sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Festivais Internacionais de Música da UFPI

Em 2005, realizamos o I Curso Internacional de Canto da Universidade Federal do Piauí. A iniciativa teve como objetivo promover o aperfeiçoamento dos músicos que atuam na região, mais especificamente os cantores líricos, e contou com a participação da professora Julie Cássia Cavalcanti (França) e do pianista José Maurício Vale Brandão (Brasil). No ano seguinte, foi a vez do II Festival Internacional de Música da UFPI, uma iniciativa mais robusta e que contou com a presença dos norte-americanos Lori Bade (mezzo-soprano), Gary Packwood (regência), Ian Davidson (oboé), Jack Laumer (trompete), dos pianistas brasileiros Maria Célia Vieira, Bruna Vieira e José Henrique Martins, bem como dos professores João Berchmans de Carvalho Sobrinho, Alberto Dantas, Emmanuel Coelho Maciel, Beetholven Cunha, Joaquim Ribeiro Freire Neto, Erisvaldo Borges e Marly Gondim. A programação foi diversificada (veja), abrangendo palestras e recitais, que foram realizados na UFPI, IFPI e Igreja de São Raimundo Nonato.

Um dos momentos marcantes foi o recital do Madrigal da UFPI, sob a direção de Gary Packwood, um amigo que tive a oportunidade de encontrar no tempo de doutorado, na Louisiana State University. Como de costume, preparei o coro, que, muito embora com apenas poucos meses de existência, estava muito motivado para preparar as obras e trabalhar sob a batuta de um convidado tão inspirador. A seleção era toda dedicada à literatura coral estadunidense, incluindo The Lord Is My Shepherd (Allan Pote), os spirituals Great Day e Walk in Jerusalem, com arranjos de Moses Hogan e Rollo Dilworth, respectivamente. O repertório foi aprendido em pouco tempo, por meio do solfejo móvel, ficando os detalhes da preparação sob os cuidados do maestro, que ensaiou com afinco durante uma semana.

Todo Festival tem sempre muitas histórias engraçadas. A UFPI, na ocasião, disponibilizou uma Kombi sem ar-condicionado para transportar os artistas em Teresina, que no mês de agosto já se prepara para o bê-erre-ó-bró. Como na Igreja de São Raimundo Nonato não havia um piano, transportamos o da sala 448, do DEA, para o referido templo, na carroceria da caminhoneta do pai de Dayana Brasil. Foi uma aventura e tanto.

Porque é Natal e fim de ano, é tempo de reordenar gavetas, rever o que faz sentido, o que deve ser reciclado, e o que deve, de fato, ir para o lixo. É hora de reencontrar-se com as memórias, boas e ruins, importantes e inexpressivas, os instantes de alegria e tristeza. E foi assim, mexendo nos meus recônditos, que encontrei uma gravação do concerto do Madrigal da UFPI no referido evento, em 2006 (ouça). Ouvindo-o, um filme invadiu as brechas do tempo-espaço, fazendo-me sentir a emoção daquele instante, que permanece vivo nesse lugar sagrado que é o coração, onde também estão aqueles com os quais compartilhei tão intenso amor.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 14 de junho de 2020

O Canto Coral na Paraíba: Pedro Marinho de Oliveira

Pedro Marinho de Oliveira (Princesa Isabel-PB, 1917 - ?) estudou música, durante as primeiras décadas de vida, em sua terra natal, Recife e João Pessoa, cidade na qual ingressou como músico no 22º Batalhão de Caçadores (atualmente o 15º BIMtz), em 1935, época em que também foi orientado por Gazzi de Sá. Posteriormente, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde cursou harmonia, contraponto e fuga, provavelmente no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico. Antes, porém, trabalhou como professor e regente na cidade de Patos, sertão paraibano. Registros indicam a presença dele na Filarmônica 26 de julho, por volta de 1940. Em seu currículo consta ainda um período de formação na University of Chicago.

No primeiro Congresso de Música do Nordeste, promovido pela Sociedade de Cultura Musical, em 1949, Pedro Marinho falou sobre a técnica musical nas composições de Wagner. Em 1966, escreveu a Missa em Aboio, certamente sua obra mais conhecida e que foi estreada neste mesmo ano no Festival de Música Sacra realizado em Paty dos Alferes, Rio de Janeiro, no Centro Cultural Paschoal Carlos Magno. O Ars Nova, Coral da UFMG, regido por Carlos Alberto Pinto Fonseca, interpretou-a nesta primeira audição mundial. A missa, para coro misto a cappella, segue, de certo modo, as diretrizes do Concílio Vaticano II, dialogando com os elementos da cultura tradicional da região, incluindo os aboios, as cantigas de cego, o modalismo. As síncopes asseguram a vivacidade rítmica da peça, que foi gravada pelo referido coro numa produção do selo Festa (LDR 5029, 1966 - ouça).

A produção composicional de Pedro Marinho é diversificada e inclui obras instrumentais e vocais para diferentes formações. Em 2011, ouvi seu Romance, interpretado pela Orquestra de Câmara de João Pessoa, sob a direção de Carlos Anísio, no Festival Internacional de Música de Campina Grande. No ano seguinte, inseri a Missa em Aboio no repertório do Coro de Câmara de Campina Grande, apresentando-a nos estados do Mississippi, Louisiana e Alabama, nos EUA.

Como docente, trabalhou em várias instituições, a exemplo da Universidade de Goiás. O jornalista Pedro Marinho, xará do compositor, comenta num artigo publicado no jornal A União, em 2011, que entre 1995 e 1996 ele estava morando em Carpina-PE, ocasião na qual escrevera para Domingos de Azevedo lamentando o fato de ser “músico exaltado no Sul do Brasil, Estados Unidos, Europa e segregado na Paraíba.” Desconheço o paradeiro das suas peças, bem como estudos sobre sua vida e composições, que precisam ser encontradas, editadas, analisadas e divulgadas, aqui e no exterior, voltando às salas de concertos, mudando a triste realidade relatada por ele há mais de duas décadas. Esse é mais um desafio para a preservação da nossa memória e uma forma de assegurar-lhe um lugar merecido na história.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 6 de junho de 2020

Cordas e Sopros

A criação do Núcleo de Extensão Cultural (NEC), no Campus II da Universidade Federal da Paraíba, no final da década de setenta, trouxe para Campina Grande vários profissionais, todos contratados com o objetivo de desenvolver projetos educacionais e artísticos na instituição, a exemplo do Quarteto Telemann. Se em sua formação inicial o grupo dedicou-se à interpretação das coleções renascentistas e barrocas, contando apenas com um consorte de flautas doces, posteriormente ele voltou-se para a investigação da literatura nacional, acrescentando à sua constituição básica o violão e o violoncelo, razão pela qual passou a chamar-se Cordas e Sopros.

Além dos fundadores Romero Ricardo Damião de Araújo, Carlos Alan Peres da Silva, Ricardo César e Francisco de Assis Cunha Metri, outros músicos, a exemplo de Edilson Eulálio Cabral, Fernando Rangel e Eli-Eri Moura, integraram esse seleto time de intérpretes. Além disso, a análise das partituras revela que os dois últimos, ao lado de Antônio José Madureira e José Euclides dos Santos, assinaram os arranjos e composições que integraram o acervo do ensemble.

