isso, conheça as entidades e considere a possibilidade de participar das convenções. Caso vá, leve a mala vazia.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 20 de abril de 2020

As cartas de Thúlio

Conheci Thúlio Antunes em 1986, ao iniciar as atividades como regente do Coral Viva Voz, do Centro Cultural. Ele veio de Sousa para cursar Farmácia, na UEPB. Logo que entrou no grupo, nos identificamos e, pouco a pouco, fomos conhecendo a trajetória de cada um, incluindo hábitos, medos e sonhos. Conversávamos na rua, na praça, no sexto andar do Edifício Rique, onde ele morava, ou na minha casa. Nossas conversas eram intermináveis e regadas a muitos embates, animação e risadas.

Quando eu fui morar em João Pessoa, por conta do curso de Música, Thúlio também passou uma temporada por lá, especializando-se em Farmácia Industrial, cantando no Coral Universitário da Paraíba e no Grupo Ânima. Morávamos na Residência Universitária, em Jaguaribe, onde dividíamos o quarto com vários estudantes. Na capital paraibana, vivenciamos muitas aventuras na UFPB e nos ônibus da SETUSA, que sempre andavam lotados. À noite, lanchávamos num quiosque próximo ao Centro Administrativo do Estado. Enquanto ele pedia americano ou coxinhas, que comia com excesso de ketchup e uma Fanta laranja, eu pedia um caldo de cana para acompanhar as Cream Crackers que trouxera de casa. Porque odiava meu cardápio, afastava-se para mangar à distância.

Certo dia, choveu muito e tudo ficou alagado. A gente passou o dia andando pelo campus, pisando em poças. No fim da tarde, antes do coro, meu amigo mostrou-me seus pés expostos, roxos e engelhados, porque seu tênis se esfacelara por causa do lamaçal. Eu até tentei, mas não contive o riso. Chateado, Thúlio foi embora, perdeu o ensaio. Como era apaixonado por plantas medicinais, contou-me sobre uma experiência que fizera com a Brugmansia suaveolens: — Meu amigo, fo...foi a primeira e úúúltima vez que cu...cutuquuuei a onça com vara curta, ressaltou gaguejando e gargalhando. Por conta das nossas mentes irrequietas, criamos juntos o espetáculo Dia de suicídio (ou como atravessar a rua sem ser assaltado), com poemas dele e música de minha autoria, uma montagem do Grupo Vocal Nós em Voz, em 1990.

Recentemente, encontrei várias correspondências que ele me enviou no tempo em que visitava a família no sertão. Mostrei para os meus filhos como nós nos comunicávamos sem telefone à mão ou com todos os aplicativos que facilitam a vida atualmente. Os textos eram criativos e vinham acompanhados de poemas, desenhos e ilustrações recortadas de velhos álbuns ou revistas. Os anos passaram, a tecnologia avançou, os intervalos de tempo-espaço nos separaram eventualmente, mas a conexão só se sedimentou nessa caminhada. Ao ler as cartas de Thúlio, revivi muitas histórias, lembrei da nossa cumplicidade, do encantamento que nos move, das loucuras que fizemos, aqui e alhures, em nome da arte, do amor, da vida e de uma amizade que chegará aos quarenta anos brevemente.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 18 de abril de 2020

Autores e intérpretes

O LP Autores e Intérpretes foi gravado em João Pessoa, na Fundação Espaço Cultural (FUNESC), entre os dias 12 e 16 de abril de 1984, há exatos 36 anos. O disco tem o selo da Universidade Federal da Paraíba e foi produzido com o apoio do MEC, FUNARTE e Instituto Nacional da Música, durante a gestão do Reitor Berilo Ramos Borba. Integraram a equipe técnica Frank Justo Acker (técnico de gravação) e Chico Pereira (programação visual e foto da capa), dentre outros.

O álbum tem dezesseis faixas com as seguintes obras instrumentais e vocais: Brasileirando (Flávio Fernandes de Lima); Variações e Bartokiando (Eli-Eri Moura); Melissa e Meyse (José Ursicino da Silva - Duda); Caboclinho e Vamo vadiá (José A. Kaplan); Garatuja (Dimas Segundo Sedícias); Poema concreto (Trabalho coletivo do Quinteto Itacoatiara); Xô-Xô Pavão (Ernani Braga); Escorregando (Ernesto Nazareth - José A. Kaplan); Seresta (Antônio José Madureira); Fantasia sobre Asa Branca (José Euclides dos Santos); Maracatu e O Salutaris (Gazzi de Sá); e O Gemedô (Gilvan Chaves - José A. Kaplan).

