terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Encontro de Coros da UFCG

O canto coral na cidade de Campina Grande sempre esteve muito ligado ao contexto universitário. Nos anos setenta e oitenta, a Fundação Universidade Regional do Nordeste (FURNE) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Campus II, ganharam projeção nacional por conta dos seus corais. Durante muito tempo, grupos de diferentes partes do Brasil participaram do Festival de Inverno de Campina Grande e dos encontros promovidos pela Fundação Artístico-Cultural Manuel Bandeira, iniciativas que foram interrompidas por conta de vários fatores mas que serão retomadas amanhã, dia 20 de dezembro, com a realização do I Encontro de Coros da Universidade Federal de Campina Grande.

O evento tem como objetivo apresentar à comunidade o trabalho que tem sido desenvolvido na UFCG. Além do Coro em Canto, o mais antigo da instituição, atualmente estão em atividade o Coral Assum Preto, sediado no Campus VI, na cidade de Sousa, o Coro Infanto-Juvenil, o Coro Feminino, o Coro Masculino, o Coro Intergeracional, o CorUNAMUS e o Coro de Câmara de Campina Grande, estes últimos ligados à graduação em Música, no Campus I.

Este encontro marca o nascimento do CanteMUS - Laboratório Coral da UFCG, criado com o propósito de congregar cantores e regentes, oferecendo-lhes subsídios técnicos e artísticos que possam contribuir para a consolidação desta prática sócio-cultural-educativa. Os coros ligados ao CanteMUS são regidos por alunos da Licenciatura e do Bacharelado, que têm a oportunidade de associar teoria e prática, aplicando os conteúdos estudados em sala de aula, bem como os resultados das pesquisas desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisa Unificadas em Artes e Música (GRUNAMUS - UFCG/CNPq), conectando assim, ensino, pesquisa e extensão.

A proposta de cada coral tem como base a faixa etária e a experiência musical dos seus integrantes. De modo geral, cada um trabalha entre duas e quatro horas semanais. Nesses encontros, além de aulas de técnica vocal e teoria musical, ensaiam o repertório, que inclui tanto música sacra quanto secular, brasileira e internacional, de diferentes períodos, épocas e autores, a cappella e com acompanhamento. A pretensão é realizar o encontro duas vezes por ano, sempre ao final de cada semestre. A meta é também promover o intercâmbio com outros grupos, maestros e instituições. Ano que vem, por exemplo, durante a nona edição do Festival Internacional de Música de Campina Grande, os integrantes do Laboratório Coral da UFCG terão a oportunidade de interagir com maestros convidados, brasileiros e do exterior. Indiscutivelmente, essa expansão quantitativa e qualitativa influenciará, a curto, médio e longo prazo, o movimento coral na cidade, no estado e na região, estimulando a formação de novos grupos, criando mais oportunidades no mercado de trabalho para compositores, arranjadores, cantores, regentes e preparadores vocais, que poderão atuar em diferentes segmentos, com coros amadores e profissionais.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Reginaldo Carvalho e o Instituto Villa-Lobos

Em setembro deste ano, estive na Cidade Maravilhosa para participar das comemorações dos 50 anos do Instituto Villa-Lobos, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, que foi criado com o propósito de renovar, pedagógica e artisticamente, o antigo Conservatório Nacional de Canto, por meio do Decreto n° 61.400, de 22 de setembro de 1967. Integravam o IVL, segundo o Regimento Administrativo, a Escola de Educação Musical e o Centro de Pesquisas Musicais, este último subdividido em Pesquisa do Som-Imagem, Pesquisa Musical e Pesquisa do Comportamento Musical Brasileiro.

O guarabirense Reginaldo Carvalho foi fundador e diretor do Instituto. Na concepção dele, aquela escola precisava ter um corpo docente multifacetado, eclético, um pessoal “super pra frente
”, gente corajosa, equilibrada, criativa, inovadora, capaz de abrir novos caminhos para a educação. Grandes nomes da cena cultural carioca passaram pelas salas do IVL, incluindo Paulinho da Viola e Paulo Coelho. A escritora Rose Marie Muraro, que também lecionou naquele centro artístico-cultural, diz que migravam para lá “os jovens que iam abandonando as universidades porque não queriam mais servir ao sistema. Eles vinham de todos os lados. Havia o pessoal da área tecnológica, das ciências humanas, e apareciam basicamente artistas, músicos, pintores, cineastas.” O IVL era o foco para o qual convergiam as mentes em ebulição, politicamente engajadas, à procura de novas formas de expressão e criação artísticas.

É importante ressaltar que entre a criação e o efetivo funcionamento do Instituto Villa-Lobos houve um hiato, uma longa trajetória foi percorrida. Como havia sido instalado no antigo prédio da União Nacional dos Estudantes, incendiado em conflito com os militares, em virtude do estado de exceção que se vivia no país naquele momento, o Villa-Lobos passou muitos anos sem ter uma infraestrutura adequada para a realização das aulas e pesquisas. De modo geral, os déspotas não viam com bons olhos o trabalho liderado por Reginaldo Carvalho, tendo em vista seus ideais revolucionários e a participação maciça da juventude. Foi por esta razão que o IVL passou a ser administrado por um General do Exército, a partir do anos setenta, época na qual Reginaldo Carvalho mudou-se para Teresina-PI.

A análise da história do IVL nos mostra que muito pouco mudou nas políticas públicas para a arte, a educação e a cultura, de modo geral, em nosso país. Recentemente, a UNI-RIO lançou um livro com vários depoimentos e artigos sobre os 50 anos do IVL (livro completo). Nesta coletânea, contribuo, ao lado de outros pesquisadores, com um estudo (meu capítulo) sobre a trajetória de Reginaldo Carvalho naquela instituição, destacando que o seu legado atravessa o tempo, conectando Guarabira, Rio de Janeiro e Paris, ratificando a necessidade da utopia, da transgressão e da resistência em nossos gestos e ações.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 26 de novembro de 2017

Canção de esperança

A semana foi dinâmica na Universidade Federal de Campina Grande, porque, à semelhança de outras instituições, também celebramos o Dia do Músico, 22 de novembro, com uma vasta programação, organizada por um grupo de alunos e que contou com a supervisão de alguns professores. A meta é realizar o evento anualmente, tornando-o cada vez mais amplo e promovendo o diálogo entre ensino, pesquisa e extensão, expandindo a relação entre a UFCG e a sociedade.

Ao longo da SEMUS, discutimos temas atuais. Marisa Nóbrega falou sobre o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), que poderá ser interrompido por conta dos cortes nas verbas do Ministério da Educação. Cleisson Melo e Jorge Ribbas abordaram a produção musical na contemporaneidade, focando nas questões mercadológicas, tema que também serviu de mote para a rodada sobre marketing na música, coordenada por Fábio Cavalcanti. João Valter Ferreira Filho tratou das perspectivas para a pós-graduação para licenciados em música e Alda Leaby nos fez pensar sobre inclusão, dialogando e cantando em LIBRAS — indiscutivelmente, um dos pontos altos desta sessão ocorreu quando os participantes interpretaram Carinhoso, de Braguinha e Pixinguinha, usando a Língua Brasileira de Sinais.

No que diz respeito à programação artística, realizamos várias apresentações. Ocupamos a praça do Centro de Humanidades, que serviu de palco para o Coro em Canto, a Orquestra e o Coro de Câmara, bem como para os alunos que prepararam um show dedicado à MPB, enquanto na Primeira Igreja Batista e na sala BW4 apresentaram-se a Big Band, a Orquestra de Violões, o Coro Feminino, o Consort Vivace, dentre outros grupos. Foi no nosso auditório que vimos a estreia de mais uma promessa, um quinteto de choro, formado por dois violões, cavaquinho, percussão e trombone.