A Universidade Federal de Campina Grande lançou em 2013 uma série intitulada Cadernos de Música da UFCG (PDF), cujo primeiro volume foi dedicado ao resgate dessa proposta. Na coletânea, organizada por um dos ex-integrantes, Carlos Silva, relata-se que “foram arranjadas as músicas tipicamente nordestinas, redescobriram-se modinhas, choros, maxixes; nomes da música brasileira foram pesquisados e suas músicas arranjadas; músicas inéditas foram compostas por especialistas da região visando à formação instrumental do grupo.” As obras contidas neste livro constituíam o repertório básico interpretado em festivais, congressos, programas de TV e os mais diversos eventos. A seleção contempla arranjos de canções tradicionais e populares (Mulher rendeira, Nesta Rua, O cravo, Assum preto, Tico-Tico no fubá e Brejeiro), adaptações (Segunda Valsa de Esquina, Francisco Mignone), bem como peças inéditas (Primeiro choro para flautasFantasia sobre Asa Branca e Bartokiando). Um dos documentos fonográficos mais antigos é o que está no LP Autores e Intérpretes, produzido pela UFPB em 1984, e que foi digitalizado recentemente (áudio). Em 2015, Ralmon Sousa dirigiu a gravação da coletânea completa como parte de uma pesquisa igualmente realizada na UFCG, no âmbito do Bacharelado - Produção Musical. Na ocasião, participaram alunos da graduação de diferentes áreas (áudio).

O conjunto Cordas e Sopros teve um papel importante na divulgação da literatura para flauta doce, violão e violoncelo, valorizando nosso patrimônio com uma abordagem original. A proposta foi bem recebida pelo público e a crítica, atraindo jovens para o estudo da flauta doce, no âmbito da universidade. Eu, particularmente, tive a feliz oportunidade de iniciar meus estudos musicais no ano do lançamento do disco supracitado, sob a orientação do professor Alan Peres. É esse, portanto, o meu pedigree artístico-musical.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Toré dos Caboclos e dos Mestres

Toré dos Caboclos e dos Mestres, de Antônio Carlos Batista Pinto Coelho (Tom K), é dedicado a Pedro Santos. A obra, escrita para coro a cappella em 1996, é inspirada num ritual de culto da jurema, realizado na cidade de Alhandra-PB, e que reúne vários caboclos, entre iniciantes e iniciados, e vários mestres, que detêm o conhecimento do ritual, que vai desde os cantos de chamamentos, momento em que os caboclos baixam no terreiro e os mestres incorporam, até os momentos de cura e bênçãos. Neste rito, bebe-se um vinho feito da planta jurema, que também é uma cabocla e uma região encantada do espaço.

Sob a perspectiva musical, o Toré está organizado em nove seções, assim dispostas: 1) Já vem abrindo os caminhos; 2) Salve a jurema na terra; 3) Arreia Caboclo; 4) Na jurema tem; 5) Interlúdio modulante; 6) Coda; 7) Oh! Jurema preta; 8) Mamãe Totonha; e 9) Sultão das matas. A peça começa e termina em Fá maior, indo para Dó maior e, depois, Sol maior, no sétimo e oitavo movimentos, respectivamente. Os cânticos utilizados como base composicional foram recolhidos por um antropólogo francês, Renné Vandézane, e foram transcritos para partitura pelo professor Reginaldo Salvador de Alcântara. O compositor, ao falar da sua criação, assim diz: “Eu usei uma parte dos cantos e os trabalhei na forma de um culto com a saudação inicial, o chamamento dos caboclos, a chegada dos caboclos, a cura e a benção. Eu termino com o ponto dos caboclos, sultão das matas, que não pertence ao culto da Jurema. Trabalho com ritmos e melodias originais; uso harmonias simples e a forma responsorial e antifonal; na partitura não consta dinâmica nem agógica nem indicação de andamentos, mas, quando ensaio, uso tudo que tenho direito, contudo eu sempre espero uma parceria com o intérprete, não apenas nessa obra mas em quase tudo que faço!”


Toré é vívido e dançante. As eventuais divisões nos naipes, assim como as passagens cromáticas, reiteram os aspectos expressivos e simbólicos da narrativa músico-textual. Tom K, nesta composição, trata de dois elementos sagrados, o toré e a jurema, marcadores nativos que indicam, afirmam e delimitam a presença indígena na sociedade brasileira, conforme afirma o pesquisador Rodrigo de Azeredo Grünewald.

Recentemente, participei com José Maurício Valle Brandão (UFBA) do V Simpósio Internacional de Investigação em Arte, cujo tema foi o Diálogo Intercultural e Ecumênico Através da Arte, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro (UTAD), em Portugal. Na ocasião, discutimos vários aspectos do toré na literatura coral brasileira (livro artigo), destacando a peça de Tom K, que nos autorizou a divulgar a partitura (PDF) e o áudio da gravação que ele fez com o Coro de Câmara Villa-Lobos, de João Pessoa, em 1998 (veja).

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Cantando spirituals

Ao redor do mundo, coros amadores e profissionais cantam spirituals. Compositores como William Dawson, Moses Hogan, Rollo Dilworth e Stacey Gibbs, para citar apenas alguns, arranjaram sucessos internacionais como Soon Ah Will Be Done, The Battle of Jericho, Elijah Rock e Rock’a My Soul. Seja a cappella ou com piano, em andamento lento ou rápido, com caráter reflexivo ou dançante, a interpretação dessas peças exige uma compreensão que vai além dos dados contidos na partitura.

O entendimento da linguagem figurada ajuda na definição do ethos, do tempo, da sonoridade e da concepção de cada peça. O simbolismo associado à água, por exemplo, é explorado recorrentemente nesse modelo de literatura. Logo, a referência à travessia dos rios Jordão ou Mississippi, mais do que uma caminhada em direção ao paraíso, representando a passagem da vida terrena para a eterna, poderia também ser um símbolo da transição entre o regime escravocrata e o abolicionista, numa provável alusão aos estados do norte que, diferentemente daqueles mais ao sul dos EUA, eram contrários à escravidão.

No que concerne à performance, certos grupos têm interpretado esse repertório numa perspectiva historicamente informada, com um inglês estilizado, que tenta reconstruir a pronúncia das nações africanas que participaram do processo de colonização da América do Norte, evitando estereótipos, como no auge do blackface minstrelsy. Por isso, a prática tem sido cantar o fonema 
th como “d” (than = dan; with = wid) ou “f” (mouth = mouf), dependendo da posição no vocábulo. O “r” final e pós-vocálico é praticamente inaudível (Summer = summah; Lord = lawd; your = yo). Há ainda um certo tipo de apócope, no meio da palavra, que objetiva simplificar e permitir ajustes rítmico-textuais, a exemplo do substantivo céu, que, nesses casos, é grafado de modo distinto àquele que consta nos dicionários (Heaven = hev’en). O artigo definido the pode ser cantado de duas formas, isto é, “dee”, antes dos sons vocálicos, e “duh”, precedendo os sons consonantais. Essa espécie de abordagem tem alimentado o debate sobre apropriação cultural. Ademais, porque intrinsecamente associadas à história dos negros escravizados nos Estados Unidos, essas canções espirituais, herança dos povos africanos e afro-norte-americanos, ainda hoje suscitam a discussão em torno do racismo, tema controverso em muitas sociedades, incluindo a estadunidense. Então, para ampliar os estudos, anexo uma lista com artigos e livros que tratam do tema (PDF).

