sábado, 30 de maio de 2020

É melhor saber tudo do que não saber nada

Monsenhor Pedro Ferreira da Costa, docente aposentado da UFRN, é uma figura importante no cenário regional, tendo sido responsável pela formação de um considerável número de regentes e coros no estado do Rio Grande do Norte. Além de músico, é aviador, mecânico, filósofo e quase-dentista, que o diga Tom K (eu vou contar essa aventura outro dia).

Conheci-o nos Paineis FUNARTE de Regência Coral, eventos nos quais frequentemente ele participava ministrando oficinas. Posteriormente, tive a oportunidade de conviver ao seu lado durante o Mestrado em Música, na Universidade Federal da Bahia, ocasião na qual ele lecionou algumas disciplinas para a nossa turma. Entre conteúdos e ensaios, contou-nos muitas histórias. Uma das narrativas mais interessantes foi sobre o seu período no Seminário. Disse-nos, com aquela gesticulação que lhe é bem peculiar, que o grego era obrigatório e que os seminaristas detestavam-no, alegando, dentre outros motivos, a falta de sincronia com as necessidades e imposições teológicas daquele tempo-povo-lugar. Desse modo, os colegas reuniram-se e decidiram questionar a possibilidade de mudança na grade curricular. Como ele era falante e sentava-se na primeira fila, sendo também o único ruivo da sala, contou-nos que fora o escolhido para a desafiadora tarefa de enfrentar o mestre que lecionava tal matéria. Pois bem. No dia combinado, o estudante pediu a palavra, dirigindo-se ao reverendo Theos (théos, em grego, quer dizer Deus), uma criatura alta, com aparência bastante austera, que ouvia seus argumentos entre a inclemência e a compaixão, com cara de peixe, que ninguém sabe quando ri ou chora. O acertado era que os colegas também entrariam no embate, fato que definitivamente não ocorreu. Ele brigou sozinho contra aquele moinho de vento, à semelhança de Quixote, e foi vencido.

Anos depois, Pedro concorreu a uma vaga como radialista numa conhecida emissora da capital cearense. O teste era simples. Primeiro, avaliaram a forma como ele apresentava as notícias. Segundo, para observar a sua capacidade de improvisação, mostraram-lhe várias fotos de um acidente automobilístico, material a partir do qual ele elaborou uma narrativa irretocável, com detalhes hollywoodianos. Por fim, solicitaram-lhe que recitasse algo memorizado e que pudesse ser um desafio do ponto de vista da dicção. Recorreu, então, à Οδύσσεια, o clássico de Ulisses, que havia decorado naquelas inesquecíveis aulas. Sua performance, marcada pela pronúncia reconstruída desta língua milenar, foi fenomenal, imbatível, e ele ganhou o emprego.

Passado o momento de estresse, e com o coração agradecido, lembrou-se do experiente professor que, no dia daquela frustrada tentativa de enfrentamento, sabiamente o aconselhou, dizendo: — Αγαπητέ μαθητή, Είναι καλύτερο να γνωρίζεις οτιδήποτε, παρά να μην γνωρίζεις τίποτα. (Caro aluno, é melhor saber tudo do que não saber nada.) É isso: porque as parábolas nos ensinam, “quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Toré dos Caboclos e dos Mestres

Toré dos Caboclos e dos Mestres, de Antônio Carlos Batista Pinto Coelho (Tom K), é dedicado a Pedro Santos. A obra, escrita para coro a cappella em 1996, é inspirada num ritual de culto da jurema, realizado na cidade de Alhandra-PB, e que reúne vários caboclos, entre iniciantes e iniciados, e vários mestres, que detêm o conhecimento do ritual, que vai desde os cantos de chamamentos, momento em que os caboclos baixam no terreiro e os mestres incorporam, até os momentos de cura e bênçãos. Neste rito, bebe-se um vinho feito da planta jurema, que também é uma cabocla e uma região encantada do espaço.

Sob a perspectiva musical, o Toré está organizado em nove seções, assim dispostas: 1) Já vem abrindo os caminhos; 2) Salve a jurema na terra; 3) Arreia Caboclo; 4) Na jurema tem; 5) Interlúdio modulante; 6) Coda; 7) Oh! Jurema preta; 8) Mamãe Totonha; e 9) Sultão das matas. A peça começa e termina em Fá maior, indo para Dó maior e, depois, Sol maior, no sétimo e oitavo movimentos, respectivamente. Os cânticos utilizados como base composicional foram recolhidos por um antropólogo francês, Renné Vandézane, e foram transcritos para partitura pelo professor Reginaldo Salvador de Alcântara. O compositor, ao falar da sua criação, assim diz: “Eu usei uma parte dos cantos e os trabalhei na forma de um culto com a saudação inicial, o chamamento dos caboclos, a chegada dos caboclos, a cura e a benção. Eu termino com o ponto dos caboclos, sultão das matas, que não pertence ao culto da Jurema. Trabalho com ritmos e melodias originais; uso harmonias simples e a forma responsorial e antifonal; na partitura não consta dinâmica nem agógica nem indicação de andamentos, mas, quando ensaio, uso tudo que tenho direito, contudo eu sempre espero uma parceria com o intérprete, não apenas nessa obra mas em quase tudo que faço!”


Toré é vívido e dançante. As eventuais divisões nos naipes, assim como as passagens cromáticas, reiteram os aspectos expressivos e simbólicos da narrativa músico-textual. Tom K, nesta composição, trata de dois elementos sagrados, o toré e a jurema, marcadores nativos que indicam, afirmam e delimitam a presença indígena na sociedade brasileira, conforme afirma o pesquisador Rodrigo de Azeredo Grünewald.

Recentemente, participei com José Maurício Valle Brandão (UFBA) do V Simpósio Internacional de Investigação em Arte, cujo tema foi o Diálogo Intercultural e Ecumênico Através da Arte, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro (UTAD), em Portugal. Na ocasião, discutimos vários aspectos do toré na literatura coral brasileira (livro artigo), destacando a peça de Tom K, que nos autorizou a divulgar a partitura (PDF) e o áudio da gravação que ele fez com o Coro de Câmara Villa-Lobos, de João Pessoa, em 1998 (veja).

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 24 de maio de 2020

Quatro histórias sobre o FIMUS

Tenho muitos casos para contar sobre o Festival Internacional de Música de Campina Grande. São histórias de bastidores que, depois de superadas, nos fazem sorrir. Certa feita, um convidado que sairia do aeroporto de San José, na Costa Rica (SJO), foi informado, na hora do embarque, que seu bilhete fora emitido para uma localidade homônima, na Califórnia (SJC), Estados Unidos. A partir de então, passei a conferir todas as passagens pessoalmente, razão pela qual tenho me especializado em códigos IATA.

No ano em que apresentamos o Réquiem para um Trombone, de Eli-Eri Moura, escrito em homenagem a Radegundis Feitosa, esperávamos um grande público, que, de fato, veio nos prestigiar em massa. Com a casa lotada, iniciamos a récita. Ainda nos primeiros compassos, percebi uma inquietação, ouvi ruídos vindo de uma das portas laterais do Municipal. Posteriormente, fiquei sabendo que uma turba queria entrar no Severino Cabral, tendo sido impedida pois já havia gente por todo lado. Invejosos dirão que é exagero ou mentira. Mas, é verdade, eu estava lá, testemunhei o ocorrido e vi com esses olhos, que àquela época enxergavam tudo mais nitidamente, o dia em que a polícia saiu às ruas para dispersar uma multidão sedenta por música de concerto, na cidade d’O Maior São João do Mundo.

