segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Se queres ser universal, canta primeiro a tua aldeia

Encerramos, no último sábado, 12 de setembro, a temporada de concertos do projeto SESC Partituras, que este ano, na Paraíba, homenageou Reginaldo Carvalho. Ao todo, realizamos três récitas, sendo uma na Sala Radegundis Feitosa, na UFPB, em abril; outra em Campina Grande, em julho, durante o Festival Internacional de Música; e a derradeira, em Guarabira, brejo paraibano, terra natal do referido compositor. Este concerto final, apresentado pelo Coro de Câmara de Campina Grande, foi todo dedicado à música coral, incluindo obras sacras e seculares, bem como arranjos escritos por Reginaldo Carvalho em diferentes momentos da sua atuação como compositor e regente. Dentre as peças sacras, interpretamos o Kyrie, da Missa Breve Nº 2, em Dó menor, para coro misto a cappella, escrita em Paris, em 1954, e dedicada ao Frei Adriano Hypólito, um dos seus professores no Convento Ipuarana, em Lagoa Seca, no início da década de quarenta. É importante observar que a missa está incompleta e até o momento só foram encontradas duas partes, o Kyrie e o Glória. Merece destaque também a estreia do Bendito de São Benedito, moteto cuja melodia foi coletada na cidade de Mulungu, nas proximidades de Guarabira.

A plateia reagiu positivamente e teve a oportunidade de conhecer detalhes da vida e da música de Reginaldo Carvalho. Ao término da apresentação, relatos variados do público. Para muitos, aquele foi o primeiro contato com o compositor. Um dos espectadores, habitante da localidade, desculpou-se por desconhecer um guarabirense tão ilustre. Naquele instante, percebemos, novamente, que o trabalho investigativo e artístico que desenvolvemos na Universidade Federal de Campina Grande ultrapassava os limites da academia, colaborando para a preservação da nossa memória e da história da música brasileira.

Representantes do poder público municipal estavam presentes e falaram dos projetos em andamento, no âmbito da Secretaria de Cultura, e que têm como objetivo divulgar a produção do maestro. Em breve, Guarabira terá um museu e nele haverá um espaço especial para Reginaldo Carvalho. Naire Vilar, filha do homenageado, prestigiou o evento e aproveitou a oportunidade para conhecer a cidade, visitando os lugares onde viveram seus antepassados e por onde provavelmente seu pai andou, brincou e ouviu muitas das melodias que serviram de base para seu processo criativo. No roteiro, ela percorreu a região na qual estava localizada a Fazenda Cachoeira dos Guedes, um dos redutos familiares.

No retorno, sentindo o vento na subida da Serra, meu pensamento voava enquanto eu folheava o livro Guarabira: nos passos de uma criança, escrito por Gilberto Vilar, irmão de Reginaldo Carvalho. A cada curva, mais revelações, outros mistérios por desvendar, inspirado pelo pensamento de L. Tolstoi, que assim diz: “Se queres ser universal, canta primeiro a tua aldeia.” Continuemos, portanto.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 29 de agosto de 2015

Deus já fez o céu bem alto foi para viver sossegado

Eventualmente, regentes corais passam por momentos delicados, especialmente quando o assunto é música sacra. Vários são os casos. Alguns cantores, com certas restrições a esse tipo de repertório, evitam interpretá-lo. Há os que não o fazem por conta da orientação doutrinária e dos vínculos religiosos. Outros são ateus. Há ainda quem cante parcialmente, dublando ou omitindo passagens do texto, palavras e expressões que não estão em consonância com os princípios que professam. O problema se agrava quando certos integrantes, muitas vezes essenciais dentro de um grupo, decidem não participar de uma apresentação pública, porque a mesma será realizada num templo. Para eles não importa a denominação e se o concerto é ou não parte de um serviço litúrgico. Simplesmente, não se envolvem.