Penso que para cantar spirituals, assim como a literatura sacra afro-brasileira, deve-se extrapolar o aspecto musical. É necessário posicionar-se crítica e reflexivamente, numa perspectiva mística e dialética, que aborde as identidades negras das diásporas e contemple a análise estrutural e discursiva, abrangendo a teia econômica, política e cultural em conexão com a obra em foco, no contexto da sua produção, circulação e recepção, hoje e em diferentes épocas.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 15 de maio de 2020

O Canto Coral na Paraíba: Grupo Anima

O Grupo Anima, criado em meados de 1985 pela flautista cearense Sandra Albano, dedicou-se em sua fase inicial à interpretação do repertório renascentista e barroco para flautas doces. Além da fundadora, integraram as primeiras formações Helena Rodrigues, Eli-Eri Moura, Marisa Nóbrega, Déa Santos, Luciênio Macedo, Roderick Fonseca, Didier Guigue, dentre outros. Foi com essa proposta que realizou o Circuito de Música Antiga, apresentando-se em várias cidades do interior do estado, em Natal, Fortaleza e Maceió, bem como em Porto Alegre, onde participou do 3º Festival Internacional de Coros.

Posteriormente, já em novo formato e sob a direção de Eli-Eri Moura, tive a oportunidade de conhecer o trabalho do consorte em 1986, durante o III Festival Nordestino de Corais, em Campina Grande. Digitalizamos o áudio que foi gravado ao vivo nesta ocasião, em fita K-7, e produzimos uma animação (veja aqui). Na ocasião, apresentaram-se combinando vozes e instrumentos na execução de clássicos extraídos dos cancioneiros ibéricos, muito embora os espetáculos fossem mais complexos, abarcando também números de dança com os bailarinos do Ballet Espaço. A presença do Anima na Serra da Borborema nos fez entrar em contato com uma literatura específica, interpretada com propriedade e que chamou a atenção do público. A seleção e a sequência das peças nos permitiram ouvir canções lentas e rápidas, o diálogo entre solistas e tutti, ressaltando os elementos poéticos essenciais à compreensão da diversidade temática que aqueles textos abarcavam, alguns mais líricos e solenes, outros mais irônicos e com duplo sentido. Foi uma aula inspiradora. 

Na sua terceira fase, o agrupamento dedicou-se à música brasileira, focando em criações inéditas, como, por exemplo, a Missa Breve, para solista, coro e quarteto de madeiras, e a opereta Os reis simultâneos, ambas frutos da parceira Moura-Solha. Obras seletas da MPB também foram incorporadas ao Anima, que também fez a estreia da Misa Criolla, de Ariel Ramirez, na Paraíba.

Em 1989, porque Eli-Eri Moura foi para o Canadá, passei a coordenar a equipe, que recebeu novos integrantes e ampliou o repertório. Participamos de vários eventos, incluindo o 5º Encontro Sergipano de Corais, em Aracaju. Infelizmente, por uma série de razões, nossas atividades foram interrompidas naquele mesmo ano. Contudo, o ciclo da vida, que tudo renova, fez brotar, há poucos anos, o IAMAKÁ, sob a liderança de Eli-Eri Moura, que segue, resguardadas as devidas proporções, a mesma linha da música de câmara produzida pelo Anima, nos anos oitenta. Acompanhar e reger esse conjunto foi relevante para a consolidação da minha carreira musical. À semelhança das iniciativas do professor José Alberto Kaplan e do maestro Carlos Veiga, que também se dedicaram à música antiga com o Collegium Musicum e o Pró-Música, na capital paraibana, o Anima é uma referência na história do canto coral estadual, pela excelência da sua proposta estética, artística e musical.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com


*Sobre o Canto Coral na Paraíba, veja também: Antônio GuimarãesClóvis PereiraEli-Eri MouraGazzi de Sá, José Alberto KaplanNabor Nunes, Nelson Mathias e Célia Bretanha JunkerReginaldo Carvalho, e Tom K.


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Proteja-se contra a infecção

(English version)
Protect yourself from infection, de David Lang, é uma composição para coro misto a cappella,  baseada numa série de orientações apresentadas pelo governo norte-americano, em 1918, por conta da epidemia provocada pela influenza, a conhecida Gripe Espanhola, que dizimou milhões de pessoas em todo o mundo.

A obra, predominantemente homorrítmica e em estilo antifonal, assemelha-se a uma litania na qual os solistas anunciam os nomes dos cidadãos da Filadélfia vitimados por esta doença infectocontagiosa. Com poucos recursos, o compositor consegue criar uma ambiência intimista, quase sagrada, muito embora, como já mencionado, trata-se de um documento legal, que teoricamente carece de elementos líricos ou místicos. Fundamentalmente, David Lang emprega a técnica do recto tonus para enfatizar componentes textuais relevantes e que têm como meta esclarecer a população sobre os riscos da pandemia, orientando-a a manter-se segura e saudável naquele contexto. Esse caráter reservado é sublinhado por vários fatores. Todas as vozes foram escritas numa região central, cômoda, sem extremos agudos ou graves. Do ponto de vista da intensidade, inexistem grandes contrastes. Quanto à harmonia, estruturas simples e complexas, consonantes e dissonantes, reiteram aspectos semânticos, chamando a atenção do ouvinte-intérprete.

Esse trabalho foi gravado entre 9 e 12 de julho de 2019 pelo The Crossing, na igreja de St. Peter, Great Valley/Malvern, Pensilvânia. O filme de Brett A. Snodgrass, concebido e dirigido por Donald Nally, potencializa os aspectos da narrativa poético-musical, que também conta com a expressiva criação de Steven Bradshaw (artwork), Kevin Vondrak e John Grecia (assistentes musicais). Paul Vazquez foi o responsável pela gravação, compilação e produção, enquanto a mixagem ficou por conta de Dante Portella e a pós-produção sob a responsabilidade de Paul Vazquez (Digital Mission Audio Services). A sonoridade do grupo é leve e senza vibrato, em sintonia com o espírito devocional e contemplativo que a peça evoca. Nesta interpretação, especial atenção é dada à prosódia e à fluxão do texto, que é enunciado de forma homogênea e clara, permitindo-nos ouvir sutilezas no fraseado e no timbre (veja o vídeo).

A realização desse projeto, ano passado, causa-nos espanto por conta dos ares proféticos que revela, visto que parecia anunciar a crise que agora atravessamos. Surpreendentemente, os conselhos do início do século XX continuam válidos. Eles são atuais, precisam ser observados para o bem de todos e nos falam sobre novos-velhos problemas que a humanidade ainda está longe de resolver. Assim, precisamos evitar aglomerações, ficar em casa e cuidar da saúde física e mental. Se adoecermos, devemos evitar o desespero e procurar ajuda médica, tratando o problema racionalmente. Só o isolamento social, o conhecimento científico e o investimento em políticas públicas voltadas para a saúde, educação, habitação, renda e emprego, aliados ao bom senso e uma boa dose de paciência, poderão mudar esse status quo.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

terça-feira, 5 de maio de 2020

Cancioneiro da Paraíba

O Cancioneiro da Paraíba, organizado por Idelette Fonseca dos Santos e Maria de Fátima Barbosa de Mesquita Batista, foi publicado em João Pessoa, pela GRAFSET, em 1993. A obra, com capa de Milton Nóbrega e ilustrações de Domingos Sávio, é resultado de uma pesquisa realizada pelos alunos da Pós-Graduação em Letras da UFPB e que teve como meta “ser um registro da memória popular, um momento na trajetória de tradição e de criação da poesia e da canção.”

