quarta-feira, 18 de março de 2020

Uma turnê inesquecível

Ao longo do mês de janeiro, acompanhei a Orquestra Jovem Música Para Todos, do município de Teresina-PI, em sua digressão pela Europa, assessorando artística e tecnicamente o grupo nessa jornada em Portugal e na Espanha. Ao todo, realizamos doze apresentações.

O nosso primeiro recital ocorreu no Museu Frei Manuel do Cenáculo, onde nos apresentamos na sala na qual se encontra o Políptico da Sé de Évora, produzido por desconhecidos mestres flamengos do século dezesseis. Esse painel, que decorou o altar-mor da Matriz daquela vila, é composto por treze pinturas a óleo, que retratam a vida da Virgem Maria. A estrutura do espaço, a acústica impecável e a sonoridade do consorte de flautas nos fizeram visitar outros universos, evocaram o renascimento. Do Alentejo, embarcamos rumo à região de Sintra. A Casa da Cultura Lívio de Morais estava lotada, com um público sedento, que interagiu e participou ativamente da nossa performance.

Do entorno de Lisboa, subimos para Coimbra, cuja universidade comemora 730 anos de fundação. Por lá, enfrentamos escadas, ladeiras, ventania e frio, encontramos árvores caídas e tocamos no Museu Nacional Machado de Castro e no Teatro da Faculdade de Letras. Além do roteiro oficial, participamos das festividades do Ano Novo Chinês, promovido pelo Instituto Confúcio em parceria com o conservatório da cidade. Contemplamos a beleza singular de Coimbra de várias formas. Da janela do apartamento, durante o crepúsculo, com o céu furta-cor, na hora do ângelus, vimos os últimos raios de sol acalentarem o Rio Mondego, embalados pelos sinos do Mosteiro de Santa Clara. A visita à Biblioteca Joanina foi outra experiência memorável, pois uma biblioteca é muito mais que uma coleção de livros. É um barril de ideias que fermenta as revoluções. Desse modo, devemos ser mais subjetivos e subversivos. Por isso, precisamos de mais sabedoria e conhecimento. A grande lição está escrita num dos pórticos desse templo: “Lusos, a Sapiência fundou para vós esta fortaleza; por capitães, tendes os livros; por soldados e armas, o trabalho.”

Dali, partimos para a capital espanhola. O destino era a Casa do Brasil em Madrid. Fizemos o trajeto de carro, sem pressa. Entre um cochilo e outro, uma ponte e um túnel, degustávamos os sonhos sorvendo cada gota das experiências que já havíamos vivido, os encontros com aquele povo-tempo-lugar. Ao cruzarmos a fronteira e passarmos por Salamanca, sorrisos de encanto e espanto por conta do contraponto entre o breu das horas e a brancura da neve sobre o asfalto e os montes. Quando a fome apertou, saboreamos iguarias da culinária ibérica, incluindo rabas de calamar e pechugas empanadas, num quiosque à beira da estrada silenciosa e quase deserta. Plenos de nutrientes e expectativas, seguimos a rota, invadindo a noite, nesta turnê inesquecível, que continuarei narrando.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

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