sábado, 25 de maio de 2019

A primeira lapingochada é minha!

Um dos maiores mananciais para a pesquisa da música de double entendre é indiscutivelmente o Renascimento. São inúmeros os exemplos desse tipo de repertório na literatura vocal do século dezesseis. O uso das onomatopeias e o emprego de refrãos compostos por sílabas neutras, dentre as quais fa-la-las e suas variantes, reforçam o perfil dúbio dos textos que muitas canções seculares evocam, ratificando aquilo que Bakhtin já preconizara, isto é, que a carnavalização é uma forma de contradiscurso, que provoca o riso e a reflexão de quem os enuncia/escuta.

Um villancico que ilustra bem esse processo é Dale si le das, moçuela de Carasa. Em todos os versos há sempre uma dúvida semântica que se estabelece pelo uso de trocadilhos: Otra mozuela, Teresica, mostrado me ha su cri[ca]... atura que llevaba bien criada (Outra jovem, Teresica, mostrou-me seu bichinho bem cuidado). A fermata sobre a sílaba cri, no substantivo criatura, seguida por breve pausa, sugere que a rima para Teresica seria crica, um dos sinônimos para a genitália feminina, na língua espanhola. Como ratifica Fiorin, a linguagem carnavalesca “é repleta de sarcasmos e insultos. No entanto, esses xingamentos e zombarias não têm caráter ofensivo, mas brincalhão.” Na renascença italiana e francesa isso ocorre frequentemente, basta analisar alguns madrigais ou as chansons de Clement Janequin.

A música popular brasileira, sobretudo aquela produzida aqui no Nordeste, explora essa temática de modo muito particular. O chamado forró de duplo sentido mantém-se vivo, intrigando-nos e ao mesmo tempo alegrando-nos com suas ironias e ambiguidades. Clemilda, Zenilton, João Gonçalves e Genival Lacerda, dentre outros, gravaram sucessos que ainda hoje nos fazem sorrir, pensar e dançar.

Zé da Onça, uma pérola de João do Vale, Abdias Filho e Adrian Caleiras, trilha do filme Rico ri à toa, dirigido pelo cineasta Roberto Farias, produção da Brasil Vita Filmes, é uma crônica de costumes que trata questões éticas e amorosas com leveza e escárnio. Nos versos da canção, uma mulher conversa com um homem, dizendo-lhe que o seu esposo está prestes a morrer. Comenta que, ao lado dele, a vida não é das melhores e que isso deverá piorar após a sua partida. Predador, como todo felino, e carregado de segundas intenções, diz-lhe que, caso fique viúva e decida contrair matrimônio mais uma vez, ela deveria dar-lhe a preferência, pois os dois dão certo e combinam “tal qual a boca de um bode.” O jogo dialógico do casal é permeado por ambivalências que são potencializadas até o final da narrativa, quando Sá Chiquinha, de forma ingênua e maliciosa, pergunta: “Se eu quiser me casar de novo, Zé, o que é que há?” E ele, quase descrente, mas eufórico, responde: “A primeira lapingochada é minha!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Adeus, Irmã Tarcísia.

Há muito tempo, frequento o Mosteiro Santa Clara. Essa aproximação com as Clarissas começou cedo, ao lado de Tia Lúcia em visita às confrades enclausuradas. O santuário, localizado na área do Parque Evaldo Cruz, no coração de Campina, é um refúgio aconchegante, rodeado de árvores frondosas, repleto de silêncio e paz. Ele é a morada de várias freiras, dentre as quais Irmã Tarcísia, batizada Rita Maria da Silva.

Quem é daqui, e já visitou o referido centro espiritual, foi, em algum momento, acolhido pela religiosa, que, juntamente com as congregadas Anunciada e Coleta, era, grosso modo, a intermediação entre a comunidade e as monjas que vivem no claustro. Entre a portaria e o altar, Ir. Tarcísia decorava velas e cartões, era habilidosa com o crochet e bordava peças em Richelieu. Seus talentos musicais também eram notórios. Com voz terna, nos enlevava, sobretudo cantando célebres melodias ou mesmo acompanhando ofícios e missas na serafina fanhosa. A sonoridade que nascia daquelas pequenas mãos era encantadora e nos fazia crer que, de fato, quem canta, reza duas vezes.