A iniciativa dos alunos do curso de Música nos ensina que é preciso agir. Eles saíram da zona de conforto, provocaram colegas, professores, administradores, a comunidade, demonstrando que não se contaminaram com aqueles que arrotam insolências travestidas de discursos politizados, que criticam sem ter trajetória, que tentam justificar a inércia acadêmica e profissional na qual se encontram com argumentos questionáveis, alegando a escassez de recursos, os tempos temerosos que vivemos, as inadequadas condições de trabalho, como se a conquista do paraíso fosse pura mágica. Todos os que participaram deste empreendimento estão de parabéns, sobretudo a comissão organizadora. A Semana de Música da UFCG serviu para que pudéssemos reafirmar nosso compromisso, a força do engajamento e o sentido de pertencimento, que, não obstante os limites impostos pela macroestrutura econômica, política e social, nos faz resistir e valorizar as possibilidades, inspirados pela Canção de Esperança que o advento traz e que, nos versos de Flávia Wenceslau, tece a linha do horizonte e nos ensina que o amor jamais nos deixará.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Um som inconfundível

O maestro Nelson Mathias regeu o Coral da UFPB, Campus II, Campina Grande, entre 1978 e 1982. Formado por cerca de sessenta cantores, o coro ensaiava nas dependências do Núcleo de Extensão Cultural, no Teatro Municipal Severino Cabral, duas horas por dia, de segunda a sexta-feira. A preparação vocal do conjunto estava a cargo da professora Célia Bretanha Junker, cuja ação didático-pedagógica tinha como base os princípios propostos por Madeleine Mansion. A sonoridade era leve e ágil, razão pela qual o grupo dedicou-se à interpretação de várias obras da renascença francesa.

As gravações das apresentações do Coral da UFPB, arquivadas em fitas k-7, em diferentes eventos entre 1978 e 1979, reiteram o que estamos falando. Muito embora parcialmente comprometidos pela ação do tempo, nestes áudios é possível identificar vários elementos. A técnica vocal está em processo de consolidação e há equilíbrio e controle da dinâmica e da articulação. Percebe-se o fraseado musical, bem como o diálogo entre os diferentes naipes. Também é notória a precisão rítmica, que ressalta os aspectos percussivos da nossa música popular, assim como as sutilezas e as entrelinhas dos excelentes arranjos assinados por Arlindo Teixeira, Clóvis Pereira, Damiano Cozzella e o próprio Nelson Mathias.


Célia Bretanha e Nelson Mathias concebiam a música para além dos aspectos técnicos. Para eles, era necessário que os cantores compreendessem poética, filosófica e espiritualmente o que era cantado, a polissemia músico-textual, motivo pelo qual o Coral da UFPB normalmente não se apresentava com partituras, pois, na concepção do seu regente, os cantores deveriam estar livres para ver o maestro e para transmitir com mais liberdade o sentido musical daquilo que se cantava.


O Coral da UFPB, sob a direção desses profissionais, foi premiado em festivais, recebeu o reconhecimento do público e da crítica. A proposta, além de artística e educativa, foi também política. Como atestado em alguns dos relatos coletados na pesquisa que realizamos, repetidas vezes o público surpreendeu-se com a atuação do coro. Mesmo sabendo que o grupo era coordenado por dois expoentes nacionais, frequentemente esperava-se do “Coral da Paraíba” um direcionamento técnico e artístico inconsistente, um repertório predominantemente regional e adornado com o placebo cênico, recurso em voga àquela época e que até hoje continua sendo usado, na maioria das vezes, para mascarar incompetências.
A admiração era proporcional ao preconceito. Por isso, quando o coral interpretava com maestria a literatura de diferentes países, autores e períodos, o silêncio, o encantamento, a curiosidade e o respeito também preenchiam todos os espaços. Os Cantores da Rainha contrariaram expectativas, desconstruíram estereótipos, romperam barreiras. Para conhecer mais sobre essa página da nossa história, ouça o inconfundível som do Coral da UFPB e leia a nossa comunicação no XXII Congresso Nacional da ABEM, realizado em Natal-RN, em 2015.
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

sábado, 18 de novembro de 2017

Música na UFPB

A criação do Núcleo de Extensão Cultural (NEC), no Campus II da Universidade Federal da Paraíba, iniciativa do Reitor Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, contribuiu para dinamizar a vida artística do município de Campina Grande. Há alguns anos, realizei pesquisa com Jeter Maurício da Silva Nascimento com o objetivo de analisar as práticas musicais na referida instituição, entre 1978 e 1982, época na qual o NEC teve importantes conjuntos, dentre os quais o Coral da UFPB, o Quinteto Armorial e o grupo Cordas e Sopros. Nossa meta foi contribuir para a preservação e o resgate da memória e história da cidade, região e do país, oferecendo subsídios para a compreensão da prática coral na época em questão e no momento atual.

O trabalho foi dividido em três partes. Na primeira seção, discutimos os princípios da Nova História Cultural, bem como o papel da Memória e da História Oral. Na segunda, tratamos da criação do Núcleo de Extensão Cultural da UFPB, tendo como base estudos variados, os depoimentos dos professores fundadores e dos sujeitos que viveram naquele contexto. Na terceira, e última etapa, descrevemos a estrutura e o funcionamento do Coral da UFPB, sob a direção dos professores Nelson Mathias e Célia Bretanha. A ênfase, nesta parte, recaiu sobre o processo de seleção dos cantores, o repertório, a metodologia do ensaio, os concertos e as viagens realizadas, bem como outros aspectos sociais, educativos e culturais.


As atividades desenvolvidas no Núcleo de Extensão Cultural abrangiam cursos nas áreas de teatro, fotografia, cinema, artes plásticas e música, incluindo o ensino de diversos instrumentos e matérias teóricas. Estes cursos foram responsáveis pela formação de um grande número de profissionais - eu, por exemplo, iniciei minha vida musical por lá. As contribuições de Nelson Mathias e Célia Bretanha foram determinantes para o surgimento de outros grupos corais na UFPB e na cidade, depois de 1982, dentre os quais o De Repente Canto (UFPB), coordenado por Fernando Rangel, e o Coro em Canto (UFPB-UFCG), que teve como regentes Marisa Nóbrega, Luciênio Teixeira e atualmente é conduzido por Lemuel Guerra.


Hoje, além do Coro em Canto, estão em pleno funcionamento seis outros coros, que integram o Laboratório Coral da Universidade Federal de Campina Grande e também estão vinculados ao Grupo de Pesquisas Unificadas em Artes e Música (GRUNAMUS-CNPq), a saber: Coro Infanto-Juvenil, Coro Feminino, Coro Masculino, Coro Intergeracional do PIATI, CorUNAMUS e Coro de Câmara de Campina Grande. Esses grupos funcionam como coro-escola, auxiliando os estudantes da Licenciatura e do Bacharelado em Música no desenvolvimento das suas habilidades, ratificando a conexão entre ensino, pesquisa e extensão. Para saber mais sobre esse capítulo da nossa história, leia o relato que apresentamos no XIII Encontro Regional da ABEM, na cidade de Teresina-PI, em 2015.


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Ai, Mouraria...

Fomos recebidos em Évora pela professora Liliana Bizineche, que nos levou para a estalagem, na Rua do Raymondo. Lá, no coração das muralhas, ficaríamos hospedados por uma semana numa bela construção histórica.

