sexta-feira, 20 de março de 2020

Para ser grande, sê inteiro.

A última etapa da nossa turnê começou na Covilhã, Serra da Estrela, na Pousada da Juventude, a 1.200 metros do nível do mar, rodeados por muita neve e frio. Parece bobagem a experiência climática, mas quem mora no Nordeste do Brasil sabe que qualquer variação abaixo dos vinte graus é, de certo modo, congelante, sobretudo os habitantes de Teresina-PI, onde as estações do ano são verão, quentura, calor e mormaço, como diz a sabedoria popular.

A temperatura, entretanto, não nos impediu de realizar dois belos concertos. O primeiro foi no Salão Nobre da Câmara Municipal, um local reservado para apresentações de seletos grupos e artistas. Nos sentimos honrados com a oportunidade, principalmente pela presença de vários brasileiros e autoridades parlamentares. No outro dia, o professor Francisco Luís Vieira nos recebeu na Escola Profissional de Artes da Covilhã. Além de assistirmos alguns ensaios e conhecermos a estrutura daquele importante centro de formação, participamos de uma máster classe com a professora de flauta da instituição. O recital na EPABI foi um dos mais participativos. Os aplausos demostravam que a plateia estava encantada com a nossa performance, a música brasileira, o chorinho, o samba, o xote.


Já em Lisboa, no Museu Nacional da Música, ficamos apreensivos, pois, no dia do nosso concerto, havia um jogo no estádio do Benfica, e o MNM fica localizado numa estação de metrô, por ali, nas redondezas. O trânsito confuso parecia nos indicar público inexpressivo. No entanto, nos enganamos. Meia hora antes, formou-se uma fila na porta daquele espaço cultural. Tocar por entre instrumentos históricos foi um privilégio.


A água gelada deste lado do Atlântico não assustou os ousados músicos, que mergulharam de corpo e alma na Praia da Poça, em Estoril. Andamos pelo Paredão até Cascais e depois visitamos a Boca do Inferno. Ali, fiz a seguinte oração: Que sejamos fortes como a rocha; leves como o vento; flexíveis e persistentes como a água; brilhantes como o sol, que tudo ilumina e aquece. No Colégio Marista, nos apresentamos para os diferentes coros do Vox Laci. No meio da cantoria, uma das senhoras comentou que, há sessenta e cinco anos, Luiz Gonzaga fazia sucesso em terras lusitanas. E acrescentou que, ainda menina, cantava o refrão, “ela só quer, só pensa em namorar”, e que era, de fato, um verdadeiro escândalo. Esse depoimento nos fez sorrir despretensiosamente. Tenho certeza que os integrantes do grupo piauiense jamais esquecerão essa temporada em Portugal. Todos voltaram transformados e inspirados nos conhecidos versos de Pessoa: “Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive.”


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

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