terça-feira, 31 de março de 2020

Segue em paz, mestre!

Continuando a história, logo após a apresentação do seminário sobre Passio et mors Domini nostri Jesu Christi secundum Lucam, de Penderecki, o professor me pediu uma cópia do meu roteiro, pois gostaria de entender melhor os aspectos que mencionara durante a explanação. Compartilhei o material, deixando um exemplar em meu acervo, naquela pasta intitulada projetos inacabados.

Esqueci o tema temporariamente, enquanto estudava Análise Schenkeriana e Literatura Coral Barroca concomitantemente, juntando os conhecimentos de ambas para a produção de trabalhos envolvendo música e retórica. A descoberta do tratado Musica Poetica, de Dietrich Bartel, foi crucial para ampliar a minha compreensão do pensamento composicional setecentista, sobretudo no que tange ao uso das figuras retórico-musicais no contexto alemão. Por outro lado, à proporção que eu me aprofundava na teoria analítica de Schenker, mais encontrava analogias entre Ursatz e Dispositio, isto é, a estrutura fundamental da composição e a organização do discurso.

Ao completar todas as disciplinas e ter o projeto final aprovado, dediquei-me ao Stabat Mater, Op. 240, do compositor Amaral Vieira. Percebi vários traços neobarrocos na obra deste paulista, fato que me levou a investigar a sua narrativa poética e musical. Eu estava no meio da pesquisa, quando resolvi escrever um texto abordando a Paixão polonesa. Reli minhas anotações e voltei ao gráfico que apresentara nos primeiros semestres na LSU. Passei semanas refletindo, afinal, o que representaria aquele eixo tonal numa peça tão longa e complexa? Certo dia, no meio do banho, lavando o cabelo, veio o insight: os pedais que identificara eram a essência de um coral de Bach. Nem terminei o banho, vesti-me e fui para a biblioteca, de onde só retornei com a resposta em mãos. Analisei à exaustão vários corais do ícone luterano até encontrar An Wasserflüssen Babylon. A minha perspectiva, que pode ser lida integralmente no artigo que publiquei na revista Per Musi (baixe aqui), revela uma relação hipotética entre a criação de Bach e a de Penderecki. A comparação dos dois arcabouços, o literário e o sonoro, mostra como música e texto estão diretamente interligados e como tais elementos sublinham características relevantes da paixão, morte e ressurreição de Cristo. Essa especulação foi decisiva para a conclusão do meu argumento de tese. Anos depois, Marcílio Onofre, que foi estudar com Penderecki lá na Polônia, confirmou parte das minhas especulações com o seu mentor, fato que me deixou ainda mais feliz.

Eu estou contando tudo isto, porque esta foi uma experiência marcante e porque Penderecki partiu recentemente. À distância e ao longo dos anos, aprendi a contemplar as múltiplas dimensões do seu corpus, tão inovador e vanguardista quanto político, humano e místico. Segue em paz, mestre, que nós ficaremos por aqui, tentando compreender os mistérios e a grandiosidade da vida e do teu legado.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 30 de março de 2020

Mas quem disse que esta história termina aqui?

Entrei em contato com a produção do polonês Krzysztof Penderecki nos Estados Unidos, na disciplina Literatura Coral do século XX, durante o doutorado na Louisiana State University. Meu orientador, dois meses antes do início das aulas que aconteceriam naquele verão, distribuiu o material. Recebi várias obras, dentre as quais a Paixão Segundo São Lucas, do referido compositor. Os cursos funcionariam em forma de seminários, que seriam apresentados pelos doutorandos. Cada encontro duraria duas horas, ao longo das quais deveríamos discorrer sobre os temas definidos previamente.

Devo confessar que a reação inicial foi entrar em pânico. E com razão. Ora, além da complexidade do repertório que seria analisado, ainda havia a questão linguística, afinal coordenar uma atividade no âmbito da pós-graduação, expressando-se em outra língua que não era a nativa, com um conteúdo novo e complexo é, no mínimo, bastante desafiador. Em vão, tentei contornar a situação com o professor. Naquela ocasião, aprendi a mais básica de todas as lições, que nunca esqueci e que, sempre que possível, ensino aos meus alunos no primeiro dia de aula: se o problema é seu, é você quem deve solucioná-lo! Saí da aula preocupado, desconfiando da minha capacidade de levar a cabo aquela tarefa, pensando em tudo que já havia passado até chegar ali. Curti meu medo por um certo tempo e gradualmente fui transformando o limite em possibilidade.