Participaram da gravação docentes e grupos da UFPB, incluindo o Quinteto de Sopros, o Trio de Câmara, o Quinteto de Metais, o Duo Kaplan-Parente, o Quinteto Itacoatiara, o Cordas e Sopros e o Coral Universitário da Paraíba. Por um lado, temos composições experimentais, que exploram diferentes processos, enquanto outras, mais ortodoxas, empregam elementos e procedimentos convencionais, sejam ideias originais ou referências à tradição oral e urbana, como é possível observar nas criações que têm caráter mais dançante e que recorrem, por exemplo, aos elementos estruturais do baião, do frevo, do maracatu, do caboclinho, do tango e da seresta (veja o vídeo).

Autores e Intérpretes reúne nomes consagrados e novos, a exemplo do compositor Eli-Eri Moura, que naquela época ainda era aluno do Bacharelado em Piano, estudava composição com o experiente mestre argentino e também lecionava na Anthenor Navarro. Este trabalho sintetiza um período de grande dinamismo na UFPB, tanto no Campus I, na capital, quanto no Campus II, em Campina Grande, que havia criado o seu Núcleo de Extensão Cultural (NEC) há pouco tempo. O lançamento desta coleção, com obras inéditas e arranjos, evidencia a alta qualidade da música de câmara do nosso estado, tanto no âmbito criativo quanto interpretativo, confirmando que todo o investimento feito em arte e cultura na gestão do professor Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque gerou frutos. Por fim, projetos dessa natureza consolidam a relação entre ensino, pesquisa e extensão no contexto das nossas instituições. Iniciativas como estas promovem o belo, a música nacional, motivo pelo qual devem ser permanentes e amparadas com toda sorte de recursos, preservando o lugar da arte no cenário universitário. Só assim, todos saberão porque passamos horas compondo, ensaiando, gravando e produzindo na academia.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 16 de abril de 2020

A prática coral LGBTQI+

A compreensão das diferenças entre sexo biológico, identidade de gênero, expressão de gênero e orientação sexual é essencial para quem trabalha com música. Esse entendimento, à luz de distintas correntes científicas, nos dá embasamento, evita equívocos e constrangimentos, redireciona a nossa práxis, ajudando-nos a combater estereótipos, contribuindo para a redução da LGBTfobia e o desenvolvimento das pessoas com as quais interagimos profissionalmente.

No que diz respeito à prática coral, observamos uma expansão no número de grupos ligados à comunidade LGBTQI+, especialmente na América do Norte e na Europa. O Gay Men’s Chorus e o Trans Chorus of Los Angeles são representantes desta população. Há uma grande variedade de estudos e documentários em língua inglesa que mostram o cotidiano destes e de outros conjuntos, que nos ajudam a vislumbrar os limites e as possibilidades das ações políticas e educativas neste campo. O mesmo tem acontecido com os solistas que atuam no mundo da ópera e da música de câmara. Lucia Lucas, um barítono trans, e Holden Madagame, que começou a cantar como mezzo e hoje interpreta papeis como tenor, são artistas que estão inseridos no mercado e assumiram um protagonismo importante num contexto que, muito embora notadamente conservador, está em transformação. De modo geral, cantores e cantoras que fazem a transição passam por um longo processo de adaptação, porque submetidos a um complexo tratamento médico e psicológico, quase sempre à base de intervenção cirúrgica e muitos medicamentos. Essas variantes podem afetar diretamente a produção da voz, exigindo uma abordagem atenta de quem dirige e prepara vocalmente tais intérpretes.


A classificação vocal, enquanto dado supostamente determinado e fixado pela biologia, perde a sua força hegemônica quando se questiona a naturalidade do gênero e da sexualidade. Por um lado, sopranistas e contra-tenores ocupam funções outrora reservadas tão somente aos meninos, aos castrati e às mulheres. Analogamente, algumas senhoras, sobretudo nos corais de idosos, cantam nos naipes do tenor e do baixo, historicamente reduto exclusivo dos homens. As expressões coro masculino e feminino parecem, portanto, desatualizadas, podendo ser substituídas por algo genérico e menos sexista: coro de vozes afins, de vozes iguais, de vozes agudas ou de vozes graves de qualquer gênero.


O tema, ainda delicado, precisa ser abordado profundamente na academia, no âmbito da graduação e da pós, amparado na legislação, numa perspectiva racional, para além das crenças pessoais e dos princípios teológicos. A ciência está aí para nos mostrar o caminho em direção à consolidação de uma realidade coral que permita concomitantemente a comunhão das singularidades e o exercício pleno da cidadania. Porque “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, na condução do trabalho vocal, além da constituição animal, que nos é dada pela natureza, devemos levar em consideração os elementos socioculturais e as indiossincrasias dos sujeitos.


