segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Entre a terra e o céu

Aurora chegou numa manhã primaveril. Veio da rua. Assustada, escondeu-se por entre arbustos e plantas ornamentais. Seu miado agudo e faminto despertou nossa atenção. Aos poucos, e de modo recíproco, criamos laços e nos familiarizamos.

Como todo bichano, desde pequena, gosta de explorar tudo, especialmente o vicejante jardim. Foi assim que ela logo descobriu um pequeno ninho na aceroleira, que havia sido o abrigo das rolinhas que também nasceram nesta época de exuberâncias, ventanias, cores, sabores e odores acentuados. Felizmente, os filhotes, que já haviam aprendido a voar, não estavam mais por lá, na ocasião da visita. Por sua natureza, é mais ativa à noite, quando, além de brincar, entra e sai de casa incontáveis vezes. Entre um passeio e outro, um namorico, razão pela qual engravidou duas vezes. Seus filhotes foram adotados por amigos, que, para homenagear seus ídolos, lhes deram nomes relevantes do cenário artístico-cultural, dentre os quais Antunes Filho e Bárbara Heliodora. O primogênito era Belo, um bandoleiro amável que desapareceu numa noite de lua cheia, enfeitiçado pelo feromônio das felinas, já que não podia ver um rabo-de-saia.

Numa das festas dos Santos Reis, de um ano que não me recordo, abri a janela cedo. Aurora, coberta com seu manto negro, estava acordando. Erguendo a cabeça lentamente, como quem contempla a calmaria de janeiro, comentou rosnando: — Dormir é bom! Depois, miando ainda sonolentamente, com os olhos amarelados e semicerrados, completou: — O problema é sonhar, que, às vezes, cansa. Em seguida, levantou-se. Esticou as patas. Arqueou a coluna. Eriçou os pelos. E bocejou, novamente, desta vez mostrando a língua e os dentes ferinos, o palato duro e ondulado, o fundo da boca. Veio ao meu encontro. Tentou me seduzir, esfregando-se. Queria comer, é certo. Pulou e acomodou-se no parapeito, ao lado do copo-de-leite solitário como um sentinela. Num canto, o ipê lilás, que timidamente despertara naquele verão serrano, testemunhou a nossa epifania. Enfim, o alvorecer invadiu o meu lar e o meu coração sem cortinas.


Certo dia, deitou-se ao meu lado. Eu estava ouvindo a Rapsódia Húngara N° 2, de Franz Liszt. Tranquila, começou a balançar a cauda aleatoriamente, como se quisesse acompanhar aquele frenético vai-e-vem. Eventualmente, assustava-se com as variações de dinâmica e com o virtuosismo da pianista, uma intérprete russa cujo nome não importa. Há poucas semanas, aproximou-se e acomodou-se sobre a janela do meu quarto. A trilha matinal era Em nome do amor, um clássico de Glorinha Gadelha e Sivuca, lindamente interpretado pelo célebre casal paraibano, ao som do violão e da sanfona. Por vários instantes, ficou ali, quieta, imóvel, com os olhos fixos, ensimesmada, sem pressa, exercendo a indiferença, vislumbrando o não-ser, naquele não-lugar, no umbral entre a terra e o céu.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 2 de novembro de 2019

Vai dormir teu sono

As difusoras sempre tiveram um papel relevante nos processos comunicativos e foram populares antes da criação das rádios comunitárias, da TV a cabo e das plataformas de streaming. Muitos bairros possuíam esse tipo de empreendimento, que, além de entretenimento, prestava serviços de utilidade pública, de modo geral. Aqui em Campina Grande isso não foi diferente. No Centenário, por exemplo, na década de oitenta, na esquina da Francisco Lopes com a Floriano Peixoto, funcionou, durante muito tempo, a difusora M. Barros. A estação, localizada num casebre, tinha um pequeno estúdio com uma coleção de LPs, toca-discos, microfone e mesa de som.

Aquela voz rouca e fanhosa se propagava com a ajuda de um alto-falante mono, em forma de cone, pendurado num poste de madeira a seis ou sete metros. O vento colaborava, levando os anúncios comerciais, as notas de falecimento, os achados e perdidos e as mensagens de amor para toda a parte baixa da antiga Casa de Pedra, Vila Lira, Santa Rosa e até próximo ao Pedregal. A programação, predominantemente noturna, era variada. Após saudar o público, o locutor liberava a seleção do dia, que também era sugerida pelos ouvintes. Entre um bloco e outro entravam os anunciantes, incluindo a mercearia do Mário, a farmácia do Galego, os restaurantes do Alexandre, Maria da Carne de Sol e Luís do Peixe, bem como as festas de São Cristóvão e Nossa Senhora Aparecida, onde encontrei o amor da minha vida.


Hoje, enquanto pesquisava sobre as vozes de ouro da MPB, ouvi algo que trouxe à tona a lembrança das canções que animaram muitas das nossas noites juvenis, há mais de trinta anos. Bateu uma saudade enorme daquele tempo, quando eu ia ao seu encontro, Jane Cely, para namorarmos. Lembro-me de tudo com o mesmo frescor de outrora. Às vezes, eu chegava e ficava te esperando, na sala, enquanto conversava com seus irmãos e/ou sua mãe. Depois, quando saíamos para a frente da sua casa, ao lado do portão, cuja sombra se projetava na calçada por conta da luz do jardim, ouvíamos, ao longe, algumas das canções que emanavam daquele amplificador solitário.

Religiosamente, por volta das vinte e duas horas, a M. Barros concluía as suas atividades com uma canção muito simples e que foi imortalizada pela dupla Caçula e Marinheiro, no álbum O amor mais puroe também Waldick Soriano. Era preciso ir embora, infelizmente. E assim eu subia a Oswaldo Cruz, com o coração entre o peito e a boca, o encanto e o espanto, a terra e o céu, numa longa e demorada despedida, dizendo: “Querida, já está na hora. Já é muito tarde, querida, eu já vou embora. Vai, vai dormir teu sono. Pra sonhar comigo, querida, pede a Santo Antônio.”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)