A minha conexão com o convento foi interrompida durante a temporada em que estive fora da Serra da Borborema, andando pelo mundo. Somente em 2006, após mais de vinte anos, tive o prazer de reencontrar a congregação, rever a comunidade e conhecer as novas habitantes da casa. Na ocasião, realizamos um concerto na capela central com o Madrigal e o Coro Feminino da UFPI, que estavam em turnê pela Paraíba. Foi um momento ímpar, de muitas bênçãos, de grande alegria. Depois disso, nosso contato intensificou-se e, quando nos mudamos para a Rainha da Borborema, em 2009, passamos a visitar aquele espaço sagrado frequentemente, ajudando-as nas tarefas musicais, oferecendo-lhes os concertos do Festival Internacional de Música (FIMUS), buscando equilíbrio e proteção.

Recentemente, encontrei-me com Irmã Tarcísia no templo, aguardando o início das vésperas. Como de costume, estava sentada no primeiro banco e nos cumprimentou com alegria, curvando-se, beijando nossas mãos. Espantou-se com a altura de Vinicius e elogiou a beleza de Jane e Sofia. Falamos brevemente e nos despedimos sem pressa, confiantes no reencontro. Não sabíamos, entretanto, que aquela seria nossa última conversa. Hoje, dia de Santa Rita, ao amanhecer, ela encerrou sua viagem terrena. Imediatamente, lembrei-me do dia em que me deu de presente dois livros, quais sejam, Cecília, um manual de cânticos religiosos, e o Liber Usualis, alegando que eu faria melhor uso de tais obras. Pensei nas dores dos que integram aquela irmandade, agora incompleta, e no exemplo que deixara, afinal foram mais de seis décadas de vida religiosa, como franciscana, inspirando tantos, inclusive a minha pessoa. Agradeci-lhe por tudo, com o espírito em festa, com a certeza de que a sua missão terrena fora cumprida exemplarmente. Adeus, Irmã Tarcísia.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Música Para Todos

Parece que foi ontem que eu estava ao lado dos professores Joaquim Ribeiro Freire Neto e Orlânia Maria Monteiro Freire discutindo os fundamentos pedagógicos do Projeto Música Para Todos. Nesse piscar de olhos, vinte anos se passaram. A atitude do empresário Luís Sá vingou, deu frutos positivos e contribuiu significativamente para o desenvolvimento musical do estado do Piauí.

Desde o tímido começo, na Avenida Presidente Kennedy, até hoje, na sede situada no bairro São Cristóvão, o PMT tem despertado o talento de inúmeros jovens, que podem aprimorá-lo participando das diversas atividades artísticas e educacionais oferecidas pela instituição. Nessas duas décadas, o PMT trouxe para Teresina profissionais de diversas áreas, brasileiros e estrangeiros, que ministraram, dentre outros, masterclasses de instrumento, canto e regência, bem como apresentaram-se em concertos públicos. Inspirados, muitos dos alunos egressos seguiram suas trajetórias. Alguns ingressaram nos cursos superiores de diferentes universidades. Outros consolidaram suas carreiras e estão inseridos no mercado nacional e internacional.

Há alguns anos, as atividades do PMT foram interrompidas por problemas financeiros. A verba que deveria mantê-lo em funcionamento, e que é assegurada por meio de emendas parlamentares, a Lei de Incentivo à Cultura e a Lei do SIEC (Sistema de Incentivo Estadual de Cultura – Governo do Estado do Piauí), foi suspensa por razões distintas, que incluem tanto a falta de patrocínio quanto a excessiva burocracia que permeia os gabinetes estatais. Foram períodos difíceis, é certo, e que puseram em cheque a credibilidade do programa e geraram múltiplos problemas, afetando alunos, professores, funcionários e gestores. Muito embora tenha sofrido com tais crises, o PMT superou-as, aprendendo lições, ganhando novo ímpeto. (Há um fato intrigante nessa história toda e que talvez possa esclarecer um pouco do mistério que existe entre o céu e a terra. Santa Rita, aquela das causas impossíveis e de quem Luís Sá assume ser devoto, é a padroeira do projeto. Crentes ou não, nunca devemos duvidar da fé nem da resiliência de um indivíduo.)