Após as explanações iniciais das editoras, segue-se uma coletânea de canções, divididas em oito categorias: Cantigas de ninar, Cantigas de brincar, Cantigas de folguedo, Parlendas, Cantigas religiosas, Orações e crenças, Aboios e toadas de vaquejada e Cantos políticos e de costume. As melodias e parlendas foram coletadas em diferentes comunidades do estado (Araruna, Cacimba de Dentro, Bananeiras, Pedras de Fogo, Queimadas, Serra Branca, Areia, Catolé do Rocha, Campina Grande e João Pessoa), iniciativa que contou com a colaboração de pessoas de múltiplas faixas etárias. Cada texto vem acompanhado por várias informações, incluindo o título e os dados relativos ao informante, assim como o processo de gravação. As transcrições musicais, feitas por Maria Alix Nóbrega Ferreira de Melo, são acompanhadas por breves comentários de Luiz Oliveira Maia. Esgotada, a obra só é encontrada em lojas de livros usados ou em formato digital, na internet (PDF).

Este trabalho oferece à comunidade, de modo geral, e aos educadores e artistas, mais especificamente, um vasto material para uso em sala de aula e também nos processos criativos. As peças da coletânea podem ser usadas na composição de obras originais e arranjos para diferentes formações instrumentais, vocais e mistas, integrando, portanto, o repertório de coros, bandas, orquestras e outros conjuntos de câmara. Similarmente, elas podem ser inseridas na trilha sonora de espetáculos teatrais e audiovisuais. Na Universidade Federal de Campina Grande, por exemplo, um dos alunos da Licenciatura em Música compôs uma série de arranjos para consorte de flautas doces, contrabaixo e percussão, com graus distintos de dificuldade, material adequado às finalidades didático-pedagógicas e também performáticas.

Há alguns anos, conheci a professora Maria de Fátima no PPGL-UFPB, na avaliação de uma tese de doutorado que tratava dos aspectos semióticos do referido Cancioneiro em processos de criação coletiva (vídeo). Depois, foi a vez de encontrar a emérita Idelette Muzart, na École doctorale 138 (Letter, langue, spectale) da Université Paris-Nanterre, na apresentação de uma pesquisa sobre Capiba e o Movimento Armorial. Nas duas oportunidades, percebi o quanto as docentes são apaixonadas pela cultura brasileira e quão relevantes são as suas contribuições no campo dos estudos sobre oralidade, literatura e música, fato que merece amplo reconhecimento, porque, como diz o ditado, “na boca de quem não presta, quem é bom não tem valia!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Les chansons de mai

(Texto em Português)
Les chansons de mai pourraient être appelées chansons de printemps. Si Ce jour le doibt, ballade médiévale écrite par Guillaume Dufay, parle avec lyrisme de l'amour, le prince de la saison, Ce moy de May, de Clément Janequin, décrit avec double sens l'angoisse d'une jeune femme à la recherche de son amant. Alors que William Byrd, dans le madrigal This Sweet and Mary May, fait l'éloge de la reine Elizabeth, Thomas Morley, dans Now is the Month of Maying, explore différentes couleurs, arômes et saveurs pour parler de la vie et de la libido.

Ce thème a également été exploré par les compositeurs baroques. Dans Le violette, par exemple, Alessandro Scarlatti, en plus de mettre en évidence la beauté des violettes fraîches, parfumées et gracieuses qui sont gênées et cachées parmi les feuilles, leur demande de supprimer ses pensées, qui sont très ambitieuses. Claudio Monteverdi, dans Madrigali Guerrieri et Amorosi, et plus particulièrement dans Su, su pastorelli vezzosi, met en évidence l'exubérance de la nature, en corrélant les éléments bucoliques et sentimentaux.

Fanny Mendelssohn-Hensel et Robert Schumann ont composé différentes versions pour Im wunderschönen Monat Mai, poème de Heinrich Heine, dans lequel il décrit sa passion pour un être cher sans nom: « Au magnifique mois de mai, / Lorsque tous les bourgeons ont germé, / L'amour a aussi éclaté dans mon cœur. / Au magnifique mois de mai, / Lorsque les oiseaux chantaient, / Je lui ai avoué / Mes aspirations et mes envies. » Le traitement accordé au texte est différent dans les deux œuvres: la première a été écrite en 1837, à deux voix, allegro molto, en do majeur, avec un accompagnement de danse; le second, en 1840, pour soliste, lent, harmonieusement ambigu et avec un piano expressif, essentiel dans la narration poétique et musicale.

Bien qu'ici, dans l'hémisphère sud, la renaissance de la terre n'intervienne qu'entre septembre et décembre, dans la musique brésilienne il y a plusieurs exemples qui célèbrent ce moment de vie et de nature. Já vem chegando a primavera, par Henrique de Curitiba, il est l'un d'eux. En fait, cette œuvre, pour chœur mixte a cappella, serait insérée dans la Suíte das Estações, un projet inachevé en raison de sa mort. Canção da Primavera, de Murilo Santos, est une œuvre tripartite, notamment rythmique, comme le suggère la poésie sur laquelle elle est basée, et avec des blocs harmoniques formés par des intervalles d'un quart. En cette période difficile, il faut s'épanouir, il faut écouter ce qui nous fait jaillir, renaître (voici la playlist avec ces chansons). Et, comme dans les versets de Mário Quintana, «Dansons tous, dansons / Bien-aimés, morts, amis, / Dansons tous jusqu'à / Ne connaissons plus la raison / Jusqu'à ce que les paineiras aient / Au-dessus des murs fleuris!»

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 29 de abril de 2020

A alta performance no canto coral brasileiro

Nelson Mathias e Célia Bretanha dirigiram o Coral do SESI, em Brasília, nos anos setenta, e gravaram um LP em 16 canais, na RCA, no Rio de Janeiro, com direção artística de Carlos Guarany. O álbum contém nove faixas, todas dedicadas à música brasileira, incluindo Saia bonita (Baião - Carlos Alberto Pinto Fonseca), Suíte dos pescadores (Dorival Caymmi - Damiano Cozzella), Beira mar (Tema afro-brasileiro - Esther Scliar), Rolinha (Chula marajoara - Waldemar Henrique), Cromo (Kindemiro Teixeira - Pedro S. de Amorim - Nivaldo Santiago), Ofulú Lorêrê (Osvaldo Lacerda), Cambinda elefante (Maracatu - Ernst Mahle), Construção (Chico Buarque - Damiano Cozzella) e Carnaval I (Vários autores - Damiano Cozzella).

A interpretação do coro é exemplar em muitos aspectos. O grupo canta no tempo, afinado, com técnica e expressão. Destaco tudo isso porque o disco foi gravado em 1975, numa época em que não existiam esses produtos mágicos que muitos usam em estúdio atualmente para afinar ou duplicar vozes. Ali não há maquiagem. A sonoridade desse coro assemelha-se àquela do Coral da UFPB, Campus II, Campina Grande, que os dois também dirigiram entre 1978 e 1982, ratificando que a identidade de um ensemble é definida pelos seus dirigentes. A comparação pode ser observada no texto/vídeo Um som inconfundível.