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Fica em casa, gente.

Estamos vivendo um período de quarentena por conta da pandemia provocada pelo COVID-19. O vírus espalhou-se pela Ásia, Europa e o resto do mundo rapidamente, chegando ao Brasil. A luta contra o inimigo invisível é grande e promete ser longa. Nessa temporada de isolamento social, nós ressignificamos o cotidiano, os hábitos, a vida. E isso é uma coisa boa.

Desde que iniciei o retiro, tive a oportunidade de me dedicar a muitos projetos. Atualizei o blog Música e Poética, escrevendo crônicas que há muito tempo começaram a ser esboçadas. Resgatei as reflexões sobre prática coral, técnica vocal, regência, música, de modo geral, textos que serão usados em sala de aula e em pesquisas futuras. Participei de reuniões online, com colegas de outras instituições, do Brasil e do exterior. Fiz também arranjos, que irei ensaiar com os coros que dirijo, e ouvi obras encostadas na estante há bastante tempo, como as sinfonias de Brahms. Selecionei as melhores gravações e intérpretes, acompanhando tudo com as partituras empoeiradas, revendo marcas do passado. Organizei os livros nas prateleiras. Folheei romances, limpando-os carinhosamente, revendo anotações, espantado e encantado com as narrativas de Ubaldo, Saramago, Scliar e tantos outros que povoam o meu imaginário e coração.

Para exercitar os músculos e fugir da cozinha, limpei o jardim, podei árvores, reguei as plantas da floresta encantada da minha companheira, a maga Jane Cely. Suas aceroleiras responderam aos meus afagos e ficaram entumecidas, suculentas e ruborizadas. Hum... aquelas gostosas atiçaram o fogo do desejo, abriram o meu apetite. Na garagem, enquanto o carro dorme, brinco com Capitu, que balança a cauda ininterruptamente, celebrando a calmaria e a minha não-transitoriedade. Aurora, indiferentemente, debocha, pois estou integralmente presente. Ela está cansada dos meus excessos, exceto quando tem fome ou sede. Foi por isso que fiquei pensando nas similaridades dos comportamentos dos felinos e dos humanos: em ambos, há sempre um interesse não revelado por trás do miado manso.

Comecei a organizar o acervo no qual guardo programas, cartazes, partituras, documentos em geral. Coloquei tudo no chão, fora das caixas, e fui categorizando por datas, iniciando em 1982 até os dias atuais. Quanta coisa. O trabalho será longo, posto que eventualmente me detenho para rever algo, dedicando mais atenção a um ou a outro papel, a esta ou aquela fotografia. Foi nessa arrumação que encontrei várias cartas, como aquelas que Thúlio Antunes me mandava regularmente quando estava em Sousa, com sua família, durante as férias de verão. Mas isso eu vou contar noutra ocasião. Esta tem sido uma experiência fantástica, com dias intensos, sobre os quais falaremos no futuro. Por hora, redescubro meus espaços, celebro a vida e digo: fica em casa, gente. Esse é o melhor e mais seguro lugar.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

terça-feira, 14 de abril de 2020

Duvido que essa música toque no FM ou no AM

O Coral Universitário da Paraíba, Campus I, João Pessoa, foi criado em 1963 e teve como primeiro regente o professor Pedro Santos. Posteriormente, e até o início dos anos noventa, o conjunto foi dirigido por Arlindo Teixeira, Clóvis Pereira, José Alberto Kaplan e Eli-Eri Moura. Nesse intervalo, o coro participou de vários eventos no Brasil e no exterior, destacando-se o Festival Internacional de Coros do Rio Grande do Sul, o Encontro de Corais do Porto, em Portugal, bem como os concertos no Lincoln Center, em Nova Iorque, Estados Unidos. O quarto lugar no Concurso Nacional de Corais promovido pela FUNARTE e Rede Globo de TV, no final da década de setenta, é um dos pontos relevantes na trajetória do ensemble.

Eu, particularmente, tive a oportunidade de ouvir o Gazzi de Sá pela primeira vez em 1986, por conta do III Festival Nordestino de Corais, realizado aqui em Campina Grande, no Teatro. Na ocasião, Eli-Eri estava a frente do coro, que iniciou a sua participação cantando Ave verum, de W. A. Mozart. Aquela não seria uma apresentação qualquer no palco do Severino Cabral. Logo após o término do conhecido moteto, o grupo interpretou um repertório formado por obras originais e arranjos, destacando-se Música Clássica para PianoModinha para cantora e piano e Música americana para cantor e jazz band (para as partituras, contate-me).