Chico do Piano, esse velho conhecido do FIMUS, também já alimentou nosso banco de fatos pitorescos. Há muito tempo ele colabora conosco, seja alugando os seus instrumentos, seja fazendo a manutenção dos nossos. Eu não lembro em qual edição isso aconteceu, mas, sem combinar nada, ele trouxe um piano branco, que eu não aceitei, porque o considerei inadequado para o contexto. Alguns colegas não viam problema em usá-lo, tendo em vista que era um Yamaha, meia cauda, seminovo. Rejeitei a proposta, pois não queria dar munição para os críticos de plantão, que, como sabem, não são poucos e poderiam perguntar maliciosamente se Richard Clayderman também iria apresentar-se no Festival, naquele ano. Pode até parecer revanchismo, e já me desculpo pelo trocadilho, mas, daquele ponto em diante, ficou decretado que no palco só subiriam pretos (pianos, para ser mais claro).

Quando montamos o Gloria, de John Rutter, o coro tinha quase uma centena de coralistas. Ocorre que, quanto mais gente, mais trabalho. No dia do concerto, após o ensaio geral, tentamos coreografar a entrada e a saída dos cantores e músicos. Por conta da quantidade de pessoas, tivemos que repetir o procedimento várias vezes, sem sucesso. O protocolo só andou, de fato, quando eu, em alto e bom som, expressei veementemente como devíamos agir. Outro dia, comentaram que, nas noites mais silenciosas, ouve-se no palco daquela casa de espetáculos um certo... pariu... riu... riu... riu... Dizem que é a minha voz, que, desde aquele dia, ainda ecoa por lá.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

Veja também: Um piano para CampinaVIII FIMUS e I FIMUS JazzCantando a história do FIMUSEuroFIMUSForró Jazz-SinfônicoAno Jackson do PandeiroDe mãos dadas, ao redor do Teatro; O Festival do Sesquicentenário; e Uma cidade em festa;

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Cantando spirituals

Ao redor do mundo, coros amadores e profissionais cantam spirituals. Compositores como William Dawson, Moses Hogan, Rollo Dilworth e Stacey Gibbs, para citar apenas alguns, arranjaram sucessos internacionais como Soon Ah Will Be Done, The Battle of Jericho, Elijah Rock e Rock’a My Soul. Seja a cappella ou com piano, em andamento lento ou rápido, com caráter reflexivo ou dançante, a interpretação dessas peças exige uma compreensão que vai além dos dados contidos na partitura.

O entendimento da linguagem figurada ajuda na definição do ethos, do tempo, da sonoridade e da concepção de cada peça. O simbolismo associado à água, por exemplo, é explorado recorrentemente nesse modelo de literatura. Logo, a referência à travessia dos rios Jordão ou Mississippi, mais do que uma caminhada em direção ao paraíso, representando a passagem da vida terrena para a eterna, poderia também ser um símbolo da transição entre o regime escravocrata e o abolicionista, numa provável alusão aos estados do norte que, diferentemente daqueles mais ao sul dos EUA, eram contrários à escravidão.

No que concerne à performance, certos grupos têm interpretado esse repertório numa perspectiva historicamente informada, com um inglês estilizado, que tenta reconstruir a pronúncia das nações africanas que participaram do processo de colonização da América do Norte, evitando estereótipos, como no auge do blackface minstrelsy. Por isso, a prática tem sido cantar o fonema 
th como “d” (than = dan; with = wid) ou “f” (mouth = mouf), dependendo da posição no vocábulo. O “r” final e pós-vocálico é praticamente inaudível (Summer = summah; Lord = lawd; your = yo). Há ainda um certo tipo de apócope, no meio da palavra, que objetiva simplificar e permitir ajustes rítmico-textuais, a exemplo do substantivo céu, que, nesses casos, é grafado de modo distinto àquele que consta nos dicionários (Heaven = hev’en). O artigo definido the pode ser cantado de duas formas, isto é, “dee”, antes dos sons vocálicos, e “duh”, precedendo os sons consonantais. Essa espécie de abordagem tem alimentado o debate sobre apropriação cultural. Ademais, porque intrinsecamente associadas à história dos negros escravizados nos Estados Unidos, essas canções espirituais, herança dos povos africanos e afro-norte-americanos, ainda hoje suscitam a discussão em torno do racismo, tema controverso em muitas sociedades, incluindo a estadunidense. Então, para ampliar os estudos, anexo uma lista com artigos e livros que tratam do tema (PDF).

Penso que para cantar spirituals, assim como a literatura sacra afro-brasileira, deve-se extrapolar o aspecto musical. É necessário posicionar-se crítica e reflexivamente, numa perspectiva mística e dialética, que aborde as identidades negras das diásporas e contemple a análise estrutural e discursiva, abrangendo a teia econômica, política e cultural em conexão com a obra em foco, no contexto da sua produção, circulação e recepção, hoje e em diferentes épocas.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 17 de maio de 2020

Confiar é bom... não confiar é ainda melhor.

Em 2012, o Coro de Câmara de Campina Grande realizou sua primeira turnê internacional. Não foi fácil, mas, com planejamento, organização e foco, a gente conseguiu superar as barreiras e concretizou o projeto, apresentando-se no Mississippi, Louisiana e Texas, nos EUA.

Chegamos em Birmingham, no Alabama, e de lá seguimos para a Mississippi State University, nosso ponto de partida em terras estadunidenses. Depois, fomos para a Louisiana e cantamos no interior e em Baton Rouge, capital do estado, na United Methodist Church, no campus da LSU. Por fim, nos dirigimos para a Texas A&M University, na pequena cidade de Commerce, nos arredores de Dallas. Em todos esses lugares, os anfitriões, dentre os quais os professores Gary Packwood, John Dickson e Randall Hooper, além de toda a logística, também prepararam os seus coros, que dividiram o palco conosco durante as performances.

O roteiro foi seguido criteriosamente, muito embora o extravio das malas entre Recife e Miami já sinalizasse que o acaso tem sua própria agenda. Essa situação estressante, de ficar horas no aeroporto resolvendo esse tipo de problema, foi, na verdade, um ensaio para o que iríamos passar entre Starkville e Zachary. Os dois carros que foram reservados não tinham espaço suficiente para transportar os passageiros e as bagagens. Só percebemos isso na hora do embarque. Como não era possível substituí-los por um veículo maior, lembrei-me de um colega que mora em Baton Rouge e que havia ido assistir ao nosso concerto. Liguei para ele e perguntei-lhe se poderia nos ajudar, tendo em vista que viajara sozinho numa van e talvez fosse possível carregar parte das nossas valises, fato que resolveria o problema. Ele topou e  gentilmente veio nos socorrer, razão pela qual separamos o que iria conosco e o que ele levaria.

Por conta disso, saímos atrasados, sabendo que não haveria como nos prepararmos adequadamente. Para aumentar o drama, iríamos inaugurar o auditório de uma escola pública. Na estrada, inutilmente pedia ao pai tempo e a mãe distância que nos ajudassem. Desembarcamos em cima da hora. Na agonia, não achei o meu sapato e usei o de alguém. No palco, fomos acalmando com os aplausos do público que lotou o teatro. Em reverência e cabisbaixo, percebi que os bicos do calçado que me emprestaram estavam roídos, acentuando a sua idade e um falso aspecto bicolor, corpo preto e ponta fubenta, no couro cru, tal como os cascos de um pangaré surrado, que podiam ser vistos ao longe por conta do poderoso canhão que me iluminava. Muito embora grato por ter o que calçar, naquele instante de queda e coice, decidi que, a partir de então, sempre usaria sapatos de concerto nas minhas viagens, porque, como diz o ditado, confiar é bom... não confiar é ainda melhor.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 15 de maio de 2020

O Canto Coral na Paraíba: Grupo Anima

O Grupo Anima, criado em meados de 1985 pela flautista cearense Sandra Albano, dedicou-se em sua fase inicial à interpretação do repertório renascentista e barroco para flautas doces. Além da fundadora, integraram as primeiras formações Helena Rodrigues, Eli-Eri Moura, Marisa Nóbrega, Déa Santos, Luciênio Macedo, Roderick Fonseca, Didier Guigue, dentre outros. Foi com essa proposta que realizou o Circuito de Música Antiga, apresentando-se em várias cidades do interior do estado, em Natal, Fortaleza e Maceió, bem como em Porto Alegre, onde participou do 3º Festival Internacional de Coros.

