domingo, 29 de março de 2020

O andarilho

Reginaldo Carvalho nasceu em Guarabira-PB. Desde pequeno, aprendeu a desbravar o horizonte, andando pelo brejo paraibano na companhia dos pais e irmãos, passeando e visitando parentes em vilarejos como Mulungu, Cruzeiro ou a Fazenda Cachoeira. Por conta dos negócios da família, viveu em João Pessoa, Natal e Recife. Morou nos arredores de Campina Grande, em Lagoa Seca, no Colégio Seráfico de Santo Antônio, na zona rural de Ipuarana.

Do Nordeste, seguiu para a Cidade Maravilhosa, nos anos cinquenta, onde fixou morada por muito tempo. Naquela metrópole, foi diretor do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, do Centro de Pesquisas Musicais Villa-Lobos e do Instituto Villa-Lobos. Foi também regente e professor nos colégios Pedro II, Notre Dame e Anglo, no Instituto Lafayette, na Escola do SENAC e na Associação dos Servidores Civis do Brasil. Na Guanabara, seu cotidiano docente incluía atividades ininterruptas no centro, Tijuca, Copacabana e Botafogo. Ainda nas primeiras décadas da segunda metade do século XX, transitou por Juiz de Fora, São João D’El Rey, Barbacena, Cataguases, Curitiba, São Paulo, Campos do Jordão, Paty do Alferes, Araruama, Paquetá e Brasília-DF. É interessante notar que seus pais, José Clementino de Carvalho e Maria Vilar de Carvalho, já aposentados, se mudaram para Goiânia-GO aproximadamente nessa mesma época. Foi com o coral da nova Capital Federal, aliás, que ele realizou a primeira excursão cultural, apresentando-se em Minas Gerais, Bahia e Sergipe.


Nas duas temporadas em que esteve pela Europa, visitou vários países, dentre os quais França, Reino Unido, Espanha, Alemanha e Itália, ocasião na qual representou o Brasil no Congresso Mundial de Meninos Cantores, em Roma. Antes de se instalar em Teresina, em meados de 1971, Reginaldo recebeu convites para trabalhar em Madri, Montreal, Adelaide, Lisboa e Buenos Aires. Mas sua opção foi o Piauí. De norte a sul do estado, coletou vasto material para suas composições, bebendo nas fontes das manifestações populares, enquanto participava de eventos em estados vizinhos como o Maranhão e o Ceará. Por ser maestro convidado da equipe dos Painéis FUNARTE de Regência Coral, ministrou aulas em vários rincões, incluindo Uberlândia-MG, município no qual tive a honra de conhecê-lo. Jamais imaginaria que posteriormente seríamos colegas, por cerca de quinze anos, no Departamento de Educação Artística da UFPI.


Todas essas andanças estão registradas em inúmeros documentos, incluindo partituras, correspondências, programas, fotos e anotações pessoais. Em 2011, após quatro décadas na Chapada do Corisco, voltou à Paraíba, fixando residência em Cabedelo. Foi ali, no Paraíso, como ele bem descrevia aquele lugar, que encerrou a itinerância terrena, em 2013, cantando, à beira-mar, os versos da Cantiga (vídeo), de Manuel Bandeira, que ele lindamente musicou, dizendo com voz mansa e suave, “Quero ser feliz / Nas ondas do mar / Quero esquecer tudo / Quero descansar.”


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

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