segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Entre a terra e o céu

Aurora chegou numa manhã primaveril. Veio da rua. Assustada, escondeu-se por entre arbustos e plantas ornamentais. Seu miado agudo e faminto despertou nossa atenção. Aos poucos, e de modo recíproco, criamos laços e nos familiarizamos.

Como todo bichano, desde pequena, gosta de explorar tudo, especialmente o vicejante jardim. Foi assim que ela logo descobriu um pequeno ninho na aceroleira, que havia sido o abrigo das rolinhas que também nasceram nesta época de exuberâncias, ventanias, cores, sabores e odores acentuados. Felizmente, os filhotes, que já haviam aprendido a voar, não estavam mais por lá, na ocasião da visita. Por sua natureza, é mais ativa à noite, quando, além de brincar, entra e sai de casa incontáveis vezes. Entre um passeio e outro, um namorico, razão pela qual engravidou duas vezes. Seus filhotes foram adotados por amigos, que, para homenagear seus ídolos, lhes deram nomes relevantes do cenário artístico-cultural, dentre os quais Antunes Filho e Bárbara Heliodora. O primogênito era Belo, um bandoleiro amável que desapareceu numa noite de lua cheia, enfeitiçado pelo feromônio das felinas, já que não podia ver um rabo-de-saia.

Numa das festas dos Santos Reis, de um ano que não me recordo, abri a janela cedo. Aurora, coberta com seu manto negro, estava acordando. Erguendo a cabeça lentamente, como quem contempla a calmaria de janeiro, comentou rosnando: — Dormir é bom! Depois, miando ainda sonolentamente, com os olhos amarelados e semicerrados, completou: — O problema é sonhar, que, às vezes, cansa. Em seguida, levantou-se. Esticou as patas. Arqueou a coluna. Eriçou os pelos. E bocejou, novamente, desta vez mostrando a língua e os dentes ferinos, o palato duro e ondulado, o fundo da boca. Veio ao meu encontro. Tentou me seduzir, esfregando-se. Queria comer, é certo. Pulou e acomodou-se no parapeito, ao lado do copo-de-leite solitário como um sentinela. Num canto, o ipê lilás, que timidamente despertara naquele verão serrano, testemunhou a nossa epifania. Enfim, o alvorecer invadiu o meu lar e o meu coração sem cortinas.


Certo dia, deitou-se ao meu lado. Eu estava ouvindo a Rapsódia Húngara N° 2, de Franz Liszt. Tranquila, começou a balançar a cauda aleatoriamente, como se quisesse acompanhar aquele frenético vai-e-vem. Eventualmente, assustava-se com as variações de dinâmica e com o virtuosismo da pianista, uma intérprete russa cujo nome não importa. Há poucas semanas, aproximou-se e acomodou-se sobre a janela do meu quarto. A trilha matinal era Em nome do amor, um clássico de Glorinha Gadelha e Sivuca, lindamente interpretado pelo célebre casal paraibano, ao som do violão e da sanfona. Por vários instantes, ficou ali, quieta, imóvel, com os olhos fixos, ensimesmada, sem pressa, exercendo a indiferença, vislumbrando o não-ser, naquele não-lugar, no umbral entre a terra e o céu.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 2 de novembro de 2019

Vai dormir teu sono

As difusoras sempre tiveram um papel relevante nos processos comunicativos e foram populares antes da criação das rádios comunitárias, da TV a cabo e das plataformas de streaming. Muitos bairros possuíam esse tipo de empreendimento, que, além de entretenimento, prestava serviços de utilidade pública, de modo geral. Aqui em Campina Grande isso não foi diferente. No Centenário, por exemplo, na década de oitenta, na esquina da Francisco Lopes com a Floriano Peixoto, funcionou, durante muito tempo, a difusora M. Barros. A estação, localizada num casebre, tinha um pequeno estúdio com uma coleção de LPs, toca-discos, microfone e mesa de som.

Aquela voz rouca e fanhosa se propagava com a ajuda de um alto-falante mono, em forma de cone, pendurado num poste de madeira a seis ou sete metros. O vento colaborava, levando os anúncios comerciais, as notas de falecimento, os achados e perdidos e as mensagens de amor para toda a parte baixa da antiga Casa de Pedra, Vila Lira, Santa Rosa e até próximo ao Pedregal. A programação, predominantemente noturna, era variada. Após saudar o público, o locutor liberava a seleção do dia, que também era sugerida pelos ouvintes. Entre um bloco e outro entravam os anunciantes, incluindo a mercearia do Mário, a farmácia do Galego, os restaurantes do Alexandre, Maria da Carne de Sol e Luís do Peixe, bem como as festas de São Cristóvão e Nossa Senhora Aparecida, onde encontrei o amor da minha vida.


Hoje, enquanto pesquisava sobre as vozes de ouro da MPB, ouvi algo que trouxe à tona a lembrança das canções que animaram muitas das nossas noites juvenis, há mais de trinta anos. Bateu uma saudade enorme daquele tempo, quando eu ia ao seu encontro, Jane Cely, para namorarmos. Lembro-me de tudo com o mesmo frescor de outrora. Às vezes, eu chegava e ficava te esperando, na sala, enquanto conversava com seus irmãos e/ou sua mãe. Depois, quando saíamos para a frente da sua casa, ao lado do portão, cuja sombra se projetava na calçada por conta da luz do jardim, ouvíamos, ao longe, algumas das canções que emanavam daquele amplificador solitário.

Religiosamente, por volta das vinte e duas horas, a M. Barros concluía as suas atividades com uma canção muito simples e que foi imortalizada pela dupla Caçula e Marinheiro, no álbum O amor mais puroe também Waldick Soriano. Era preciso ir embora, infelizmente. E assim eu subia a Oswaldo Cruz, com o coração entre o peito e a boca, o encanto e o espanto, a terra e o céu, numa longa e demorada despedida, dizendo: “Querida, já está na hora. Já é muito tarde, querida, eu já vou embora. Vai, vai dormir teu sono. Pra sonhar comigo, querida, pede a Santo Antônio.”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 13 de outubro de 2019

Mestres, mentores, guias e anjos!

Comecei a frequentar os cursos de extensão do Departamento de Artes da UFPB, Campus II, em 1984, nas dependências do Teatro Municipal Severino Cabral. Ali, além de estudar de forma sistemática, conheci aqueles que foram as bases do meu fazer musical: Carlos Alan (Flauta Doce), Fernando Rangel (Teoria e Solfejo) e Fernando Barbosa (História da Música). Semanalmente, tínhamos dois encontros nos quais ocorriam as aulas de instrumento, matérias teóricas e prática de conjunto, atividade que congregava todos os alunos, muitos dos quais são meus amigos até hoje.