O maestro Yan Mirkitumov preparou o coro, formado por alunos da graduação em Música. Nos primeiros contatos, construímos a sonoridade do conjunto, lapidamos aspectos técnicos, expressivos e artísticos. A presença do Loiret’s Singers, liderado por Julie Cássia Cavalcante, da pianista Regiane Yamaguchi e do compositor Danilo Guanais deu à Missa de Alcaçus mais vida, força, sentido. O crescimento do grupo foi notório ao longo dos encontros e culminou com o concerto no Teatro Garcia de Rezende, encerrando o IV Festival de Música da Universidade de Évora. Os aplausos ininterruptos e calorosos indicavam o reconhecimento do trabalho.

Nas horas vagas, passeamos. Uma das experiências mais impactantes foi a visita à Capela dos Ossos, uma construção do século XVII que nos fez pensar sobre a vaidade e a fragilidade da vida. A insígnia cravada no pórtico principal assim dizia: “nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos.” O acervo da Sé é deslumbrante, assim como o som do órgão da Igreja de São Francisco. Na Praça do Giraldo, preciosidades na livraria que abrigava autores portugueses clássicos e modernos. No meio das obras, uma rara coletânea de poemas eróticos e sobre outros temas de Bocage, muitos dos quais podem ser lidos na internet (veja aqui). No dia de Todos os Santos, entrei numa loja e me deparei com várias imagens sagradas: Fátima, Conceição e Iemanjá. Fotografei-as, porque fiquei pensando na globalização, no sincretismo religioso, nessa cidade medieval com uma bodega chinesa trans-meta-pós-moderna, cujo proprietário não fala português. O frenesi gastronômico foi intenso. Saboreamos, dentre tantas delícias, açorda, sopa de beldroegas, pezinhos e bochechas de porco preto, tudo isso temperado com coentros, poejos, louro, alho e azeite. A água Penacova e o vinho Pouca Roupa alimentaram nossa imaginação e também o senso de humor. O percussionista carioca David William apresentou-nos um sofisticado cardápio e uma seleta carta de bebidas, quando jantamos na simpática Chouriçaria da Praça, restaurante no qual trabalha como gerente. No dia do concerto, é certo que tive problemas com minha roupa, que já não cabia em meu corpo, parecia ter encolhido.

Naqueles dias no Alentejo fez calor e frio, teve sol, chuva, lua cheia. Comemos e bebemos, conversamos e cantamos, alimentamos o corpo, o espírito, a amizade, os sonhos, os projetos, o instante-já. Quando sentíamos a melancolia dos saciados, e à semelhança de Amália Rodrigues, Graça Arrais nos consolava cantarolando um fado muito conhecido, que ecoava por entre as ruas estreitas de Évora, traduzindo nossos afetos: “Ai, Mouraria... onde um dia eu deixei presa a minha alma.”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 12 de novembro de 2017

Rumo ao comboio, na direção do Alentejo.

Encontrei o professor Paulo Lourenço na Escola Superior de Música de Lisboa. Conheci a estrutura da instituição e tive a oportunidade de apresentar duas obras de minha autoria, Guajira Espúria e Cantate Domine, para o coro da graduação e o de câmara. Os resultados foram positivos, muito embora o curto período de tempo.

Na companhia do maestro, visitei a Fundação Calouste Gulbenkian, uma referência mundial quando o assunto é arte, ciência e educação. Andamos por vários espaços, incluindo a sala do coro, do qual ele é regente titular, bem como o palco principal onde a orquestra acabara de ensaiar sob a direção do maestro emérito Lawrence Foster, que também tive a oportunidade de cumprimentar nos camarins. Almoçamos no amplo restaurante, no andar superior, de cuja varanda contempla-se o jardim. Conversamos sobre a literatura coral luso-brasileira, as obras dos compositores Eurico Carrapatoso e Reginaldo Carvalho. Ouvi-o falar sobre a criação da Associação Portuguesa de Canto Coral, que nascera sob a sua direção e com o apoio da International Federation for Choral Music (IFCM), cuja presidente, Emily Kou Vong, esteve presente à cerimônia inaugural.

Despedi-me do professor e parti em direção à Santa Apolônia, onde estava o amigo Danilo Guanais, que havia chegado de São Paulo há poucas horas. Por conta do transbordo, fomos de lá até à estação Lisboa-Oriente. Como tínhamos tempo e estávamos com fome, resolvemos comer um pouco. Iniciamos nossas aventuras gastronômicas experimentando as queijadas alentejanas acompanhadas por um café cheio, uma bica com um pouco mais de café e a chávena quase totalmente completa. Depois, tentamos mudar nosso bilhete para a primeira classe, mas desistimos porque seria um luxo desnecessário para uma viagem tão curta.

Na hora prevista, chegamos à plataforma. Havia dois trens estacionados. Ficamos no local indicado, aguardando o embarque. Enquanto nós contemplávamos as linhas paralelas, transversais e oblíquas do teto, acompanhando o sol que brincava de esconde-esconde naquela polifonia celestial, um suíço caminhava em círculos, tal qual os ponteiros do relógio no seu braço, sussurrando impropérios num arcaico dialeto Schwiizerdütsch. Não sei como, mas entendi tudo. Ele estava incomodado com a pontualidade lusitana, reclamava porque as portas ainda estavam fechadas, pois já eram dezessete horas e nós partiríamos em dois minutos. Guiado pela intuição, descobri que estávamos no lugar errado. Como bom tenor, disse enfaticamente: Corre, Danilo, nosso trem vai partir! Não sei se o suíço entendeu, mas ele foi o primeiro a disparar na direção da outra locomotiva. Fizemos o mesmo, pois não queríamos perder o transporte nem alimentar essa falsa ideia de que os brasileiros literalmente deixam tudo para o último minuto. Corremos desesperadamente, carregando o peso dos nossos corpos, dos estigmas e das malas, rumo ao comboio, em direção ao Alentejo.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Fátima

Eu já falei sobre Vó Nuca, essa mulher forte, com admirável senso ético e de justiça, devota de Nossa Senhora. Foi com ela que aprendi a rezar o terço e a entoar cantigas marianas, na hora do ângelus, durante a trezena do mês de maio, que culminava com uma procissão pelo bairro São José. Naquele dia de festa, à frente do cortejo, carreguei muitas vezes um quadro ornamentado com a foto das três crianças que testemunharam as aparições da Mãe de Deus em Portugal. Ir à Fátima, durante a minha curta passagem naquelas terras, significava, portanto, conhecer in loco o que ouvira da boca e do coração da minha avó materna.

A viagem até a região central do país foi tranquila, o caminho estava livre. A paisagem bucólica, entrecortada por vilarejos, parece ter diminuído o tempo e a distância. Cheguei antes do almoço e comecei a visita pela pequena casa onde viveram Lúcia, Jacinta e Francisco. No acervo museológico, os móveis e os utensílios eram coadjuvantes daquela narrativa de vida e fé. O balido das ovelhas, soltas no pequeno redil defronte à casa com paredes de pedras acinzentadas, recriava a atmosfera pastoril das primeiras décadas do século vinte, época na qual ocorreram as visões da Senhora do Rosário.

Caminhei sozinho, explorando aquele lugar. Desci pelo longo jardim e parei num dos locais onde a Virgem apareceu. Enquanto um grupo orava, outro, mais afastado, lia passagens bíblicas taciturnamente. Fui à Basílica da Santíssima Trindade, inaugurada nas celebrações dos noventa anos do Milagre do Sol. O templo, que tem sido alvo de muitas críticas por conta da sua modernidade, tem obras de vários artistas, incluindo a irlandesa Catherine Green, que produziu o enorme crucifixo em bronze suspenso sobre o altar e que apresenta o Cristo com traços do homem pré-histórico. Em matéria de arte, tais debates reiteram a prevalência do espírito conservador no ventre das igrejas, respaldando, em certa medida, o pensamento fundamentalista tão em voga em nosso meio e que tem reduzido a possibilidade do diálogo, da reflexão, da mudança, da diferença.