O coral empregou vários recursos cênicos na interpretação dessas peças. Fundamentalmente, um pequeno grupo de atores encenava, enquanto os coralistas cantavam e interagiam em sintonia com os protagonistas, que, de modo geral, faziam mímicas, exagerando nos gestos, criando ambiguidades, provocando o riso generalizado, fazendo a plateia delirar. Ao ouvir a gravação, que foi digitalizada recentemente a partir de uma fita K-7, é possível compreender o que estou falando (veja aqui).

Algumas das obras eram de autoria do próprio maestro, que, por razões desconhecidas, assinava com diferentes pseudônimos, fato que só descobri a posteriori, quando nos tornamos mais próximos. Embora musicalmente simples, as peças eram criativas, tecnicamente adequadas e interpretadas numa linguagem de fácil acesso ao público, sempre atento às novidades. Também merece destaque o arranjo que Eli-Eri Moura fez para Sete cantigas para voar, de Vital Farias. É um primor. A atuação do Gazzi de Sá foi emblemática, divertida e em sintonia com as práticas em voga no Brasil e, mais particularmente, na UFPB, desde os tempos do seu primeiro diretor, que era um sujeito muito ligado ao teatro e ao cinema. Aquela performance foi inesquecível, e até hoje lembro da forma como eles terminaram a noitada, cantando um clássico de Wagner Amorosino e Carlos Castelo, que não saiu da minha cabeça e cujo texto resume-se ao título, que assim diz: Duvido que essa música toque no FM ou no AM.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Os dias mais doces da minha existência

O quintal da nossa casa, na Rua das Imbiras, era repleto de árvores frutíferas, cujos frutos ingeríamos in natura ou usávamos para preparar sucos. Por lá, tínhamos graviola, goiaba, pinha, pitanga, mamão, manga e cana-de-açúcar, com a qual montávamos roletes e exercitávamos os músculos da mastigação.

Aos sábados, meus pais iam à Feira Central e traziam muitas iguarias. De longe, eu farejava a rapadura, as sordas e uns caramelos psicodélicos, que se apresentavam em diferentes tamanhos, cores e formatos, incluindo o que parece uma ave, por isso o chamávamos de galinha-de-açúcar. Outra delícia era a fuba, que é diferente do fubá. Os dois alimentos são feitos com milho maduro, seco e moído, sendo que este é cru e aquele é torrado. Esse pozinho amarelado, a fuba, podia ser consumido puro ou com mel. Na época do umbu, minha mãe preparava uma cremosa umbuzada. Eu gostava de sorvê-la bem gelada. O mousse do cariri tinha uma consistência e um sabor indescritíveis, que provocavam em mim um êxtase, a mesma sensação que sinto quando ouço um coral cantando no tempo, afinado, com técnica e expressivamente.

Nós também comprávamos guloseimas na rua, como, por exemplo, os pirulitos de mel em forma cônica e enrolados num delicado pedaço de papel. O vendedor organizava os pequenos guarda-chuvas numa tábua furada: a parte mais fina ficava para baixo e a área mais larga, para cima, deixava à mostra a ponta de um palito, que servia como suporte. Às vezes, chegava um rapaz tocando triângulo e oferecendo cavaco chinês, um biscoito fino, crocante e quebradiço feito com uma massa de polvilho ou de farinha de trigo, untada em margarina e açúcar. Noutras, alguém vendia puxa-puxa, alfenim, quebra-queixo ou cocada, sempre cantando pregões. Vó Nuca nos ofertava dindins. A culminância era comprar o algodão doce do velhinho que soprava melodias encantadoras em tons aleatórios, num realejo furta-cor. Eu não sabia se era melhor vê-lo em ação ou se preferia degustar o produto que ele criara, porque tudo era mágico. Quando o interpelávamos, como um mago a iniciar um ritual, acomodava o carrinho, ajustava o avental, acendia o fogo, colocava a sacarose colorida no bojo da panela e, com a mão trêmula e os dedos longos, começava a girar uma manivela, aumentando a velocidade e o calor gradativamente, fazendo surgir daquele não-lugar um novelo sólido quase translúcido, tão frágil e fugaz quanto a própria vida.