A qualidade dos arranjos é outro ponto que chama a atenção, sobretudo aqueles escritos por Damiano Cozzella e que são interpretados com a orquestração original. Construção e Carnaval I são pérolas, especialmente por conta das madeiras e dos metais. Já a Suíte dos Pescadores inclui um quinteto de cordas, que pouca gente conhece e que toca, a maior parte do tempo, colla voce. Na verdade, pode-se dizer que este acompanhamento é non obbligato, razão pela qual comumente se executa a versão a cappella. Não obstante, compartilharei uma versão completa desse arranjo brevemente para que todos possam conhecê-lo e quem sabe interpretá-lo.

Henrique Morelebaum, Marlos Nobre e Alberto Jafé assinam a apresentação desta preciosidade. Este último, inclusive, destaca a prevalência do uníssono e a beleza da homogeneidade, que ultimamente certas linhas de pensamento tentam refutar e considerar démodé equivocadamente e com argumentos dúbios. A unidade é tudo na prática de conjunto, seja num trio de forró, coro ou orquestra. Esses mestres exemplificam o que é excelência, o que é gravar sem Auto-Tune, sem placebos cênicos ou excessiva voz de peito em nome de uma brasilidade ou livre auto-expressão duvidosas. Eles nos mostram que, sim, é possível cantar qualquer repertório com qualidade com um coral formado por gente comum, “50 figurantes, moças e rapazes, filhos dos operários das indústrias e trabalhadores”, como foi o caso do Coral do SESI, da Capital Federal (ouça a playlist). Nelson Mathias e Célia Bretanha, em outros termos, nos ensinam o que é a alta performance no canto coral brasileiro.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 25 de abril de 2020

O Canto Coral na Paraíba: Clóvis Pereira

Clóvis Pereira nasceu em Caruaru-PE, em 1932. Filho de pai músico, ao mudar-se para Recife, por volta dos anos cinquenta, deu continuidade aos estudos no Conservatório Pernambucano de Música e na Escola de Belas Artes da UFPE, instituições em que teve contato com nomes de referência, a exemplo do compositor Guerra-Peixe, e das quais viria a ser professor posteriormente. Sua formação acadêmica também inclui uma temporada na Berklee College of Music, em Boston, nos Estados Unidos. Em seu catálogo composicional encontram-se obras vocais e instrumentais para diferentes formações, algumas com grande notoriedade por conta da conexão com o Movimento Armorial.

Como docente, atuou em diferentes universidades. Na UFPB, além de lecionar, regeu o Coral Universitário da Paraíba, grupo com o qual representou o Brasil, em 1974, no Fourth International Choir Festival, apresentando-se no Kennedy Center (Washington, D.C) e no Lincoln Center (Nova Iorque, NY). Um dos trabalhos mais representativos que ele realizou em João Pessoa, nesta época, foi a Grande Missa Nordestina, escrita para solistas, coro e orquestra de câmara, em 1977, criação que reitera seus vínculos com a proposta estética encabeçada por Ariano Suassuna. Encomendada pela UFPB para celebrar o primeiro ano de gestão do Reitor Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, esta obra-prima está dividida em cinco movimentos (Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus-Benedictus e Agnus Dei) e foi gravada pelo coro da referida instituição, no auditório do CPM. O lançamento do LP, com selo Marcus Pereira, ocorreu em 1978. Posteriormente, ele revisou a Missa, acrescentando outros instrumentos (vídeo).

Clóvis Pereira escreveu arranjos antológicos. O pato (Jayme Silva - Neuza Teixeira), por exemplo, sintetiza a essência da bossa nova, com suas harmonias e síncopes, e parece ter sido inspirado nas big bands e orquestras de frevo, cujas sonoridades eram familiares ao compositor. Aliás, essa releitura e a de Garota de Ipanema (Tom Jobim - Vinicius de Morais) foram dedicadas ao Coral da UFPB, Campus II, regido por Nelson Mathias. Numa pesquisa que realizamos, descobrimos que o regente da capital, querendo desafiar o agrupamento de Campina Grande, escrevera este último a oito vozes e de forma bem complexa. Na partitura manuscrita, inclusive, há um registro do arranjador, dizendo que ele teria iniciado a escrevê-lo às 8h30min, do dia 25 de maio de 1979, e terminado às 15h00min do mesmo dia. Um mês após aceitar o desafio, ele ouviu a estreia da peça que havia escrito, reconhecendo a excelência do trabalho apresentado por Nelson (vídeo).

A passagem do maestro Clóvis Pereira pela Paraíba ampliou os horizontes musicais em nosso estado, enriquecendo sobremaneira a atividade coral. Seu vasto corpus está aí para ser editado, publicado, estudado e interpretado, não só pelo valor histórico que possui, mas porque é belo e transcende a essência desse povo-tempo-lugar.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

*Sobre o Canto Coral na Paraíba, veja também: Antônio GuimarãesEli-Eri MouraGazzi de SáGrupo AnimaJosé Alberto KaplanNabor NunesNelson Mathias e Célia Bretanha JunkerReginaldo Carvalho, e Tom K.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

As convenções de regentes nos Estados Unidos

As convenções das associações de regentes realizadas nos Estados Unidos da América são eventos únicos. Quem trabalha nesse campo deveria prestigiar um encontro desses, pelo menos uma vez na vida, porque são oportunidades para encontrar nomes de referência, ouvir corais com excelente padrão de qualidade, conhecer as novas tendências do mercado, adquirir materiais diversos e expandir os contatos, os horizontes.

As reuniões podem acontecer anual ou bienalmente. A American Choral Directors Association (ACDA), por exemplo, realiza conferências regionais e nacionais alternadamente. Os primeiros congregam maestros de determinadas áreas do país, enquanto os segundos ocorrem em grandes cidades e juntam mais de vinte mil participantes dos EUA e do mundo, que são divididos em diferentes categorias. Tive uma experiência inesquecível em 2005, numa convenção nacional, na Califórnia, como tenor do LSU A Cappella Choir, que se apresentou como grupo convidado, sob a direção do professor Kenneth Fulton. Cantamos na Catedral de Los Angeles e na Disney Hall, ao lado do Mormon Tabernacle Choir.

No Texas, TODA, TCDA e TBA são, respectivamente, confrarias que reúnem diretores de orquestra, de coros e de bandas. Anualmente, a cidade de San Antonio é invadida por profissionais que se encontram para trocar ideias e discutir variados temas. Em 2014, participei como palestrante de uma dessas mesas-redondas, ensejo no qual falei sobre a obra de Reginaldo Carvalho. Além dos concertos, estive em muitas sessões e também visitei o espaço destinado à exposição. Durante os dias do congresso, há um local reservado para conhecimento de repertório. Selecionam-se peças para todo tipo de agrupamento. As editoras imprimem cadernos com cerca de quinze obras, que são distribuídos gratuitamente nas entradas das salas, que ficam lotadas. Um ou dois líderes, acompanhados por um pianista, conduzem o corão, que, após breves explanações, lê à primeira vista, cantando a peça uma única vez. Essa atividade dura aproximadamente uma hora e é muito enriquecedora. Concluída a leitura, muitos se dirigem aos quiosques, onde é possível obter ou encomendar tais composições e arranjos.