É preciso cuidado no trato da questão, pois a liberdade religiosa, um direito constitucional, é uma opção pessoal e está diretamente vinculada à história de vida de cada indivíduo. No entanto, músicos, por mais fervorosos que sejam nas suas convicções espirituais, não podem ignorar a literatura coral produzida por diferentes tradições religiosas, especialmente quando os mesmos atuam em contextos laicos. Sabe-se, por exemplo, que, há alguns anos, um coro profissional brasileiro, mantido com os cofres públicos, só cantou uma obra com temática do candomblé por força de mandato judicial. A exclusão do repertório ligado à cultura afro-brasileira dos acervos dos nossos coros e das salas de concerto é consequência de vários fatores, dentre os quais a estigmatização e o preconceito. A análise superficial do tema, que é amplo e complexo, revela o desconhecimento e a rejeição da diversidade cultural do país, o nosso nível de (in) tolerância e a correlação existente entre o microuniverso da prática coral e a macroestrutura social na qual estamos inseridos.

Num contexto acadêmico, profissional, secularizado, de modo geral, acredito que não há espaço para o proselitismo religioso ou certos melindres teológicos, passionais, com os quais frequentemente temos que lidar. Como regentes, precisamos gerenciar tais conflitos, sem, contudo, privilegiar um ou outro grupo de pessoas em detrimento desta ou daquela verdade.

Para além da fé, devemos cantar com técnica, no tempo, afinado, expressivamente. Precisamos revelar os múltiplos sentidos do texto, seja ele sobre dor ou júbilo, céu ou inferno, ressurreição ou reencarnação, a criação ou o fim da humanidade. Nossa voz precisa ecoar no teatro, no templo, no centro espírita, no terreiro, na sinagoga e na catedral gótica. É por isso que somos educadores, músicos, artistas. Esta é a missão: cuidar da obra musical, prioritariamente, deixando de lado nossas (des) crenças, porque, segundo o sertanejo escolado, como disse W. J. Solha, “Deus já fez o céu bem alto, foi para viver sossegado.”

Vladimir Silva (silvladimrir@gmail.com)

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Saravá, saravá.

Hoje, 27 de agosto, é o aniversário de Reginaldo Carvalho (in memoriam) e Eneida Maracajá. Tive a oportunidade de conviver, trabalhar e aprender com esses profissionais em diferentes contextos. Com a professora Eneida Maracajá, o contato ocorreu, inicialmente, por meio do Festival de Inverno de Campina Grande. No Departamento de Artes da UFPB, Campus II, fui seu aluno no curso de Teatro na Educação. Na ocasião, descobri o Teatro e a Pedagogia do Oprimido, universos de Augusto Boal e Paulo Freire.

Já o compositor Reginaldo Carvalho, tive o prazer de conhecê-lo em Uberlândia, Minas Gerais, em 1988, durante a realização do Painel FUNARTE de Regência Coral, do qual ele era professor convidado. Nos reencontramos no início da década de noventa, quando estive em Teresina por conta da realização do concurso público que permitiu meu ingresso na UFPI. Posteriormente, passei a conviver mais próximo do maestro, no dia-a-dia do Departamento de Educação Artística, no Centro de Ciências da Educação. Sedimentamos a amizade gradualmente, conversando sobre tudo, banalidades e temas sérios, especialmente a sua obra, que tem sido objeto de minhas pesquisas há mais de uma década.

Reginaldo Carvalho e Eneida Maracajá se encontraram em Campina Grande, em 1975, por ocasião da realização do I Festival Nacional de Teatro, evento que deu origem ao Festival de Inverno de Campina Grande. Folheando documentos recentemente, revi o programa do espetáculo apresentado pelo grupo teresinense no FENAT: Circo-Cinco, escrito e dirigido por Antônio Murilo Eckhardt e com música original de Reginaldo Carvalho. O espírito da época pode ser traduzido na mensagem impressa no panfleto do espetáculo: “Despertar – de gente, de estado, de país, de mundo, de mundos. Despertar. O que tentamos pregar e viver. Neste mundo repleto de desencontros com a vida e com os outros. Confiamos em nossa juventude, assim como confiamos no pó, na água, no fogo e no ar. Confiamos naquilo que sentimos: em nossa pele, em nosso coração, em nossos pulmões.  Sabemos também que alguém sempre confiará em nós. Nosso estado, nosso país, nossos irmãos paraibanos, canadenses ou chineses. O sangue será sempre vermelho. Não queremos só fazer um espetáculo. Queremos conhecer o maior número possível de irmãos novos, jovens, que também sentem o contato da ponta do dedo da Criação, do Criador, do contato vital.”