Posteriormente, já em novo formato e sob a direção de Eli-Eri Moura, tive a oportunidade de conhecer o trabalho do consorte em 1986, durante o III Festival Nordestino de Corais, em Campina Grande. Digitalizamos o áudio que foi gravado ao vivo nesta ocasião, em fita K-7, e produzimos uma animação (veja aqui). Na ocasião, apresentaram-se combinando vozes e instrumentos na execução de clássicos extraídos dos cancioneiros ibéricos, muito embora os espetáculos fossem mais complexos, abarcando também números de dança com os bailarinos do Ballet Espaço. A presença do Anima na Serra da Borborema nos fez entrar em contato com uma literatura específica, interpretada com propriedade e que chamou a atenção do público. A seleção e a sequência das peças nos permitiram ouvir canções lentas e rápidas, o diálogo entre solistas e tutti, ressaltando os elementos poéticos essenciais à compreensão da diversidade temática que aqueles textos abarcavam, alguns mais líricos e solenes, outros mais irônicos e com duplo sentido. Foi uma aula inspiradora. 

Na sua terceira fase, o agrupamento dedicou-se à música brasileira, focando em criações inéditas, como, por exemplo, a Missa Breve, para solista, coro e quarteto de madeiras, e a opereta Os reis simultâneos, ambas frutos da parceira Moura-Solha. Obras seletas da MPB também foram incorporadas ao Anima, que também fez a estreia da Misa Criolla, de Ariel Ramirez, na Paraíba.

Em 1989, porque Eli-Eri Moura foi para o Canadá, passei a coordenar a equipe, que recebeu novos integrantes e ampliou o repertório. Participamos de vários eventos, incluindo o 5º Encontro Sergipano de Corais, em Aracaju. Infelizmente, por uma série de razões, nossas atividades foram interrompidas naquele mesmo ano. Contudo, o ciclo da vida, que tudo renova, fez brotar, há poucos anos, o IAMAKÁ, sob a liderança de Eli-Eri Moura, que segue, resguardadas as devidas proporções, a mesma linha da música de câmara produzida pelo Anima, nos anos oitenta. Acompanhar e reger esse conjunto foi relevante para a consolidação da minha carreira musical. À semelhança das iniciativas do professor José Alberto Kaplan e do maestro Carlos Veiga, que também se dedicaram à música antiga com o Collegium Musicum e o Pró-Música, na capital paraibana, o Anima é uma referência na história do canto coral estadual, pela excelência da sua proposta estética, artística e musical.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com


*Sobre o Canto Coral na Paraíba, veja também: Antônio GuimarãesClóvis PereiraEli-Eri MouraGazzi de Sá, José Alberto KaplanNabor Nunes, Nelson Mathias e Célia Bretanha JunkerReginaldo Carvalho, e Tom K.


quarta-feira, 13 de maio de 2020

A festa das lanternas

Treze de Maio. Amanheci ouvindo o tema do filme Em algum lugar do passado, de Rachmaninov, embalado pela lembrança da minha avó materna, essa mulher forte e determinada, a matriarca admirada pelo povo do gueto das Imbiras, local onde viveu até o fim dos seus dias, ali, às margens do Açude Novo. Maria Luiza ficou viúva jovem demais e criou os onze filhos praticamente sozinha. Se hoje essa tarefa ainda é desafiadora, imagina naquela época, antes das conquistas feministas e das revoluções que mudaram o mundo.

Os percalços que ela superou estão intrinsicamente ligados a sua fé. Eu já tratei desse assunto no texto Obrigado, Dona Nuca, e peço licença para sintetizá-lo. Minha avó era católica, devota de Nossa Senhora e todo mês de maio celebrava o milagre de Fátima com uma trezena. Nesse período, rezava o terço em sua casa, por volta da hora do ângelus. Eu chegava da escola e ia correndo ao seu encontro, porque me sentia acolhido e adorava ouvir a sua voz tenra entoando as melodias marianas. Tudo era simples, vivo e intenso, como a chama da pequena vela sob a mesa-altar improvisado e que dissipava as sombras da noite que se aproximava.

Na prática corrente da igreja, quando se reza o terço deve-se observar o dia da semana, visto que cada um tem seu próprio ethos. Segundas e sábados, por exemplo, são dedicados aos mistérios da alegria, os chamados gozosos; terças e sextas, aos da dor; quartas e domingos, aos da glória; a quinta, por fim, aos da luz. Eu não sei se ela sabia daquele protocolo e se, mesmo sabendo, o seguia rigorosamente, tendo em vista que era muito pragmática. O certo é que ela puxava a primeira parte do Pai-Nosso e da Ave-Maria, enquanto nós recitávamos a segunda metade. Entre uma dezena e outra, uma pequena pausa para reflexão, oportunidade na qual ela nos pedia para revelarmos silenciosamente os desejos do nosso coração, as graças que esperávamos alcançar. A culminância da festa era na data de hoje, ocasião na qual uma multidão, em procissão e carregando as lanternas artesanais que ela cuidadosamente confeccionara, iluminava a rua cantando a aparição na Cova da Iria, que já tive a oportunidade de visitar algumas vezes em Portugal.

Porque somos um espelho que reflete o mosaico das memórias, fui invadido por uma lufa de saudade e afeto nesses dias de reencontro comigo mesmo e todos aqueles que me constituem e definem. Vovó, a inesquecível, está inserida nesse seleto rol e, na sua singularidade, ensinou-me sobre a mística do amor que alimenta essa relação pessoal, íntima e intransponível com o divino, para além dos templos e denominações, e que é representado pelo sagrado feminino das muitas Mães-Marias que povoam o meu (in) consciente-coração (ver vídeo).

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 10 de maio de 2020

Por uma péinha de nada (ou A aventura de Ramon em NY)

Em 2017, debutei no Carnegie Hall regendo a première da Missa de Alcaçus, de Danilo Guanais, para solistas, coro, piano e percussão. O processo de arrecadação dos recursos, a preparação dos cantores, tudo, de modo geral, foi desafiador e fascinante. Formamos um grande grupo, incluindo gente do Brasil, França e Estados Unidos.

Ao todo, passamos uma semana em Nova Iorque. O cronograma incluiu ensaios, concertos e lazer, atividades que foram desenvolvidas individual e conjuntamente. Cada um teve tempo livre para visitar os locais que queria, fazer compras, andar pela Broadway, Central Park, Times Square, a Catedral de St. Patrick e o monumento em homenagem às vítimas do Onze de Setembro. Com sol ou com lua, a pé, usando metrô, trem ou táxi, todos aproveitaram ao máximo aquela cidade em constante movimento e que parece não dormir. Os mais preparados levaram um roteiro detalhado, como foi o caso do nosso percussionista.