O volume de negócios nessas feiras é elevado. No centro comercial, compram-se livros, partituras e manuais impressos e digitais; vestimentas e sapatos; instrumentos, DVDs, softwares, hardwares, acessórios e muito mais, recursos que ampliam as possibilidades da nossa atuação em sala de aula, no ensaio e no palco. Entretanto, é preciso estar atento para não consumir excessivamente e ter cuidado com o lixo que é distribuído livremente. National Collegiate Choral OrganizationChorus America e Barbershop Harmony Society são outras organizações que também promovem esse modelo de iniciativa, cada uma voltada para uma clientela específica. Muito embora o investimento seja relativamente alto, o retorno é inestimável. Por isso, conheça as entidades e considere a possibilidade de participar das convenções. Caso vá, leve a mala vazia.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 18 de abril de 2020

Autores e intérpretes

O LP Autores e Intérpretes foi gravado em João Pessoa, na Fundação Espaço Cultural (FUNESC), entre os dias 12 e 16 de abril de 1984, há exatos 36 anos. O disco tem o selo da Universidade Federal da Paraíba e foi produzido com o apoio do MEC, FUNARTE e Instituto Nacional da Música, durante a gestão do Reitor Berilo Ramos Borba. Integraram a equipe técnica Frank Justo Acker (técnico de gravação) e Chico Pereira (programação visual e foto da capa), dentre outros.

O álbum tem dezesseis faixas com as seguintes obras instrumentais e vocais: Brasileirando (Flávio Fernandes de Lima); Variações e Bartokiando (Eli-Eri Moura); Melissa e Meyse (José Ursicino da Silva - Duda); Caboclinho e Vamo vadiá (José A. Kaplan); Garatuja (Dimas Segundo Sedícias); Poema concreto (Trabalho coletivo do Quinteto Itacoatiara); Xô-Xô Pavão (Ernani Braga); Escorregando (Ernesto Nazareth - José A. Kaplan); Seresta (Antônio José Madureira); Fantasia sobre Asa Branca (José Euclides dos Santos); Maracatu e O Salutaris (Gazzi de Sá); e O Gemedô (Gilvan Chaves - José A. Kaplan).

Participaram da gravação docentes e grupos da UFPB, incluindo o Quinteto de Sopros, o Trio de Câmara, o Quinteto de Metais, o Duo Kaplan-Parente, o Quinteto Itacoatiara, o Cordas e Sopros e o Coral Universitário da Paraíba. Por um lado, temos composições experimentais, que exploram diferentes processos, enquanto outras, mais ortodoxas, empregam elementos e procedimentos convencionais, sejam ideias originais ou referências à tradição oral e urbana, como é possível observar nas criações que têm caráter mais dançante e que recorrem, por exemplo, aos elementos estruturais do baião, do frevo, do maracatu, do caboclinho, do tango e da seresta (veja o vídeo).

Autores e Intérpretes reúne nomes consagrados e novos, a exemplo do compositor Eli-Eri Moura, que naquela época ainda era aluno do Bacharelado em Piano, estudava composição com o experiente mestre argentino e também lecionava na Anthenor Navarro. Este trabalho sintetiza um período de grande dinamismo na UFPB, tanto no Campus I, na capital, quanto no Campus II, em Campina Grande, que havia criado o seu Núcleo de Extensão Cultural (NEC) há pouco tempo. O lançamento desta coleção, com obras inéditas e arranjos, evidencia a alta qualidade da música de câmara do nosso estado, tanto no âmbito criativo quanto interpretativo, confirmando que todo o investimento feito em arte e cultura na gestão do professor Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque gerou frutos. Por fim, projetos dessa natureza consolidam a relação entre ensino, pesquisa e extensão no contexto das nossas instituições. Iniciativas como estas promovem o belo, a música nacional, motivo pelo qual devem ser permanentes e amparadas com toda sorte de recursos, preservando o lugar da arte no cenário universitário. Só assim, todos saberão porque passamos horas compondo, ensaiando, gravando e produzindo na academia.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 16 de abril de 2020

A prática coral LGBTQI+

A compreensão das diferenças entre sexo biológico, identidade de gênero, expressão de gênero e orientação sexual é essencial para quem trabalha com música. Esse entendimento, à luz de distintas correntes científicas, nos dá embasamento, evita equívocos e constrangimentos, redireciona a nossa práxis, ajudando-nos a combater estereótipos, contribuindo para a redução da LGBTfobia e o desenvolvimento das pessoas com as quais interagimos profissionalmente.

No que diz respeito à prática coral, observamos uma expansão no número de grupos ligados à comunidade LGBTQI+, especialmente na América do Norte e na Europa. O Gay Men’s Chorus e o Trans Chorus of Los Angeles são representantes desta população. Há uma grande variedade de estudos e documentários em língua inglesa que mostram o cotidiano destes e de outros conjuntos, que nos ajudam a vislumbrar os limites e as possibilidades das ações políticas e educativas neste campo. O mesmo tem acontecido com os solistas que atuam no mundo da ópera e da música de câmara. Lucia Lucas, um barítono trans, e Holden Madagame, que começou a cantar como mezzo e hoje interpreta papeis como tenor, são artistas que estão inseridos no mercado e assumiram um protagonismo importante num contexto que, muito embora notadamente conservador, está em transformação. De modo geral, cantores e cantoras que fazem a transição passam por um longo processo de adaptação, porque submetidos a um complexo tratamento médico e psicológico, quase sempre à base de intervenção cirúrgica e muitos medicamentos. Essas variantes podem afetar diretamente a produção da voz, exigindo uma abordagem atenta de quem dirige e prepara vocalmente tais intérpretes.


A classificação vocal, enquanto dado supostamente determinado e fixado pela biologia, perde a sua força hegemônica quando se questiona a naturalidade do gênero e da sexualidade. Por um lado, sopranistas e contra-tenores ocupam funções outrora reservadas tão somente aos meninos, aos castrati e às mulheres. Analogamente, algumas senhoras, sobretudo nos corais de idosos, cantam nos naipes do tenor e do baixo, historicamente reduto exclusivo dos homens. As expressões coro masculino e feminino parecem, portanto, desatualizadas, podendo ser substituídas por algo genérico e menos sexista: coro de vozes afins, de vozes iguais, de vozes agudas ou de vozes graves de qualquer gênero.


O tema, ainda delicado, precisa ser abordado profundamente na academia, no âmbito da graduação e da pós, amparado na legislação, numa perspectiva racional, para além das crenças pessoais e dos princípios teológicos. A ciência está aí para nos mostrar o caminho em direção à consolidação de uma realidade coral que permita concomitantemente a comunhão das singularidades e o exercício pleno da cidadania. Porque “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, na condução do trabalho vocal, além da constituição animal, que nos é dada pela natureza, devemos levar em consideração os elementos socioculturais e as indiossincrasias dos sujeitos.


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

terça-feira, 14 de abril de 2020

Duvido que essa música toque no FM ou no AM

O Coral Universitário da Paraíba, Campus I, João Pessoa, foi criado em 1963 e teve como primeiro regente o professor Pedro Santos. Posteriormente, e até o início dos anos noventa, o conjunto foi dirigido por Arlindo Teixeira, Clóvis Pereira, José Alberto Kaplan e Eli-Eri Moura. Nesse intervalo, o coro participou de vários eventos no Brasil e no exterior, destacando-se o Festival Internacional de Coros do Rio Grande do Sul, o Encontro de Corais do Porto, em Portugal, bem como os concertos no Lincoln Center, em Nova Iorque, Estados Unidos. O quarto lugar no Concurso Nacional de Corais promovido pela FUNARTE e Rede Globo de TV, no final da década de setenta, é um dos pontos relevantes na trajetória do ensemble.