Eu estava tão motivado que, já no primeiro ano do curso, aprendi a tocar as flautas sopranino, soprano, contralto, tenor e baixo, razão pela qual fui convidado para participar de um quarteto, que ensaiava regularmente. Naqueles encontros, em que não víamos a hora passar, na companhia do meu professor, Romero Damião, Francisco Metri e Marconi Siqueira, executávamos os cadernos com peças polifônicas editadas por Pierre Phalèse, Pierre Attaingnant e muita música brasileira, heranças do repertório do Cordas e Sopros. A sonoridade modal e contrapontística me invadia, me transportava para uma época-lugar que eu ainda não (re)conhecera mas que me era profundamente íntima, que me falava diretamente à mente, ao corpo, ao coração. Essa relação com o mundo renascentista acentuou-se à medida em que passei a cantar o repertório francês do século dezesseis. Extasiado, pouco a pouco fui enveredando pelo caminho da harmonia, do contraponto e da regência, sobretudo depois que ingressei no FACMADRIGAL, sob a direção do maestro Antônio Sérgio Telles, e no 
De Repente Canto, conduzido por Fernando Rangel.

Quando Luceni Caetano chegou para substituir Fernando Farias, o Pintassilgo, descobri a flauta transversa, que também me deixou fascinado. Porque eu não possuía o instrumento, tive certa dificuldade no início dos estudos nessa área. Contudo, como a nova professora havia adquirido uma Muramatsu prateada recentemente, vendo o meu interesse, vendeu-me sua antiga Armstrong, repleta de histórias e com o qual fizera a caminhada artística-acadêmica até aquele ponto. Isso facilitou a minha vida enormemente. A fim de pagar o débito, fiz campanhas, recebi ajuda da família e dos amigos, toquei em bares, acompanhando Gera Brito, Emerson Uray e tantos outros.


Em meus gestos havia certa pressa, mas eu não estava afobado, pois sabia que era necessário deixar o tempo agir, construindo o que, de fato, já era latente e estaria para sempre comigo: o meu amor pela música. Luceni parecia compreender tudo aquilo e, muito mais que uma professora, foi determinante nessa travessia entre a flauta doce e a transversa, Campina Grande e João Pessoa, a extensão e a graduação, a minha casa e o mundo, abrindo portas, estimulando-me na busca pela excelência, como assim procedem os mestres, mentores, guias e anjos!


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Lisette Oropesa, welcome to Brazil!

*O texto em Português está disponível aqui.

Soprano Lisette Oropesa will sing in South America for the first time. I had the opportunity to meet her in Baton Rouge, while I was at Louisiana State University for my DMA in Choral Conducting and Voice. We took part in several projects, including LSU A Cappella Choir, Chamber Singers, and the opera program with which we set up The Magic Flute (Mozart) and The Barber of Seville (Rossini).

During my second doctoral recital with Chamber Singers, I premiered Divina Trilogia, by composer Liduino Pitombeira. The piece, for soprano solo, SATB, violin, cello, piano and percussion, was written for that ensemble and, more specifically, for the voice of Lisette Oropesa that was the soloist. With LSU A Cappella Choir, we toured in the US as well as in Europe. In 2003, for example, we went to France, Italy and Austria. In Paris we performed twice. We sang the Mass in E-flat Major by Josef Rheinberger during the Eucharistic celebration at Notre Dame Cathedral and also at the Église de la Madaleine, where Gabriel Fauré had worked as an organist. In Austria, between Graz and Linz, we spent a couple of days in Vienna. We figured out that Placido Domingo was conducting Puccini's La Bohème at the Wiener Staatsoper. We rushed to buy our tickets. Because we had little money, the only place available was at the balcony on the top floor of that monumental theater. Although far way from stage, we rented a pair of binoculars to see the masters in action.

Later, we headed to the Linz International Choral Festival, under the direction of Dr. Kenneth Fulton. There Lisette, Lindsey Piatoly, Tim Kennedy, and I were the soloists for Joseph Haydn's Missa in Tempori Belli. Some US choirs joined the performance of the Paukenmesse at the Brucknerhaus. The orchestra had musicians from the Vienna and Czechoslovak Philharmonics. It was a unique experience in which we had the opportunity to make music, get connected, and share dreams.

After completing my doctorate, I returned home from where I have been following the trajectory of this phenomenon, from her arrival at the Metropolitan opera program in New York to her debut into La Scala in Milan, always alongside renowned performers. This week she will sing for the first time in our country in Rio de Janeiro (more information), which is why all these and many other stories have been revived with emotion in my memory. I wish I could be able to attend this concert. It would be great to hear and see her again. Unfortunately, I cannot because of my activities. Anyway, I would like to thank and congratulate you. The passion, beauty and poetry of your voice nurish our hopes, make us work for a better world, Lisette Oropesa. Welcome to Brazil!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O Canto Coral na Paraíba: Antônio Guimarães

Antônio Guimarães Correia (Campina Grande-PB, 1934-2009), regente e compositor, desenvolveu intensa atividade na região polarizada pela Rainha da Borborema. Muito embora tenha recebido as primeiras lições musicais no seio familiar, com o pai e o tio-avô, foi em Maceió, no Seminário Santo Antônio, que recebeu formação sistemática dos Frades Menores Capuchinhos, estudando teoria, órgão e piano.

Ainda na capital alagoana, iniciou suas atividades profissionais como organista na Capela Santa Rita, no Farol. Posteriormente, quando fixou residência por aqui, no início da década de cinquenta, passou a reger corais, destacando-se o da Juventude Operária Católica (1957). O Coral Uirapuru (1959), muito embora tenha começado a funcionar como um grupo masculino, logo tornou-se um conjunto misto, com atuação intensa e ininterrupta por quase cinco anos, apresentando-se em várias cidades da Paraíba e outras regiões.

Como professor de Canto Orfeônico, o maestro trabalhou no Colégio Alfredo Dantas (1958), no Estadual de Campina Grande e na Escola Normal (1964), onde regeu um grupo com setenta normalistas. O Coral Uiraxuê (1969), pouco tempo após a sua criação, foi transformado no Coral Universitário da URNe (Universidade Regional do Nordeste). Um dos pontos altos da sua trajetória foi a época em que trabalhou na Fundação Artístico-Cultural Manuel Bandeira (FACMA), entidade na qual dirigiu o FACMADRIGAL (1970). Na abertura do primeiro Festival de Inverno de Campina Grande (FICG), no dia 2 de julho de 1976, conforme observa Mônica Hermínio, Antônio Guimarães regeu o Hino da Cidade (vídeo - partituras), com acompanhamento da Filarmônica Epitácio Pessoa, participando nos dias seguintes, com o Coral do Teatro Municipal Severino Cabral, do I Encontro de Corais do FICG, ao lado de outros regentes, a exemplo de Clóvis Pereira (Coral da UFPB – Campus I) e José Beltrão da Cunha Jr. (Madrigal do Recife).

