quinta-feira, 18 de julho de 2019

Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas!

Cheguei à oficina às 6h10. Quando o proprietário abriu o estabelecimento, um grupo de clientes, que também havia madrugado, já o esperava. Veio em nossa direção, cumprimentou-nos e iniciou uma longa conversa, elogiando as ações do Governo, destacando as melhorias no país. Depois, discursou sobre moral, bons costumes, ordem, progresso, condenando homossexuais, cotas raciais e programas sociais. Do nada, bradou: – A pior raça que existe é a dos professores universitários federais! Justificou sua fala referindo-se a um amigo que é docente e que atua como agiota, não obstante perceba um excelente salário e viva mamando nas tetas do erário. – Aquilo é um infame, um miserável, concluiu irritado.

Se eu já estava calado, naquela hora, engoli a língua. Parece que ele sentiu o cheiro da minha adrenalina, voltou-se para mim e perguntou: – E você, trabalha com quê? Num passe de mágica, respondi-lhe: – Sou comerciante, ajudo na bodega da minha mãe. Nem sei como disse isso, mas foi a primeira coisa que veio à tona. A conversa seguiu sempre em torno do mesmo tema: a depravação moral e ética da sociedade brasileira. Contraditoriamente, os que estavam por ali esqueceram-se que, logo cedo, dirigiram na contramão, naquela movimentada rua que nos leva até o galpão. Eu vi, eu estava lá. Mais tarde, soube que um dos integrantes do círculo é cafetão e aquele que consertara o meu carro é especialista em alterar informações eletrônicas dos veículos.

Após mais de uma hora, o profissional iniciou o conserto. Fiquei à espera. Ele, num entra e sai sem fim, mexia no meu automóvel como bem desejava, ora atendendo fregueses diferentes, ora levando os meus equipamentos para salas inacessíveis, como se quisesse manter em segredo os seus gestos dúbios. No meio da manhã, finalmente concluiu a tarefa. Quando entregou a chave e viu um livro no banco traseiro, indagou-me: – O senhor é professor? Eu disse: – Não. Isso é coisa da minha esposa. Ela é quem gosta de ler “romances”, em referência ao mais novo livro de Maria Valéria Rezende, Carta à rainha louca, de quem sou admirador.

Com o cinismo dos falsos moralistas, tão em voga nos tempos atuais, ele superfaturou o serviço, cobrando um valor incompatível. Argumentei e recusei-me a pagá-lo. Negociamos e chegamos a um acordo, muito embora ele não tenha emitido nota fiscal, recibo ou garantia pelo reparo que fizera. Ainda assustado, fiquei pensando no ocorrido naquela manhã fria, invernal, quase infernal. Que dias são esses? À semelhança de Pedro, e para sobreviver, neguei meus princípios várias vezes. Constrangido, sai com uma vontade enorme de cantar-gritar aquela passagem das escrituras, inserida no Requiem dos Oprimidos, de Eli-Eri Moura, que diz: “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

2 comentários:

Marcília disse...

Tempos de fúria....Mas ainda de belezas como.o FIMUS ...Obrigada Vlads e Jane....

Unknown disse...

" Percebi nos olhos dos amigos de luta a tristeza e o cansaço. E confesso que muitas vezes em que me olhei no espelho ultimamente não gostei do que vi: nossos sorrisos estão tímidos, escondidos e raros. (Mano Góes). Início de uma msg que uma amiga me encaminhou. Bjs.

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