Eu, particularmente, tive a oportunidade de ouvir o Gazzi de Sá pela primeira vez em 1986, por conta do III Festival Nordestino de Corais, realizado aqui em Campina Grande, no Teatro. Na ocasião, Eli-Eri estava a frente do coro, que iniciou a sua participação cantando Ave verum, de W. A. Mozart. Aquela não seria uma apresentação qualquer no palco do Severino Cabral. Logo após o término do conhecido moteto, o grupo interpretou um repertório formado por obras originais e arranjos, destacando-se Música Clássica para PianoModinha para cantora e piano e Música americana para cantor e jazz band (para as partituras, contate-me).

O coral empregou vários recursos cênicos na interpretação dessas peças. Fundamentalmente, um pequeno grupo de atores encenava, enquanto os coralistas cantavam e interagiam em sintonia com os protagonistas, que, de modo geral, faziam mímicas, exagerando nos gestos, criando ambiguidades, provocando o riso generalizado, fazendo a plateia delirar. Ao ouvir a gravação, que foi digitalizada recentemente a partir de uma fita K-7, é possível compreender o que estou falando (veja aqui).

Algumas das obras eram de autoria do próprio maestro, que, por razões desconhecidas, assinava com diferentes pseudônimos, fato que só descobri a posteriori, quando nos tornamos mais próximos. Embora musicalmente simples, as peças eram criativas, tecnicamente adequadas e interpretadas numa linguagem de fácil acesso ao público, sempre atento às novidades. Também merece destaque o arranjo que Eli-Eri Moura fez para Sete cantigas para voar, de Vital Farias. É um primor. A atuação do Gazzi de Sá foi emblemática, divertida e em sintonia com as práticas em voga no Brasil e, mais particularmente, na UFPB, desde os tempos do seu primeiro diretor, que era um sujeito muito ligado ao teatro e ao cinema. Aquela performance foi inesquecível, e até hoje lembro da forma como eles terminaram a noitada, cantando um clássico de Wagner Amorosino e Carlos Castelo, que não saiu da minha cabeça e cujo texto resume-se ao título, que assim diz: Duvido que essa música toque no FM ou no AM.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Festival Nordestino de Corais

O terceiro Festival Nordestino de Corais, uma promoção da Fundação Artístico-Cultural Manuel Bandeira, aconteceu no Teatro Municipal Severino Cabral, em Campina Grande-PB, nos dia 2 e 3 de agosto de 1986. O evento, que congregou participantes de sete estados das regiões norte e nordeste, foi coordenado por Antônio Sérgio Telles das Chagas, que na ocasião apresentou-se com o Coral Cecília Meireles (FACMADRIGAL) e o Grupo Vocal Céu da Boca.

Da Serra da Borborema participaram outros quatro coros, sendo dois preparados por José Cavalcanti da Silva, o Coral Severino Lopez Loureiro e o Antônio Guimarães; o Coro em Canto, vinculado à UFPB, Campus II, sob a regência de Fernando Rangel; e o meu, o Viva Voz, ligado ao Centro Cultural. Foi nesta ocasião que fiz minha estreia como regente. De João Pessoa estiveram presentes o Coral da APCEF, do colega Antônio Carlos Batista Pinto Coelho (Tom K); o Coral Universitário da Paraíba “Gazzi de Sá” e o Grupo Ânima, ambos sob a batuta de Eli-Eri Moura, que também estava a frente do Madrigal da Escola de Música da UFRN. Da Veneza brasileira veio o Coral da CHESF, chefiado por Ramon Pazos Buezas; o Coral dos Empregados da TELPE, liderado por José C. Beltrão Júnior; e o Coral SINPAS, do maestro Laury Bernardes da Silva. O Coral Hermeto Pascoal e o Artium Suprema representaram Alagoas com seus diretores Petrúcio Falcão e Islêne Leite. O maestro Giovanni Pelella chegou com o Coral da Universidade Federal do Maranhão, de São Luís, enquanto Adolfo Oliveira dos Santos trouxe o Coral Vocal, de Belém, no Pará. Da capital sergipana, Aracaju, o SESCORAL, dirigido por José Carlos Tourinho e Silva, e o Coral da UFS, com Antônio Carlos Clech.

O repertório era diversificado, incluindo música sacra e secular, original e arranjada, brasileira e internacional, a capela e com acompanhamento. No programa, encontramos Hasler, Dowland, Mozart, Schubert, Saint-Saëns, Osvaldo Lacerda, Waldemar Henrique, José Alberto Kaplan, além de vários arranjadores, incluindo os próprios maestros, Nelson Mathias e José Pedro Boésio, referências da área naquela época. Parte das apresentações está digitalizada e disponível em vídeo (veja aqui).

Participei deste encontro e tive a oportunidade de conhecer e selar laços com muita gente. Fico imaginando que toda a produção foi feita por via postal, com correspondências, telegramas, faxes e telefonemas, nem sempre tão acessíveis. Os grupos viajavam de ônibus, sem o conforto e a segurança facilmente encontrados atualmente, ficavam hospedados três ou quatro dias em alojamentos, nas igrejas, no Teatro, nos quarteis. Quando partiam, as promessas do reencontro ecoavam pela estrada sem fim. Era assim que Campina realizava seus Festivais, vibrando em harmonia, com as vozes em festa, celebrando a amizade e a vida.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Sí, eres tenor!

Em 1996, conheci Jasmin Martorell num curso de canto, em Recife-Olinda. Ao longo de uma semana, entre vocalizes e ensaios, trabalhamos intensivamente, nas aulas individuais e coletivas, preparando o repertório do concerto de encerramento e no qual interpretei canções e árias, com uma voz até então desconhecida por todos, inclusive por mim mesmo. Passei a integrar os projetos da Sociedade de Canto Dionysio, com os docentes e discentes do Conservatório Pernambucano de Música, sob a liderança de José Renato Accioly e Julie Cássia Cavalcante (veja os programas).

Depois daquele encontro, agendamos mais duas temporadas com o professor franco-catalão. Nós nos reunimos, definimos as datas e rateamos o custo, assegurando, deste modo, a cobertura do investimento e a remuneração do nosso estimado convidado. Em geral, a cada temporada, passávamos cerca de quinze dias ensaiando, preparando solos, duos, trios e quartetos, bem como cenas de ópera. Jasmin não parava nem cansava. Ele trabalhava diuturnamente com o pragmatismo que lhe era bem singular: vocalizes, dicção, compreensão textual, interpretação, tudo isso acompanhado de muita repetição, cobrança e, como não poderia faltar, um pouco de estresse.

Essa rotina de trabalho repetiu-se ao longo de 1997. Numa dessas idas à capital pernambucana, fui convidado para passar seis meses em território francês, estudando por lá. Organizei a vida, fiz as contas, consegui autorização para seguir neste novo projeto, que também integraria as atividades do PPGMUS-UFBA, e parti rumo à Europa. Deixei o escaldante verão nordestino e enfrentei o frio congelante de Toulouse, essa linda cidade avermelhada, situada no coração do sul da França, entre o Mediterrâneo e o Atlântico. Morei na zona rural, na casa da família Martorell, que me recebeu como filho. Todos os dias, saía cedo em direção ao Conservatório Nacional a fim de estudar, ensaiar e visitar a biblioteca. À medida em que o tempo avançava, fui melhorando a comunicação, a fluência na língua francesa, a socialização com os novos amigos, oriundos de tantos países.