Sob a perspectiva composicional, escreveu música sacra e secular, vocal e instrumental, destacando-se, nesse contexto, os hinos que compôs para sua terra natal e outros municípios, incluindo Malta, Coxixola e Puxinanã, todas em nosso estado, bem como vários educandários, dentre eles o Regina Coeli e o Moderno 11 de Outubro e os institutos Santa Luísa de Marillac e Nossa Senhora da Salete, este último dirigido pela professora e ativista cultural Eneida Agra Maracajá, a idealizadora e diretora do FICG. O maestro também escreveu arranjos baseados em temas da tradição oral e da música popular, e um livro, Música Para Todos, publicado pela editora da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em 1983. Na semana em que celebramos os 155 anos de emancipação política da nossa cidade, o legado deste ilustre campinense nos leva a crer que, de fato, parte da “tua glória revive, Campina, na imagem dos homens [mulheres] audazes. Aguerridos [as] heróis [heroínas] de legendas, que marcaram as tuas fronteiras.”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 5 de outubro de 2019

Em sintonia

Durante muito tempo, o Curso Condensado de Harmonia Tradicional - com predomínio de exercícios e o mínimo de regras, de Paul Hindemith, traduzido por Souza Lima e publicado pela editora Irmãos Vitale, foi uma obra de referência em nosso país. Eu, particularmente, adquiri um exemplar deste clássico na época em que estudava no DART-UFPB, Campus II, por volta de 1986. Trata-se de um manual técnico que aborda temas distintos, incluindo tríades, tétrades, progressões harmônicas, modulação, cadências, encadeamento das vozes. Muito embora ele tenha recebido críticas por conta do seu excessivo caráter tecnicista, a obra me ajudou a compreender essa dimensão do fazer musical.

Explorei-o quase por completo, praticando os exercícios vagarosamente, pois, como naquela altura já regia o Coral Viva Voz, do Centro Cultural, queria aplicar o conteúdo aprendido na elaboração de novo repertório para o meu grupo. Quando as dúvidas apareciam, recorria aos professores com os quais tinha aula na universidade, aos meus colegas ou profissionais mais experientes, a exemplo do maestro José Cavalcanti, que atenciosamente me ajudou algumas vezes. De modo progressivo, fui entendendo, criando coragem, aumentando a fé no que estava me propondo a fazer, sedimentando aquilo que Albert Bandura define como as crenças de auto-eficácia, esse mecanismo compreendido como a confiança na capacidade pessoal para organizar e executar certas ações.


Recentemente, organizando uma das pastas nas quais guardo documentos, encontrei um caderno com diversos arranjos que escrevi para coro misto a quatro vozes, entre 1987 e 1989, incluindo Dom de iludir (Caetano Veloso), Gente humilde (Garoto - Vinicius de Moraes - Chico Buarque), Brejeiro (Ernesto Nazareth), Veja (Vital Farias), Paz do meu amor (Luiz Vieira), Pout-pourri de choros (Vários autores), South American Way (Al Dubin - Jimmy McHugh), bem como outros do show Gerar, de Gera Brito, e Shy Moon (Caetano Veloso), versão para coro masculino.

O mais antigo é o da canção Em sintonia (veja a partitura), gravada por Padre Zezinho no LP Um certo galileu, que escrevi aos dezessete anos. Quer dizer, arranjo é uma forma genérica de classificar essa empreitada pioneira pelo campo da harmonia, porque eu me restringi apenas a encadear os acordes, conduzindo as vozes da forma mais próxima àquela proposta no vade-mécum de Paul Hindemith. A análise da partitura revela a predominância da textura homorrítmica, tão típica dos hinos, bem como certas inconsistências. Quintas paralelas à parte, a estreia da peça ocorreu num concerto que realizei no Museu de Arte Assis Chateaubriand, no largo do Açude Novo, com o objetivo de arrecadar dinheiro para pagar a minha recém-adquirida flauta transversa. Na ocasião, Elizanilda Ramalho foi a solista. Muito embora simples, essa iniciativa ratificava o  meu interesse pela composição, a minha sintonia com o Deus-Pai e a Mãe-Música.


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

domingo, 29 de setembro de 2019

Beethoven e Jackson do Pandeiro

Neste ano em que celebramos o centenário de nascimento de Jackson do Pandeiro, desenvolvi com os alunos da disciplina Percepção Musical IV, dos cursos de Música da Universidade Federal de Campina Grande, atividades específicas almejando ampliar o sentido das festividades em torno deste importante músico paraibano, apontando caminhos para a compreensão da sua produção. Ao longo do semestre, ouvimos várias obras que integram a discografia deste alagoa-grandense e que ratificam a sua versatilidade em diferentes territórios, razão pela qual recebeu a alcunha de Rei do Ritmo.

Iniciamos nosso projeto com a seleção do repertório, que contemplou aproximadamente quarenta títulos, dentre os quais A ordem é sambaTreze de maioDia de beijadaPapel crepomAquilo bomMorena belaBumba meu boiRainha de TambaRojão de BrasíliaXarope de amendoim e Babalaô, danças variadas, incluindo samba, marchinhas carnavalescas, rojão, xaxado, coco, maxixe, maracatu, polca, rancheira, reisado, baião, frevo e muito mais. Ouvimos as gravações originais, quase todas disponíveis em plataformas digitais. Graças aos recursos tecnológicos, conseguimos reduzir a velocidade de algumas execuções sem comprometer, com isso, a qualidade do áudio, o entendimento do texto poético-musical. Essa alteração foi crucial para elucidarmos detalhes do arranjo, de modo geral.

O processo de transcrição das obras foi lento e complexo, porque, nos fonogramas analisados, o intérprete nunca repete a melodia da mesma forma, isto é, há sempre um elemento novo, certa improvisação. Esse aspecto foi bastante desafiador, pois tivemos que decidir se transcreveríamos para a partitura as variantes ou se manteríamos apenas a estrutura padrão. Nesse encontro com o legado do artista, além dos aspectos musicais, nos debruçamos sobre uma grande variedade de temas, alguns prosaicos, outros bem singulares, crônicas de costume, fundamentalmente, que tratam dos mais variados assuntos, desde a fundação da Capital Federal, Brasília, até a história d’A mulher que virou homem, gravada no início dos anos sessenta, quando as discussões sobre gênero eram ainda incipientes.

Uma das composições que me chamou a atenção foi Sonata no frevo (vídeo - partitura)de Braz Marques e Roberto Silva, do álbum A alegria da casa!, um dos três lançados pela Philips em 1962. Ao ouvi-la, identifiquei elementos que me remeteram à Sonata para piano n° 14, Op. 27 n° 2, de Ludwig van Beethoven, a conhecida Sonata ao Luar (vídeo e partitura). A análise revelou uma conexão entre as duas peças, sob diferentes perspectivas. O recurso intertextual, presente no título e nos elementos rítmicos, melódicos e harmônicos da canção, reforça a ironia, a carnavalização, o dialogismo que aproxima/distancia Bonn de Recife, a música de concerto da popular, o frevo da Bossa Nova (ouça Silvério Pessoa), o Nordeste do Sudeste do Brasil, bem como esses dois grandes ícones, Beethoven e Jackson do Pandeiro.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 22 de setembro de 2019

Arriba, Vox Popvli!

No período em que morei em Teresina-PI, regi o Madrigal Vox Popvli, entre 1994 e 1995. Minha passagem pelo grupo ocorreu algum tempo após a saída do seu fundador, o maestro Lindembergh Pires, que fora transferido do Colégio São Francisco de Sales para colaborar com a Universidade Católica e como regente do Madrigal da UNICAP, em Recife-PE. O trabalho que ele realizou com aquele coro independente, formado por ex-alunos do educandário e pessoas da comunidade, foi primoroso. O conjunto possuía sólida base técnica e já havia cantado vasta literatura, incluindo obras clássicas do repertório europeu, estadunidense, latino-americano e brasileiro, de diferentes períodos,  autores e estilos.