Só de pensar nas calorias e na glicemia, senti que minhas taxas foram alteradas, provocando palpitações desconhecidas. A emoção seguiu o mesmo percurso, é verdade, pois essas são reminiscências de um povo-tempo-lugar já distante, sagrado e secreto, mas que guardo dentro da alma e do coração, afinal foram os dias mais doces da minha existência.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Festival Nordestino de Corais

O terceiro Festival Nordestino de Corais, uma promoção da Fundação Artístico-Cultural Manuel Bandeira, aconteceu no Teatro Municipal Severino Cabral, em Campina Grande-PB, nos dia 2 e 3 de agosto de 1986. O evento, que congregou participantes de sete estados das regiões norte e nordeste, foi coordenado por Antônio Sérgio Telles das Chagas, que na ocasião apresentou-se com o Coral Cecília Meireles (FACMADRIGAL) e o Grupo Vocal Céu da Boca.

Da Serra da Borborema participaram outros quatro coros, sendo dois preparados por José Cavalcanti da Silva, o Coral Severino Lopez Loureiro e o Antônio Guimarães; o Coro em Canto, vinculado à UFPB, Campus II, sob a regência de Fernando Rangel; e o meu, o Viva Voz, ligado ao Centro Cultural. Foi nesta ocasião que fiz minha estreia como regente. De João Pessoa estiveram presentes o Coral da APCEF, do colega Antônio Carlos Batista Pinto Coelho (Tom K); o Coral Universitário da Paraíba “Gazzi de Sá” e o Grupo Ânima, ambos sob a batuta de Eli-Eri Moura, que também estava a frente do Madrigal da Escola de Música da UFRN. Da Veneza brasileira veio o Coral da CHESF, chefiado por Ramon Pazos Buezas; o Coral dos Empregados da TELPE, liderado por José C. Beltrão Júnior; e o Coral SINPAS, do maestro Laury Bernardes da Silva. O Coral Hermeto Pascoal e o Artium Suprema representaram Alagoas com seus diretores Petrúcio Falcão e Islêne Leite. O maestro Giovanni Pelella chegou com o Coral da Universidade Federal do Maranhão, de São Luís, enquanto Adolfo Oliveira dos Santos trouxe o Coral Vocal, de Belém, no Pará. Da capital sergipana, Aracaju, o SESCORAL, dirigido por José Carlos Tourinho e Silva, e o Coral da UFS, com Antônio Carlos Clech.

O repertório era diversificado, incluindo música sacra e secular, original e arranjada, brasileira e internacional, a capela e com acompanhamento. No programa, encontramos Hasler, Dowland, Mozart, Schubert, Saint-Saëns, Osvaldo Lacerda, Waldemar Henrique, José Alberto Kaplan, além de vários arranjadores, incluindo os próprios maestros, Nelson Mathias e José Pedro Boésio, referências da área naquela época. Parte das apresentações está digitalizada e disponível em vídeo (veja aqui).

Participei deste encontro e tive a oportunidade de conhecer e selar laços com muita gente. Fico imaginando que toda a produção foi feita por via postal, com correspondências, telegramas, faxes e telefonemas, nem sempre tão acessíveis. Os grupos viajavam de ônibus, sem o conforto e a segurança facilmente encontrados atualmente, ficavam hospedados três ou quatro dias em alojamentos, nas igrejas, no Teatro, nos quarteis. Quando partiam, as promessas do reencontro ecoavam pela estrada sem fim. Era assim que Campina realizava seus Festivais, vibrando em harmonia, com as vozes em festa, celebrando a amizade e a vida.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

terça-feira, 7 de abril de 2020

Uma noite barulhenta!

Quando uma pessoa sai de casa e vai morar em outra cidade, estado, região ou país, geralmente ela enfrenta dificuldades para superar certas barreiras culturais. Parece bobagem, mas quem nunca passou por isso não sabe do que estou falando. Ao nos inserirmos em um novo contexto inevitavelmente o comparamos com outros, sobretudo aquele que é a nossa origem. Muitas são as analogias, que vão desde os aspectos linguísticos até os gastronômicos.

Na minha temporada nos Estados Unidos, por exemplo, demorei a me acostumar com a comida. À exceção das French fries, cujo sabor configura-se como algo pretensamente universal, todo o resto foi mais difícil de deglutir e familiarizar-se. As compras no supermercado eram sempre muito criteriosas. Com relação às frutas, não me apetecia o gosto das bananas sem aqueles pontinhos pretos e minúsculos, os óvulos não fecundados da flor da bananeira, que fazem um lindo contraponto com a textura macia e esbranquiçada que constitui o corpo do pseudofruto. O mesmo valia para o ananás advindo dos países da América Central. Usando os princípios básicos da teoria piagetiana, passei meses assimilando e acomodando odores e sabores. Reeduquei o meu paladar ao menu da créole cuisine e da cajun food, ambos predominantes na zona urbana e rural da Louisiana.