O PMT tem atuado para além da formação musical no Meio Norte do Brasil. Ele tem sido um portal, um caminho também na consolidação da cidadania. E é por conta dessa contribuição para a construção de uma sociedade mais justa e com amplas oportunidades que desejo vida longa a essa iniciativa, parabenizando os seus diretores, corpo técnico, discente e docente, agradecendo, ao mesmo tempo, àqueles que colaboram, de forma direta e indireta, com a manutenção e preservação dessa estrutura. À distância, celebro com alegria e desejo que os anos vindouros sejam prósperos em desafios e conquistas; que jamais faltem ousadia e coragem; que os sonhos se renovem e se expandam; que a arte e a música, assim como hoje, nunca deixem de ser, de fato, para todos.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 19 de maio de 2019

Cantando a história do FIMUS

Como sempre ocorre, abrimos e/ou encerramos o Festival Internacional de Música de Campina Grande interpretando uma obra de referência da literatura coral. Nosso objetivo é oferecer ao público e aos intérpretes, de modo geral, o contato com diferentes sonoridades, ampliando as possibilidades de escuta. Entretanto, é com base nos recursos financeiros e humanos disponíveis que escolhemos o que cantar, conciliando, sempre que possível, o repertório standard com novas composições. 

Dentre as masterpieces que já cantamos, ao longo desses dez anos, estão Divina Trilogia, Op. 77, Credo, Op. 148 (Liduino Pitombeira) e Serenade to Music (Ralph Vaughan Williams), em 2010; Missa em Sol (Franz Schubert) e Réquiem para um Trombone (Eli-Eri Moura), em 2011; extratos da Missa de Alcaçus (Danilo Guanais), em 2012; Requiem (Gabriel Fauré), em 2013; Paixão Segundo Alcaçus (Danilo Guanais), Five Mystical Songs (Ralph Vaughan Williams), Magnificat-Alleluia (Heitor Villa-Lobos) e, por conta do sesquicentenário da Rainha da Borborema, o Hino de Campina Grande, em 2014; Gloria (John Rutter), em 2015; Misa Criolla (Ariel Ramirez), em 2016; Missa de Alcaçus, na versão para solistas, coro, piano e percussão, em 2017; e Messa di Gloria (G. Puccini), em 2018.

Nas primeiras edições, apenas o Coro em Canto e o Coro de Câmara de Campina Grande compartilharam esses momentos. Com o tempo, outros grupos visitantes, a exemplo do Texas A & M University Chorale e o University of Central Oklahoma Chorale, também passaram a participar desses espaços de congraçamento, que foram conduzidos por mim e outros maestros, incluindo norte-americanos (Gary Packwood, Kenneth Fulton, Karl Nelson e Sara Lynn Baird), europeus (Matthias Heep) e brasileiros (André Muniz). Algumas obras foram acompanhadas por piano, enquanto outras com grupos de câmara e orquestras, convidadas e/ou formadas por alunos e professores do Festival. A música latino-americana, nacional e regional tem lugar assegurado nessa seleção, contribuindo para a divulgação dos nossos compositores.

Este ano, dentro da programação do FIMUS, realizaremos também o segundo Festival Internacional de Coros da UFCG, ocasião na qual ouviremos o Coro em Canto, regido por Lemuel Guerra; o Coro de Câmara, sob minha liderança; o Loiret’s Singers, da França, sob a direção artística da soprano Julie Cássia Cavalcante; e o Gesang ohne Grenzen (Canto Sem Fronteiras), da Suíça, sob o comando do maestro Matthias Heep. Durante quatro dias, a literatura coral de diferentes países, períodos e estilos ecoará por entre as montanhas da Serra. À semelhança do que ocorreu no FIMUS Europa, em Lisboa, faremos a estreia, em nosso país, de Domingo de RamosA Cachoeira de Paulo Afonso, ambas de Danilo Guanais, a primeira para coro a cappella e a segunda, baseada no poema homônimo de Castro Alves, para solistas, coro misto, quinteto de cordas e piano. Continuemos, pois, cantando a história do FIMUS.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Réquiem Contestado

O Réquiem Contestado é uma composição de Eli-Eri Moura sobre o texto das exéquias latinas com adições de W. J. Solha. Dedicada à memória de Franklin Albuquerque de Moura, sobrinho do compositor, é uma obra para narrador, solistas (soprano e tenor), coro misto e orquestra de câmara (flauta, oboé, clarinete, fagote, órgão, percussão e cordas), dividida em várias partes, a saber: Introitus, Kyrie, Non credo, Confiteor, Gloria, Dies irae, Rex tremendae, Confutatis, Communio e Sanctus.