Ramon Almeida, aluno da UFCG naquela época, é pianista, arranjador, produtor, tem um estúdio, enfim, é um músico multimídia, desses que topa qualquer parada. A maior prova é que ele participou do projeto como zabumbeiro. A proposta não era simples, porque era a estreia de uma peça de um compositor premiado, naquele templo, com um coral formado por aproximadamente setenta pessoas de distintas nacionalidades, para uma sala lotada, tocando um instrumento solista, parte fundamental nas passagens mais rítmicas e dançadas da obra. Ele não se intimidou, preparou-se e, além de nos acompanhar, apresentou-se com sucesso em vários bares de Manhattan, dentre os quais o Harlem Coffee Jazz e o Blue Note.

Nós voltamos, mas Ramon continuou por lá. Seu regresso aconteceria no domingo seguinte, em torno da meia-noite. Acostumado à rotina, esqueceu-se de que o tráfego dos trens era restrito naqueles dias e horários. Aperreado, correu em direção ao JFK com a sensação de que algo iria dar errado, como, de fato, deu. Ele perdeu o voo. Passou a noite e o dia tentando remarcar o bilhete, que custaria o dobro daquilo que já havia pago. Sem dinheiro suficiente, em vão dialogou com diferentes agentes. Contudo, alguém na fila ouviu a sua história e o reconheceu. Era um brasileiro que ele havia encontrado nos clubes por onde passara. Enquanto conversava com essa pessoa na fila do check-in, já exausto física e emocionalmente e quase perdendo as esperanças, o inesperado (ou seria um milagre?) aconteceu. Uma das atendentes, devidamente autorizada pelos superiores, o chamou e ofereceu-lhe, comovida e com um discreto sorriso, uma passagem de cortesia de volta para casa. Ramon transfigurou-se, indo do pranto ao espanto, e ao receber o novo voucher, feliz exclamou: — Eita... E é na primeira classe! (Ufa, essa foi por uma péinha de nada – grifos nossos.)

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Proteja-se contra a infecção

(English version)
Protect yourself from infection, de David Lang, é uma composição para coro misto a cappella,  baseada numa série de orientações apresentadas pelo governo norte-americano, em 1918, por conta da epidemia provocada pela influenza, a conhecida Gripe Espanhola, que dizimou milhões de pessoas em todo o mundo.

A obra, predominantemente homorrítmica e em estilo antifonal, assemelha-se a uma litania na qual os solistas anunciam os nomes dos cidadãos da Filadélfia vitimados por esta doença infectocontagiosa. Com poucos recursos, o compositor consegue criar uma ambiência intimista, quase sagrada, muito embora, como já mencionado, trata-se de um documento legal, que teoricamente carece de elementos líricos ou místicos. Fundamentalmente, David Lang emprega a técnica do recto tonus para enfatizar componentes textuais relevantes e que têm como meta esclarecer a população sobre os riscos da pandemia, orientando-a a manter-se segura e saudável naquele contexto. Esse caráter reservado é sublinhado por vários fatores. Todas as vozes foram escritas numa região central, cômoda, sem extremos agudos ou graves. Do ponto de vista da intensidade, inexistem grandes contrastes. Quanto à harmonia, estruturas simples e complexas, consonantes e dissonantes, reiteram aspectos semânticos, chamando a atenção do ouvinte-intérprete.

Esse trabalho foi gravado entre 9 e 12 de julho de 2019 pelo The Crossing, na igreja de St. Peter, Great Valley/Malvern, Pensilvânia. O filme de Brett A. Snodgrass, concebido e dirigido por Donald Nally, potencializa os aspectos da narrativa poético-musical, que também conta com a expressiva criação de Steven Bradshaw (artwork), Kevin Vondrak e John Grecia (assistentes musicais). Paul Vazquez foi o responsável pela gravação, compilação e produção, enquanto a mixagem ficou por conta de Dante Portella e a pós-produção sob a responsabilidade de Paul Vazquez (Digital Mission Audio Services). A sonoridade do grupo é leve e senza vibrato, em sintonia com o espírito devocional e contemplativo que a peça evoca. Nesta interpretação, especial atenção é dada à prosódia e à fluxão do texto, que é enunciado de forma homogênea e clara, permitindo-nos ouvir sutilezas no fraseado e no timbre (veja o vídeo).

A realização desse projeto, ano passado, causa-nos espanto por conta dos ares proféticos que revela, visto que parecia anunciar a crise que agora atravessamos. Surpreendentemente, os conselhos do início do século XX continuam válidos. Eles são atuais, precisam ser observados para o bem de todos e nos falam sobre novos-velhos problemas que a humanidade ainda está longe de resolver. Assim, precisamos evitar aglomerações, ficar em casa e cuidar da saúde física e mental. Se adoecermos, devemos evitar o desespero e procurar ajuda médica, tratando o problema racionalmente. Só o isolamento social, o conhecimento científico e o investimento em políticas públicas voltadas para a saúde, educação, habitação, renda e emprego, aliados ao bom senso e uma boa dose de paciência, poderão mudar esse status quo.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

terça-feira, 5 de maio de 2020

Cancioneiro da Paraíba

O Cancioneiro da Paraíba, organizado por Idelette Fonseca dos Santos e Maria de Fátima Barbosa de Mesquita Batista, foi publicado em João Pessoa, pela GRAFSET, em 1993. A obra, com capa de Milton Nóbrega e ilustrações de Domingos Sávio, é resultado de uma pesquisa realizada pelos alunos da Pós-Graduação em Letras da UFPB e que teve como meta “ser um registro da memória popular, um momento na trajetória de tradição e de criação da poesia e da canção.”

Após as explanações iniciais das editoras, segue-se uma coletânea de canções, divididas em oito categorias: Cantigas de ninar, Cantigas de brincar, Cantigas de folguedo, Parlendas, Cantigas religiosas, Orações e crenças, Aboios e toadas de vaquejada e Cantos políticos e de costume. As melodias e parlendas foram coletadas em diferentes comunidades do estado (Araruna, Cacimba de Dentro, Bananeiras, Pedras de Fogo, Queimadas, Serra Branca, Areia, Catolé do Rocha, Campina Grande e João Pessoa), iniciativa que contou com a colaboração de pessoas de múltiplas faixas etárias. Cada texto vem acompanhado por várias informações, incluindo o título e os dados relativos ao informante, assim como o processo de gravação. As transcrições musicais, feitas por Maria Alix Nóbrega Ferreira de Melo, são acompanhadas por breves comentários de Luiz Oliveira Maia. Esgotada, a obra só é encontrada em lojas de livros usados ou em formato digital, na internet (PDF).

Este trabalho oferece à comunidade, de modo geral, e aos educadores e artistas, mais especificamente, um vasto material para uso em sala de aula e também nos processos criativos. As peças da coletânea podem ser usadas na composição de obras originais e arranjos para diferentes formações instrumentais, vocais e mistas, integrando, portanto, o repertório de coros, bandas, orquestras e outros conjuntos de câmara. Similarmente, elas podem ser inseridas na trilha sonora de espetáculos teatrais e audiovisuais. Na Universidade Federal de Campina Grande, por exemplo, um dos alunos da Licenciatura em Música compôs uma série de arranjos para consorte de flautas doces, contrabaixo e percussão, com graus distintos de dificuldade, material adequado às finalidades didático-pedagógicas e também performáticas.

Há alguns anos, conheci a professora Maria de Fátima no PPGL-UFPB, na avaliação de uma tese de doutorado que tratava dos aspectos semióticos do referido Cancioneiro em processos de criação coletiva. Depois, foi a vez de encontrar a emérita Idelette Muzart, na École doctorale 138 (Letter, langue, spectale) da Université Paris-Nanterre, na apresentação de uma pesquisa sobre Capiba e o Movimento Armorial. Nas duas oportunidades, percebi o quanto as docentes são apaixonadas pela cultura brasileira e quão relevantes são as suas contribuições no campo dos estudos sobre oralidade, literatura e música, fato que merece amplo reconhecimento, porque, como diz o ditado, “na boca de quem não presta, quem é bom não tem valia!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 3 de maio de 2020

Um episódio com Reginaldo Carvalho

Há mais de vinte anos, pesquiso a obra de Reginaldo Carvalho. Neste tempo, além de catalogar, analisar e editar suas composições, interpretei-as com diferentes coros e grupos, no Brasil e exterior. Com o Madrigal da UFPI, cantamos música sacra e secular, incluindo motetos e arranjos de canções tradicionais, em vários eventos artísticos e culturais.