O legado de Eneida Maracajá e Reginaldo Carvalho atravessa o tempo, ecoando aqui e alhures, fazendo história, ratificando a necessidade do sonho, da utopia, da transgressão, da resistência, da arte, da educação, do encontro, do despertar, do estar vivo e com o sangue vermelho, em ebulição, correndo nas veias. E porque hoje é dia de celebrar a vida em suas múltiplas formas e dimensões, cumprimento-os com alegria, saravá, saravá.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Cantares Piauienses

Reginaldo Carvalho pesquisou a música brasileira de tradição oral, estudando o reisado, o boi, o cavalo piancó, o coco, a ciranda, o baião, dentre outros folguedos. Por meio destas investigações, coletou material para aulas e também seu trabalho composicional. Em 1996, a Fundação Cultural Monsenhor Chaves (Teresina-PI) publicou uma coletânea de arranjos intitulada Cantares Piauienses, contendo catorze pequenas peças, cujas melodias, na sua maioria, são oriundas de distintas localidades do estado do Piauí, dentre as quais Amarante, Santa Filomena, Campo Maior, Floriano, Pio IX e Teresina. O livro é dedicado ao professor Raimundo Wall Ferraz e também é uma homenagem ao Coral do Amparo, grupo com o qual Reginaldo Carvalho trabalhou durante muitos anos.

Na coleção Cantares Piauienses, Reginaldo Carvalho explora diferentes possibilidades harmônicas. Ele emprega poliacordes e cria uma sonoridade moderna, sem, contudo, perder o aroma que o modalismo da música de tradição oral do Nordeste evoca e que, como já dito em outras ocasiões, permeia a sua escrita. Essa mistura, simples e sofisticada ao mesmo tempo, revela como Reginaldo Carvalho trata os elementos intrínsecos e extrínsecos, conciliando o novo e o velho, ratificando, em certa medida, uma das facetas do seu feitio composicional.

Sob a perspectiva interpretativa, algumas peças são complexas por conta da harmonia e da estrutura rítmica que apresentam. Reginaldo Carvalho era fissurado na questão prosódica, na correta acentuação das palavras, evitando o que ele chamava de silabada, que comprometia o entendimento do texto. Por isso, ele é bastante explícito na indicação da articulação e nos efeitos agógicos que deseja produzir.  Na peça Cavalo Piancó, por exemplo, os acentos ressaltam os aspectos coreográficos da dança, que é executada pelos brincantes que imitam, como ele mesmo diz, sem maldade alguma, sorridentes e cantando, pessoas idosas cavalgando num cavalo piancó, isto é, um cavalo manco, coxo. Já na obra A cigana, além da complexidade rítmica, há também o desafio harmônico. Ao falar sobre essa peça, em particular, Reginaldo Carvalho disse que quando viu, pela primeira vez, a figura da cigana, num reisado, em Teresina, no início dos anos setenta, o violão que acompanhava o grupo, na ocasião, estava completamente desafinado, fato que o inspirou na concepção do referido arranjo para coro misto, justificando, dessa forma, o uso sistemático do cromatismo, que cria ambiguidade e faz lembrar aquele violão.

Os arranjos que integram a coleção Cantares Piauienses serão publicados, de forma avulsa, pelo projeto SESC Partituras (https://goo.gl/0futH7) e também serão apresentadas no último concerto da série, este ano, dia 12 de setembro, na terra natal do compositor, Guarabira, no brejo paraibano. Caberá, novamente, ao Coro de Câmara de Campina Grande o honroso desafio e a nobre missão de interpretar esse patrimônio, ainda pouco conhecido, da literatura coral brasileira.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 26 de julho de 2015

E assim foi

A sexta edição do Festival Internacional de Música de Campina Grande foi realizada entre os dias 13 e 18 de julho. Foram mais de quinze concertos na região da Rainha da Borborema, totalizando aproximadamente sessenta horas de música para mais de dez mil pessoas. Além dos convidados dos Estados Unidos, Europa e Brasil, recebemos cerca de duzentos alunos oriundos de São Paulo, Minas Gerais e de vários estados do Nordeste.