A estreia ocorreu na primeira semana de novembro de 1993, no Teatro Santa Roza. (Curiosamente, nesse mesmo período, o ex-governador da Paraíba, Tarcísio de Miranda Burity, fora baleado no Restaurante Gulliver, por seu adversário político, Ronaldo Cunha Lima, por conta de questões pessoais.) Participaram da world première Vianey Santos, Wanini Emery, Tião Braga, Coral Universitário da Paraíba Gazzi de Sá e a orquestra de câmara, formada pelo Quinteto da Paraíba, Quinteto de Sopros Latino Americano e outros músicos convidados, tendo o próprio Eli-Eri Moura como regente (programa). A peça também foi interpretada em Campina Grande. Posteriormente, o CORALUP incorporou alguns movimentos ao seu repertório, apresentando-os frequentemente. Com o apoio da UFPB e da FIEP, o registro fonográfico foi feito no Cine Banguê, no Espaço Cultural José Lins do Rego, vinculado à FUNESC, na capital paraibana, em julho de 1995 (gravação, encarte). Vários profissionais se envolveram neste processo, incluindo Odair Salgueiro (Gravação), Tovinho (Masterização), Gustavo Moura (Fotografia), Ricardo Peregrino (Direção de Produção) e Wilson Guerreiro e Marconi França (Design Gráfico).

A relevância do Réquiem Contestado para a literatura coral-sinfônica é assegurada por seus aspectos literários e musicais. Teologicamente, os versos de Solha potencializam o conflito entre a soberania de Deus e a liberdade do homem. A inserção do Gloria, Confiteor e Credo acentuam o caráter reflexivo da peça, tendo em vista que tais passagens não integram o texto original da liturgia fúnebre. A orquestração, as passagens para solistas, a estrutura harmônica e a recorrência às danças renascentistas sublinham a inconfundível assinatura musical do seu autor.

Recentemente, recebi do compositor todos os manuscritos, incluindo as partes cavadas. Muito embora o material esteja bem escrito e preservado, existem movimentos incompletos e ainda não transcritos para a grade geral, que precisam ser revisados, tendo em vista as várias alterações que foram feitas entre a composição, os ensaios, a estreia e a gravação. Este trabalho musicológico e interpretativo será fundamental para a preservação da nossa memória, a difusão da arte paraibana contemporânea, bem como a sua inserção no repertório de diferentes coros e orquestras. Eli-Eri Moura tem uma vasta produção de música coral e na qual se inserem o Réquiem para um Trombone e o Réquiem Contestado, que, finalmente, após vinte e seis anos engavetado, será revisado, editado, publicado e oferecido novamente ao público.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 21 de abril de 2019

Get prepared, folks!

The first edition of EuroFIMUS was held from 4 to 6 April. The event, created to celebrate the tenth anniversary of the Festival Internacional de Música de Campina Grande, featured musicians from Brazil and Europe, who performed at different places of the Portuguese capital, Lisbon.

The Coro de Câmara de Campina Grande opened the meeting interpreting the Mass of Alcaçus, by Danilo Guanais, in the famous Palácio Foz. With a crowded house, the group spread through the Praça dos Restauradores, a square in the heart of the village, the unique flavor of Danilo Guanais music, connecting the heritage from Northeast Brazil to its Iberian roots. This dialogue between local and universal elements is intriguing, charming.