Às quartas-feiras, antes do ensaio do coral na Zachary United Methodist Church, era servida uma ceia com variados pratos, incluindo gumbo, jambalaya ou crawfish boil, este último uma especialidade da família Kaster. Como o intercâmbio é uma experiência permanente numa via de mão dupla, certa vez resolvi oferecer aos membros da igreja um pouco do tempero brasileiro. Muito embora inapropriada para o jantar, nada poderia ser mais sugestivo do que uma suculenta feijoada. Compramos os ingredientes e servimos a iguaria acompanhada de arroz, couve refogada, laranja e farofa, que encontramos numa pequena loja de produtos indianos, na Government Street, no centro de Baton Rouge. Uma breve explicação acerca do cardápio e como ocorrera o processo de preparação antecedeu o banquete. Tenho certeza que isso aumentou a curiosidade, deu água na boca. Superada essa etapa, começaram a saborear, a repetir e a embalar o excedente das leguminosas em pequenas marmitas. A panela ficou vazia em pouco tempo. Instintivamente, pensei n’O clube dos anjos, romance que trata da gula, um dos pecados capitais, e no qual Luís Fernando Veríssimo define o desafio filosófico da gastronomia: a apreciação que exige a destruição do apreciado.

Ensaiamos com a barriga cheia, cantando e comentando a respeito daquela vivência, durante o lento e pesado processo digestivo, enquanto as fibras e carboidratos do feijão preto fermentavam. No domingo, antes do culto, encontrei-me com o coro e perguntei sobre a feijoada, ao que me responderam sorrindo timidamente: maestro, it was a noisy night!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Sí, eres tenor!

Em 1996, conheci Jasmin Martorell num curso de canto, em Recife-Olinda. Ao longo de uma semana, entre vocalizes e ensaios, trabalhamos intensivamente, nas aulas individuais e coletivas, preparando o repertório do concerto de encerramento e no qual interpretei canções e árias, com uma voz até então desconhecida por todos, inclusive por mim mesmo. Passei a integrar os projetos da Sociedade de Canto Dionysio, com os docentes e discentes do Conservatório Pernambucano de Música, sob a liderança de José Renato Accioly e Julie Cássia Cavalcante (veja os programas).

Depois daquele encontro, agendamos mais duas temporadas com o professor franco-catalão. Nós nos reunimos, definimos as datas e rateamos o custo, assegurando, deste modo, a cobertura do investimento e a remuneração do nosso estimado convidado. Em geral, a cada temporada, passávamos cerca de quinze dias ensaiando, preparando solos, duos, trios e quartetos, bem como cenas de ópera. Jasmin não parava nem cansava. Ele trabalhava diuturnamente com o pragmatismo que lhe era bem singular: vocalizes, dicção, compreensão textual, interpretação, tudo isso acompanhado de muita repetição, cobrança e, como não poderia faltar, um pouco de estresse.

Essa rotina de trabalho repetiu-se ao longo de 1997. Numa dessas idas à capital pernambucana, fui convidado para passar seis meses em território francês, estudando por lá. Organizei a vida, fiz as contas, consegui autorização para seguir neste novo projeto, que também integraria as atividades do PPGMUS-UFBA, e parti rumo à Europa. Deixei o escaldante verão nordestino e enfrentei o frio congelante de Toulouse, essa linda cidade avermelhada, situada no coração do sul da França, entre o Mediterrâneo e o Atlântico. Morei na zona rural, na casa da família Martorell, que me recebeu como filho. Todos os dias, saía cedo em direção ao Conservatório Nacional a fim de estudar, ensaiar e visitar a biblioteca. À medida em que o tempo avançava, fui melhorando a comunicação, a fluência na língua francesa, a socialização com os novos amigos, oriundos de tantos países.

Aquele semestre mudou a minha vida, abriu horizontes e ratificou uma premissa básica: tudo o que nós necessitamos é ter uma oportunidade. E comigo não foi diferente. A chance veio, eu mergulhei, nadei e cheguei às margens de outros oceanos. Mexendo em meus arquivos, encontrei as fotos, o programa (feito à mão, ressalte-se) e uma fita K-7 com a gravação de um dos concertos que participei naquela temporada, cantando Villa-Lobos (veja o vídeo). A alegria foi indescritível. Lembrei-me do meu primeiro professor de canto, que, num passe de mágica, fez eclodir a voz que somente eu ouvia, latente e pulsante, no mais recôndito esconderijo da alma. Ainda sorrindo com o eco da tua fala me dizendo sí, eres tenor, hoje, Jasmin Martorell, são para ti todas as reverências, o mais profundo respeito, o meu sincero amor.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 5 de abril de 2020

O Canto Coral na Paraíba: José Alberto Kaplan

José Alberto Kaplan, argentino de nascimento (Rosário, 1935) e naturalizado brasileiro, estudou piano em sua localidade de origem com Arminda Farruggia e Ruwin Erlich, mudando-se posteriormente para a Europa, onde continuou sua formação e participou de vários concursos como intérprete em diferentes países, selando laços de amizade com grandes nomes do nosso meio, dentre eles Martha Argerich. Depois do Velho Mundo, retornou à Argentina, chegando ao Brasil no início da década de sessenta.