A atuação dos voluntários da equipe de produção foi exemplar. O engajamento dos artistas e o trabalho do corpo docente tornaram a festa mais bonita. Enquanto os alunos, nas oficinas, ampliavam os horizontes profissionais, revendo saberes e práticas, a plateia se encontrava com Brahms, Poulenc, Villa-Lobos, Reginaldo Carvalho e John Rutter, ouvindo velhas e novas obras, alargando as possibilidades de escuta e de repertório. Tudo isso foi potencializado nos recitais de David Odom, Kayami Satomi, Eduardo Meirinhos, Ingrid Barancoski e Marília Vargas, que esbanjaram técnica, lirismo, virtuosismo e carisma. Os espectadores acompanharam atentamente todas as apresentações, reagindo sempre com muito entusiasmo. As lentes da TV Itararé e da TV IFPB registraram esses momentos de encanto e euforia, as emoções dos artistas e do público. Isso tudo será transformado em programas que serão veiculados na internet e na televisão aberta nas próximas semanas. 

Ao término desta semana, a conclusão é inequívoca: o mercado para a música de concerto está em plena expansão na terra do Maior São João do Mundo. Para que este crescimento ocorra de forma significativa, ainda é necessário envidar muitos esforços, unindo a inciativa privada e o poder público em torno de ações concretas que resultem, por exemplo, na aquisição de um piano de concertos para o Teatro Municipal Severino Cabral bem como na criação e manutenção da Orquestra Sinfônica de Campina Grande. E porque a cada dia encontramos mais parceiros, continuaremos trabalhando nessa direção, ampliando a presença do Festival Internacional de Música de Campina Grande em diferentes áreas do estado, incluindo o Cariri, o Sertão, o Brejo e o Agreste, contemplando cidades como Sumé, Monteiro, Patos, Pombal, Sousa, Cajazeiras, Pocinhos, Remígio e Cuité.

Num ano de crise generalizada, com vários festivais ameaçados no país, nós sobrevivemos. O cenário exigiu uma dose extra de coragem e ousadia, servindo para reiterar o compromisso da UFCG, da UEPB e do PaqTcPB no campo artístico-musical. As parcerias, motivo de alegria e gratidão, foram fundamentais. Agimos no campo do possível, mantendo o mesmo padrão de qualidade, movidos pelo espírito arrojado e empreendedor dos pioneiros da Serra, certos da perenidade deste projeto. Inspirados nos versos do poema Go Back, de Torquato Neto, nós só queríamos saber do que poderia dar certo, pois não tínhamos tempo a perder. E assim foi.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Merci, mes amis.

Considero que foi extremamente positiva a turnê do Coro de Câmara de Campina Grande. Tudo aquilo que planejamos foi realizado com êxito. A imersão em um novo contexto permitiu a vivência de diferentes aspectos, que, certamente, farão toda a diferença nos campos profissional e pessoal de todos aqueles que participaram desta iniciativa. Um dos aspectos importantes da viagem foi a liderança compartilhada. Quatro membros do coro foram designados para coordenar os dois grupos de cantores que viajaram em dias, horários e companhias aéreas diferentes. A missão, bastante complexa, foi cumprida exemplarmente.

Ao entrarem em contato com outra realidade musical, nossos alunos se auto-avaliaram, concluindo que, sob a perspectiva técnica e artística, estão no caminho certo. Eles perceberam, contudo, que ainda é preciso investir muito na infraestrutura das nossas instituições, sobretudo no que diz respeito à aquisição de instrumentos, partituras, dentre outros equipamentos básicos. Nas cidades visitadas, os integrantes do coro observaram como se dá a organização do espaço urbano, como funcionam os serviços públicos e privados, o exercício da cidadania, fato que estimulou a reflexão crítica sobre a realidade brasileira.

Creio que é impossível voltar de uma experiência dessas do mesmo modo, pois o contato com o outro, com aquilo que é diferente, se projeta na nossa autoimagem e também na forma como percebemos o mundo. E isso estava refletido em muitos rostos, em tantos discursos, nos diferentes gestos dos meus cantores, gente que descobriu que é possível se reinventar, alterar as trajetórias, reescrever a própria história, ratificando, em termos poéticos, aquilo que José Roberto Torero, no romance Xadrez, truco e outras guerras, já havia preconizado: “se nós nos contentamos em ser como somos, nunca seremos aquilo que poderíamos ser.” É preciso, portanto, criar possibilidades, dar oportunidades. E esse é o objetivo de toda e qualquer ação educativa.