In the Museu Nacional da Música, Andrea Teixeira (Flute) and Ivan Vilela (Viola Caipira) performed a very delicate program, including original compositions and arrangements. This rich, simple and sophisticated recital was, in fact, a show/lesson conducted by Professor Ivan Vilela. He is an expert and has been developing researches about the transit of the viola caipira and all its variants, focusing on the route between Portugal and Brazil from the time of the colonization until nowadays. The Swiss choir Gesang ohne Grenzen, directed by composer and conductor Matthias Heep, sang secular and sacred music. Both Swiss and Brazilian ensembles performed unitedly the premiere of Matthias Heep’s motet In Monte Oliveti. The work, a cappella and in Portuguese, has floating rhythms and harmonies, which translate the stressed environment that preceded the arrest of Christ in Gethsemane. Accompanied by Olivia Steimel, the Swiss choir also performed other contemporary pieces exploring the combination between voices and the accordion, an unusual fact in the choral literature. Often, this instrument is used only as harmonic and rhythmic support for popular and traditional music, especially those in a dancing style. In this case, particularly, it was a fundamental part of the polyphonic construction, reiterating the different aspects of the musical narrative, employing both traditional as well as modern, expanded techniques. Undoubtedly, it was a memorable performance.

On the last day, Danilo Guanais lectured about his newest work, A Cachoeira de Paulo Afonso, written for soprano and bass soloists, SATB, string quintet and piano, and based on a poem written by Castro Alves. Following his speech, Swiss, Brazilian, and Portuguese musicians jointly performed it.


The accomplishment of this pioneering Festival was full of joy, grace, beauty, and friendship. Due to the support of several Brazilian and European institutions, we will continue to carry out this type of enterprise, which ignores limits and connects people, cultures, and nations through music. Would you like to join us? For the next EuroFIMUS edition, we are considering Switzerland, in 2021. From now on, it's time to get prepared, folks.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

Artistic Director - EuroFIMUS

sábado, 20 de abril de 2019

Cantemos, amemos e ressuscitemos

Quando viajo, costumo trazer objetos simples na mala, que guardam as recordações dos tempos e espaços que visito. Agora, em Portugal, não foi diferente. Em Covilhã, aos pés da Serra da Estrela, comprei o livro Musicofilia, de Oliver Sacks. A obra explora “o lugar que a música ocupa no cérebro e como é que ela afeta a condição humana.” Estou a degustá-lo lentamente, à semelhança de quem saboreia um Pastel de Belém com uma chávena de café, no entardecer alaranjado, às margens do Tejo.

A cada capítulo, sucessivos convites à reflexão, tal qual aquele dedicado à Música no cérebro: imagética e imaginação, em que o autor cita o depoimento de um dos seus correspondentes, que diz que todas as memórias da infância dele eram acompanhadas por uma banda sonora. Creio que todos nós, se calhar, temos uma trilha musical que nos acompanha, sublinhando, ou até mesmo sublimando, os vários instantes da nossa existência. Ponderando, e ao mesmo tempo envolto nesse ambiente Pascal, recordei-me das várias experiências musicais, afetivas e místicas que já vivi nessa época.


Lembrei-me de Irmã Aldete cantando Prova de amor, de José Weber, na Capela da Rua Dr. João Moura. Revivi o momento no qual aprendi a tocar Tomai, comei, um clássico de Waldeci Farias frequentemente interpretado na cerimônia do Lava-pés, uma das pérolas do hinário popular católico brasileiro. Essa foi a primeira melodia que toquei sem precisar anotar nada no papel, sem recorrer às bolinhas brancas e pretas que acompanhavam o manual de instruções da minha flauta doce. Para executá-la, seguia o som interno que se movia dentro de mim, entre a mente e o coração, seduzido pelo desafio técnico e o desejo de mostrar para Maria Ferreira, a amada tia-avó que me adotou como o filho que nunca tivera, que a partir de então eu poderia tocar-viver meu destino, baseado no tripé instinto-fé-conhecimento. Vários outros cânticos vieram à tona, todos carregados com a emoção do instante em que os ouvi pela primeira vez. Sozinho, na sala mental de concertos, conforme define o conceituado pesquisador, atuei como performer e ouvinte, transitei entre o altar e a congregação, o palco e a plateia, banhando-me nos ecos das reminiscências plenas de sentidos e verdades, dando graças àqueles que ressoam por entre as minhas reentrâncias, àqueles que me ensinaram a cultivar essa paixão pela vida, o belo, o sagrado, a música.