Campina Grande foi o lugar escolhido para esta nova etapa. Na verdade, não foi bem uma escolha. Kaplan aceitara uma proposta de emprego e passaria a lecionar no Instituto Campinense de Música, entidade mantida pela Associação Campinense Pró-Arte, dirigida pelo Dr. Manuel Tavares. No pouco tempo em que ficou por aqui, absorveu muito da cultura local, sobretudo nas visitas à feira central, ambiente no qual ouviu e encantou-se pela sonoridade dos repentistas e emboladores. Na capital, em João Pessoa, por volta de 1964, passou a lecionar na Universidade Federal da Paraíba, guiando uma legião de estudantes. Além de instrumentista, o professor Kaplan atuou também como compositor, muito embora apenas aos 43 anos tenha começado, de fato, a levar a sério o seu trabalho nesse campo. Sua atividade docente se desenvolveu em várias instituições, a exemplo da UFRN e da UFSM.

Como regente, conduziu a Orquestra de Câmara do Estado, a Orquestra Sinfônica da Paraíba (OSPB), a Camerata Universitária e o Colegium Musicum. Boa parte das suas obras corais nasceram no período em que esteve a frente de tais conjuntos e, mais particularmente, do Coral Universitário “Gazzi de Sá”. Dentre as peças originais, para coro a capela ou com acompanhamento, destacam-se Ensino Público e Gratuito, Vamo vadiá, O Rei Encantado, Auto de Natal, Manifesto aos que tem o pé no chão, Catimbó, Maracatu Proverbial (Duas vozes - SATB), Escuta o meu protesto (Salmo 5), Trilogia, Aleluia, Canção da Saída, Vilancicos, Natal do Homem Novo, Madrigal e Cantata pra Alagamar. Quanto aos arranjos, encontram-se Casinha Pequenina, A Banda, Samba em Prelúdio e O Gemedô (vídeo). É importante destacar, ainda, a ópera O Refletor (texto de B. Brecht, adaptado pelo autor) e a comédia musical Burgueses ou Meliantes (texto de W. J. Solha). Mesmo tendo uma considerável e variada produção, sua música coral ainda é pouco conhecida, estudada e interpretada. As partituras e áudios já disponíveis estão em destaque. Para ter acesso às outras, é só entrar em contato.

Tive a oportunidade de estudar composição com Kaplito. Foi uma experiência incrível, na qual expandi meu potencial criativo. Absorvi tudo o que pude em sala de aula e na sua casa, que tive o privilégio de frequentar eventualmente. Aqueles dias e o seu nome estão gravados em minhas memórias e na história da música desta terra, que ele deixou em 2009.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

Sobre José A. Kaplan, veja também Cantata pra AlagamarAutores e intérpretesJosé Alberto Kaplan e a arte engajadaO refletorAve Maria da Eleição e O casamento.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Vamos tocar fogo no parquinho!

Construir a identidade sonora de um grupo é um processo complexo. No caso do canto coral, muito embora essa tarefa possa ser realizada colaborativamente com a pessoa que cuida da preparação vocal, por meio de aulas coletivas ou individuais, defendo que cabe exclusivamente a quem dirige moldar e definir, ao longo dos ensaios, o produto final idealizado em sua mente.

Essa missão exige um amplo domínio técnico e uma trajetória na área do canto lírico. Ainda que tais elementos não funcionem isoladamente, sem eles a condução das ações didático-pedagógicas será árdua, sobretudo quando temos que lidar com intérpretes inflexíveis e indispostos a colaborar, que se recusam a fazer ajustes vocais em prol da coletividade, que resistem às mudanças, ignorando as instruções dadas e que almejam a uniformidade. Dependendo da situação, o quadro se agrava quando a crítica técnica é entendida enquanto ofensa pessoal, uma afronta à trajetória e à formação do indivíduo com o qual interagimos. Ao solicitar que alguém cante fraco ou forte, no tempo ou afinado, com mais ou menos vibrato, projetando a voz nesta ou naquela direção, estamos sendo racionais, objetivos, funcionais, impessoais, motivo pelo qual não há espaço para melindres, caras feias ou tristeza, porque não se trata de injúria ou doença incurável.

