domingo, 29 de setembro de 2019

Beethoven e Jackson do Pandeiro

Neste ano em que celebramos o centenário de nascimento de Jackson do Pandeiro, desenvolvi com os alunos da disciplina Percepção Musical IV, dos cursos de Música da Universidade Federal de Campina Grande, atividades específicas almejando ampliar o sentido das festividades em torno deste importante músico paraibano, apontando caminhos para a compreensão da sua produção. Ao longo do semestre, ouvimos várias obras que integram a discografia deste alagoa-grandense e que ratificam a sua versatilidade em diferentes territórios, razão pela qual recebeu a alcunha de Rei do Ritmo.

Iniciamos nosso projeto com a seleção do repertório, que contemplou aproximadamente quarenta títulos, dentre os quais A ordem é sambaTreze de maioDia de beijadaPapel crepomAquilo bomMorena belaBumba meu boiRainha de TambaRojão de BrasíliaXarope de amendoim e Babalaô, danças variadas, incluindo samba, marchinhas carnavalescas, rojão, xaxado, coco, maxixe, maracatu, polca, rancheira, reisado, baião, frevo e muito mais. Ouvimos as gravações originais, quase todas disponíveis em plataformas digitais. Graças aos recursos tecnológicos, conseguimos reduzir a velocidade de algumas execuções sem comprometer, com isso, a qualidade do áudio, o entendimento do texto poético-musical. Essa alteração foi crucial para elucidarmos detalhes do arranjo, de modo geral.

O processo de transcrição das obras foi lento e complexo, porque, nos fonogramas analisados, o intérprete nunca repete a melodia da mesma forma, isto é, há sempre um elemento novo, certa improvisação. Esse aspecto foi bastante desafiador, pois tivemos que decidir se transcreveríamos para a partitura as variantes ou se manteríamos apenas a estrutura padrão. Nesse encontro com o legado do artista, além dos aspectos musicais, nos debruçamos sobre uma grande variedade de temas, alguns prosaicos, outros bem singulares, crônicas de costume, fundamentalmente, que tratam dos mais variados assuntos, desde a fundação da Capital Federal, Brasília, até a história d’A mulher que virou homem, gravada no início dos anos sessenta, quando as discussões sobre gênero eram ainda incipientes.

Uma das composições que me chamou a atenção foi Sonata no frevo (vídeo - partitura)de Braz Marques e Roberto Silva, do álbum A alegria da casa!, um dos três lançados pela Philips em 1962. Ao ouvi-la, identifiquei elementos que me remeteram à Sonata para piano n° 14, Op. 27 n° 2, de Ludwig van Beethoven, a conhecida Sonata ao Luar (vídeo e partitura). A análise revelou uma conexão entre as duas peças, sob diferentes perspectivas. O recurso intertextual, presente no título e nos elementos rítmicos, melódicos e harmônicos da canção, reforça a ironia, a carnavalização, o dialogismo que aproxima/distancia Bonn de Recife, a música de concerto da popular, o frevo da Bossa Nova (ouça Silvério Pessoa), o Nordeste do Sudeste do Brasil, bem como esses dois grandes ícones, Beethoven e Jackson do Pandeiro.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 22 de setembro de 2019

Arriba, Vox Popvli!

No período em que morei em Teresina-PI, regi o Madrigal Vox Popvli, entre 1994 e 1995. Minha passagem pelo grupo ocorreu algum tempo após a saída do seu fundador, o maestro Lindembergh Pires, que fora transferido do Colégio São Francisco de Sales para colaborar com a Universidade Católica e como regente do Madrigal da UNICAP, em Recife-PE. O trabalho que ele realizou com aquele coro independente, formado por ex-alunos do educandário e pessoas da comunidade, foi primoroso. O conjunto possuía sólida base técnica e já havia cantado vasta literatura, incluindo obras clássicas do repertório europeu, estadunidense, latino-americano e brasileiro, de diferentes períodos,  autores e estilos.

O meu trabalho com o Madrigal foi desafiador. Procurei dar continuidade ao que já havia sido desenvolvido. Contudo, como sempre ocorre, o processo de adaptação não foi dos mais simples, tendo em vista o conflito existente entre o legado deixado pelo meu antecessor, a sua forma de pensar e agir, e o direcionamento que estava dando a partir daquele instante. Quem já passou por situações semelhantes sabe do que estou falando. Não é fácil e é natural que certo tipo de rejeição ocorra, especialmente quando se leva em consideração os laços emocionais e afetivos que permeiam a relação professor-aluno, regente-cantor.


Mesmo com certa resistência, nós nos reinventamos, quando começamos a conviver. Aos poucos, todos se adequaram e o coro foi produzindo um som ainda mais leve e brilhante, como gosto. Promovemos cursos de técnica vocal com o professor Zuinglio Faustino, da UnB. Por duas vezes, realizamos o tradicional concerto anual, em outubro (veja os programas). Cantamos em diversos lugares da capital como parte das propostas da Federação Piauiense de Conjuntos Corais – FPCC (veja a ata), entidade que reativamos naquele ano, uma das promotoras do Encontro de Corais de Teresina (ENCOTHE). Um dos momentos marcantes foi a nossa presença no XX Festival de Inverno de Campina Grande, quando fomos ovacionados pelo público (veja a crítica).

Em novembro de 1995, durante uma apresentação no Teatro 4 de Setembro, anunciei publicamente que aquele seria meu último concerto, minha despedida. Por conta do mestrado na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, era necessário afastar-se, pois, em breve, partiria para uma nova experiência. Minhas palavras foram recebidas com espanto pelo público e também pelos integrantes do conjunto, visto que ninguém sabia da minha decisão. A relação com certas pessoas daquele círculo ficou abalada, desde então. Algumas foram resgatadas posteriormente. Outras, ainda não. Meus dois anos com esse maravilhoso coro foram intensos e eu jamais esquecerei o que vi, ouvi e vivi (veja as reportagens). Como nos versos da canção Póngale por las hileras, que interpretávamos com grande alegria encantando a plateia, arriba, Vox Popvli.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)