O meu trabalho com o Madrigal foi desafiador. Procurei dar continuidade ao que já havia sido desenvolvido. Contudo, como sempre ocorre, o processo de adaptação não foi dos mais simples, tendo em vista o conflito existente entre o legado deixado pelo meu antecessor, a sua forma de pensar e agir, e o direcionamento que estava dando a partir daquele instante. Quem já passou por situações semelhantes sabe do que estou falando. Não é fácil e é natural que certo tipo de rejeição ocorra, especialmente quando se leva em consideração os laços emocionais e afetivos que permeiam a relação professor-aluno, regente-cantor.


Mesmo com certa resistência, nós nos reinventamos, quando começamos a conviver. Aos poucos, todos se adequaram e o coro foi produzindo um som ainda mais leve e brilhante, como gosto. Promovemos cursos de técnica vocal com o professor Zuinglio Faustino, da UnB. Por duas vezes, realizamos o tradicional concerto anual, em outubro (veja os programas). Cantamos em diversos lugares da capital como parte das propostas da Federação Piauiense de Conjuntos Corais – FPCC (veja a ata), entidade que reativamos naquele ano, uma das promotoras do Encontro de Corais de Teresina (ENCOTHE). Um dos momentos marcantes foi a nossa presença no XX Festival de Inverno de Campina Grande, quando fomos ovacionados pelo público (veja a crítica).

Em novembro de 1995, durante uma apresentação no Teatro 4 de Setembro, anunciei publicamente que aquele seria meu último concerto, minha despedida. Por conta do mestrado na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, era necessário afastar-se, pois, em breve, partiria para uma nova experiência. Minhas palavras foram recebidas com espanto pelo público e também pelos integrantes do conjunto, visto que ninguém sabia da minha decisão. A relação com certas pessoas daquele círculo ficou abalada, desde então. Algumas foram resgatadas posteriormente. Outras, ainda não. Meus dois anos com esse maravilhoso coro foram intensos e eu jamais esquecerei o que vi, ouvi e vivi (veja as reportagens). Como nos versos da canção Póngale por las hileras, que interpretávamos com grande alegria encantando a plateia, arriba, Vox Popvli.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas!

Cheguei à oficina às 6h10. Quando o proprietário abriu o estabelecimento, um grupo de clientes, que também havia madrugado, já o esperava. Veio em nossa direção, cumprimentou-nos e iniciou uma longa conversa, elogiando as ações do Governo, destacando as melhorias no país. Depois, discursou sobre moral, bons costumes, ordem, progresso, condenando homossexuais, cotas raciais e programas sociais. Do nada, bradou: – A pior raça que existe é a dos professores universitários federais! Justificou sua fala referindo-se a um amigo que é docente e que atua como agiota, não obstante perceba um excelente salário e viva mamando nas tetas do erário. – Aquilo é um infame, um miserável, concluiu irritado.

Se eu já estava calado, naquela hora, engoli a língua. Parece que ele sentiu o cheiro da minha adrenalina, voltou-se para mim e perguntou: – E você, trabalha com quê? Num passe de mágica, respondi-lhe: – Sou comerciante, ajudo na bodega da minha mãe. Nem sei como disse isso, mas foi a primeira coisa que veio à tona. A conversa seguiu sempre em torno do mesmo tema: a depravação moral e ética da sociedade brasileira. Contraditoriamente, os que estavam por ali esqueceram-se que, logo cedo, dirigiram na contramão, naquela movimentada rua que nos leva até o galpão. Eu vi, eu estava lá. Mais tarde, soube que um dos integrantes do círculo é cafetão e aquele que consertara o meu carro é especialista em alterar informações eletrônicas dos veículos.

Após mais de uma hora, o profissional iniciou o conserto. Fiquei à espera. Ele, num entra e sai sem fim, mexia no meu automóvel como bem desejava, ora atendendo fregueses diferentes, ora levando os meus equipamentos para salas inacessíveis, como se quisesse manter em segredo os seus gestos dúbios. No meio da manhã, finalmente concluiu a tarefa. Quando entregou a chave e viu um livro no banco traseiro, indagou-me: – O senhor é professor? Eu disse: – Não. Isso é coisa da minha esposa. Ela é quem gosta de ler “romances”, em referência ao mais novo livro de Maria Valéria Rezende, Carta à rainha louca, de quem sou admirador.

Com o cinismo dos falsos moralistas, tão em voga nos tempos atuais, ele superfaturou o serviço, cobrando um valor incompatível. Argumentei e recusei-me a pagá-lo. Negociamos e chegamos a um acordo, muito embora ele não tenha emitido nota fiscal, recibo ou garantia pelo reparo que fizera. Ainda assustado, fiquei pensando no ocorrido naquela manhã fria, invernal, quase infernal. Que dias são esses? À semelhança de Pedro, e para sobreviver, neguei meus princípios várias vezes. Constrangido, sai com uma vontade enorme de cantar-gritar aquela passagem das escrituras, inserida no Requiem dos Oprimidos, de Eli-Eri Moura, que diz: “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 25 de maio de 2019

A primeira lapingochada é minha!

Um dos maiores mananciais para a pesquisa da música de double entendre é indiscutivelmente o Renascimento. São inúmeros os exemplos desse tipo de repertório na literatura vocal do século dezesseis. O uso das onomatopeias e o emprego de refrãos compostos por sílabas neutras, dentre as quais fa-la-las e suas variantes, reforçam o perfil dúbio dos textos que muitas canções seculares evocam, ratificando aquilo que Bakhtin já preconizara, isto é, que a carnavalização é uma forma de contradiscurso, que provoca o riso e a reflexão de quem os enuncia/escuta.

Um villancico que ilustra bem esse processo é Dale si le das, moçuela de Carasa. Em todos os versos há sempre uma dúvida semântica que se estabelece pelo uso de trocadilhos: Otra mozuela, Teresica, mostrado me ha su cri[ca]... atura que llevaba bien criada (Outra jovem, Teresica, mostrou-me seu bichinho bem cuidado). A fermata sobre a sílaba cri, no substantivo criatura, seguida por breve pausa, sugere que a rima para Teresica seria crica, um dos sinônimos para a genitália feminina, na língua espanhola. Como ratifica Fiorin, a linguagem carnavalesca “é repleta de sarcasmos e insultos. No entanto, esses xingamentos e zombarias não têm caráter ofensivo, mas brincalhão.” Na renascença italiana e francesa isso ocorre frequentemente, basta analisar alguns madrigais ou as chansons de Clement Janequin.

A música popular brasileira, sobretudo aquela produzida aqui no Nordeste, explora essa temática de modo muito particular. O chamado forró de duplo sentido mantém-se vivo, intrigando-nos e ao mesmo tempo alegrando-nos com suas ironias e ambiguidades. Clemilda, Zenilton, João Gonçalves e Genival Lacerda, dentre outros, gravaram sucessos que ainda hoje nos fazem sorrir, pensar e dançar.

