sexta-feira, 27 de abril de 2018

Deus o abençoe!

Ontem, meu filho completou dezesseis anos. Como de costume, falamos sobre a vida e as expectativas para esse novo ciclo. Disse-lhe que, com esta idade, eu tive a primeira experiência como regente, dirigindo o Coral Viva Voz, que ensaiava no Centro Cultural, nos arredores do Parque do Povo. Com aquele grupo, iniciei a minha carreira e também selei a amizade com pessoas queridíssimas, que ainda hoje me encantam, a exemplo das irmãs Magnólia e Socorro França, Jaciara Almeida, Thúlio Antunes, Djailton Carvalho, Carlos Araújo, dentre tantos outros.

Carlos Araújo, naquela época, trabalhava nas indústrias São Braz. Além de cantar, também desenhava e representava. Quando imitava Carlitos, o célebre personagem de Charlie Chaplin, arrancava risos de todos. Muito ligado à Igreja Católica, ordenou-se sacerdote há alguns anos, tendo atuado em várias paróquias da Serra da Borborema. Padre Carlinhos, como é mais conhecido, é profundamente carismático e atualmente é o pároco da Sagrada Família, no bairro das Malvinas. Ocasionalmente, o Universo nos coloca lado a lado. Quando isso ocorre, a conversa é animada, intensa, como aconteceu nas bodas de ouro dos meus pais e, mais recentemente, hoje, pela manhã.

Quando nos encontramos, na escola onde meus filhos estudam e da qual ele é o Capelão, compartilhamos um pouco sobre nossas missões, as provações que enfrentamos, as conquistas que testemunhamos. Falamos sobre a egrégora, “essa força espiritual criada a partir da soma de energias coletivas”. Inspirados, parafraseamos simultaneamente um pequeno trecho do Evangelho de Mateus: “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. Sorrindo, reiteramos a necessidade constante de renovarmos a esperança e a utopia em nós mesmos e naqueles com os quais convivemos e trabalhamos. Então, recorremos ao evangelista, novamente, certos de que “a boca fala do que está cheio o coração”. Por isso, é preciso ter cuidado com a palavra, sobretudo aquela que provém do peito e povoa o mundo.

Antes de partir, o sacerdote me falou que, em suas missas, após a comunhão, ele reduz as luzes do templo para que todos fiquem em silêncio, meditando e cantando em bocca chiusa. Disse-me que, nesse momento, rege a congregação, movimentando-se tal qual eu fazia nos anos do Viva Voz, afirmando que a comunidade reconhece a veracidade das suas intenções, a vitalidade dos seus gestos, o entusiasmo da sua liderança. Repentinamente, lembrei-me que, na passagem do seu aniversário, dissera a Vinicius que é preciso foco, vigor e verdade para conduzirmos e concretizarmos os nossos projetos, seja no plano profissional ou pessoal, no palco ou no altar. Com o espírito em chamas, e sob a luz pastel da morna manhã outonal, eu e Padre Carlinhos nos despedimos, sussurrando, um no ouvido do outro, Deus o abençoe!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 22 de abril de 2018

Os cursos de Música da UFCG

A Licenciatura e o Bacharelado em Música da Universidade Federal de Campina Grande foram criados em 2008, por meio do programa REUNI. As primeiras turmas entraram no semestre 2009-2. Anualmente, oferecemos quarenta vagas, sendo trinta para a Licenciatura e dez para o Bacharelado, que tem ênfase em Composição, Regência, Canto, Produção Musical e Práticas Interpretativas, esta última contemplando Violão, Violino, Viola, Violoncelo, Contrabaixo, Piano, Clarinete, Tuba, Trombone e Bombardino. O corpo docente conta com dezesseis professores, dos quais oito são doutores, sete são mestres e um é especialista, todos com ampla experiência e formação, no Brasil e no exterior.

Os cursos têm duração de quatro anos. Neste período, o aluno, além de cursar matérias teóricas e práticas, participa de diversos projetos, programas e conjuntos, dentre os quais UFCG Brass, Cordas e Sopros, Big Band, Orquestra de Câmara, Orquestra de Violões e os seis coros ligados ao CanteMUS - Laboratório Coral da UFCG (Coro Infanto-Juvenil, Coro Feminino, Coro Masculino, Coro Intergeracional, CorUNAMUS e Coro de Câmara de Campina Grande). Esses conjuntos instrumentais e vocais têm se apresentado em diversos eventos artísticos e culturais no país, nos Estados Unidos e na Europa.