Explorei todo o espaço lembrando o que Dona Nuca contara e cantara, o que cultivei, aprendi e vivi na infância. Passei pela pequena capela, ao lado da Cova da Iria, adentrei o Santuário e prostrei-me silenciosamente, reordenando as memórias, revisitando a história, reverenciando os meus mortos, percebendo, ao longe, o badalar dos sinos e um cantochão familiar. Fechei os olhos, abri o peito, entrei em êxtase e ouvi o eco dos meus temores, de tantos sonhos, da minha gratidão. Renovado, andei um bocadinho pelo mercado, entrando em muitas lojas, à procura de mais uma peça para a minha coleção de imagens que representam as mulheres, as mães, o sagrado feminino, as Marias, Fátima.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Alecrim

Cheguei a Lisboa ao entardecer. Fui recebido pelo amigo Myguel Santos e Castro, que me fez andar por ruas, templos e praças, subindo e descendo ladeiras que me remetiam às cidades históricas brasileiras. Contemplamos o pôr-do-sol às margens do alaranjado Tejo, ouvindo um samba com sotaque moçambicano. Depois, entre taças e talheres, queijos e vinhos, conversamos sobre política, educação e música, comparando os limites e as possibilidades das nossas realidades. Entretidos, só percebemos a premência das horas e dos gestos quando vimos a lua crescente deslizando lentamente na janela de vidro.

Com o dia claro, no Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa continental, contemplei o horizonte azul, entre o mar levemente agitado e o sólido e despido céu. Imaginei o tráfego das caravelas e o vai-e-vem em direção ao Novo Mundo, rasgando o Atlântico pesadamente. Na ida, partiam carregadas com o ouro negro. Na volta, abarrotadas com o mineral. Nesse instante, o vento forte me fez lembrar as muitas aventuras do romance Terra Papagalli, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, uma “narração para preguiçosos leitores da luxuriosa, irada, soberba, invejável, cobiçada e gulosa história do primeiro rei do Brasil.”

Nas curvas da estrada de Sintra, avistei castelos e casarios suntuosos, escondidos por entre a vegetação rica e multicolorida, acentuando a nostalgia que a estação evoca, tudo em tons pasteis, no modo menor, tal qual em Chant d’Autoumne, de Armand Silvestre e Gabriel Fauré. No meu percurso, fui da Boca do Inferno à igreja da Freguesia de São Domingos de Rana, onde ocorrem as folias de reis, época na qual também celebro meu nascimento. Numa das áreas mais nobres da região metropolitana da capital portuguesa, tive a oportunidade de conhecer o Vox Laci, um projeto dedicado ao canto coral, coordenado pelo meu anfitrião e que está em funcionamento há muitos anos.

Fui convidado para uma maratona de ensaios com o coro infantil, o jovem, o comunitário e o de câmara. Ouvi-os, apresentei minhas obras e juntos cantamos Movimentando, O bercinho de Jesus e Na manjedoura. Depois, a surpresa: um arranjo bem simples de uma canção tradicional portuguesa, Alecrim, com arranjo de Gabriel Levy. A ideia era transitar numa pista de mão dupla, ensinando e aprendendo, cantando e ouvindo o repertório daqui e dalhures. Sorrimos muito, descobrindo nossas comunalidades e especificidades, tanto as linguísticas quanto as musicais. Enquanto na minha concepção a peça deveria ser cantada lentamente, por conta do jogo contrapontístico e da harmonia, para os nativos tratava-se de uma dança campesina, festiva, alegre. Como se diz informalmente nas terras lusitanas, a experiência foi brutal. Superamos nossas dicotomias e vimos florescer, gradualmente e de forma espontânea, a música, a amizade e os novos projetos, tal qual o alecrim dourado, que nasce no campo sem ser semeado.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 24 de setembro de 2017

Mão e contramão

Quando iniciei o doutorado em Regência Coral, na Louisiana State University, em Baton Rouge, Estados Unidos da América, tive a oportunidade de experimentar um momento único em minha caminhada pessoal e profissional. Aqueles anos provocariam revoluções, seriam responsáveis por mudanças radicais, verdadeiros divisores de águas, que afetariam o meu fazer/saber musical profundamente. Entre o encanto e o espanto, vivi um enorme choque cultural já nos primeiros meses por conta do clima, da comida, das relações interpessoais. A adaptação foi complexa e gerou desconforto emocional, razão pela qual tive problemas psicossomáticos. Nessa mesma fase, muitos questionamentos vieram à tona, especialmente no que diz respeito a minha práxis pedagógica.

Nos ensaios com o LSU A Cappella Choir, por exemplo, fiquei impressionado com o repertório interpretado, a metodologia de trabalho, a sonoridade do conjunto, que, muito embora formado majoritariamente por alunos da graduação e da pós em canto, soava como um coro e não um grupo de solistas. O emprego do solfejo móvel, as partituras editadas e comercializadas por empresas especializadas, a relação entre os músicos, bem como a atitude colaborativa e proativa de todos os envolvidos naquele processo me faziam pensar no Brasil, na nossa realidade, no meu dia-a-dia e de tantos outros conjuntos e colegas.

Para extravasar, resolvi, então, escrever e refletir sobre o que me incomodava, sobre a minha responsabilidade ao voltar para o Brasil, ponto que já havia sido tratado com o CNPq durante o trâmite para a concessão da bolsa de estudos. Assim, o texto foi nascendo, na velocidade da minha ansiedade, resultando num artigo que foi publicado no site Piano Class, no Rio Grande do Sul. No texto, falo sobre a expansão do canto coral brasileiro, ressaltando os aspectos positivos e negativos dessa ampliação. Discuto, entre outros pontos, a relação entre música popular e erudita no repertório coral, a criação de arranjos e o mercado editorial nacional. Trato também do imediatismo que orienta as ações de muitos maestros, que priorizam o produto e não o processo, isto é, as apresentações públicas em detrimento dos ensaios, e do comportamento eminentemente bancário e passivo, usando a máxima Freiriana, que predomina neste cenário.

Como já mencionado, o texto foi escrito há dezesseis anos e reflete parte das minhas inquietações naquele período. Foi a partir daí que comecei a repensar o meu cotidiano e a reconsiderar verdades arraigadas. Há poucos dias alguém reencontrou esse material e me pediu permissão para publicá-lo novamente, alegando que a temática continuava atual. Fiquei em dúvida, mas prossegui. Longe de querer encerrar as discussões, espero que Mão e contramão: os (des) caminhos do canto coral brasileiro suscite o debate entre os colegas e nos faça rever valores, os paradigmas da nossa filosofia coral.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Reginaldo Carvalho e Heitor Villa-Lobos

O compositor Reginaldo Carvalho foi para o Rio de Janeiro a fim de estudar no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, instituição criada e dirigida pelo maestro Heitor Villa-Lobos, em 1942. No CNCO, entre 1950 e 1952, fez o Curso de Especialização, que formava professores para o ensino de música na educação básica. Foi nesta época que ele conheceu Villa-Lobos, que, além de seu professor, foi também conselheiro e amigo.

A aproximação entre Reginaldo e Villa-Lobos tem sido matéria controversa. No entanto, ela pode ser atestada por meio de vários documentos, um dos quais é a recomendação que o maestro enviara ao professor Paulo Silva e na qual pedia para que ele aceitasse Reginaldo como seu discípulo nas disciplinas contraponto e fuga. Na mensagem, assim está escrito: “Meu caro Paulo, o portador, Reginaldo Vilar de Carvalho, é um dos melhores elementos de vocação absoluta para composição musical. Jovem, entusiasta, franca inclinação e sério. Você não poderia ter melhor discípulo para seguir sua sábia orientação. Por conseguinte, espero que você  o encaminhe. Desde já, agradeço o que você fizer por ele. Um bom abraço do amigo e muito admirador Villa-Lobos. Rio, 3 de dezembro de 1951.”