Oliver Sacks mudou a rotina deste sábado, que não é um dia qualquer, pois foi num Sábado Santo que selei a minha união amorosa com Jane Cely, essa mulher que exala beleza, encanto, bondade. Ao todo, já se passaram 31 anos de partilha, dos quais 26 em matrimônio. Por tudo o que sonhamos, vivemos e construímos, aleluias! Pela luz que ilumina incessantemente nossas memórias, cantemos, amemos e ressuscitemos, hoje, amanhã, sempre.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 10 de março de 2019

Parabéns, Coro de Câmara!

Há exatamente nove anos, o Coro de Câmara de Campina Grande estreava na sala BW4, da Unidade Acadêmica de Artes, da UFCG. Formado por alunos do recém criado curso de Música e pessoas da comunidade, o grupo, em sua apresentação inaugural, contava com doze integrantes e interpretou música renascentista acompanhado por um pequeno consorte de flautas e percussão.

Ao longo desse ciclo, a identidade do ensemble tem sido definida por suas propostas artísticas, educacionais e políticas. Somos um laboratório para os alunos da Licenciatura e do Bacharelado, sobretudo aqueles com ênfase em Regência e Canto. O repertório contempla variadas tendências estéticas e estilísticas, incluindo peças históricas, assim como material inédito, especialmente a nossa produção musical. Cantamos Palestrina, Bach, Mozart, Schubert, Fauré, Puccini, Hogan, Amaral Vieira, Reginaldo Carvalho, Eli-Eri Moura, Beetholven Cunha, Adriano de Sousa, dentre tantos outros nomes novos e conhecidos no cenário internacional. Nosso foco é a literatura original, a cappella ou com acompanhamento.

A experiência com outros corais, orquestras e maestros, brasileiros e estrangeiros, aqui e alhures, expandiu nossa percepção e a capacidade de adaptação e interação. Os desafios dos novos projetos transformaram-se em inspiração, planejamento, motivação, disciplina, resiliência e superação. Foi desse modo que encaramos a interpretação de obras complexas e que conseguimos subir ao palco nos EUA, França, Teresina, Fortaleza, Juazeiro do Norte, Natal, João Pessoa, Recife e São Paulo, sem falar nas várias cidades do interior da Paraíba. É por isso que, no próximo mês, iremos para Portugal, participar do EuroFIMUS Festival de Ramos. As barreiras burocráticas e as limitações financeiras nunca nos impediram de sonhar e concretizar nossos desejos. E assim sempre será.


Nessa trajetória repleta de beleza e encantamento, alegro-me por conviver e compartilhar saberes e fazeres musicais com pessoas engajadas e comprometidas, que vestem a camisa deste time com um enraizado sentido de pertencimento. Essa força vital, que nos impulsiona a atingir objetivos e metas, nos faz ensaiar com sol ou chuva, durante a semana ou em dias feriados; nos permite apresentar-se por entre as fileiras de um supermercado ou no Carnegie Hall; nos dá o prazer de cantar uma melodia natalina em uníssono ou de estrear A Cachoeira de Paulo Afonso, de Danilo Guanais; nos possibilita viajar de avião ou num micro-ônibus sem banheiro e ar condicionado, cruzando o sertão nordestino, vendo a beleza que é a transposição do Rio São Francisco, na época mais quente do ano, no chamado bê-erre-o-bró, em alusão aos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro. Em todas essas situações, eu nunca vi um semblante infeliz nos membros desta linda família. Ao contrário, tudo o que testemunhei foram gestos de devoção recíproca, verdadeira, e de um amor intenso pela música, o canto coral, a vida.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 9 de março de 2019

EuroFIMUS

O Festival Internacional de Música de Campina Grande (FIMUS), evento promovido pela Fundação Parque Tecnológico (PaqTcPB), Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Affins Produções, chega à décima edição. Para celebrar este momento especial, realizaremos o EuroFIMUS, em Portugal, de 4 a 6 de abril. Participam desta edição o Coro de Câmara de Campina Grande (UFCG), Daniel Seixas (UFPB), Danilo Guanais (UFRN), Ivan Vilela (USP - Universidade de Aveiro), Andréa Teixeira (UFG - Universidade Nova de Lisboa), Matthias Heep (Universidade de Berne), Canto Sem Fronteiras (Suíça), dentre outros músicos portugueses.