Neste sentido, a prática orquestral poderia ser nosso modelo, sobretudo quando levamos em consideração o papel do spalla e líderes dos naipes, que atuam conjuntamente com a direção definindo, por exemplo, a organização das seções e as arcadas, dentre outras questões. Se a nossa meta é a excelência técnica e artística, devemos optar pelo desenvolvimento de habilidades, que serão adquiridas por meio do treinamento sistemático, com disciplina e feedback. Comento isso, porque alguém me disse outro dia que a extensão do seu coro era de quatro oitavas (Dó1 - Dó5) e que aquele seleto time era formado apenas por experts. Eu fiquei quieto e tentei entender de que modo tais parâmetros, per se, asseguravam a qualidade do trabalho do meu colega, posto que, incontáveis vezes, já vi exímios profissionais interpretarem a literatura coral de forma conjunta sem necessariamente soar como um conjunto.

Como regentes, é crucial que tenhamos conhecimentos e experiências que nos permitam produzir uma sonoridade indelével, tornando cada agrupamento único. Independentemente de trabalharmos com diletantes ou não, com vozes excepcionais ou ordinárias, nós precisamos é ter consciência e perícia para saber o que fazer com os recursos disponíveis, sem frustrações, traumas e complexos de superioridade ou inferioridade. Que sejamos plenos e belos da melhor forma, como quisermos e pudermos. Essa cultura ainda tão prevalente em nosso círculo, que valoriza o exibicionismo e a frivolidade em detrimento da qualidade, preservando um nocivo ranço primadonesco, deve ser repensada. Aqui está o fósforo: “vamos tocar fogo no parquinho!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Trabalhando com coros de idosos

Quem trabalha com coros de idosos sabe que, além dos conhecimentos musicais e vocais, é preciso compreender as mudanças fisiológicas e psicológicas que ocorrem nesta fase da vida. Há um processo gradativo de ossificação das cartilagens e de atrofia da musculatura vocal que provoca tensão na região laríngea, dificultando a produção sonora. Mulheres e homens, indistintamente, sofrem com o desajuste hormonal por causa da menopausa e da andropausa. As alterações no timbre, a diminuição na agilidade e a perda no controle da intensidade nos extremos da tessitura e do vibrato evidenciam tais transformações temporais. É certo que tudo isso muda conforme o histórico individual e pode ser acentuado quando o corista é inexperiente ou lida com outras doenças crônicas. Logo, quanto mais variantes, mais ponderado deverá ser o trabalho do regente.

As atividades físicas, em qualquer época, são boas para manter o corpo e a voz saudáveis, exercitando os pulmões constantemente. Neste sentido, é bom observar o manejo respiratório, sobretudo se a força muscular do cantor estiver comprometida. Quanto aos vocalizes, cantá-los levemente, mantendo os ressonadores ativos, acionando os músculos intrínsecos da laringe, buscando uma sonoridade misturada, que amenize o uso excessivo da voz de peito, favorecendo a construção do som almejado pelo maestro. Para expandir a extensão, sequências descendentes por graus conjuntos, conectando todos os registros, sempre legato e expressivo. O uso de um instrumento harmônico ajuda a manter a afinação, seja durante o aquecimento ou na realização do repertório. Aliás, a escolha do que cantar é algo a ser pensado criteriosamente, pois propostas inapropriadas comprometerão a atuação do grupo. Depois de selecionar as peças, definir os tons e elaborar os arranjos, é importante preparar uma edição legível, em tamanho adequado, tendo em vista as possíveis contingências visuais de alguns integrantes.

A sala de ensaios deve ser em local acessível para todos, incluindo aqueles com mobilidade limitada. A distribuição das cadeiras, a luminosidade e a ventilação do espaço, tudo, enfim, tem que ser estudado, e o planejamento dos encontros necessariamente levará em conta horário e duração dos mesmos, a sequência das tarefas, o intervalo e o momento dedicado aos assuntos administrativos. Um espaço para a partilha das experiências cotidianas e extramusicais promoverá a socialização e a integração do conjunto. A organização do cronograma pode ser anual ou semestral, abrangendo ensaios, concertos e a participação em festivais. Viagens com esse tipo de grupo exigem atenção redobrada, porque as demandas são mais complexas.

A prática coral com a terceira idade é legítima e precisa ser encarada responsavelmente. Apesar das iniciativas, há ainda um longo caminho a ser percorrido, que inclui a proposição de metodologias, o desenvolvimento de estratégias, a criação de uma literatura coral, bem como a elaboração de materiais auxiliares à atuação dos profissionais.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com