Esse processo transformador só foi possível porque contamos com a ajuda de parceiros sensíveis, que não mediram esforços para concretizá-lo. É por isso, então, que eu gostaria de agradecer ao Coro de Câmara de Campina Grande. Sem a confiança, dedicação, disposição, disciplina e trabalho árduo de todos vocês nada teria sido possível. Sou grato às instituições e às diversas pessoas que se engajaram de forma direta e indireta, mostrando caminhos, apontando soluções, especialmente quando tudo, muitas vezes, parecia inviável. Finalmente, meu reconhecimento à professora Julie Cássia Cavalcante e ao professor Olivier Petit, que, de forma tão gentil, nos acolheram naquele país, fazendo-nos sentir em casa. Sem a participação das prefeituras de Olivet e Gien, bem como das famílias anfitriãs, essa experiência não teria o mesmo sentido, a mesma relevância. Por isso, novamente, repito a frase que tantas vezes ouvimos em território francês: merci, mes amis!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

É clichê, eu sei, mas é verdade.

Depois de Olivet, o Coro de Câmara de Campina Grande seguiu para Gien, cidade com cerca de quinze mil habitantes. Ambas ficam na região do Vallée de la Loire, onde estão localizados suntuosos castelos. A estrada entre as duas comunidades é plana e colorida, especialmente nos dias em que a natureza mostra toda a sua exuberância. Apenas uma imponente usina nuclear, localizada nos arredores de Gien, faz contraponto com a paisagem campestre.

Quando chegamos na Église de Jeanne d’Arc, totalmente reconstruída após a Segunda Guerra Mundial, o sol começava a se por. A luz que passava por entre os vitrais refletia nas paredes, criando um ambiente avermelhado, acolhedor. Era domingo e o público não tardou a chegar, dando sinais de que a igreja ficaria lotada naquele anoitecer. Em pouco tempo, os mais de seiscentos programas que preparamos para a turnê haviam se esgotado. Toda a primeira parte do concerto foi dedicada à música sacra. Nosso programa realçou as conexões entre a França e o Brasil por meio das composições de Reginaldo Carvalho, Amaral Vieira e Maurice Duruflé. Finalizamos com uma sequência de spirituals e gospels, obras nas quais Paulo César Vitor mostrou toda a sua habilidade e competência. A atmosfera era contemplativa, mística. Pedro Furtado me disse que foi tomado pela emoção e não conseguiu cantar The Lord Is My Shepherd, de Allen Pote, porque lembrou-se de Carlos Lima, um amigo em comum que também era apaixonado por esta música.

As manifestações de apreço foram intensas ao longo do concerto. No intervalo, enquanto fazíamos a preparação para a interpretação da Messe en Sol, de Franz Schubert, o público fez pequenas ofertas em reconhecimento ao nosso trabalho. Ao término, fomos calorosamente aplaudidos por cerca de dez minutos. Repetimos o Gloria. A alegria novamente se fez presente e nos seguiu até o final da recepção, quando fomos saudados pelo prefeito de Gien e integrantes da administração local. Outra vez, ouvimos promessas de reencontro e continuidade do projeto.

Todos mereciam um prêmio pela brilhante atuação. Por isso, logo cedo, naquela fria segunda-feira, uma parte do grupo partiu para Paris. Os outros iriam no dia seguinte. Enquanto o trem desparecia lentamente na névoa rarefeita, embaçando temporariamente nossos gestos e olhares, corremos para visitar a Faïencerie de Gien, que produz utensílios e objetos em cerâmica de modo artesanal há mais de dois séculos. Depois, vimos castelos, pontes e ruas, tentando estabelecer relações entre passado e presente. À noite, eu, Paulo César Vitor e Julie Cássia Cavalcante apresentamos um recital-palestra sobre a canção de câmara brasileira. Finalmente, agradeci por tudo e, recorrendo ao Pequeno Príncipe, disse: “nós nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos.” É clichê, eu sei, mas é verdade.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

En avant, tous!