Foi também por incentivo e recomendação de Villa-Lobos que Reginaldo mudou-se para Paris, onde viveu entre 1953 e 1956. Aliás, foi o próprio Villa-Lobos quem patrocinou a sua viagem de navio e fez uma carta, semelhante àquela do professor Paulo Silva, dirigida, desta vez, ao compositor Paul Le Flem. A dedicatória numa foto autografada por Villa-Lobos também é bastante explícita: “Ao Reginaldo Carvalho, meu amigo, uma esperança e um talento. Lembrança grata de Villa-Lobos. Paris, 23 de março de 1954.” Outro dado interessante é a carta enviada por Mindinha, esposa de Villa-Lobos. Neste documento, escrito em Paris no dia 13 de abril de 1956, ela fala sobre a vida cotidiana, celebra o nascimento do primogênito do casal Carvalho, Serginho, e lamenta a morte do sogro do guarabirense. Reginaldo também escreveu duas crônicas intituladas Villa-Lobos, meu amigo, ainda não publicadas, nas quais ele descreve vários aspectos deste contato profissional e pessoal (veja vídeo).

A nomeação de Reginaldo Carvalho, em 1957, para fundar e dirigir o Instituto Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, hoje ligado à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, reforça a conexão entre os dois, ajudando a dirimir dúvidas pontuais. As pesquisas continuam nesse sentido, porque muito ainda há para ser revelado. Por meio do resgate e da interpretação de variados documentos, nunca antes analisados, nossa memória será preservada, os fatos serão (re) contados, (des) estabelecendo assim (in) verdades, fazendo com que acontecimentos e personagens relevantes da música paraibana e brasileira possam ocupar o lugar e o protagonismo que o tempo e a história lhes reservaram.


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Reginaldo Carvalho e O Tablado

Uma das fases mais produtivas do compositor Reginaldo Carvalho, no campo da música incidental, foi no Rio de Janeiro entre o final da década de cinquenta e o início dos anos sessenta e, posteriormente, entre o final da década de sessenta e o início dos anos setenta, quando do seu retorno da França. O compositor trabalhou durante muito tempo para O Tablado, grupo fundado por Maria Clara Machado, em 1951.
Maria Clara Machado é uma referência no cenário literário e teatral brasileiro, tendo escrito livros e peças para adultos e crianças, a maioria delas estreadas por sua própria companhia. Entre os anos cinquenta e sessenta, O Tablado apresentou cinco espetáculos, sendo quatro infantis e um adulto, para os quais Reginaldo Carvalho compôs música original: O Embarque de Noé (1957), A Bruxinha Que Era Boa (1958), O Cavalinho Azul (1960), Andrócles e o Leão (1966) e As Interferências (1966). É importante ressaltar que, até o momento, não foram encontrados os manuscritos e/ou cópias das partituras d'A Bruxinha Que Era BoaAndrócles e o Leão e As Interferências.
O Embarque de Noé é uma farsa bíblica em dois atos, que, segundo notas do programa, “foi escrita e encenada sem que a autora cogitasse da natureza do público a que estaria destinada.” O enredo tem como base o dilúvio, descrevendo os momentos que antecederam o embarque na arca, a partida para a longa viagem e da qual participariam seres humanos e bichos. Muito embora recheada de passagens engraçadas, a peça foi criticada pela forma como tratou o mito; por seus anacronismos, representados sobretudo por objetos, elementos nonsense, que iam de encontro às expectativas dos especialistas; e pela indefinição do público alvo, se adulto ou infantil. Com relação à música, o manuscrito d’O Embarque de Noé contém partes cavadas para flauta, fagote e piano. Ainda não achamos aquela referente à bateria. Na parte do fagote identificam-se as seguintes seções: I - Andante; II - Largo (monólogo); III - Ciranda; IV - Alegre (Fim do primeiro ato). V - Lentamente (Ballet dos bichos, início do segundo ato). VI - Alegreto (com júbilo), final. No final da parte de fagote, o compositor indica: Tempestade (“sonoplastia”), uma segunda versão do monólogo (movimento II) e um tema para a “Entrada dos bichos”.
A pesquisa que estamos desenvolvendo tem como objetivo catalogar, analisar e editar estas obras, evidenciando a relação texto-imagem-música na construção da narrativa cênica, teatral. Os resultados parciais foram apresentados recentemente no I Simpósio Internacional de Investigação em Arte, realizado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Portugal, e publicados na European Review of Artistic Studies.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 3 de setembro de 2017

Here I Am, Lord.

Here I Am, Lord é o título de um hino muito popular nos Estados Unidos da América. A obra, composta em 1981 por Dan Schuttle e baseada nos livros de Isaías (Capítulo 6) e Samuel (Capítulo 3), é frequentemente cantada na liturgia católica em diversas ocasiões ao longo do ano. Logo após a minha chegada em Baton Rouge, ouvi pela primeira vez esta canção numa missa na capela Christ The King, no campus da Lousiana State University. Naquela manhã acinzentada e fria de domingo, fui aquecido por tais versos, que me fizeram pensar sobre os meus dias naquele tempo-lugar.

Alguns meses depois, quando entrei para o coro da First United Methodist Church, sob a direção de Lammar Drummonds, encontrei-me novamente com a obra, desta feita com o arranjo para coro misto a quatro vozes e piano escrito por Ovid Young. No ano seguinte, já regendo o coro da Zachary United Methodist Church, não tive dúvida sobre com qual música começar a minha temporada naquela comunidade. Assim que cheguei, pedi para que os cantores abrissem o hinário na página 593 para ensaiarmos o referido cântico. No meu último culto na ZUMC, na Páscoa, tive a oportunidade de interpretá-la mais uma vez, razão pela qual adquiriu um valor simbólico muito importante, marcando momentos de transição em minha trajetória pessoal e profissional.

De volta ao Brasil, agora com o Madrigal da UFPI, inseri o mesmo arranjo no repertório do grupo. A peça passou a fazer parte dos nossos ensaios e foi estreada no I Festival Internacional de Música da UFPI, sob a direção do maestro norte-americano Gary Packwood com Bruna Vieira ao piano. Muito embora inexperiente, porque tinha apenas seis meses de fundação, o Madrigal trabalhou com afinco, identificando-se plenamente com a mesma. Ano passado, trabalhei a obra com o Coro de Câmara de Campina Grande, mas não cheguei a apresentá-la. Há poucos dias, não sei por qual razão, resolvi resgatá-la, tendo em vista a preparação do nosso Concerto para o Advento.

Os fatos e as reflexões da última semana me fizeram conectar pontos e perceber a sintonia das coincidências. Ainda há muito para construir, compartilhar, aprender, dizer, cantar, sentir, ouvir, tocar, transformar. E como meu trabalho está inacabado, é preciso, portanto, prosseguir com o ofício. Foi por isso que ontem, ao ouvir Here I Am, Lord (veja vídeo), renovei propósitos e recobrei forças no intuito de superar limites, vencer adversidades, sobrepujar medos. As provações só nos fortificam e tanto a música quanto a mística têm papel fundamental nesse processo de restauração emocional e espiritual. Assim, tal como o profeta ao ouvir a voz do Senhor perguntando quem Ele deveria enviar, quem iria em nosso nome, eu respondi: Eis-me aqui. Envia-me!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Por isso, minha gratidão, Teresina.