Costumeiramente, convidava o amigo paraibano para assistir aos nossos concertos, mas ele resistia, desculpava-se e nunca ia. No dia em que fomos cantar em Campo Maior, que fica nos arredores de Teresina, ele nos surpreendeu, aceitou a proposta e foi ao nosso encontro na terra da carne de sol. Ao chegar, comentou: “Nego Velho (era assim que às vezes tratava os mais próximos)­, estou aqui e vou prestigiar o seu trabalho.” A minha alegria foi enorme. Aliás, a do grupo igualmente, que, já sentindo o peso da responsabilidade, encontrou uma motivação, animou-se para a cantoria daquela noite.

Antes de começar a apresentação na Catedral de Santo Antônio, falei um pouco do repertório. Como parte das peças eram do guarabirense, fiz menção ao seu nome, contei um pouco da sua trajetória e pedi ao público que o acolhesse com palmas. Entretanto, eu esqueci de um detalhe: Reginaldo Carvalho era muito tímido e fugia das homenagens, sobretudo quando ele era o foco. Pois bem. Enquanto a plateia o aplaudia calorosamente, eu apontava em direção ao último banco da igreja, no qual estava sentado, a fim de que todos o reconhecessem. Ele, com a maior naturalidade, virou a cabeça para trás, como se também estivesse à procura do ilustre homenageado, deixando-nos, digamos assim, no vácuo. Como ele não se levantou ou sequer acenou para os curiosos campo-maiorenses, ninguém ficou sabendo, afinal, quem era a figura em destaque. Sorrindo sem graça e sem mais delongas, seguimos.

Na primeira parte do programa, duas peças de sua autoria: As sete palavras da oração dominical e Ave-Maria. Essas obras primas da literatura coral brasileira ecoaram naquele espaço sagrado e que tem acústica generosa. Ao término do concerto, cumprimentou-nos e disse que iria me entregar a versão correta da prece mariana. Dias depois, recebi outra edição que era, na verdade, uma transcrição da nossa performance. Ele observou criteriosamente o fraseado, as variações de intensidade e agógica, registrando tudo nesse novo documento. Ao me entregá-lo, acrescentou:  Essa é a partitura. Cante do jeito que está aí! E eu sorri, porque sabia que, de forma discreta e sofisticada, ele estava aprovando a nossa interpretação, que prezava pela fluxão do texto, a exatidão prosódico-musical. Como me dissera em entrevista, “me dá uma satisfação enorme ouvir uma cantoria com a prosódia musical totalmente bem aplicada e compreendida.” Este é só um dos muitos episódios que tenho para contar sobre Reginaldo Carvalho.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Les chansons de mai

(Texto em Português)
Les chansons de mai pourraient être appelées chansons de printemps. Si Ce jour le doibt, ballade médiévale écrite par Guillaume Dufay, parle avec lyrisme de l'amour, le prince de la saison, Ce moy de May, de Clément Janequin, décrit avec double sens l'angoisse d'une jeune femme à la recherche de son amant. Alors que William Byrd, dans le madrigal This Sweet and Mary May, fait l'éloge de la reine Elizabeth, Thomas Morley, dans Now is the Month of Maying, explore différentes couleurs, arômes et saveurs pour parler de la vie et de la libido.

Ce thème a également été exploré par les compositeurs baroques. Dans Le violette, par exemple, Alessandro Scarlatti, en plus de mettre en évidence la beauté des violettes fraîches, parfumées et gracieuses qui sont gênées et cachées parmi les feuilles, leur demande de supprimer ses pensées, qui sont très ambitieuses. Claudio Monteverdi, dans Madrigali Guerrieri et Amorosi, et plus particulièrement dans Su, su pastorelli vezzosi, met en évidence l'exubérance de la nature, en corrélant les éléments bucoliques et sentimentaux.

Fanny Mendelssohn-Hensel et Robert Schumann ont composé différentes versions pour Im wunderschönen Monat Mai, poème de Heinrich Heine, dans lequel il décrit sa passion pour un être cher sans nom: « Au magnifique mois de mai, / Lorsque tous les bourgeons ont germé, / L'amour a aussi éclaté dans mon cœur. / Au magnifique mois de mai, / Lorsque les oiseaux chantaient, / Je lui ai avoué / Mes aspirations et mes envies. » Le traitement accordé au texte est différent dans les deux œuvres: la première a été écrite en 1837, à deux voix, allegro molto, en do majeur, avec un accompagnement de danse; le second, en 1840, pour soliste, lent, harmonieusement ambigu et avec un piano expressif, essentiel dans la narration poétique et musicale.

Bien qu'ici, dans l'hémisphère sud, la renaissance de la terre n'intervienne qu'entre septembre et décembre, dans la musique brésilienne il y a plusieurs exemples qui célèbrent ce moment de vie et de nature. Já vem chegando a primavera, par Henrique de Curitiba, il est l'un d'eux. En fait, cette œuvre, pour chœur mixte a cappella, serait insérée dans la Suíte das Estações, un projet inachevé en raison de sa mort. Canção da Primavera, de Murilo Santos, est une œuvre tripartite, notamment rythmique, comme le suggère la poésie sur laquelle elle est basée, et avec des blocs harmoniques formés par des intervalles d'un quart. En cette période difficile, il faut s'épanouir, il faut écouter ce qui nous fait jaillir, renaître (voici la playlist avec ces chansons). Et, comme dans les versets de Mário Quintana, «Dansons tous, dansons / Bien-aimés, morts, amis, / Dansons tous jusqu'à / Ne connaissons plus la raison / Jusqu'à ce que les paineiras aient / Au-dessus des murs fleuris!»

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 29 de abril de 2020

A alta performance no canto coral brasileiro

Nelson Mathias e Célia Bretanha dirigiram o Coral do SESI, em Brasília, nos anos setenta, e gravaram um LP em 16 canais, na RCA, no Rio de Janeiro, com direção artística de Carlos Guarany. O álbum contém nove faixas, todas dedicadas à música brasileira, incluindo Saia bonita (Baião - Carlos Alberto Pinto Fonseca), Suíte dos pescadores (Dorival Caymmi - Damiano Cozzella), Beira mar (Tema afro-brasileiro - Esther Scliar), Rolinha (Chula marajoara - Waldemar Henrique), Cromo (Kindemiro Teixeira - Pedro S. de Amorim - Nivaldo Santiago), Ofulú Lorêrê (Osvaldo Lacerda), Cambinda elefante (Maracatu - Ernst Mahle), Construção (Chico Buarque - Damiano Cozzella) e Carnaval I (Vários autores - Damiano Cozzella).

A interpretação do coro é exemplar em muitos aspectos. O grupo canta no tempo, afinado, com técnica e expressão. Destaco tudo isso porque o disco foi gravado em 1975, numa época em que não existiam esses produtos mágicos que muitos usam em estúdio atualmente para afinar ou duplicar vozes. Ali não há maquiagem. A sonoridade desse coro assemelha-se àquela do Coral da UFPB, Campus II, Campina Grande, que os dois também dirigiram entre 1978 e 1982, ratificando que a identidade de um ensemble é definida pelos seus dirigentes. A comparação pode ser observada no texto/vídeo Um som inconfundível.