Zé da Onça, uma pérola de João do Vale, Abdias Filho e Adrian Caleiras, trilha do filme Rico ri à toa, dirigido pelo cineasta Roberto Farias, produção da Brasil Vita Filmes, é uma crônica de costumes que trata questões éticas e amorosas com leveza e escárnio. Nos versos da canção, uma mulher conversa com um homem, dizendo-lhe que o seu esposo está prestes a morrer. Comenta que, ao lado dele, a vida não é das melhores e que isso deverá piorar após a sua partida. Predador, como todo felino, e carregado de segundas intenções, diz-lhe que, caso fique viúva e decida contrair matrimônio mais uma vez, ela deveria dar-lhe a preferência, pois os dois dão certo e combinam “tal qual a boca de um bode.” O jogo dialógico do casal é permeado por ambivalências que são potencializadas até o final da narrativa, quando Sá Chiquinha, de forma ingênua e maliciosa, pergunta: "Se eu quiser me casar de novo, Zé, o que é que há?" E ele, quase descrente, mas eufórico, responde: "A primeira lapingochada é minha!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Adeus, Irmã Tarcísia.

Há muito tempo, frequento o Mosteiro Santa Clara. Essa aproximação com as Clarissas começou cedo, ao lado de Tia Lúcia em visita às confrades enclausuradas. O santuário, localizado na área do Parque Evaldo Cruz, no coração de Campina, é um refúgio aconchegante, rodeado de árvores frondosas, repleto de silêncio e paz. Ele é a morada de várias freiras, dentre as quais Irmã Tarcísia, batizada Rita Maria da Silva.

Quem é daqui, e já visitou o referido centro espiritual, foi, em algum momento, acolhido pela religiosa, que, juntamente com as congregadas Anunciada e Coleta, era, grosso modo, a intermediação entre a comunidade e as monjas que vivem no claustro. Entre a portaria e o altar, Ir. Tarcísia decorava velas e cartões, era habilidosa com o crochet e bordava peças em Richelieu. Seus talentos musicais também eram notórios. Com voz terna, nos enlevava, sobretudo cantando célebres melodias ou mesmo acompanhando ofícios e missas na serafina fanhosa. A sonoridade que nascia daquelas pequenas mãos era encantadora e nos fazia crer que, de fato, quem canta, reza duas vezes.

A minha conexão com o convento foi interrompida durante a temporada em que estive fora da Serra da Borborema, andando pelo mundo. Somente em 2006, após mais de vinte anos, tive o prazer de reencontrar a congregação, rever a comunidade e conhecer as novas habitantes da casa. Na ocasião, realizamos um concerto na capela central com o Madrigal e o Coro Feminino da UFPI, que estavam em turnê pela Paraíba. Foi um momento ímpar, de muitas bênçãos, de grande alegria. Depois disso, nosso contato intensificou-se e, quando nos mudamos para a Rainha da Borborema, em 2009, passamos a visitar aquele espaço sagrado frequentemente, ajudando-as nas tarefas musicais, oferecendo-lhes os concertos do Festival Internacional de Música (FIMUS), buscando equilíbrio e proteção.

Recentemente, encontrei-me com Irmã Tarcísia no templo, aguardando o início das vésperas. Como de costume, estava sentada no primeiro banco e nos cumprimentou com alegria, curvando-se, beijando nossas mãos. Espantou-se com a altura de Vinicius e elogiou a beleza de Jane e Sofia. Falamos brevemente e nos despedimos sem pressa, confiantes no reencontro. Não sabíamos, entretanto, que aquela seria nossa última conversa. Hoje, dia de Santa Rita, ao amanhecer, ela encerrou sua viagem terrena. Imediatamente, lembrei-me do dia em que me deu de presente dois livros, quais sejam, Cecília, um manual de cânticos religiosos, e o Liber Usualis, alegando que eu faria melhor uso de tais obras. Pensei nas dores dos que integram aquela irmandade, agora incompleta, e no exemplo que deixara, afinal foram mais de seis décadas de vida religiosa, como franciscana, inspirando tantos, inclusive a minha pessoa. Agradeci-lhe por tudo, com o espírito em festa, com a certeza de que a sua missão terrena fora cumprida exemplarmente. Adeus, Irmã Tarcísia.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Música Para Todos

Parece que foi ontem que eu estava ao lado dos professores Joaquim Ribeiro Freire Neto e Orlânia Maria Monteiro Freire discutindo os fundamentos pedagógicos do Projeto Música Para Todos. Nesse piscar de olhos, vinte anos se passaram. A atitude do empresário Luís Sá vingou, deu frutos positivos e contribuiu significativamente para o desenvolvimento musical do estado do Piauí.

Desde o tímido começo, na Avenida Presidente Kennedy, até hoje, na sede situada no bairro São Cristóvão, o PMT tem despertado o talento de inúmeros jovens, que podem aprimorá-lo participando das diversas atividades artísticas e educacionais oferecidas pela instituição. Nessas duas décadas, o PMT trouxe para Teresina profissionais de diversas áreas, brasileiros e estrangeiros, que ministraram, dentre outros, masterclasses de instrumento, canto e regência, bem como apresentaram-se em concertos públicos. Inspirados, muitos dos alunos egressos seguiram suas trajetórias. Alguns ingressaram nos cursos superiores de diferentes universidades. Outros consolidaram suas carreiras e estão inseridos no mercado nacional e internacional.

Há alguns anos, as atividades do PMT foram interrompidas por problemas financeiros. A verba que deveria mantê-lo em funcionamento, e que é assegurada por meio de emendas parlamentares, a Lei de Incentivo à Cultura e a Lei do SIEC (Sistema de Incentivo Estadual de Cultura – Governo do Estado do Piauí), foi suspensa por razões distintas, que incluem tanto a falta de patrocínio quanto a excessiva burocracia que permeia os gabinetes estatais. Foram períodos difíceis, é certo, e que puseram em cheque a credibilidade do programa e geraram múltiplos problemas, afetando alunos, professores, funcionários e gestores. Muito embora tenha sofrido com tais crises, o PMT superou-as, aprendendo lições, ganhando novo ímpeto. (Há um fato intrigante nessa história toda e que talvez possa esclarecer um pouco do mistério que existe entre o céu e a terra. Santa Rita, aquela das causas impossíveis e de quem Luís Sá assume ser devoto, é a padroeira do projeto. Crentes ou não, nunca devemos duvidar da fé nem da resiliência de um indivíduo.)

O PMT tem atuado para além da formação musical no Meio Norte do Brasil. Ele tem sido um portal, um caminho também na consolidação da cidadania. E é por conta dessa contribuição para a construção de uma sociedade mais justa e com amplas oportunidades que desejo vida longa a essa iniciativa, parabenizando os seus diretores, corpo técnico, discente e docente, agradecendo, ao mesmo tempo, àqueles que colaboram, de forma direta e indireta, com a manutenção e preservação dessa estrutura. À distância, celebro com alegria e desejo que os anos vindouros sejam prósperos em desafios e conquistas; que jamais faltem ousadia e coragem; que os sonhos se renovem e se expandam; que a arte e a música, assim como hoje, nunca deixem de ser, de fato, para todos.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 19 de maio de 2019

Cantando a história do FIMUS

Como sempre ocorre, abrimos e/ou encerramos o Festival Internacional de Música de Campina Grande interpretando uma obra de referência da literatura coral. Nosso objetivo é oferecer ao público e aos intérpretes, de modo geral, o contato com diferentes sonoridades, ampliando as possibilidades de escuta. Entretanto, é com base nos recursos financeiros e humanos disponíveis que escolhemos o que cantar, conciliando, sempre que possível, o repertório standard com novas composições. 