Iniciei a coleta bibliográfica, selecionei artigos, livros e partituras em diferentes idiomas, ouvi CDs, enfim, esgotei todos os recursos possíveis e imaginários numa época em que a internet não era essa fonte inesgotável para a pesquisa, num tempo em que nós cotidianamente frequentávamos as bibliotecas, recheadas de livros e mofo. No intervalo entre o Spring e o Summer, passei a morar no coração da LSU. Dia e noite, só pensava em Penderecki, apaixonando-me por sua música, compreendendo a sua técnica e a grandiosidade do seu trabalho. Estudei tudo o que era possível e nos três dias de palestras, fiz o que se esperava e muito mais.

Mergulhei profundamente na Paixão (vídeo com partitura) e descobri aspectos estruturais que, até então, não haviam sido mencionados em outros estudos. A análise revelou, por exemplo, que os pedais estão conectados harmonicamente. Do ponto de vista formal, há uma semelhança com a forma sonata. Minha descoberta revelava a existência de elementos que eu não sabia ainda explicar claramente, mas que, de fato, já conseguia identificar. Isso era uma grande novidade. E aí, quando todos achavam que eu iria encerrar a palestra, dei o pulo do gato e sai com essa pérola, para a surpresa de muitos, ressalte-se. Foi assim meu encontro com esse ícone da música do Leste Europeu e o meu début no doutoramento. Mas quem disse que esta história termina aqui?

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 29 de março de 2020

O andarilho

Reginaldo Carvalho nasceu em Guarabira-PB. Desde pequeno, aprendeu a desbravar o horizonte, andando pelo brejo paraibano na companhia dos pais e irmãos, passeando e visitando parentes em vilarejos como Mulungu, Cruzeiro ou a Fazenda Cachoeira. Por conta dos negócios da família, viveu em João Pessoa, Natal e Recife. Morou nos arredores de Campina Grande, em Lagoa Seca, no Colégio Seráfico de Santo Antônio, na zona rural de Ipuarana.

Do Nordeste, seguiu para a Cidade Maravilhosa, nos anos cinquenta, onde fixou morada por muito tempo. Naquela metrópole, foi diretor do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, do Centro de Pesquisas Musicais Villa-Lobos e do Instituto Villa-Lobos. Foi também regente e professor nos colégios Pedro II, Notre Dame e Anglo, no Instituto Lafayette, na Escola do SENAC e na Associação dos Servidores Civis do Brasil. Na Guanabara, seu cotidiano docente incluía atividades ininterruptas no centro, Tijuca, Copacabana e Botafogo. Ainda nas primeiras décadas da segunda metade do século XX, transitou por Juiz de Fora, São João D’El Rey, Barbacena, Cataguases, Curitiba, São Paulo, Campos do Jordão, Paty do Alferes, Araruama, Paquetá e Brasília-DF. É interessante notar que seus pais, José Clementino de Carvalho e Maria Vilar de Carvalho, já aposentados, se mudaram para Goiânia-GO aproximadamente nessa mesma época. Foi com o coral da nova Capital Federal, aliás, que ele realizou a primeira excursão cultural, apresentando-se em Minas Gerais, Bahia e Sergipe.


Nas duas temporadas em que esteve pela Europa, visitou vários países, dentre os quais França, Reino Unido, Espanha, Alemanha e Itália, ocasião na qual representou o Brasil no Congresso Mundial de Meninos Cantores, em Roma. Antes de se instalar em Teresina, em meados de 1971, Reginaldo recebeu convites para trabalhar em Madri, Montreal, Adelaide, Lisboa e Buenos Aires. Mas sua opção foi o Piauí. De norte a sul do estado, coletou vasto material para suas composições, bebendo nas fontes das manifestações populares, enquanto participava de eventos em estados vizinhos como o Maranhão e o Ceará. Por ser maestro convidado da equipe dos Painéis FUNARTE de Regência Coral, ministrou aulas em vários rincões, incluindo Uberlândia-MG, município no qual tive a honra de conhecê-lo. Jamais imaginaria que posteriormente seríamos colegas, por cerca de quinze anos, no Departamento de Educação Artística da UFPI.


