quinta-feira, 19 de março de 2020

Raposeira, se faz favor!

A estadia da Orquestra Jovem Música Para Todos na Casa do Brasil, em Madri, foi maravilhosa. O espaço abriga estudantes, professores, pesquisadores e artistas de vários países, dentre os quais o campo-grandense Jayme Marques. Radicado na Europa há mais de sessenta anos, ele atuou como violonista, arranjador e compositor, ajudando a popularizar a música brasileira no Velho Mundo. Em nossos encontros, falamos sobre a sua carreira, incluindo as produções fonográfica e bibliográfica, motivo pelo qual presenteou-me com alguns discos e o seu compêndio de harmonia, obra publicada recentemente. A fim de celebrar aquele momento, o experiente músico acompanhou o grupo Eu & Ellas, que também estava conosco, na interpretação de dois clássicos da Bossa Nova: Chega de Saudade e Samba de Verão. Esse convívio intergeracional marcou o intercâmbio.

Após visitarmos a Plaza Mayor, o Palacio Real, a Puerta del Sol, o Paseo del Prado e tantos outros pontos turísticos, retornamos para Portugal. Na área do Porto, fizemos concertos em três localidades. Uma hora antes da apresentação em Ramalde, os integrantes do conjunto perceberam que as estantes haviam ficado na Espanha. O pânico foi total, pois não havia tempo hábil para substitui-las, fato que nos levou a executar o repertório de cabeça, memorizado. Esta foi uma situação desafiadora, é verdade, mas que permitiu o crescimento do ensemble que, a partir de então, passou a apresentar-se sem as partituras, interpretando as peças de modo mais espontâneo e descontraído. Um fato pitoresco ocorria quando eu contava essa história, no meio do concerto. A plateia sorria sempre, pensando que eu estava brincando, fazendo média, por assim dizer, com a garotada.

Chuva e frio marcaram nossa estadia em Lordelo. O aconchego da plateia e um enorme aquecedor a gás, colocado bem no meio do auditório, nos aproximaram e esquentaram. Como em outras ocasiões, os lordelenses estavam atentos, ora cantando, ora batendo palmas, enquanto interpretávamos Carinhoso ou o Xote das Meninas.

A deslumbrante paisagem do Alto Douro e Trás-os-Montes é montanhosa, rica em parreirais e vinícolas. O ponto culminante da nossa passagem pelo norte português ocorreu em Lamego. Na região duriense, o Teatro Ribeiro Conceição é uma referência. Lá, participamos das comemorações dos 40 anos do Instituto Politécnico de Viseu e também do debate realizado após o concerto, ao lado da Cônsul Geral do Brasil no Porto, Maria Dulce de Barros, e outras autoridades. A embaixadora é piauiense e o esposo dela, paraibano, uma grata e significativa coincidência. Na ocasião, falei sobre limites e possibilidades, a missão política, profética e poética do educador-artista e, é claro, o Festival Internacional de Música de Campina Grande. A Rainha da Borborema e a UFCG estiveram em pauta. Na despedida desse encontro inolvidável, brindamos, para eternizar o instante. E assim prosseguimos, celebrando e dizendo: Raposeira, se faz favor!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

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