Ao todo, serão realizados três concertos no Palácio Foz e no Museu Nacional da Música, ambos na região metropolitana de Lisboa. A programação contempla uma ampla variedade de repertórios, sacro e secular, instrumental e vocal, promovendo o diálogo entre a música de tradição oral e a música de concerto, tanto brasileira quanto europeia. Merece destaque, nesse contexto, a estreia de A Cachoeira de Paulo Afonso (Danilo Guanais), baseada no poema homônimo de Castro Alves, escrita para solistas, coro misto, quinteto de cordas e piano, bem como Dois Cânticos Espirituais (Matthias Heep), para coro misto a cappella. Além das apresentações artísticas, o compositor-residente Danilo Guanais fará uma palestra sobre a sua obra.

O EuroFIMUS será bienal e a meta é realizá-lo em diferentes países do Velho Continente. Esta ação, em consonância com a política de internacionalização das universidades Estadual da Paraíba e Federal de Campina Grande, vem consolidar a trajetória do FIMUS, intensificando o intercâmbio entre estudantes, profissionais e estabelecimentos de ensino do Brasil e da Europa. É importante destacar que, na semana seguinte ao EuroFIMUS, o Coro de Câmara de Campina Grande continuará viajando por Portugal, participando do Festival de Ramos, projeto do VoxLaci que consiste na realização de um ciclo de concertos em Lisboa e cidades circunvizinhas. Na oportunidade, o grupo estreará, em parceria com os anfitriões, Domingo de Ramos (Danilo Guanais), um conjunto de obras para coro a cappella alusivas à Paixão de Cristo.

A turnê do Coro de Câmara e o EuroFIMUS estão sendo realizados com o apoio incondicional de diversas instituições, incluindo aquelas que o promovem, Universidade Federal da Paraíba, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Laços Culturais Produções, VoxLaci, Palácio Foz, Museu Nacional da Música e a Embaixada do Brasil em Portugal. O  que nos move é a crença na vivência musical compartilhada, na força da ação coletiva, que desconhece barreiras, supera diferenças, une povos-nações. É por isso que agradecemos a colaboração e a presença de todos e desejamos um excelente encontro/festival, convidando-os também para o X FIMUS e 3° FIMUS Jazz, de 5 a 14 de julho deste ano. Campina Grande está de braços abertos para recebê-los. 

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Coleções de arranjos

Reginaldo Carvalho utilizou o canto coral no processo de educação musical de crianças, jovens e adultos, razão pela qual escreveu vários arranjos de música sacra e secular, para coro de vozes afins e mistas, com diferentes níveis de dificuldade. A análise documental tem revelado que o compositor pretendia compilar tais trabalhos em coleções, à semelhança do que fez com o livro Cantares Piauienses, uma antologia de arranjos de canções de variadas localidades do estado do Piauí.

No que concerne às cantigas populares brasileiras, Reginaldo compilou parte dos seus arranjos em cinco volumes. No primeiro constam Tutu Marambá (N° 1); Serenô (N° 1, Rio, 1956); Tristeza de Jeca (Rio, 1956); A Sertaneja (Luar da Serra); Canto de Natal e A maré encheu (Paris, 1953). No segundo estão Capelinha de melão; Sambalelê; Ciranda, cirandinha; Canção de Natal; A casa branca da serra; O cravo brigou com a rosa; e O lencinho branco. No terceiro aparecem Tôda gente no mundo; Você diz que você sabe tudo; Teresinha de Jesus; Que lindos olhos tem você; Canção do marinheiro; e Canto negro. No quarto encontam-se Alecrim; Marinheiro chora; Tutu Marambá (N° 4); A casinha pequenina; A Mulatinha; O trem; Praias do Ceará; Naquele tempo; Mensagem (Cantiga de Natal); e Canção gaúcha. Na lista do quinto, e último caderno, inserem-se Donzela formosa; Deixa eu ir; Ratoeira; O Rei mandô me chama; Ai! Baiana; Canto antigo; e Acordei de madrugada.