Todas essas andanças estão registradas em inúmeros documentos, incluindo partituras, correspondências, programas, fotos e anotações pessoais. Em 2011, após quatro décadas na Chapada do Corisco, voltou à Paraíba, fixando residência em Cabedelo. Foi ali, no Paraíso, como ele bem descrevia aquele lugar, que encerrou a itinerância terrena, em 2013, cantando, à beira-mar, os versos da Cantiga (vídeo), de Manuel Bandeira, que ele lindamente musicou, dizendo com voz mansa e suave, “Quero ser feliz / Nas ondas do mar / Quero esquecer tudo / Quero descansar.”


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

quinta-feira, 26 de março de 2020

Movimentando

Quando os meus filhos iniciaram a vida escolar, frequentemente eu era desafiado pela equipe pedagógica do educandário onde eles estudavam a escrever músicas que abordassem os tópicos explorados em sala de aula. Na educação infantil, os temas eram variados e incluíam cores, formas, noções de quantidade, volume e peso, texturas, o corpo humano. Por esta razão, comecei a escrever canções para ilustrar aqueles encontros.

A primeira peça que escrevi chama-se Movimentando. A ideia surgiu por conta de uma série de atividades exploratórias que as crianças estavam desenvolvendo, tanto do ponto de vista prático, nos momentos de recreação, quanto na perspectiva teórica, na realização das tarefas de casa. Meu propósito era produzir algo dinâmico, que estimulasse a percepção corporal, a associação entre som e movimento. Além disso, gostaria também de acrescentar um conteúdo específico, que pudesse ser aproveitado exclusivamente nas aulas de música.

Como em todo o processo criativo, estipulei parâmetros e iniciei o projeto. Defini que a melodia teria o âmbito de uma oitava e que seria construída com a escala pentatônica, permitindo, deste modo, o trabalho em conjunto com a manossolfa. O texto foi concebido com palavras simples, curtas, de fácil entendimento, visando a garotada com três ou quatro anos. Busquei vocábulos que pudessem sugerir movimentos físicos como, por exemplo, o ato de esticar, pular, mexer, andar, marchar e dançar. No refrão, usei os advérbios cá e lá para reforçar a dicotomia próximo-distante, pois estão localizados nas fronteiras da região grave-agudo da melodia. Enquanto a primeira parte é lenta e calma, associada ao alongamento que geralmente precede os exercícios físicos, a segunda é mais rápida, viva, agitada, dançante.

Compus essa obra em casa, na Rua Cravos, em Teresina, no quarto de estudos, contemplando a beleza do jardim. Ia compondo e cantando, enquanto meus pequenos, ao meu lado, cantarolavam alguns trechos do que acabavam de ouvir, fato que me estimulava a continuar com a empreitada. Logo que finalizei a composição, começamos a ensaiá-la e cantá-la em conjunto, naquele mesmo recinto. Momento de grande alegria, ali, imediatamente, eu percebi que o caminho era aquele e que o material seria bem aceito pela gurizada. No dia seguinte, animado e já pensando em outros projetos, repassei o material para os professores de educação musical e também apresentei-o na sala de aula onde estavam os meus rebentos (partitura com cifra em , e vídeo). A festa foi grande e acompanhada por violão e coreografia, elementos que ajudaram na aprendizagem e expansão do repertório. Desde então, esta canção tem sido cantada Brasil e mundo afora, por crianças, jovens e adultos de diferentes idades e contextos, posto que a alegria que a música promove não tem limites, desconhece barreiras, é contagiante, é a vida movimentando-se.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

terça-feira, 24 de março de 2020

Como fazer um arranjo coral

O processo de elaboração de um arranjo começa com a escolha de uma canção. A seleção da peça a ser trabalhada carece ser criteriosa, abarcando a análise dos aspectos textuais e musicais e o contexto da sua criação, circulação e recepção. Ouvir várias gravações ajuda a definir estratégias na condução da (re) harmonização e da (re) leitura do texto poético-musical. É crucial saber para quem se escreve, razão pela qual é necessário estabelecer as extensões vocais dos naipes, os limites agudos e graves, a quantidade de vozes, onde haverá divisi, mudanças de tom e modo, bem como o nível de complexidade rítmica, melódica e harmônica.