A primeira vez que estive em Teresina foi em outubro de mil novecentos e noventa e dois. Fui para a capital piauiense por conta do concurso público para professor da Universidade Federal do Piauí. Passei uma semana por lá, fazendo provas, semeando novas amizades. Voltei para casa feliz, aprovado, com a imagem dos fins de tarde alaranjados e o aroma dos cajueiros. Aqueles dias foram suficientes para compreender o sentido da expressão bê-erre-o bró, usada em referência ao quadrimestre final do ano e baseada nas últimas sílabas dos meses que o compõem, e que sintetiza as altas temperaturas da estação.

No ano seguinte, no dia do meu aniversário, fui contratado. Migrei para lá com o pouco que tinha, algumas roupas e livros, bem como todos os sonhos que poderia carregar comigo. Ao chegar, fui recepcionado pelo maestro Emmanuel Coelho Maciel, que me acolheu com carinho paternal. A professora Lúcia de Fátima também me recebeu como uma mãe, sempre muita atenciosa. Depois, quando Jane chegou, a caminhada ficou ainda melhor.

Gradualmente, conheci a cidade, incluindo sua história, seus lugares, suas gentes e seus sabores. Cruzei com o Cabeça-de-Cuia, o Troca-Troca, a Frei Serafim, a igreja de São Benedito, o Encontro dos Rios, o doce de buriti, a cajuína com Maria-Isabel. Interagi com vários alunos, profissionais e grupos, dentro e fora da universidade. Convivi com colegas como Reginaldo Carvalho, regi o Madrigal Vox Populi, conheci o Projeto Música Para Todos e também vi nascer, tocando flauta ao lado de Zé Rodrigues, a Orquestra Sinfônica de Teresina. Fiquei impressionado com o trabalho do professor Marcílio Flávio Rangel. Radicado na Chapada do Corisco há muitos anos, esse paraibano entrou para a história daquele lugar por conta das suas ações no campo humanitário e educacional. Seu legado está presente na Casa Dom Barreto, na Escola Popular Madre Maria Vilac, no Instituto Dom Barreto, onde Vinicius e Sofia estudaram. Foi para meus filhos e seus colegas que compus várias canções, muitas das quais ainda estão presentes no cancioneiro daquele educandário.

A Universidade Federal do Piauí foi também minha escola. Lá aprendi a lecionar, a ampliar meu espírito empreendedor e a participar ativamente da administração universitária, percebendo os limites e possibilidades da gestão pública. Naquela instituição, atuei de forma intensa e vivi uma das maiores histórias de amor da minha vida ao lado dos integrantes do Madrigal da UFPI (veja vídeo), grupo que regi por quatro anos e no qual tive grandes cantores, muitos dos quais hoje são meus amigos e frequentam a minha casa, o meu coração. Como o tempo decanta tudo, encontrei hoje essas memórias guardadas bem no fundo do peito. Por isso, minha gratidão, Teresina.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

*Para Teresina, no dia da celebração dos 165 anos.

domingo, 13 de agosto de 2017

Se não se amarrar, não vende!

Tocar ou cantar em grupo é uma tarefa desafiadora, pois, além de interpretar o repertório, executando-o no tempo, afinado e com técnica, é preciso observar o outro, interagindo, ao mesmo tempo, de forma autônoma e interdependente. Para ler o que há por trás de cada olhar e movimento, um grupo necessita ensaiar de forma consistente por um período considerável de tempo. Muitas vezes, as informações são sutis e passadas discretamente, suprimindo toda e qualquer necessidade de verbalização. Mas esse conhecimento só brota com a intimidade, que, por sua vez, é fruto de uma convivência saudável e pautada no respeito e na confiança.

Como regentes, desenvolvemos um cabedal de gestos com o qual nossos coros, bandas e orquestras se familiarizam. Muito embora pretensamente universais, eles carregam elementos idiossincráticos, com os quais chamamos a atenção para pontos específicos, dentre os quais a sonoridade, o fraseado, a precisão rítmica, os formatos das vogais, as passagens mais complexas. O olhar fixo nas mãos, o vai-e-vem do tronco e a forma como nos dirigimos para um determinado naipe falam sobre as verdades construídas ao longo de várias horas de ensaio. Quanto mais conseguimos ler as entrelinhas, captando, assim, o não-dito, mais diligente e carregada de sentido será a nossa performance. Quando há correspondência mútua, aí, então, a fruição estética se torna mais intensa, atingindo também o público, que reage proporcionalmente ao grau de envolvimento e cumplicidade que demonstramos no palco.

No documentário Sob o Céu de Zabé (veja o vídeo), produzido por Márcia Paraíso, em 2014, e que trata da vida e obra de Isabel Marques da Silva (1924-2017), mais conhecida como Zabé da Loca, uma passagem chama a atenção. Pitó, que integrava o terno-de-zabumba dessa famosa agricultora-musicista que viveu no Cariri Oriental paraibano, dá um depoimento singular, no qual, ao descrever suas experiências, diz que “a música é uma entremelagem de juntamento.” Analisando a sua fala, nota-se que, ao usar o vocábulo entremelagem, provavelmente uma corruptela do verbo francês entrêmeler, ele reitera o sentido de entrelaçamento que as práticas de conjunto, tanto instrumentais quanto vocais, evocam, convidando-nos também a refletir sobre a complexa relação que se estabelece entre o indivíduo e o grupo nestas e em outras instâncias do saber/fazer musical.

O emblemático discurso do percussionista revela a força da construção coletiva e reforça a crença de que para tocar e cantar com outras pessoas é preciso observar muito mais que as frequências, as durações e suas respectivas articulações e variações de intensidade. Sem diálogo e interação não há conjunto. Por isso, Pitó, de forma sábia e graciosa, é enfático ao comparar um grupo musical a um leirão de coentro dentro de um balaio num dia de feira. Nos dois contextos, “se não se amarrar, não vende!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 30 de julho de 2017

Utopia e ousadia

O 11th World Symposium on Choral Music (WSCM), promovido pela International Federation for Choral Music (IFCM), aconteceu em Barcelona. Nesta edição, participaram grupos convidados e selecionados dos cinco continentes, que interpretaram repertórios variados, incluindo obras de referência da literatura, assim como novas composições encomendadas especialmente para o evento.

Muito embora todos os coros participantes tenham apresentado elevado grau técnico e artístico, alguns se destacaram. O Ansan City Choir, da Coreia, regido pelo Dr. Shin-Shwa Park, por exemplo, além do domínio músico-vocal, ensinou-nos sobre a conexão entre corpo-movimento-som. O concerto na Sagrada Família, e do qual participaram mais de duzentos cantores da Catalunha, foi todo dedicado à música sacra da região, incluindo obras da Idade Média aos dias atuais. A culminância foi ouvir Nigra Sum, de Pablo Casals, que acompanhou parte da construção daquele templo e escreveu este moteto em homenagem à Virgem Negra de Montserrat. Foi uma experiência única, mística e musical, que nos enlevou, um verdadeiro bálsamo para os ouvidos e o coração.

O WSCM também ofereceu uma programação acadêmica. A conferência da professora Sharon Paul, intitulada Regendo com o cérebro: técnicas para aumentar a capacidade de engajamento dos cantores, foi uma das mais concorridas, reiterando a correlação entre autonomia e interdependência na prática coral. A música brasileira também esteve nas discussões. Enquanto Isak Lucena, da Universidade Potiguar, fez uma retrospectiva da nossa tradição coral do período colonial até os dias atuais, destacando autores e obras, eu me detive no século XX, mais particularmente no trabalho do compositor Reginaldo Carvalho. Em minha comunicação, destaquei os momentos mais importantes da trajetória deste paraibano, falando do seu estilo composicional, analisando pequenos trechos de suas obras, usando como exemplo as interpretações do Coro de Câmara de Campina Grande, gravadas recentemente em Nova Iorque. Houve, ainda, uma palestra dedicada às composições para vozes femininas, de Heitor Villa-Lobos, fruto das pesquisas de Elian Hingrid Kujawinski.