Aquele semestre mudou a minha vida, abriu horizontes e ratificou uma premissa básica: tudo o que nós necessitamos é ter uma oportunidade. E comigo não foi diferente. A chance veio, eu mergulhei, nadei e cheguei às margens de outros oceanos. Mexendo em meus arquivos, encontrei as fotos, o programa (feito à mão, ressalte-se) e uma fita K-7 com a gravação de um dos concertos que participei naquela temporada, cantando Villa-Lobos (veja o vídeo). A alegria foi indescritível. Lembrei-me do meu primeiro professor de canto, que, num passe de mágica, fez eclodir a voz que somente eu ouvia, latente e pulsante, no mais recôndito esconderijo da alma. Ainda sorrindo com o eco da tua fala me dizendo sí, eres tenor, hoje, Jasmin Martorell, são para ti todas as reverências, o mais profundo respeito, o meu sincero amor.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 5 de abril de 2020

O Canto Coral na Paraíba: José Alberto Kaplan

José Alberto Kaplan, argentino de nascimento (Rosário, 1935) e naturalizado brasileiro, estudou piano em sua localidade de origem com Arminda Farruggia e Ruwin Erlich, mudando-se posteriormente para a Europa, onde continuou sua formação e participou de vários concursos como intérprete em diferentes países, selando laços de amizade com grandes nomes do nosso meio, dentre eles Martha Argerich. Depois do Velho Mundo, retornou à Argentina, chegando ao Brasil no início da década de sessenta.

Campina Grande foi o lugar escolhido para esta nova etapa. Na verdade, não foi bem uma escolha. Kaplan aceitara uma proposta de emprego e passaria a lecionar no Instituto Campinense de Música, entidade mantida pela Associação Campinense Pró-Arte, dirigida pelo Dr. Manuel Tavares. No pouco tempo em que ficou por aqui, absorveu muito da cultura local, sobretudo nas visitas à feira central, ambiente no qual ouviu e encantou-se pela sonoridade dos repentistas e emboladores. Na capital, em João Pessoa, por volta de 1964, passou a lecionar na Universidade Federal da Paraíba, guiando uma legião de estudantes. Além de instrumentista, o professor Kaplan atuou também como compositor, muito embora apenas aos 43 anos tenha começado, de fato, a levar a sério o seu trabalho nesse campo. Sua atividade docente se desenvolveu em várias instituições, a exemplo da UFRN e da UFSM.

Como regente, conduziu a Orquestra de Câmara do Estado, a Orquestra Sinfônica da Paraíba (OSPB), a Camerata Universitária e o Colegium Musicum. Boa parte das suas obras corais nasceram no período em que esteve a frente de tais conjuntos e, mais particularmente, do Coral Universitário “Gazzi de Sá”. Dentre as peças originais, para coro a capela ou com acompanhamento, destacam-se Ensino Público e Gratuito, Vamo vadiá, O Rei Encantado, Auto de Natal, Manifesto aos que tem o pé no chão, Catimbó, Maracatu Proverbial (Duas vozes - SATB), Escuta o meu protesto (Salmo 5), Trilogia, Aleluia, Canção da Saída, Vilancicos, Natal do Homem Novo, Madrigal e Cantata pra Alagamar. Quanto aos arranjos, encontram-se Casinha Pequenina, A Banda, Samba em Prelúdio e O Gemedô (vídeo). É importante destacar, ainda, a ópera O Refletor (texto de B. Brecht, adaptado pelo autor) e a comédia musical Burgueses ou Meliantes (texto de W. J. Solha). Mesmo tendo uma considerável e variada produção, sua música coral ainda é pouco conhecida, estudada e interpretada. As partituras e áudios já disponíveis estão em destaque. Para ter acesso às outras, é só entrar em contato.

Tive a oportunidade de estudar composição com Kaplito. Foi uma experiência incrível, na qual expandi meu potencial criativo. Absorvi tudo o que pude em sala de aula e na sua casa, que tive o privilégio de frequentar eventualmente. Aqueles dias e o seu nome estão gravados em minhas memórias e na história da música desta terra, que ele deixou em 2009.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

Sobre José A. Kaplan, veja também Cantata pra AlagamarAutores e intérpretesJosé Alberto Kaplan e a arte engajadaO refletorAve Maria da Eleição e O casamento.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Vamos tocar fogo no parquinho!

Construir a identidade sonora de um grupo é um processo complexo. No caso do canto coral, muito embora essa tarefa possa ser realizada colaborativamente com a pessoa que cuida da preparação vocal, por meio de aulas coletivas ou individuais, defendo que cabe exclusivamente a quem dirige moldar e definir, ao longo dos ensaios, o produto final idealizado em sua mente.

Essa missão exige um amplo domínio técnico e uma trajetória na área do canto lírico. Ainda que tais elementos não funcionem isoladamente, sem eles a condução das ações didático-pedagógicas será árdua, sobretudo quando temos que lidar com intérpretes inflexíveis e indispostos a colaborar, que se recusam a fazer ajustes vocais em prol da coletividade, que resistem às mudanças, ignorando as instruções dadas e que almejam a uniformidade. Dependendo da situação, o quadro se agrava quando a crítica técnica é entendida enquanto ofensa pessoal, uma afronta à trajetória e à formação do indivíduo com o qual interagimos. Ao solicitar que alguém cante fraco ou forte, no tempo ou afinado, com mais ou menos vibrato, projetando a voz nesta ou naquela direção, estamos sendo racionais, objetivos, funcionais, impessoais, motivo pelo qual não há espaço para melindres, caras feias ou tristeza, porque não se trata de injúria ou doença incurável.

Neste sentido, a prática orquestral poderia ser nosso modelo, sobretudo quando levamos em consideração o papel do spalla e líderes dos naipes, que atuam conjuntamente com a direção definindo, por exemplo, a organização das seções e as arcadas, dentre outras questões. Se a nossa meta é a excelência técnica e artística, devemos optar pelo desenvolvimento de habilidades, que serão adquiridas por meio do treinamento sistemático, com disciplina e feedback. Comento isso, porque alguém me disse outro dia que a extensão do seu coro era de quatro oitavas (Dó1 - Dó5) e que aquele seleto time era formado apenas por experts. Eu fiquei quieto e tentei entender de que modo tais parâmetros, per se, asseguravam a qualidade do trabalho do meu colega, posto que, incontáveis vezes, já vi exímios profissionais interpretarem a literatura coral de forma conjunta sem necessariamente soar como um conjunto.

Como regentes, é crucial que tenhamos conhecimentos e experiências que nos permitam produzir uma sonoridade indelével, tornando cada agrupamento único. Independentemente de trabalharmos com diletantes ou não, com vozes excepcionais ou ordinárias, nós precisamos é ter consciência e perícia para saber o que fazer com os recursos disponíveis, sem frustrações, traumas e complexos de superioridade ou inferioridade. Que sejamos plenos e belos da melhor forma, como quisermos e pudermos. Essa cultura ainda tão prevalente em nosso círculo, que valoriza o exibicionismo e a frivolidade em detrimento da qualidade, preservando um nocivo ranço primadonesco, deve ser repensada. Aqui está o fósforo: “vamos tocar fogo no parquinho!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)