A qualidade dos arranjos é outro ponto que chama a atenção, sobretudo aqueles escritos por Damiano Cozzella e que são interpretados com a orquestração original. Construção e Carnaval I são pérolas, especialmente por conta das madeiras e dos metais. Já a Suíte dos Pescadores inclui um quinteto de cordas, que pouca gente conhece e que toca, a maior parte do tempo, colla voce. Na verdade, pode-se dizer que este acompanhamento é non obbligato, razão pela qual comumente se executa a versão a cappella. Não obstante, compartilharei uma versão completa desse arranjo brevemente para que todos possam conhecê-lo e quem sabe interpretá-lo.

Henrique Morelebaum, Marlos Nobre e Alberto Jafé assinam a apresentação desta preciosidade. Este último, inclusive, destaca a prevalência do uníssono e a beleza da homogeneidade, que ultimamente certas linhas de pensamento tentam refutar e considerar démodé equivocadamente e com argumentos dúbios. A unidade é tudo na prática de conjunto, seja num trio de forró, coro ou orquestra. Esses mestres exemplificam o que é excelência, o que é gravar sem Auto-Tune, sem placebos cênicos ou excessiva voz de peito em nome de uma brasilidade ou livre auto-expressão duvidosas. Eles nos mostram que, sim, é possível cantar qualquer repertório com qualidade com um coral formado por gente comum, “50 figurantes, moças e rapazes, filhos dos operários das indústrias e trabalhadores”, como foi o caso do Coral do SESI, da Capital Federal (ouça a playlist). Nelson Mathias e Célia Bretanha, em outros termos, nos ensinam o que é a alta performance no canto coral brasileiro.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

terça-feira, 28 de abril de 2020

A quarentena mais longa da vida

Na pequena rua em que morei, havia um terreno que usávamos como área de lazer. Lá, jogávamos futebol e vôlei, brincávamos de baleada e barra-bandeira. O espaço, que durante longo período ficou ao leu, era o palco no qual nos divertíamos diariamente.

Seu Machado morava por ali. Ele era um homem alto, usava óculos e tinha as pernas finas e o tronco largo, tal como Dr. Nefrario, da animação Meu malvado favorito. Essa aparência ganhava ares sinistros pois, muito embora falasse com os transeuntes, ele era um sujeito de pouca conversa, talvez por causa da voz aguda e abafada, que era desproporcional ao seu corpanzil e que poderia ser até mesmo uma disforia, sabe-se lá. Os moradores, observando esse detalhe, o apelidaram de Machadão. Raras vezes flagramos gente entrando ou saindo daquela residência, com paredes marcadas pelo lodo das épocas, que mais parecia abandonada, sobretudo em razão da luz rarefeita que escapava pelas frestas das janelas quando o céu escurecia. O mistério pairava sobre o recinto de pouco movimento, muitas sombras e gente calada. Eventualmente, víamos a sua esposa. Apenas Machado Filho, único rebento do casal, dava o ar da graça e espiava o nosso alvoroço. Machadinho, para ser preciso, passava boa parte do tempo dentro de casa. Daquele reduto, acompanhava a algazarra das andorinhas e da molecada, de longe, no fim da tarde, posto que jamais teve permissão para juntar-se a nenhum dos dois grupos.

O afastamento gerava embate. Enquanto uns afirmavam que eles eram abastados, outros, porque não dominavam a língua, os classificavam como abestados. Teriam alguma doença, afinal? Bom, naqueles dias não se falava abertamente sobre certos males. Com crianças, então, nem pensar. Por isso, até hoje não tenho essa resposta e acho que quem soube ou suspeitou já está morto ou prestes a morrer. O certo é que Machadão ficava furioso quando nós cantávamos “pula, machadinha, para o meio da rua.” O velho dizia impropérios que cortavam o vento, pois, para ele, estávamos ofendendo o varão, que se vestia como um colegial, usando uma meia social no meio da canela que não combinava nem com o Bamba azul, nem com o Kichute preto, nem com o Conga branco, que ele calçava em dias alternados.


Em todos os anos no São José, nunca o vi dançar quadrilha, nunca o ouvi cantando nas procissões de Vó Nuca, nunca o encontrei nas matinês dominicais, nunca o avistei no boi do carnaval. Imagino que em seu lar só se ouviam os ecos do silêncio, e aquele que não tem música no coração não merece confiança, como disse Shakespeare. A julgar por hoje, não tenho dúvidas: eles viveram em isolamento social, numa quarentena permanente, a mais longa da vida.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 25 de abril de 2020

O Canto Coral na Paraíba: Clóvis Pereira

Clóvis Pereira nasceu em Caruaru-PE, em 1932. Filho de pai músico, ao mudar-se para Recife, por volta dos anos cinquenta, deu continuidade aos estudos no Conservatório Pernambucano de Música e na Escola de Belas Artes da UFPE, instituições em que teve contato com nomes de referência, a exemplo do compositor Guerra-Peixe, e das quais viria a ser professor posteriormente. Sua formação acadêmica também inclui uma temporada na Berklee College of Music, em Boston, nos Estados Unidos. Em seu catálogo composicional encontram-se obras vocais e instrumentais para diferentes formações, algumas com grande notoriedade por conta da conexão com o Movimento Armorial.

Como docente, atuou em diferentes universidades. Na UFPB, além de lecionar, regeu o Coral Universitário da Paraíba, grupo com o qual representou o Brasil, em 1974, no Fourth International Choir Festival, apresentando-se no Kennedy Center (Washington, D.C) e no Lincoln Center (Nova Iorque, NY). Um dos trabalhos mais representativos que ele realizou em João Pessoa, nesta época, foi a Grande Missa Nordestina, escrita para solistas, coro e orquestra de câmara, em 1977, criação que reitera seus vínculos com a proposta estética encabeçada por Ariano Suassuna. Encomendada pela UFPB para celebrar o primeiro ano de gestão do Reitor Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, esta obra-prima está dividida em cinco movimentos (Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus-Benedictus e Agnus Dei) e foi gravada pelo coro da referida instituição, no auditório do CPM. O lançamento do LP, com selo Marcus Pereira, ocorreu em 1978. Posteriormente, ele revisou a Missa, acrescentando outros instrumentos (vídeo).

Clóvis Pereira escreveu arranjos antológicos. O pato (Jayme Silva - Neuza Teixeira), por exemplo, sintetiza a essência da bossa nova, com suas harmonias e síncopes, e parece ter sido inspirado nas big bands e orquestras de frevo, cujas sonoridades eram familiares ao compositor. Aliás, essa releitura e a de Garota de Ipanema (Tom Jobim - Vinicius de Morais) foram dedicadas ao Coral da UFPB, Campus II, regido por Nelson Mathias. Numa pesquisa que realizamos, descobrimos que o regente da capital, querendo desafiar o agrupamento de Campina Grande, escrevera este último a oito vozes e de forma bem complexa. Na partitura manuscrita, inclusive, há um registro do arranjador, dizendo que ele teria iniciado a escrevê-lo às 8h30min, do dia 25 de maio de 1979, e terminado às 15h00min do mesmo dia. Um mês após aceitar o desafio, ele ouviu a estreia da peça que havia escrito, reconhecendo a excelência do trabalho apresentado por Nelson (vídeo).