Dentre as masterpieces que já cantamos, ao longo desses dez anos, estão Divina Trilogia, Op. 77, Credo, Op. 148 (Liduino Pitombeira) e Serenade to Music (Ralph Vaughan Williams), em 2010; Missa em Sol (Franz Schubert) e Réquiem para um Trombone (Eli-Eri Moura), em 2011; extratos da Missa de Alcaçus (Danilo Guanais), em 2012; Requiem (Gabriel Fauré), em 2013; Paixão Segundo Alcaçus (Danilo Guanais), Five Mystical Songs (Ralph Vaughan Williams), Magnificat-Alleluia (Heitor Villa-Lobos) e, por conta do sesquicentenário da Rainha da Borborema, o Hino de Campina Grande, em 2014; Gloria (John Rutter), em 2015; Misa Criolla (Ariel Ramirez), em 2016; Missa de Alcaçus, na versão para solistas, coro, piano e percussão, em 2017; e Messa di Gloria (G. Puccini), em 2018.

Nas primeiras edições, apenas o Coro em Canto e o Coro de Câmara de Campina Grande compartilharam esses momentos. Com o tempo, outros grupos visitantes, a exemplo do Texas A & M University Chorale e o University of Central Oklahoma Chorale, também passaram a participar desses espaços de congraçamento, que foram conduzidos por mim e outros maestros, incluindo norte-americanos (Gary Packwood, Kenneth Fulton, Karl Nelson e Sara Lynn Baird), europeus (Matthias Heep) e brasileiros (André Muniz). Algumas obras foram acompanhadas por piano, enquanto outras com grupos de câmara e orquestras, convidadas e/ou formadas por alunos e professores do Festival. A música latino-americana, nacional e regional tem lugar assegurado nessa seleção, contribuindo para a divulgação dos nossos compositores.

Este ano, dentro da programação do FIMUS, realizaremos também o segundo Festival Internacional de Coros da UFCG, ocasião na qual ouviremos o Coro em Canto, regido por Lemuel Guerra; o Coro de Câmara, sob minha liderança; o Loiret’s Singers, da França, sob a direção artística da soprano Julie Cássia Cavalcante; e o Gesang ohne Grenzen (Canto Sem Fronteiras), da Suíça, sob o comando do maestro Matthias Heep. Durante quatro dias, a literatura coral de diferentes países, períodos e estilos ecoará por entre as montanhas da Serra. À semelhança do que ocorreu no FIMUS Europa, em Lisboa, faremos a estreia, em nosso país, de Domingo de RamosA Cachoeira de Paulo Afonso, ambas de Danilo Guanais, a primeira para coro a cappella e a segunda, baseada no poema homônimo de Castro Alves, para solistas, coro misto, quinteto de cordas e piano. Continuemos, pois, cantando a história do FIMUS.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Réquiem Contestado

O Réquiem Contestado é uma composição de Eli-Eri Moura sobre o texto das exéquias latinas com adições de W. J. Solha. Dedicada à memória de Franklin Albuquerque de Moura, sobrinho do compositor, é uma obra para narrador, solistas (soprano e tenor), coro misto e orquestra de câmara (flauta, oboé, clarinete, fagote, órgão, percussão e cordas), dividida em várias partes, a saber: Introitus, Kyrie, Non credo, Confiteor, Gloria, Dies irae, Rex tremendae, Confutatis, Communio e Sanctus.

A estreia ocorreu na primeira semana de novembro de 1993, no Teatro Santa Roza. (Curiosamente, nesse mesmo período, o ex-governador da Paraíba, Tarcísio de Miranda Burity, fora baleado no Restaurante Gulliver, por seu adversário político, Ronaldo Cunha Lima, por conta de questões pessoais.) Participaram da world première Vianey Santos, Wanini Emery, Tião Braga, Coral Universitário da Paraíba Gazzi de Sá e a orquestra de câmara, formada pelo Quinteto da Paraíba, Quinteto de Sopros Latino Americano e outros músicos convidados, tendo o próprio Eli-Eri Moura como regente (programa). A peça também foi interpretada em Campina Grande. Posteriormente, o CORALUP incorporou alguns movimentos ao seu repertório, apresentando-os frequentemente. Com o apoio da UFPB e da FIEP, o registro fonográfico foi feito no Cine Banguê, no Espaço Cultural José Lins do Rego, vinculado à FUNESC, na capital paraibana, em julho de 1995 (gravação, encarte). Vários profissionais se envolveram neste processo, incluindo Odair Salgueiro (Gravação), Tovinho (Masterização), Gustavo Moura (Fotografia), Ricardo Peregrino (Direção de Produção) e Wilson Guerreiro e Marconi França (Design Gráfico).

A relevância do Réquiem Contestado para a literatura coral-sinfônica é assegurada por seus aspectos literários e musicais. Teologicamente, os versos de Solha potencializam o conflito entre a soberania de Deus e a liberdade do homem. A inserção do Gloria, Confiteor e Credo acentuam o caráter reflexivo da peça, tendo em vista que tais passagens não integram o texto original da liturgia fúnebre. A orquestração, as passagens para solistas, a estrutura harmônica e a recorrência às danças renascentistas sublinham a inconfundível assinatura musical do seu autor.

Recentemente, recebi do compositor todos os manuscritos, incluindo as partes cavadas. Muito embora o material esteja bem escrito e preservado, existem movimentos incompletos e ainda não transcritos para a grade geral, que precisam ser revisados, tendo em vista as várias alterações que foram feitas entre a composição, os ensaios, a estreia e a gravação. Este trabalho musicológico e interpretativo será fundamental para a preservação da nossa memória, a difusão da arte paraibana contemporânea, bem como a sua inserção no repertório de diferentes coros e orquestras. Eli-Eri Moura tem uma vasta produção de música coral e na qual se inserem o Réquiem para um Trombone e o Réquiem Contestado, que, finalmente, após vinte e seis anos engavetado, será revisado, editado, publicado e oferecido novamente ao público.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 21 de abril de 2019

Get prepared, folks!

The first edition of EuroFIMUS was held from 4 to 6 April. The event, created to celebrate the tenth anniversary of the Festival Internacional de Música de Campina Grande, featured musicians from Brazil and Europe, who performed at different places of the Portuguese capital, Lisbon.

The Coro de Câmara de Campina Grande opened the meeting interpreting the Mass of Alcaçus, by Danilo Guanais, in the famous Palácio Foz. With a crowded house, the group spread through the Praça dos Restauradores, a square in the heart of the village, the unique flavor of Danilo Guanais music, connecting the heritage from Northeast Brazil to its Iberian roots. This dialogue between local and universal elements is intriguing, charming.