A décima primeira edição do WSCM nos fez refletir sobre muitos aspectos da nossa práxis. Precisamos intensificar as ações formativas, tanto sob a perspectiva do regente quanto dos coralistas. Ao mesmo tempo, temos que organizar o movimento no âmbito nacional, agregando o maior número de coros possível, a exemplo do que já fazem tantas associações e federações, dentre as quais a ACDA e a ADICORA. Sem tal organismo, nossa inserção no panorama internacional e em eventos deste porte será limitada, fruto de iniciativas pessoais e não de um todo organizado e legitimado por seus pares e a sociedade. A estrada é longa e repleta de curvas. Continuemos a caminhada, alimentando as utopias, sem esquecer, é claro, da ousadia.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

VIII FIMUS e I FIMUS Jazz

Iniciamos a contagem regressiva para a oitava edição do Festival Internacional de Música de Campina Grande e a primeira versão do FIMUS Jazz. Com o coração a mil, estamos finalizando os detalhes. É sempre bom lembrar que a realização de um evento deste porte, em nosso país e no atual contexto, é uma missão difícil. Sem o comprometimento daqueles que gerenciam as instituições promotoras do Festival, mais notadamente a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba, a Universidade Estadual da Paraíba e a Universidade Federal de Campina Grande, nada disso seria possível.

Este ano, nossos convidados vêm de diferentes estados brasileiros, dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Alemanha. A flautista Dagmar Wilgo e a cravista Luciana Câmara apresentarão o programa Duo Tweets, com obras de diferentes períodos e que têm como base o canto dos pássaros. O norte-americano Michael Pendowski vem da Auburn University para lecionar saxofone e também reger a nossa Big Band. Mais de cem pessoas integram as equipes de produção do Festival, que este ano recebe cerca de trezentos alunos.

Oito grupos da Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia participam dos concertos que acontecem à tarde, no Teatro Municipal e também nas cidades circunvizinhas. Em todos os conjuntos, notamos um forte diálogo entre tradição e vanguarda, a combinação do regional e do universal, elementos que demonstram o processo de reinvenção da nossa música. Ao longo da semana estão previstos lançamentos de CDs, incluindo Tempo Oportuno, de Paulo César Vitor. Outros grupos, como, por exemplo, o Trio Paraibô e o Tryá também farão o mesmo. No que diz respeito ao aspecto didático-pedagógico, oferecemos, pela primeira vez, oficinas de guitarra, baixo elétrico, bateria e piano com ênfase na música popular e no jazz. Hércules Gomes, uma das revelações da nova safra de pianistas brasileiros, além de tocar, também ministrará aula ao lado de Jow Ferreira, Cléber Campos e Júnior Primata. A inclusão da Missa de Alcaçus, de Danilo Guanais, cuja estreia ocorreu recentemente no Carnegie Hall, sob minha direção, também promete ser um grande momento da próxima semana. A obra será interpretada pelo Coro de Câmara de Campina Grande, Licio Bruno, Fellipe Oliveira, Alzeny Nelo e Regiane Yamaguchi.

O Festival Internacional de Música de Campina Grande já está no calendário de festivais do Brasil, sendo, portanto, uma excelente oportunidade para estudantes e profissionais renovarem seus horizontes. Para a população da Serra, trata-se de mais uma opção de entretenimento neste mês de férias. É muito bom ver que a Rainha da Borborema, ainda no clima junino, já se prepara para uma semana de grandes emoções com a chegada do VIII FIMUS e do I FIMUS Jazz.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com) 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

O canto coral na Paraíba: Tom K

Antônio Carlos Batista Pinto Coelho, mais conhecido como Tom K, nasceu em Recife, Pernambuco, mas há muitos anos adotou a capital paraibana como sua terra natal. Graduado em Violão pela Universidade Federal da Paraíba, tornou-se uma referência no mundo musical por sua atuação como compositor e regente. Foi no final dos anos oitenta que tive o prazer de conhecê-lo, quando ingressei no curso de Licenciatura em Educação Artística, com habilitação em Música, no Campus I da UFPB. Tom K lecionava na graduação e foi um dos meus primeiros professores de Regência. Naqueles anos em João Pessoa, tive a oportunidade de acompanhar o trabalho que desenvolvera com o Madrigal Pedro Santos, indiscutivelmente um dos melhores coros que o estado já teve. Depois, por curto período, fui seu assistente no coral da Fundação Musical Isabel Burity.

Por conta da minha mudança para Teresina, passamos algum tempo afastados. Esse fato foi revertido quando nos reencontramos em Salvador. Na capital baiana, entre 1996 e 1999, fomos colegas no Mestrado em Música, na classe do professor Erick Vasconcelos. Vivemos intensamente aqueles três anos. Convivíamos diariamente na Escola de Música, no Vale do Canela. Caminhamos juntos, subindo e descendo ladeiras, pesquisando e conversando, às vezes em diferentes bibliotecas e salas, quase sempre no nosso apartamento, nos finais de semana. A avenida Princesa Isabel era reduto paraibano, o refúgio no qual eu, Jane, Tom K, Maurílio Rafael e Romério Zeferino, entre garfadas e goles, compartilhávamos nossas experiências, nos sentíamos em família. Há tanto o que contar sobre Tom K em terras soteropolitanas que certamente seria possível escrever um romance.

De modo geral, sua música é alegre, leve, reflete o seu espírito sagaz. O arranjo do Xote das Meninas, por exemplo, cantado mundo afora, eu considero um clássico. Ao longo de todos esses anos, Tom K contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da prática coral em vários campos. Foi ele o responsável pela criação de muitos grupos e também a iniciação e formação de um grande número de regentes na região. Eu, como já disse, orgulhosamente me incluo neste rol. Ele também compôs e arranjou inúmeras obras, propôs aquilo que denomino de repertórios possíveis, com graus de dificuldade variados e que atendem às necessidades de diferentes conjuntos. 

É por isso que, neste momento, todas as homenagens lhes são pertinentes e justas. Recebe, portanto, maestro-amigo, nosso abraço de gratidão, nosso respeito, nosso reconhecimento por tudo o que você fez, nossos votos de felicidades. Que a aposentadoria seja apenas o início de uma nova fase e que você continue embelezando o mundo com sua música-poética, e prossiga construindo esse legado que incontestavelmente já entrou para a história da música no estado da Paraíba.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Só para amar...

Hoje é um dia especial. Meus pais celebram cinquenta anos de matrimônio. Fazendo as contas por alto, cinco décadas totalizam aproximadamente dezenove mil dias, quase meio milhão de horas vividas por duas pessoas sob o mesmo teto. Numa época em que tudo é acelerado, instantâneo e líquido, esses números parecem uma eternidade.

Se nós pudéssemos projetar o filme da vida de vocês, Francisco e Luzenilde, certamente teríamos motivos para sorrir e chorar, pois a vida de um casal é uma colcha de retalhos formada pela dicotomia sim-não, dor-prazer, palavra-silêncio. A vida a dois não é fácil. Ela é repleta de desafios, limites, possibilidades. Cada um deve preservar a sua essência e aceitar a singularidade do outro. É mais ou menos assim como vocês: enquanto um é do Treze, o outro é do Campinense. Alguém me disse, certa vez, que um casamento só dá certo quando os dois são diferentes, quando há um besta e um sabido. O difícil é definir os papeis de cada um nesse jogo de permutas constantes. Meus vizinhos celebraram bodas de diamante, ano passado. Recentemente, Seu Silvério faleceu. Dona Lourdes perdera o homem da sua vida, o amigo inseparável, o companheiro fiel com o qual conviveu sessenta anos. Certo dia, perguntou-me atônita: e agora, meu filho, com quem eu vou arengar? Ouvimos nossas reticências como resposta.