A passagem do maestro Clóvis Pereira pela Paraíba ampliou os horizontes musicais em nosso estado, enriquecendo sobremaneira a atividade coral. Seu vasto corpus está aí para ser editado, publicado, estudado e interpretado, não só pelo valor histórico que possui, mas porque é belo e transcende a essência desse povo-tempo-lugar.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

*Sobre o Canto Coral na Paraíba, veja também: Antônio GuimarãesEli-Eri MouraGazzi de SáGrupo AnimaJosé Alberto KaplanNabor NunesNelson Mathias e Célia Bretanha JunkerReginaldo Carvalho, e Tom K.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

As convenções de regentes nos Estados Unidos

As convenções das associações de regentes realizadas nos Estados Unidos da América são eventos únicos. Quem trabalha nesse campo deveria prestigiar um encontro desses, pelo menos uma vez na vida, porque são oportunidades para encontrar nomes de referência, ouvir corais com excelente padrão de qualidade, conhecer as novas tendências do mercado, adquirir materiais diversos e expandir os contatos, os horizontes.

As reuniões podem acontecer anual ou bienalmente. A American Choral Directors Association (ACDA), por exemplo, realiza conferências regionais e nacionais alternadamente. Os primeiros congregam maestros de determinadas áreas do país, enquanto os segundos ocorrem em grandes cidades e juntam mais de vinte mil participantes dos EUA e do mundo, que são divididos em diferentes categorias. Tive uma experiência inesquecível em 2005, numa convenção nacional, na Califórnia, como tenor do LSU A Cappella Choir, que se apresentou como grupo convidado, sob a direção do professor Kenneth Fulton. Cantamos na Catedral de Los Angeles e na Disney Hall, ao lado do Mormon Tabernacle Choir.

No Texas, TODA, TCDA e TBA são, respectivamente, confrarias que reúnem diretores de orquestra, de coros e de bandas. Anualmente, a cidade de San Antonio é invadida por profissionais que se encontram para trocar ideias e discutir variados temas. Em 2014, participei como palestrante de uma dessas mesas-redondas, ensejo no qual falei sobre a obra de Reginaldo Carvalho. Além dos concertos, estive em muitas sessões e também visitei o espaço destinado à exposição. Durante os dias do congresso, há um local reservado para conhecimento de repertório. Selecionam-se peças para todo tipo de agrupamento. As editoras imprimem cadernos com cerca de quinze obras, que são distribuídos gratuitamente nas entradas das salas, que ficam lotadas. Um ou dois líderes, acompanhados por um pianista, conduzem o corão, que, após breves explanações, lê à primeira vista, cantando a peça uma única vez. Essa atividade dura aproximadamente uma hora e é muito enriquecedora. Concluída a leitura, muitos se dirigem aos quiosques, onde é possível obter ou encomendar tais composições e arranjos.

O volume de negócios nessas feiras é elevado. No centro comercial, compram-se livros, partituras e manuais impressos e digitais; vestimentas e sapatos; instrumentos, DVDs, softwares, hardwares, acessórios e muito mais, recursos que ampliam as possibilidades da nossa atuação em sala de aula, no ensaio e no palco. Entretanto, é preciso estar atento para não consumir excessivamente e ter cuidado com o lixo que é distribuído livremente. National Collegiate Choral OrganizationChorus America e Barbershop Harmony Society são outras organizações que também promovem esse modelo de iniciativa, cada uma voltada para uma clientela específica. Muito embora o investimento seja relativamente alto, o retorno é inestimável. Por isso, conheça as entidades e considere a possibilidade de participar das convenções. Caso vá, leve a mala vazia.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 20 de abril de 2020

As cartas de Thúlio

Conheci Thúlio Antunes em 1986, ao iniciar as atividades como regente do Coral Viva Voz, do Centro Cultural. Ele veio de Sousa para cursar Farmácia, na UEPB. Logo que entrou no grupo, nos identificamos e, pouco a pouco, fomos conhecendo a trajetória de cada um, incluindo hábitos, medos e sonhos. Conversávamos na rua, na praça, no sexto andar do Edifício Rique, onde ele morava, ou na minha casa. Nossas conversas eram intermináveis e regadas a muitos embates, animação e risadas.

Quando eu fui morar em João Pessoa, por conta do curso de Música, Thúlio também passou uma temporada por lá, especializando-se em Farmácia Industrial, cantando no Coral Universitário da Paraíba e no Grupo Ânima. Morávamos na Residência Universitária, em Jaguaribe, onde dividíamos o quarto com vários estudantes. Na capital paraibana, vivenciamos muitas aventuras na UFPB e nos ônibus da SETUSA, que sempre andavam lotados. À noite, lanchávamos num quiosque próximo ao Centro Administrativo do Estado. Enquanto ele pedia americano ou coxinhas, que comia com excesso de ketchup e uma Fanta laranja, eu pedia um caldo de cana para acompanhar as Cream Crackers que trouxera de casa. Porque odiava meu cardápio, afastava-se para mangar à distância.

Certo dia, choveu muito e tudo ficou alagado. A gente passou o dia andando pelo campus, pisando em poças. No fim da tarde, antes do coro, meu amigo mostrou-me seus pés expostos, roxos e engelhados, porque seu tênis se esfacelara por causa do lamaçal. Eu até tentei, mas não contive o riso. Chateado, Thúlio foi embora, perdeu o ensaio. Como era apaixonado por plantas medicinais, contou-me sobre uma experiência que fizera com a Brugmansia suaveolens: — Meu amigo, fo...foi a primeira e úúúltima vez que cu...cutuquuuei a onça com vara curta, ressaltou gaguejando e gargalhando. Por conta das nossas mentes irrequietas, criamos juntos o espetáculo Dia de suicídio (ou como atravessar a rua sem ser assaltado), com poemas dele e música de minha autoria, uma montagem do Grupo Vocal Nós em Voz, em 1990.

Recentemente, encontrei várias correspondências que ele me enviou no tempo em que visitava a família no sertão. Mostrei para os meus filhos como nós nos comunicávamos sem telefone à mão ou com todos os aplicativos que facilitam a vida atualmente. Os textos eram criativos e vinham acompanhados de poemas, desenhos e ilustrações recortadas de velhos álbuns ou revistas. Os anos passaram, a tecnologia avançou, os intervalos de tempo-espaço nos separaram eventualmente, mas a conexão só se sedimentou nessa caminhada. Ao ler as cartas de Thúlio, revivi muitas histórias, lembrei da nossa cumplicidade, do encantamento que nos move, das loucuras que fizemos, aqui e alhures, em nome da arte, do amor, da vida e de uma amizade que chegará aos quarenta anos brevemente.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 18 de abril de 2020

Autores e intérpretes

O LP Autores e Intérpretes foi gravado em João Pessoa, na Fundação Espaço Cultural (FUNESC), entre os dias 12 e 16 de abril de 1984, há exatos 36 anos. O disco tem o selo da Universidade Federal da Paraíba e foi produzido com o apoio do MEC, FUNARTE e Instituto Nacional da Música, durante a gestão do Reitor Berilo Ramos Borba. Integraram a equipe técnica Frank Justo Acker (técnico de gravação) e Chico Pereira (programação visual e foto da capa), dentre outros.

O álbum tem dezesseis faixas com as seguintes obras instrumentais e vocais: Brasileirando (Flávio Fernandes de Lima); Variações e Bartokiando (Eli-Eri Moura); Melissa e Meyse (José Ursicino da Silva - Duda); Caboclinho e Vamo vadiá (José A. Kaplan); Garatuja (Dimas Segundo Sedícias); Poema concreto (Trabalho coletivo do Quinteto Itacoatiara); Xô-Xô Pavão (Ernani Braga); Escorregando (Ernesto Nazareth - José A. Kaplan); Seresta (Antônio José Madureira); Fantasia sobre Asa Branca (José Euclides dos Santos); Maracatu e O Salutaris (Gazzi de Sá); e O Gemedô (Gilvan Chaves - José A. Kaplan).