In the Museu Nacional da Música, Andrea Teixeira (Flute) and Ivan Vilela (Viola Caipira) performed a very delicate program, including original compositions and arrangements. This rich, simple and sophisticated recital was, in fact, a show/lesson conducted by Professor Ivan Vilela. He is an expert and has been developing researches about the transit of the viola caipira and all its variants, focusing on the route between Portugal and Brazil from the time of the colonization until nowadays. The Swiss choir Gesang ohne Grenzen, directed by composer and conductor Matthias Heep, sang secular and sacred music. Both Swiss and Brazilian ensembles performed unitedly the premiere of Matthias Heep’s motet In Monte Oliveti. The work, a cappella and in Portuguese, has floating rhythms and harmonies, which translate the stressed environment that preceded the arrest of Christ in Gethsemane. Accompanied by Olivia Steimel, the Swiss choir also performed other contemporary pieces exploring the combination between voices and the accordion, an unusual fact in the choral literature. Often, this instrument is used only as harmonic and rhythmic support for popular and traditional music, especially those in a dancing style. In this case, particularly, it was a fundamental part of the polyphonic construction, reiterating the different aspects of the musical narrative, employing both traditional as well as modern, expanded techniques. Undoubtedly, it was a memorable performance.

On the last day, Danilo Guanais lectured about his newest work, A Cachoeira de Paulo Afonso, written for soprano and bass soloists, SATB, string quintet and piano, and based on a poem written by Castro Alves. Following his speech, Swiss, Brazilian, and Portuguese musicians jointly performed it.


The accomplishment of this pioneering Festival was full of joy, grace, beauty, and friendship. Due to the support of several Brazilian and European institutions, we will continue to carry out this type of enterprise, which ignores limits and connects people, cultures, and nations through music. Would you like to join us? For the next EuroFIMUS edition, we are considering Switzerland, in 2021. From now on, it's time to get prepared, folks.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

Artistic Director - EuroFIMUS

sábado, 20 de abril de 2019

Cantemos, amemos e ressuscitemos

Quando viajo, costumo trazer objetos simples na mala, que guardam as recordações dos tempos e espaços que visito. Agora, em Portugal, não foi diferente. Em Covilhã, aos pés da Serra da Estrela, comprei o livro Musicofilia, de Oliver Sacks. A obra explora “o lugar que a música ocupa no cérebro e como é que ela afeta a condição humana.” Estou a degustá-lo lentamente, à semelhança de quem saboreia um Pastel de Belém com uma chávena de café, no entardecer alaranjado, às margens do Tejo.

A cada capítulo, sucessivos convites à reflexão, tal qual aquele dedicado à Música no cérebro: imagética e imaginação, em que o autor cita o depoimento de um dos seus correspondentes, que diz que todas as memórias da infância dele eram acompanhadas por uma banda sonora. Creio que todos nós, se calhar, temos uma trilha musical que nos acompanha, sublinhando, ou até mesmo sublimando, os vários instantes da nossa existência. Ponderando, e ao mesmo tempo envolto nesse ambiente Pascal, recordei-me das várias experiências musicais, afetivas e místicas que já vivi nessa época.


Lembrei-me de Irmã Aldete cantando Prova de amor, de José Weber, na Capela da Rua Dr. João Moura. Revivi o momento no qual aprendi a tocar Tomai, comei, um clássico de Waldeci Farias frequentemente interpretado na cerimônia do Lava-pés, uma das pérolas do hinário popular católico brasileiro. Essa foi a primeira melodia que toquei sem precisar anotar nada no papel, sem recorrer às bolinhas brancas e pretas que acompanhavam o manual de instruções da minha flauta doce. Para executá-la, seguia o som interno que se movia dentro de mim, entre a mente e o coração, seduzido pelo desafio técnico e o desejo de mostrar para Maria Ferreira, a amada tia-avó que me adotou como o filho que nunca tivera, que a partir de então eu poderia tocar-viver meu destino, baseado no tripé instinto-fé-conhecimento. Vários outros cânticos vieram à tona, todos carregados com a emoção do instante em que os ouvi pela primeira vez. Sozinho, na sala mental de concertos, conforme define o conceituado pesquisador, atuei como performer e ouvinte, transitei entre o altar e a congregação, o palco e a plateia, banhando-me nos ecos das reminiscências plenas de sentidos e verdades, dando graças àqueles que ressoam por entre as minhas reentrâncias, àqueles que me ensinaram a cultivar essa paixão pela vida, o belo, o sagrado, a música.


Oliver Sacks mudou a rotina deste sábado, que não é um dia qualquer, pois foi num Sábado Santo que selei a minha união amorosa com Jane Cely, essa mulher que exala beleza, encanto, bondade. Ao todo, já se passaram 31 anos de partilha, dos quais 26 em matrimônio. Por tudo o que sonhamos, vivemos e construímos, aleluias! Pela luz que ilumina incessantemente nossas memórias, cantemos, amemos e ressuscitemos, hoje, amanhã, sempre.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 10 de março de 2019

Parabéns, Coro de Câmara!

Há exatamente nove anos, o Coro de Câmara de Campina Grande estreava na sala BW4, da Unidade Acadêmica de Artes, da UFCG. Formado por alunos do recém criado curso de Música e pessoas da comunidade, o grupo, em sua apresentação inaugural, contava com doze integrantes e interpretou música renascentista acompanhado por um pequeno consorte de flautas e percussão.

Ao longo desse ciclo, a identidade do ensemble tem sido definida por suas propostas artísticas, educacionais e políticas. Somos um laboratório para os alunos da Licenciatura e do Bacharelado, sobretudo aqueles com ênfase em Regência e Canto. O repertório contempla variadas tendências estéticas e estilísticas, incluindo peças históricas, assim como material inédito, especialmente a nossa produção musical. Cantamos Palestrina, Bach, Mozart, Schubert, Fauré, Puccini, Hogan, Amaral Vieira, Reginaldo Carvalho, Eli-Eri Moura, Beetholven Cunha, Adriano de Sousa, dentre tantos outros nomes novos e conhecidos no cenário internacional. Nosso foco é a literatura original, a cappella ou com acompanhamento.

A experiência com outros corais, orquestras e maestros, brasileiros e estrangeiros, aqui e alhures, expandiu nossa percepção e a capacidade de adaptação e interação. Os desafios dos novos projetos transformaram-se em inspiração, planejamento, motivação, disciplina, resiliência e superação. Foi desse modo que encaramos a interpretação de obras complexas e que conseguimos subir ao palco nos EUA, França, Teresina, Fortaleza, Juazeiro do Norte, Natal, João Pessoa, Recife e São Paulo, sem falar nas várias cidades do interior da Paraíba. É por isso que, no próximo mês, iremos para Portugal, participar do EuroFIMUS Festival de Ramos. As barreiras burocráticas e as limitações financeiras nunca nos impediram de sonhar e concretizar nossos desejos. E assim sempre será.