Esta semana, enquanto dirigia, escutei numa emissora local a canção Foi Deus Quem Fez Você, clássico imortalizado na voz de Amelinha. As emoções vieram à tona evocando as memórias da nossa casa, na Rua das Imbiras, quando ouvíamos música num pequeno aparelho de som, deitados no chão vermelho, escuro e denso como o sangue que corre no coração dos amantes. Naquela hora, pensei em vocês, nas tantas narrativas que escrevemos, na celebração que estava por começar, em todos os membros da nossa família.

Posteriormente, quando eu estava escolhendo o que iria oferecer-lhes para marcar essa data tão significativa, decidi comprar um relógio e um perfume. O seu presente, meu Pai, é para lembrá-lo que o amor, diferentemente do tempo cronológico, não pode ser fatiado, medido, visto que o tempo de quem ama confunde-se com o eterno. É por isso que esses cinquenta anos passaram rapidamente. Vocês nem perceberam e, de repente, já eram pais, avós, viram a casa ficar vazia. Para você, minha Mãe, escolhi um perfume, porque eu acredito que o amor é a fragrância de Deus. Vaporizem-no para que todos sintam o seu odor. Que tudo o que vocês tocarem, nos próximos cinquenta anos, fique impregnado com o aroma do Divino, e que todos nós, tal como Luiz Bandeira, na sua célebre canção, possamos continuar cantando que “foi Deus que fez a gente somente para amar. Só para amar...”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 5 de março de 2017

Academia de Música Santa Cecília

A Academia de Música Santa Cecília (AMSC) é um projeto da Diocese de Campina Grande, realizado em parceria com a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba e a Universidade Federal de Campina Grande por meio de um acordo de cooperação técnica. A AMSC tem como objetivo atuar no campo educativo e artístico, atendendo, inicialmente, alunos entre 8 e 17 anos. A nossa ação tem caráter inclusivo e visa, além dos aspectos técnicos, a integração e a interação entre crianças e adolescentes oriundos de diferentes contextos econômicos, sociais e culturais.

As atividades da AMSC contemplam múltiplas dimensões, dentre as quais o canto coral, a teoria e a flauta doce. Além de estimular a formação profissional e o aprofundamento nestas áreas, pretendemos também sensibilizar e socializar os participantes usando a música como elemento fundamental. As turmas, organizadas por faixa etária, têm entre 10 e 20 alunos, e a carga horária semanal é de 3 horas-aula. Os professores-bolsistas, alunos da graduação em Música da UFCG, ministram aulas e elaboram material didático, tendo a oportunidade de avaliar na prática, e de modo orientado e supervisionado, os resultados das investigações do Grupo de Pesquisa em Regência, Canto e Educação Musical (GREC-CNPq). Em acréscimo aos conteúdos específicos, os alunos da AMSC têm aulas de técnica vocal e interpretam repertório variado, apresentando-se regularmente em distintas localidades. O repertório do Coral da AMSC, por exemplo, contempla tanto música sacra quanto secular, pois queremos que os alunos tenham um amplo leque de oportunidades, expandam seus horizontes perceptivos. Em dezembro do ano passado, o grupo estreou no Mosteiro Santa Clara, durante a realização do Concerto para o Advento, cantando canções originalmente escritas para vozes infanto-juvenis (veja o vídeo).

Para a viabilizar o projeto, várias fontes de financiamento estão sendo estudadas. Os gestores da AMSC têm buscado parceiros, pessoas físicas e jurídicas, que possam contribuir economicamente com a iniciativa, ajudando a manter todas as atividades propostas em andamento. Todo semestre, os alunos são convidados a contribuir com o pagamento da taxa de inscrição, cujo valor é simbólico, dispensando-se aqueles que não dispõem de recursos financeiros. O Parque Tecnológico é o órgão responsável pela captação e gerenciamento do empreendimento.

A AMSC tem coordenação geral do Padre Luciano Guedes; Arlindo Almeida responde pela parte administrativa; eu assino a direção pedagógica e artística. A parceria entre a Catedral Diocesana, o PaqTcPB e a Universidade Federal de Campina Grande alarga as possibilidades para as práticas musicais na Rainha da Borborema, evidencia a relevância desse tipo de ação colaborativa, ratifica a necessidade de expandirmos nossos campos de atuação para além dos muros e paredes institucionais, democratiza o acesso à arte, socializa o conhecimento e o patrimônio cultural de diferentes países e períodos históricos, contribui para a consolidação da cidadania.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Não sei, só sei que foi assim!

No próximo mês de maio, estarei em Nova Iorque, debutando no Carnegie Hall, uma das salas mais famosas dos Estados Unidos. Na ocasião, participarei como convidado da série Distinguished Concerts International New York. Nesta temporada, que inclui grandes nomes do cenário musical norte-americano, sou o único regente brasileiro, fato que muito me honra, uma enorme responsabilidade.

Durante o processo de produção deste concerto, discutimos o repertório, selecionamos os grupos participantes e também a logística do evento. Por conta da relevância da proposta, decidi inserir no programa uma obra brasileira. Foi aí que surgiu a ideia da Missa de Alcaçus, de Danilo Guanais, paulista radicado no Rio Grande do Norte há vários anos. Escrita originalmente em 1996 para celebrar os trinta anos do Madrigal da UFRN, desde a estreia na capital potiguar, sob o comando do maestro André Oliveira, a missa já foi interpretada em diferentes partes do Brasil e no exterior. Eu mesmo já tive a oportunidade de regê-la duas vezes.

Convidei Danilo Guanais para fazer parte do projeto, provocando-o a reescrever a referida composição. Sugeri que nessa nova versão, que celebra os vinte anos do seu lançamento, ele tornasse a obra ainda mais atrativa e acessível. E assim ele procedeu, preservando o texto em latim e os ritmos de dança do Nordeste do Brasil, substituindo a parte do violão e da orquestra de cordas por um piano. Na estreia, contaremos com a participação de quase setenta cantores oriundos do Brasil, da França e dos Estados Unidos. O Coro de Câmara de Campina Grande abraçou o projeto sem hesitação, assim como o Tutti Choir BSB, sob a direção de Daniel Moraes, e o Loiret’s Singers, da França, sob a liderança de Julie Cássia Cavalcante. Regiane Yamaguchi, que integra o quadro docente da Universidade Federal de Campina Grande, será a pianista. O compositor também estará conosco em Nova Iorque, proferindo palestra sobre a música brasileira, acompanhando os ensaios e a performance, testemunhando esse momento ímpar das nossas trajetórias.

Estrear a Missa de Alcaçus, no Carnegie Hall, é celebrar a arte armorial, da qual Danilo Guanais é um dos seus representantes na contemporaneidade. Certamente, o aroma do Nordeste invadirá as ruas de Manhattan e por entre seus arranha-céus ecoarão as vozes e os romances da região de Alcaçus, coletados por Deífilo Gurgel e ressignificados nesta peça, bem como os gestos políticos e poéticos de Ariano Suassuna, que, diga-se de passagem, nunca pediu a bênção ao Tio Sam. Nesta reta final, lembrei-me de Gilberto Gil falando sobre o cosmopolitismo de Campina Grande e Nova Iorque (veja o vídeo) e fiquei pensando que se, algum dia, me perguntarem como tudo isso aconteceu, talvez, tal qual Chicó no Auto da Compadecida, eu diga, entre o riso e o espanto, a fé e a descrença: “Não sei, só sei que foi assim!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)