Participaram da gravação docentes e grupos da UFPB, incluindo o Quinteto de Sopros, o Trio de Câmara, o Quinteto de Metais, o Duo Kaplan-Parente, o Quinteto Itacoatiara, o Cordas e Sopros e o Coral Universitário da Paraíba. Por um lado, temos composições experimentais, que exploram diferentes processos, enquanto outras, mais ortodoxas, empregam elementos e procedimentos convencionais, sejam ideias originais ou referências à tradição oral e urbana, como é possível observar nas criações que têm caráter mais dançante e que recorrem, por exemplo, aos elementos estruturais do baião, do frevo, do maracatu, do caboclinho, do tango e da seresta (veja o vídeo).

Autores e Intérpretes reúne nomes consagrados e novos, a exemplo do compositor Eli-Eri Moura, que naquela época ainda era aluno do Bacharelado em Piano, estudava composição com o experiente mestre argentino e também lecionava na Anthenor Navarro. Este trabalho sintetiza um período de grande dinamismo na UFPB, tanto no Campus I, na capital, quanto no Campus II, em Campina Grande, que havia criado o seu Núcleo de Extensão Cultural (NEC) há pouco tempo. O lançamento desta coleção, com obras inéditas e arranjos, evidencia a alta qualidade da música de câmara do nosso estado, tanto no âmbito criativo quanto interpretativo, confirmando que todo o investimento feito em arte e cultura na gestão do professor Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque gerou frutos. Por fim, projetos dessa natureza consolidam a relação entre ensino, pesquisa e extensão no contexto das nossas instituições. Iniciativas como estas promovem o belo, a música nacional, motivo pelo qual devem ser permanentes e amparadas com toda sorte de recursos, preservando o lugar da arte no cenário universitário. Só assim, todos saberão porque passamos horas compondo, ensaiando, gravando e produzindo na academia.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 16 de abril de 2020

A prática coral LGBTQI+

A compreensão das diferenças entre sexo biológico, identidade de gênero, expressão de gênero e orientação sexual é essencial para quem trabalha com música. Esse entendimento, à luz de distintas correntes científicas, nos dá embasamento, evita equívocos e constrangimentos, redireciona a nossa práxis, ajudando-nos a combater estereótipos, contribuindo para a redução da LGBTfobia e o desenvolvimento das pessoas com as quais interagimos profissionalmente.

No que diz respeito à prática coral, observamos uma expansão no número de grupos ligados à comunidade LGBTQI+, especialmente na América do Norte e na Europa. O Gay Men’s Chorus e o Trans Chorus of Los Angeles são representantes desta população. Há uma grande variedade de estudos e documentários em língua inglesa que mostram o cotidiano destes e de outros conjuntos, que nos ajudam a vislumbrar os limites e as possibilidades das ações políticas e educativas neste campo. O mesmo tem acontecido com os solistas que atuam no mundo da ópera e da música de câmara. Lucia Lucas, um barítono trans, e Holden Madagame, que começou a cantar como mezzo e hoje interpreta papeis como tenor, são artistas que estão inseridos no mercado e assumiram um protagonismo importante num contexto que, muito embora notadamente conservador, está em transformação. De modo geral, cantores e cantoras que fazem a transição passam por um longo processo de adaptação, porque submetidos a um complexo tratamento médico e psicológico, quase sempre à base de intervenção cirúrgica e muitos medicamentos. Essas variantes podem afetar diretamente a produção da voz, exigindo uma abordagem atenta de quem dirige e prepara vocalmente tais intérpretes.


A classificação vocal, enquanto dado supostamente determinado e fixado pela biologia, perde a sua força hegemônica quando se questiona a naturalidade do gênero e da sexualidade. Por um lado, sopranistas e contra-tenores ocupam funções outrora reservadas tão somente aos meninos, aos castrati e às mulheres. Analogamente, algumas senhoras, sobretudo nos corais de idosos, cantam nos naipes do tenor e do baixo, historicamente reduto exclusivo dos homens. As expressões coro masculino e feminino parecem, portanto, desatualizadas, podendo ser substituídas por algo genérico e menos sexista: coro de vozes afins, de vozes iguais, de vozes agudas ou de vozes graves de qualquer gênero.


O tema, ainda delicado, precisa ser abordado profundamente na academia, no âmbito da graduação e da pós, amparado na legislação, numa perspectiva racional, para além das crenças pessoais e dos princípios teológicos. A ciência está aí para nos mostrar o caminho em direção à consolidação de uma realidade coral que permita concomitantemente a comunhão das singularidades e o exercício pleno da cidadania. Porque “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, na condução do trabalho vocal, além da constituição animal, que nos é dada pela natureza, devemos levar em consideração os elementos socioculturais e as indiossincrasias dos sujeitos.


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Fica em casa, gente.

Estamos vivendo um período de quarentena por conta da pandemia provocada pelo COVID-19. O vírus espalhou-se pela Ásia, Europa e o resto do mundo rapidamente, chegando ao Brasil. A luta contra o inimigo invisível é grande e promete ser longa. Nessa temporada de isolamento social, nós ressignificamos o cotidiano, os hábitos, a vida. E isso é uma coisa boa.

Desde que iniciei o retiro, tive a oportunidade de me dedicar a muitos projetos. Atualizei o blog Música e Poética, escrevendo crônicas que há muito tempo começaram a ser esboçadas. Resgatei as reflexões sobre prática coral, técnica vocal, regência, música, de modo geral, textos que serão usados em sala de aula e em pesquisas futuras. Participei de reuniões online, com colegas de outras instituições, do Brasil e do exterior. Fiz também arranjos, que irei ensaiar com os coros que dirijo, e ouvi obras encostadas na estante há bastante tempo, como as sinfonias de Brahms. Selecionei as melhores gravações e intérpretes, acompanhando tudo com as partituras empoeiradas, revendo marcas do passado. Organizei os livros nas prateleiras. Folheei romances, limpando-os carinhosamente, revendo anotações, espantado e encantado com as narrativas de Ubaldo, Saramago, Scliar e tantos outros que povoam o meu imaginário e coração.

Para exercitar os músculos e fugir da cozinha, limpei o jardim, podei árvores, reguei as plantas da floresta encantada da minha companheira, a maga Jane Cely. Suas aceroleiras responderam aos meus afagos e ficaram entumecidas, suculentas e ruborizadas. Hum... aquelas gostosas atiçaram o fogo do desejo, abriram o meu apetite. Na garagem, enquanto o carro dorme, brinco com Capitu, que balança a cauda ininterruptamente, celebrando a calmaria e a minha não-transitoriedade. Aurora, indiferentemente, debocha, pois estou integralmente presente. Ela está cansada dos meus excessos, exceto quando tem fome ou sede. Foi por isso que fiquei pensando nas similaridades dos comportamentos dos felinos e dos humanos: em ambos, há sempre um interesse não revelado por trás do miado manso.

Comecei a organizar o acervo no qual guardo programas, cartazes, partituras, documentos em geral. Coloquei tudo no chão, fora das caixas, e fui categorizando por datas, iniciando em 1982 até os dias atuais. Quanta coisa. O trabalho será longo, posto que eventualmente me detenho para rever algo, dedicando mais atenção a um ou a outro papel, a esta ou aquela fotografia. Foi nessa arrumação que encontrei várias cartas, como aquelas que Thúlio Antunes me mandava regularmente quando estava em Sousa, com sua família, durante as férias de verão. Mas isso eu vou contar noutra ocasião. Esta tem sido uma experiência fantástica, com dias intensos, sobre os quais falaremos no futuro. Por hora, redescubro meus espaços, celebro a vida e digo: fica em casa, gente. Esse é o melhor e mais seguro lugar.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)