Nessa trajetória repleta de beleza e encantamento, alegro-me por conviver e compartilhar saberes e fazeres musicais com pessoas engajadas e comprometidas, que vestem a camisa deste time com um enraizado sentido de pertencimento. Essa força vital, que nos impulsiona a atingir objetivos e metas, nos faz ensaiar com sol ou chuva, durante a semana ou em dias feriados; nos permite apresentar-se por entre as fileiras de um supermercado ou no Carnegie Hall; nos dá o prazer de cantar uma melodia natalina em uníssono ou de estrear A Cachoeira de Paulo Afonso, de Danilo Guanais; nos possibilita viajar de avião ou num micro-ônibus sem banheiro e ar condicionado, cruzando o sertão nordestino, vendo a beleza que é a transposição do Rio São Francisco, na época mais quente do ano, no chamado bê-erre-o-bró, em alusão aos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro. Em todas essas situações, eu nunca vi um semblante infeliz nos membros desta linda família. Ao contrário, tudo o que testemunhei foram gestos de devoção recíproca, verdadeira, e de um amor intenso pela música, o canto coral, a vida.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 9 de março de 2019

EuroFIMUS

O Festival Internacional de Música de Campina Grande (FIMUS), evento promovido pela Fundação Parque Tecnológico (PaqTcPB), Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Affins Produções, chega à décima edição. Para celebrar este momento especial, realizaremos o EuroFIMUS, em Portugal, de 4 a 6 de abril. Participam desta edição o Coro de Câmara de Campina Grande (UFCG), Daniel Seixas (UFPB), Danilo Guanais (UFRN), Ivan Vilela (USP - Universidade de Aveiro), Andréa Teixeira (UFG - Universidade Nova de Lisboa), Matthias Heep (Universidade de Berne), Canto Sem Fronteiras (Suíça), dentre outros músicos portugueses.

Ao todo, serão realizados três concertos no Palácio Foz e no Museu Nacional da Música, ambos na região metropolitana de Lisboa. A programação contempla uma ampla variedade de repertórios, sacro e secular, instrumental e vocal, promovendo o diálogo entre a música de tradição oral e a música de concerto, tanto brasileira quanto europeia. Merece destaque, nesse contexto, a estreia de A Cachoeira de Paulo Afonso (Danilo Guanais), baseada no poema homônimo de Castro Alves, escrita para solistas, coro misto, quinteto de cordas e piano, bem como Dois Cânticos Espirituais (Matthias Heep), para coro misto a cappella. Além das apresentações artísticas, o compositor-residente Danilo Guanais fará uma palestra sobre a sua obra.

O EuroFIMUS será bienal e a meta é realizá-lo em diferentes países do Velho Continente. Esta ação, em consonância com a política de internacionalização das universidades Estadual da Paraíba e Federal de Campina Grande, vem consolidar a trajetória do FIMUS, intensificando o intercâmbio entre estudantes, profissionais e estabelecimentos de ensino do Brasil e da Europa. É importante destacar que, na semana seguinte ao EuroFIMUS, o Coro de Câmara de Campina Grande continuará viajando por Portugal, participando do Festival de Ramos, projeto do VoxLaci que consiste na realização de um ciclo de concertos em Lisboa e cidades circunvizinhas. Na oportunidade, o grupo estreará, em parceria com os anfitriões, Domingo de Ramos (Danilo Guanais), um conjunto de obras para coro a cappella alusivas à Paixão de Cristo.

A turnê do Coro de Câmara e o EuroFIMUS estão sendo realizados com o apoio incondicional de diversas instituições, incluindo aquelas que o promovem, Universidade Federal da Paraíba, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Laços Culturais Produções, VoxLaci, Palácio Foz, Museu Nacional da Música e a Embaixada do Brasil em Portugal. O  que nos move é a crença na vivência musical compartilhada, na força da ação coletiva, que desconhece barreiras, supera diferenças, une povos-nações. É por isso que agradecemos a colaboração e a presença de todos e desejamos um excelente encontro/festival, convidando-os também para o X FIMUS e 3° FIMUS Jazz, de 5 a 14 de julho deste ano. Campina Grande está de braços abertos para recebê-los. 

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Coleções de arranjos

Reginaldo Carvalho utilizou o canto coral no processo de educação musical de crianças, jovens e adultos, razão pela qual escreveu vários arranjos de música sacra e secular, para coro de vozes afins e mistas, com diferentes níveis de dificuldade. A análise documental tem revelado que o compositor pretendia compilar tais trabalhos em coleções, à semelhança do que fez com o livro Cantares Piauienses, uma antologia de arranjos de canções de variadas localidades do estado do Piauí.

No que concerne às cantigas populares brasileiras, Reginaldo compilou parte dos seus arranjos em cinco volumes. No primeiro constam Tutu Marambá (N° 1); Serenô (N° 1, Rio, 1956); Tristeza de Jeca (Rio, 1956); A Sertaneja (Luar da Serra); Canto de Natal e A maré encheu (Paris, 1953). No segundo estão Capelinha de melão; Sambalelê; Ciranda, cirandinha; Canção de Natal; A casa branca da serra; O cravo brigou com a rosa; e O lencinho branco. No terceiro aparecem Tôda gente no mundo; Você diz que você sabe tudo; Teresinha de Jesus; Que lindos olhos tem você; Canção do marinheiro; e Canto negro. No quarto encontam-se Alecrim; Marinheiro chora; Tutu Marambá (N° 4); A casinha pequenina; A Mulatinha; O trem; Praias do Ceará; Naquele tempo; Mensagem (Cantiga de Natal); e Canção gaúcha. Na lista do quinto, e último caderno, inserem-se Donzela formosa; Deixa eu ir; Ratoeira; O Rei mandô me chama; Ai! Baiana; Canto antigo; e Acordei de madrugada.

Outro grupo de arranjos é o de Modinhas Imperiais. Tomando como base o livro editado por Mário de Andrade, Reginaldo Carvalho arranjou para coro misto a quatro vozes as seguintes peças: Acaso são estes; Escuta, formosa Márcia; Busco a campina serena; Quando as glórias que gozei; Vem cá, minha companheira; Vem a meus braços; Róseas flores d’alvorada; Último adeus de amor; Eu tenho no peitoHei de amar-te até morrer; e Dei um ai, dei um suspiro. Até o momento, ainda não encontramos os manuscritos e/ou cópias dos arranjos de  Si te adoro; Deixa, Dália, flor mimosa; Que noites eu passo; e O coração perdido, que também integram o referido conjunto de canções brasileiras do século XIX.

Porque nutria uma grande admiração pela obra de Noel Rosa, Reginaldo escreveu arranjos corais dos maiores sucessos desse compositor, incluindo Feitio de oração; Feitiço da Vila; Conversa de botequim; Palpite infeliz; Com que roupa?; Último desejo; Já cansei de pedir; Arranjei um fraseado; Três apitos; e Silêncio de um minuto. Títulos como Quem não dança e Você vai se quiser aparecem em alguns programas, contudo ainda não foram localizados nos acervos investigados. À medida em que avançamos na pesquisa arquivística, descobrimos novos documentos que contribuem para a montagem deste quebra-cabeças que envolve as coleções que Reginaldo Carvalho organizou, mas nunca chegou a publicar.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)