domingo, 22 de março de 2020

Morte e transfiguração

Quando nos mudamos para a residência onde moramos atualmente, fomos recebidos por nossos vizinhos, Lourdes e Silvério. Além das boas vindas, nos falaram sobre as redondezas e também os possíveis problemas que poderíamos enfrentar, sobretudo algumas infiltrações por conta da rua desnivelada e o excesso de água no subsolo.

Seu Silvério passava o dia em casa, consertando o telhado, arrumando os objetos no corredor lateral ou limpando o jardim e a churrasqueira para os encontros com a família. Aurora os visitava frequentemente, antes de iniciar os seus passeios noturnos. Faceira, pulava o muro e entrava sem pedir licença, despojando-se no meio da varanda. Enquanto os dois descansavam em suas cadeiras de balanço, acompanhando o movimento da rua e embalados pela brisa que areja o céu da Serra depois que o sol se põe e a quietude dos tempos se instala, a felina começava a miar, narrando seus planos e aventuras num gatês quase incompreensível, mexendo o rabo solenemente de lá-para-cá-para-lá, não necessariamente nessa ordem e velocidade, como se estivesse regendo o Adagio for Strings, de Samuel Barber. Dona Lourdes, em virtude do seu temperamento, não era tão afeita àquelas lereias. Não sei se lhe faltava paciência ou conhecimentos da língua felina para levar adiante a conversa fiada, quer dizer, miada, com Aurora, que, diga-se de passagem, é uma gata bela e sedutora, motivo pelo qual era possível farejar certo ciúme naquele desprezo. Como não queria perturbar uma relação tão duradoura, afinal aqueles idosos já estavam juntos há mais de cinquenta anos, a esperta felídea saía à francesa, balançando debochadamente a longa cauda preta.

Num ano qualquer, por causa das duras chuvas do prolongado inverno, a calçada deles cedeu e afundou. Seu Silvério, decidido a tapar aquele buraco, após longo planejamento, reorganizou o passeio público e plantou uma Tibouchina granulosa, mais conhecida como quaresmeira, que passou a cuidar com zelo admirável. O pequeno arbusto ornamental cresceu, mas o meu vizinho não o viu florar, posto que a sua Páscoa antecipou-se à primavera.

Essa história de Seu Silvério evocou em mim as memórias do dia em que ouvi a Orquestra Sinfônica da Paraíba, sob a direção de Eleazar de Carvalho, interpretar Tod und Verklärung, de Richard Strauss. Esse poema sinfônico descreve a morte de um artista, incluindo passagens da sua infância, os desafios do mundo adulto, as conquistas terrenas e, por fim, a transfiguração. Tal como a sonoridade da OSPB invadiu o meu ser, naquela noite no Espaço Cultural em João Pessoa, as folhas da quaresmeira-roxa que o velho Zezinho profeticamente cultivou começam a mudar as cores do horizonte, neste outono quaresmal e de quarentena, lembrando-me sobre a transitoriedade e a fragilidade das coisas e dos indivíduos, dizendo-me que, com efeito, ninguém morre, mas, na verdade, transfigura-se.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

Nenhum comentário:

Postar um comentário