O planejamento composicional precisa, nessa perspectiva, estipular o quão próximo ou distante o novo objeto estará da versão original, a definição da forma, quantas seções terá, sua duração integral, se é a capela ou com acompanhamento, se há espaço para solistas ou quaisquer outras particularidades. O uso de variadas texturas criará contrastes, trará equilíbrio e também dinamizará a interpretação, exigindo do coral múltiplas sonoridades. O tratamento da dissonância e da consonância e a alternância entre passagens homorrítmicas e imitativas poderão sublinhar momentos importantes do poema. O contraste do uníssono com a polifonia, alinhado aos elementos expressivos, incluindo as variações de dinâmica, articulação e tempo, enriquecerá o projeto. Atenção especial deve ser dada ao uso das onomatopeias, evitando excessos e clichês. O mesmo vale para a prosódia.

Sempre que possível, é preciso conceber o acompanhamento como um elemento estrutural e não apenas um suporte que ajuda o grupo a manter a afinação, do começo ao fim da obra. O diálogo do coro com os instrumentos é parte essencial da construção. Por isso, quando for o caso, uma opção é inserir prelúdios, interlúdios e poslúdios instrumentais que conectem subdivisões e resumam a narrativa.

O desafio do arranjador é, portanto, preservar os parâmetros essenciais do modelo e, ao mesmo tempo, distanciar-se dele, introduzindo novos elementos sobre algo já conhecido, desafiando o intérprete-ouvinte a criar em sua mente uma conexão entre dois produtos similares porém diferentes. Esta é uma tarefa que exige criatividade, imaginação e técnica, logo não tem como ser feita às pressas e de qualquer maneira. Ela exige aproximação e distanciamento, revisão, criticidade. O balanço desses três pilares validará a qualidade do trabalho, independentemente se a proposta é para ensemble amador ou profissional; a duas ou mais vozes, sejam elas infantis, jovens ou adultas; a capela ou acompanhadas, seja por um trio de forró, uma banda de rock ou uma orquestra sinfônica. Desse modo, parafraseando Santo Agostinho em sua explanação sobre o belo, acredito que quem escreve um arranjo deve ter o compromisso de encontrar caminhos que nos façam enxergar a beleza antiga e familiarizada de uma nova forma.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 23 de março de 2020

Cussaruim em dois tempos

Cussaruim em dois tempos (Manuel Bandeira - José Vieira Brandão) é uma composição para coro misto a seis vozes. A extensão vocal é a seguinte: Soprano, Ré3 -4; Contralto, Sib- Dó#4; Tenor, Ré2 - Sol3; e Baixo, Sol1 - Mi3. Para a execução desta peça, são indicados outros recursos sonoros, a exemplo da realização de trechos recitados, com voz falada.

Muito embora esteja organizada em blocos, Berimbau e Boca de Forno se complementam pelo sentido notadamente dançante que possuem, típico das manifestações musicais ligadas à tradição oral brasileira. As duas partes estão escritas em notação tradicional e, em ambas, a estrutura métrica é grafada nos compassos binário, ternário e quaternário simples, totalizando oitenta e três compassos. Berimbau é uma forma tripartida e tem melodias e harmonias construídas em Dó lídio, mixolídio e lídio/mixolídio. Boca de Forno também está organizada em três seções e apresenta diferentes centros tonais.