Outro grupo de arranjos é o de Modinhas Imperiais. Tomando como base o livro editado por Mário de Andrade, Reginaldo Carvalho arranjou para coro misto a quatro vozes as seguintes peças: Acaso são estes; Escuta, formosa Márcia; Busco a campina serena; Quando as glórias que gozei; Vem cá, minha companheira; Vem a meus braços; Róseas flores d’alvorada; Último adeus de amor; Eu tenho no peitoHei de amar-te até morrer; e Dei um ai, dei um suspiro. Até o momento, ainda não encontramos os manuscritos e/ou cópias dos arranjos de  Si te adoro; Deixa, Dália, flor mimosa; Que noites eu passo; e O coração perdido, que também integram o referido conjunto de canções brasileiras do século XIX.

Porque nutria uma grande admiração pela obra de Noel Rosa, Reginaldo escreveu arranjos corais dos maiores sucessos desse compositor, incluindo Feitio de oração; Feitiço da Vila; Conversa de botequim; Palpite infeliz; Com que roupa?; Último desejo; Já cansei de pedir; Arranjei um fraseado; Três apitos; e Silêncio de um minuto. Títulos como Quem não dança e Você vai se quiser aparecem em alguns programas, contudo ainda não foram localizados nos acervos investigados. À medida em que avançamos na pesquisa arquivística, descobrimos novos documentos que contribuem para a montagem deste quebra-cabeças que envolve as coleções que Reginaldo Carvalho organizou, mas nunca chegou a publicar.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Ano Jackson do Pandeiro

José Gomes Filho, mais conhecido como Jackson do Pandeiro, nasceu em Alagoa Grande‐PB, no dia 31 de agosto de 1919, e faleceu em Brasília‐DF, no dia 10 de julho de 1982. Muito embora filho do brejo, foi na região do agreste, em Campina Grande, que ele despontou para os palcos, profissionalizando‐se. É, indiscutivelmente, um dos nomes mais importantes ligados à Rainha da Borborema, no campo artístico.
A relevância de Jackson para a música brasileira é atestada em diferentes depoimentos e documentos, pois, com criatividade e irreverência, mostrou ao Brasil sua versatilidade cantando coco, frevo, marchinha e samba, dentre outros ritmos. Aqui na Paraíba, alguns projetos já homenageiam o referido artista, a exemplo do Memorial Jackson do Pandeiro, em sua terra natal; o monumento de bronze Farra de Bodega, de Joás Pereira Passos, localizado em Campina e que põe lado a lado Jackson e Gonzaga; e o próprio Museu de Arte Popular da Paraíba (MAPP - UEPB), popularmente chamado de Museu dos Pandeiros, por conta da sua estrutura.
O projeto Ano Jackson do Pandeiro celebra esse artista por meio de várias ações, incluindo a produção de um espetáculo musical inédito, a publicação de um livro, a realização de concertos didáticos, a promoção de eventos acadêmicos e científicos, a execução de oficinas de percussão regional, dentre outras. A meta é oferecer atividades gratuitas para a comunidade em geral, ao longo de vários meses. Lançado em julho de 2018, numa parceria da Affins Produções com o Festival Internacional de Música de Campina Grande, a proposta foi também concebida para festejar os dez anos do FIMUS. Desde então, percebe-se que a iniciativa inspirou o poder público e outras instituições a decretarem 2019 como Ano Cultural Jackson do Pandeiro. Os atos administrativos do Governo do Estado da Paraíba (Decreto), da Câmara Municipal de Campina Grande (Lei), da cidade de Alagoa Grande (Decreto) e da Universidade Estadual da Paraíba (Decreto) ratificam a nossa premissa. Seria interessante que, à semelhança do que ocorreu no ano do centenário de Luiz Gonzaga, em 2012, projetos no âmbito nacional, sob a tutela da Secretaria Especial da Cultura (Ministério da Cidadania) e da FUNARTE, também pudessem ganhar mais evidência.
Muito embora o reconhecimento da obra jacksoniana seja ponto pacífico entre fãs e estudiosos, é certo que suas gravações originais não estão mais nas playlists dos meios de comunicação. Este projeto tem, portanto, a missão de apresentar, sobretudo às novas gerações, quem foi esse artista e a sua música, contribuindo, deste modo, para a preservação da nossa memória e história. Para a realização deste empreendimento, pretendemos firmar parcerias com órgãos públicos e privados a fim de conseguir apoio para as diferentes atividades que serão desenvolvidas.
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)