segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Se queres ser universal, canta primeiro a tua aldeia

Encerramos, no último sábado, 12 de setembro, a temporada de concertos do projeto SESC Partituras, que este ano, na Paraíba, homenageou Reginaldo Carvalho. Ao todo, realizamos três récitas, sendo uma na Sala Radegundis Feitosa, na UFPB, em abril; outra em Campina Grande, em julho, durante o Festival Internacional de Música; e a derradeira, em Guarabira, brejo paraibano, terra natal do referido compositor. Este concerto final, apresentado pelo Coro de Câmara de Campina Grande, foi todo dedicado à música coral, incluindo obras sacras e seculares, bem como arranjos escritos por Reginaldo Carvalho em diferentes momentos da sua atuação como compositor e regente. Dentre as peças sacras, interpretamos o Kyrie, da Missa Breve Nº 2, em Dó menor, para coro misto a cappella, escrita em Paris, em 1954, e dedicada ao Frei Adriano Hypólito, um dos seus professores no Convento Ipuarana, em Lagoa Seca, no início da década de quarenta. É importante observar que a missa está incompleta e até o momento só foram encontradas duas partes, o Kyrie e o Glória. Merece destaque também a estreia do Bendito de São Benedito, moteto cuja melodia foi coletada na cidade de Mulungu, nas proximidades de Guarabira.

A plateia reagiu positivamente e teve a oportunidade de conhecer detalhes da vida e da música de Reginaldo Carvalho. Ao término da apresentação, relatos variados do público. Para muitos, aquele foi o primeiro contato com o compositor. Um dos espectadores, habitante da localidade, desculpou-se por desconhecer um guarabirense tão ilustre. Naquele instante, percebemos, novamente, que o trabalho investigativo e artístico que desenvolvemos na Universidade Federal de Campina Grande ultrapassava os limites da academia, colaborando para a preservação da nossa memória e da história da música brasileira.

Representantes do poder público municipal estavam presentes e falaram dos projetos em andamento, no âmbito da Secretaria de Cultura, e que têm como objetivo divulgar a produção do maestro. Em breve, Guarabira terá um museu e nele haverá um espaço especial para Reginaldo Carvalho. Naire Vilar, filha do homenageado, prestigiou o evento e aproveitou a oportunidade para conhecer a cidade, visitando os lugares onde viveram seus antepassados e por onde provavelmente seu pai andou, brincou e ouviu muitas das melodias que serviram de base para seu processo criativo. No roteiro, ela percorreu a região na qual estava localizada a Fazenda Cachoeira dos Guedes, um dos redutos familiares.

No retorno, sentindo o vento na subida da Serra, meu pensamento voava enquanto eu folheava o livro Guarabira: nos passos de uma criança, escrito por Gilberto Vilar, irmão de Reginaldo Carvalho. A cada curva, mais revelações, outros mistérios por desvendar, inspirado pelo pensamento de L. Tolstoi, que assim diz: “Se queres ser universal, canta primeiro a tua aldeia.” Continuemos, portanto.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)