A preparação de Cussaruim poderá envolver variadas atividades, incluindo a leitura e a compreensão textual, uma breve passagem sobre a vida e a obra do poeta e do compositor, assim como leituras sobre o maracatu. As informações apresentadas no prefácio da partitura (baixe aqui) publicada pela FUNARTE, em 1982, são relevantes, pois clarificam o pensamento de Vieira Brandão, que “se ateve na criação de dois momentos musicais, nos quais a imagem folclórica de cussaruim se apresenta envolta em ambientes rítmicos e melódicos contrastantes.” Ao detalhar sua criação, complementa: “no primeiro quadro, incluso na lenda do boto amazônico, utilizando agregações sonoras num jogo rítmico harmônico alternado com frases declamadas. No segundo quadro, como personagem do maracatu nordestino, após o diálogo inicial em uníssono, predomina um clima seresteiro onde as melodias se sucedem e se entrelaçam no plano harmônico do coro misto. A coda reproduz o diálogo do início que conduz ao clímax final.”

No trabalho vocal, o emprego de exercícios de articulação pode ajudar na emissão das palavras. Os vocalizes podem tomar como base as constâncias rítmicas e fonéticas da partitura. Além disso, o treinamento deve incluir a voz falada, em busca da projeção numa região adequada, com finalidades artísticas, evitando o esforço desnecessário. Sob a perspectiva melódica, o regente pode criar solfejos com as configurações modais já citadas, bem como acordes quartais. Além dos aspectos descritos, caso haja necessidade, é possível pensar em algum tipo de trabalho corporal/cênico que permita uma encenação do texto em conformidade com as seções da música. Muito embora apresente alguns pequenos desafios para coros menos familiarizados com esse tipo de linguagem, a peça é acessível, alegre e divertida. Recursos plásticos e cênicos poderão expandir a imaginação e a motivação dos cantores e da plateia, dinamizando, deste modo, o processo interpretativo, expandindo a experiência estética.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 22 de março de 2020

Morte e transfiguração

Quando nos mudamos para a residência onde moramos atualmente, fomos recebidos por nossos vizinhos, Lourdes e Silvério. Além das boas vindas, nos falaram sobre as redondezas e também os possíveis problemas que poderíamos enfrentar, sobretudo algumas infiltrações por conta da rua desnivelada e o excesso de água no subsolo.

Seu Silvério passava o dia em casa, consertando o telhado, arrumando os objetos no corredor lateral ou limpando o jardim e a churrasqueira para os encontros com a família. Aurora os visitava frequentemente, antes de iniciar os seus passeios noturnos. Faceira, pulava o muro e entrava sem pedir licença, despojando-se no meio da varanda. Enquanto os dois descansavam em suas cadeiras de balanço, acompanhando o movimento da rua e embalados pela brisa que areja o céu da Serra depois que o sol se põe e a quietude dos tempos se instala, a felina começava a miar, narrando seus planos e aventuras num gatês quase incompreensível, mexendo o rabo solenemente de lá-para-cá-para-lá, não necessariamente nessa ordem e velocidade, como se estivesse regendo o Adagio for Strings, de Samuel Barber. Dona Lourdes, em virtude do seu temperamento, não era tão afeita àquelas lereias. Não sei se lhe faltava paciência ou conhecimentos da língua felina para levar adiante a conversa fiada, quer dizer, miada, com Aurora, que, diga-se de passagem, é uma gata bela e sedutora, motivo pelo qual era possível farejar certo ciúme naquele desprezo. Como não queria perturbar uma relação tão duradoura, afinal aqueles idosos já estavam juntos há mais de cinquenta anos, a esperta felídea saía à francesa, balançando debochadamente a longa cauda preta.

Num ano qualquer, por causa das duras chuvas do prolongado inverno, a calçada deles cedeu e afundou. Seu Silvério, decidido a tapar aquele buraco, após longo planejamento, reorganizou o passeio público e plantou uma Tibouchina granulosa, mais conhecida como quaresmeira, que passou a cuidar com zelo admirável. O pequeno arbusto ornamental cresceu, mas o meu vizinho não o viu florar, posto que a sua Páscoa antecipou-se à primavera.