No que diz respeito à investigação científica, temos três equipes de trabalho: 1) Herança Cultural: patrimônio, memória, identidade e representação; 2) Grupo de Pesquisas Unificadas em Artes e Música (GRUNAMUS); e 3) Grupo de Pesquisa Musical Aplicada (MUSAP). Os resultados das pesquisas realizadas em tais núcleos têm sido apresentados em congressos promovidos por entidades como a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM), Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM), International Federation for Choral Music (IFCM) e International Association for Semiotic Studies (IASS). O Festival Internacional de Música de Campina Grande, fruto da parceria entre a UFCG, a UEPB e a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba, tem permitido a interação dos nossos alunos com nomes de referência na área. Alguns deles, por conta desse contato, ganharam bolsas de estudos em universidades norte-americanas. De modo geral, os alunos concluem os cursos no prazo mínimo, inserindo-se imediatamente no mercado de trabalho e/ou na pós-graduação. Atualmente, cerca de vinte egressos já estão em programas de Mestrado e Doutorado.

Almejamos a excelência e a ampliação das nossas ações no campo do ensino, da pesquisa e da extensão. Neste sentido, e para marcar a nossa primeira década de existência, estamos trabalhando na criação da Unidade Acadêmica de Música (UNAMUS) e na atualização do currículo, à medida que aguardamos a aprovação da proposta de um novo Mestrado Profissional em Música, já submetida à CAPES, e que irá preencher uma lacuna importante na região, ratificando que estamos no caminho certo. Para mais informações, visite nosso site.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 14 de abril de 2018

Festival de Música da UFG

O Festival Internacional de Música Belkiss S. Carneiro de Mendonça chegou à quadragésima segunda edição este ano. Promovido pela Universidade Federal de Goiás, é, nesta categoria, o mais antigo do país realizado de forma ininterrupta. Esta foi a terceira vez que tive a honra de participar deste importante projeto, que traz para a cidade de Goiânia estudantes e profissionais de diversas partes do Brasil e do mundo.

Na cerimônia de abertura, a professora Glacy Antunes compartilhou conosco um pouco da história do Festival, destacando o espírito empreendedor dos seus idealizadores, dentre os quais Dona Belkiss Spencieri. O professor Edward Madureira, Reitor da UFG, destacou que, ao longo dessas quatro décadas, as crises pelas quais o país passou ameaçaram a continuidade do evento inúmeras vezes. No entanto, o engajamento daqueles que fazem a Escola de Música e Artes Cênicas e o efetivo apoio da administração superior da UFG foram determinantes para a continuidade do empreendimento.

Ao longo das aulas, ensaios e palestras, reafirmei a necessidade de valorizarmos as oportunidades, de transformarmos o limite em possibilidade, de assumirmos a tripla dimensão da nossa missão profética, política e poética. Narrei um pouco da minha vida profissional, conectando o início de tudo, quando tocava flauta doce no topo da goiabeira, e a minha estreia no Carnegie Hall, ano passado, com a Missa de Alcaçus, de Danilo Guanais. Fiz paralelos entre o micro universo da prática coral e a estrutura macrossocial, reiterando a força dos nossos gestos nos dois contextos. Discuti os inúmeros aspectos da minha práxis artístico-pedagógica, mostrando a importância de conceber a música para além da frequência, do ritmo, da técnica. No que diz respeito ao repertório, selecionei para esta temporada obras da literatura coral europeia e norte-americana. Meu foco, contudo, foi a música coral brasileira. Para fugir do lugar comum, busquei novas obras, dentre as quais É madrugada, da carioca Stella Junia, e várias peças de compositores do Nordeste. O Padre Nuestro, de Eli-Eri Moura, e a Dança de Mariinha, de Beetholven Cunha, foram interpretados pela primeira vez no país. Um dos destaques foi a suíte formada pelo Tema para assovio, de Pedro Santos, e a Cantiga, de Reginaldo Carvalho com poema de Manuel Bandeira. O baixo-barítono Angelo Dias deu um show, desta vez, assoviando.

Encontros como este são essenciais para a divulgação da nossa produção musical e fortalecem nossos cursos, permitindo o intercâmbio entre novos e conhecidos professores e artistas, expandindo os horizontes dos alunos. Parabéns às professoras Ana Flávia Frazão e Gyovana Carneiro, pela organização e direção deste belo Festival. Após uma semana tão intensa, volto para casa banhado pela luz do dia, profundamente grato por tudo e a todos, com a mala repleta de novas experiências, pronto para continuar a caminhada.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)