Essa história de Seu Silvério evocou em mim as memórias do dia em que ouvi a Orquestra Sinfônica da Paraíba, sob a direção de Eleazar de Carvalho, interpretar Tod und Verklärung, de Richard Strauss. Esse poema sinfônico descreve a morte de um artista, incluindo passagens da sua infância, os desafios do mundo adulto, as conquistas terrenas e, por fim, a transfiguração. Tal como a sonoridade da OSPB invadiu o meu ser, naquela noite no Espaço Cultural em João Pessoa, as folhas da quaresmeira-roxa que o velho Zezinho profeticamente cultivou começam a mudar as cores do horizonte, neste outono quaresmal e de quarentena, lembrando-me sobre a transitoriedade e a fragilidade das coisas e dos indivíduos, dizendo-me que, com efeito, ninguém morre, mas, na verdade, transfigura-se.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 21 de março de 2020

O Canto Coral na Paraíba: Nabor Nunes

Nabor Nunes Filho (Itabaiana-PB, 1944 - Americana-SP, 2013) iniciou sua vida musical durante a infância, tocando na Igreja Batista e na banda de sua cidade natal, lugar onde concluiu o curso primário. Após essa fase, mudou-se para a capital Pernambucana a fim de cursar o ginásio e o científico, no Colégio Americano Batista de Recife. Na Veneza brasileira, graduou-se em Teologia pelo Seminário Batista Teológico do Norte (SBTN), instituição na qual aprofundou seus estudos na arte dos sons e recebeu o título de Bacharel em Música Sacra. Posteriormente, fez Composição na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), tendo estudado com Almeida Prado e Damiano Cozzella, e obteve os títulos de mestre e doutor em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba (UMP). Em seu histórico profissional, encontramos registros da sua atuação como pastor e docente em diferentes instituições e localidades.

É certo que o canto coral foi a grande paixão de Nabor Nunes, razão pela qual, na pesquisa que realizamos, nós identificamos mais de 30 motetos, salmos e cantatas para vozes afins e mistas, a capela e com acompanhamentos variados (veja aqui). Contudo, ele escreveu arranjos e composições originais, peças instrumentais e vocais, para solistas e diferentes formações.

O Pai Nosso Sertanejo é provavelmente um dos maiores sucessos de Nabor Nunes. Publicado pela primeira vez em 1974, seu texto faz menção à seca no Nordeste. Outros nomes de referência, dentre os quais Simei Monteiro, Jaci Maraschin, Sérgio Marcos, Tito Lopes, Dércio Laurete e Nelson Mathias, também exploram temáticas similares, demonstrando que uma nova vertente na música protestante nacional estava nascendo, na transição para a década de setenta. Essa opção pelo vernáculo, o engajamento com as questões econômicas, políticas e sociais, assim como o uso de elementos poéticos e musicais advindos da nossa tradição oral são reflexos, de certo modo, das diretrizes do Concílio Vaticano II e da Teologia da Libertação no seio do protestantismo em nosso país e, mais diretamente, no corpus do itabaianense.

A música para coro de Nabor Nunes é vocalmente cômoda, sem grandes complexidades rítmicas e harmônicas, sendo viável para conjuntos religiosos que desejam, por exemplo, cantar repertório em língua portuguesa no serviço litúrgico. Em muitas partituras, as cifras, acima da voz do soprano, sugerem a inserção de instrumentos harmônicos, em favor de uma liturgia mais funcional e em sintonia com as necessidades e possibilidades da congregação. O legado do compositor paraibano, no entanto, não se restringe exclusivamente a esse contexto. Suas peças, muito embora predominantemente religiosas, ocupam um espaço relevante na literatura coral sacra brasileira da segunda metade do século vinte e ainda são desconhecidas por grande parte dos nossos pares. Por isso, elas precisam e devem ser editadas, publicadas, analisadas, difundidas e interpretadas criteriosamente. Esse trabalho está apenas começando.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

sexta-feira, 20 de março de 2020

Para ser grande, sê inteiro.

A última etapa da nossa turnê começou na Covilhã, Serra da Estrela, na Pousada da Juventude, a 1.200 metros do nível do mar, rodeados por muita neve e frio. Parece bobagem a experiência climática, mas quem mora no Nordeste do Brasil sabe que qualquer variação abaixo dos vinte graus é, de certo modo, congelante, sobretudo os habitantes de Teresina-PI, onde as estações do ano são verão, quentura, calor e mormaço, como diz a sabedoria popular.

A temperatura, entretanto, não nos impediu de realizar dois belos concertos. O primeiro foi no Salão Nobre da Câmara Municipal, um local reservado para apresentações de seletos grupos e artistas. Nos sentimos honrados com a oportunidade, principalmente pela presença de vários brasileiros e autoridades parlamentares. No outro dia, o professor Francisco Luís Vieira nos recebeu na Escola Profissional de Artes da Covilhã. Além de assistirmos alguns ensaios e conhecermos a estrutura daquele importante centro de formação, participamos de uma máster classe com a professora de flauta da instituição. O recital na EPABI foi um dos mais participativos. Os aplausos demostravam que a plateia estava encantada com a nossa performance, a música brasileira, o chorinho, o samba, o xote.


Já em Lisboa, no Museu Nacional da Música, ficamos apreensivos, pois, no dia do nosso concerto, havia um jogo no estádio do Benfica, e o MNM fica localizado numa estação de metrô, por ali, nas redondezas. O trânsito confuso parecia nos indicar público inexpressivo. No entanto, nos enganamos. Meia hora antes, formou-se uma fila na porta daquele espaço cultural. Tocar por entre instrumentos históricos foi um privilégio.


A água gelada deste lado do Atlântico não assustou os ousados músicos, que mergulharam de corpo e alma na Praia da Poça, em Estoril. Andamos pelo Paredão até Cascais e depois visitamos a Boca do Inferno. Ali, fiz a seguinte oração: Que sejamos fortes como a rocha; leves como o vento; flexíveis e persistentes como a água; brilhantes como o sol, que tudo ilumina e aquece. No Colégio Marista, nos apresentamos para os diferentes coros do Vox Laci. No meio da cantoria, uma das senhoras comentou que, há sessenta e cinco anos, Luiz Gonzaga fazia sucesso em terras lusitanas. E acrescentou que, ainda menina, cantava o refrão, “ela só quer, só pensa em namorar”, e que era, de fato, um verdadeiro escândalo. Esse depoimento nos fez sorrir despretensiosamente. Tenho certeza que os integrantes do grupo piauiense jamais esquecerão essa temporada em Portugal. Todos voltaram transformados e inspirados nos conhecidos versos de Pessoa: “Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive.”


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 19 de março de 2020

Raposeira, se faz favor!

A estadia da Orquestra Jovem Música Para Todos na Casa do Brasil, em Madri, foi maravilhosa. O espaço abriga estudantes, professores, pesquisadores e artistas de vários países, dentre os quais o campo-grandense Jayme Marques. Radicado na Europa há mais de sessenta anos, ele atuou como violonista, arranjador e compositor, ajudando a popularizar a música brasileira no Velho Mundo. Em nossos encontros, falamos sobre a sua carreira, incluindo as produções fonográfica e bibliográfica, motivo pelo qual presenteou-me com alguns discos e o seu compêndio de harmonia, obra publicada recentemente. A fim de celebrar aquele momento, o experiente músico acompanhou o grupo Eu & Ellas, que também estava conosco, na interpretação de dois clássicos da Bossa Nova: Chega de Saudade e Samba de Verão. Esse convívio intergeracional marcou o intercâmbio.

Após visitarmos a Plaza Mayor, o Palacio Real, a Puerta del Sol, o Paseo del Prado e tantos outros pontos turísticos, retornamos para Portugal. Na área do Porto, fizemos concertos em três localidades. Uma hora antes da apresentação em Ramalde, os integrantes do conjunto perceberam que as estantes haviam ficado na Espanha. O pânico foi total, pois não havia tempo hábil para substitui-las, fato que nos levou a executar o repertório de cabeça, memorizado. Esta foi uma situação desafiadora, é verdade, mas que permitiu o crescimento do ensemble que, a partir de então, passou a apresentar-se sem as partituras, interpretando as peças de modo mais espontâneo e descontraído. Um fato pitoresco ocorria quando eu contava essa história, no meio do concerto. A plateia sorria sempre, pensando que eu estava brincando, fazendo média, por assim dizer, com a garotada.

Chuva e frio marcaram nossa estadia em Lordelo. O aconchego da plateia e um enorme aquecedor a gás, colocado bem no meio do auditório, nos aproximaram e esquentaram. Como em outras ocasiões, os lordelenses estavam atentos, ora cantando, ora batendo palmas, enquanto interpretávamos Carinhoso ou o Xote das Meninas.

A deslumbrante paisagem do Alto Douro e Trás-os-Montes é montanhosa, rica em parreirais e vinícolas. O ponto culminante da nossa passagem pelo norte português ocorreu em Lamego. Na região duriense, o Teatro Ribeiro Conceição é uma referência. Lá, participamos das comemorações dos 40 anos do Instituto Politécnico de Viseu e também do debate realizado após o concerto, ao lado da Cônsul Geral do Brasil no Porto, Maria Dulce de Barros, e outras autoridades. A embaixadora é piauiense e o esposo dela, paraibano, uma grata e significativa coincidência. Na ocasião, falei sobre limites e possibilidades, a missão política, profética e poética do educador-artista e, é claro, o Festival Internacional de Música de Campina Grande. A Rainha da Borborema e a UFCG estiveram em pauta. Na despedida desse encontro inolvidável, brindamos, para eternizar o instante. E assim prosseguimos, celebrando e dizendo: Raposeira, se faz favor!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 18 de março de 2020

Uma turnê inesquecível

Ao longo do mês de janeiro, acompanhei a Orquestra Jovem Música Para Todos, do município de Teresina-PI, em sua digressão pela Europa, assessorando artística e tecnicamente o grupo nessa jornada em Portugal e na Espanha. Ao todo, realizamos doze apresentações.

O nosso primeiro recital ocorreu no Museu Frei Manuel do Cenáculo, onde nos apresentamos na sala na qual se encontra o Políptico da Sé de Évora, produzido por desconhecidos mestres flamengos do século dezesseis. Esse painel, que decorou o altar-mor da Matriz daquela vila, é composto por treze pinturas a óleo, que retratam a vida da Virgem Maria. A estrutura do espaço, a acústica impecável e a sonoridade do consorte de flautas nos fizeram visitar outros universos, evocaram o renascimento. Do Alentejo, embarcamos rumo à região de Sintra. A Casa da Cultura Lívio de Morais estava lotada, com um público sedento, que interagiu e participou ativamente da nossa performance.

Do entorno de Lisboa, subimos para Coimbra, cuja universidade comemora 730 anos de fundação. Por lá, enfrentamos escadas, ladeiras, ventania e frio, encontramos árvores caídas e tocamos no Museu Nacional Machado de Castro e no Teatro da Faculdade de Letras. Além do roteiro oficial, participamos das festividades do Ano Novo Chinês, promovido pelo Instituto Confúcio em parceria com o conservatório da cidade. Contemplamos a beleza singular de Coimbra de várias formas. Da janela do apartamento, durante o crepúsculo, com o céu furta-cor, na hora do ângelus, vimos os últimos raios de sol acalentarem o Rio Mondego, embalados pelos sinos do Mosteiro de Santa Clara. A visita à Biblioteca Joanina foi outra experiência memorável, pois uma biblioteca é muito mais que uma coleção de livros. É um barril de ideias que fermenta as revoluções. Desse modo, devemos ser mais subjetivos e subversivos. Por isso, precisamos de mais sabedoria e conhecimento. A grande lição está escrita num dos pórticos desse templo: “Lusos, a Sapiência fundou para vós esta fortaleza; por capitães, tendes os livros; por soldados e armas, o trabalho.”

Dali, partimos para a capital espanhola. O destino era a Casa do Brasil em Madrid. Fizemos o trajeto de carro, sem pressa. Entre um cochilo e outro, uma ponte e um túnel, degustávamos os sonhos sorvendo cada gota das experiências que já havíamos vivido, os encontros com aquele povo-tempo-lugar. Ao cruzarmos a fronteira e passarmos por Salamanca, sorrisos de encanto e espanto por conta do contraponto entre o breu das horas e a brancura da neve sobre o asfalto e os montes. Quando a fome apertou, saboreamos iguarias da culinária ibérica, incluindo rabas de calamar e pechugas empanadas, num quiosque à beira da estrada silenciosa e quase deserta. Plenos de nutrientes e expectativas, seguimos a rota, invadindo a noite, nesta turnê inesquecível, que continuarei narrando.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)