O Coro de Câmara de Campina Grande começou a sua turnê na França pela cidade de Olivet, localizada na região central, nos arredores de Orléans, lugar onde Jeanne d’Arc deu os primeiros passos para o processo de libertação daquele país. Em Olivet, o grupo ficou hospedado em várias residências, tendo a oportunidade de vivenciar in loco os múltiplos aspectos da cultura francesa.

No dia seguinte à nossa chegada, a animação era grande. Os cantores falavam sobre a arquitetura e a decoração das casas, os jardins floridos anunciando a chegada da primavera e, é claro, as maravilhas da cozinha francesa. Todos queriam contar o que haviam saboreado, descrever em detalhes o ritual das refeições e suas múltiplas etapas. Tal como nosso repertório, o cardápio era rico e incluía aperitivos, vinhos, pães, queijos e chocolates.

Nosso primeiro contato musical aconteceu no Conservatório. Para aproximar os dois grupos de alunos, desenvolvemos várias atividades. Inicialmente, trabalhamos conjuntamente La Marseillaise e o Hino Nacional Brasileiro, porque iríamos apresentá-los na cerimônia de encerramento. Depois, seguimos para a Église Saint Martin, onde ensaiamos a Messe en Sol, de Franz Schubert. Fundamentalmente, a orquestra e o coro eram formados por alunos e professores do Conservatoire de Rayonnement Communal d’Olivet
e da École Municipale de Musique de Gien, bem como músicos convidados, a exemplo de Damien Colcomb, famoso organista da região. Nosso som encheu de vida aquele templo de paredes grossas e frias, colunas altas e acinzentadas, marcadas pela ação dos séculos. No dia seguinte, no Espaces Desfriches, na Biblioteca Municipal, cantamos para o seleto público que assina a série de concertos Heures Musicales. A plateia interagiu conosco. Ao final do concerto, fomos recebidos pelo prefeito de Olivet e demais autoridades ligadas à arte e à cultura. As crianças anfitriãs, vestidas com as camisetas do Coro de Câmara de Campina Grande, nos homenagearam com mensagens em francês, inglês e português. Logo depois, deixaram o ambiente e foram brincar no jardim. Pela larga janela de vidro no fundo da sala, vi que Sofia e Vinicius também estavam inseridos naquele mundo sem barreiras.

A importância do intercâmbio e a necessidade de continuá-lo foi a tônica nos discursos ao longo da cerimônia. Por isso, não hesitei e convidei-os para conhecerem o Brasil, o Nordeste, a Paraíba e a Rainha da Borborema. Eufóricos, brindamos com champagne. Aos poucos nos contagiamos com a alegria que a música faz brotar nos corações. E logo nos tornamos cúmplices no canto e no riso. Terminada a cerimônia, nos reunimos em diferentes casas para continuar a celebração. E tudo isso, é claro, foi acompanhado de muito vinho, pães, foie gras, cassoulet, fromage, chocolat, samba, coco, forró e quadrilha. En avant, tous!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Só não vê quem não quer

Foi durante o congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM), realizado na UNESP, em São Paulo, na última semana de agosto do ano passado, que oficializamos a turnê do Coro de Câmara de Campina Grande. Juntamente com a professora Julie Cássia Cavalcante, que havia participado do Festival Internacional de Música de Campina Grande, discutimos e definimos as estratégias. É certo que um empreendimento dessa natureza exige ousadia e investimentos dos dois lados. Por isso, ficamos responsáveis pelas despesas com passaportes, seguros e passagens, enquanto os anfitriões se encarregaram da hospedagem, alimentação e transporte local.

No Brasil, nossas propostas não ecoaram nos gabinetes superiores. Não obstante, seguimos adiante, resolutos. Gradualmente, alçamos degraus. Para custear todo o investimento, contamos com o apoio de diversas pessoas, instituições e empresas de Campina Grande e de Teresina, no Piauí. Arregaçamos as mangas. Coletamos roupas, utensílios e objetos para vendê-los em brechós, nas feiras livres. Alguns se valeram do velho e conhecido livro de ouro. Outros recorreram aos empréstimos bancários. Vários cantores arcaram com suas próprias passagens e também contaram com a ajuda dos familiares. O processo foi bastante complicado por conta da crise econômica, pois a oscilação do dólar, nesse período, alterou consideravelmente o preço das passagens.

Enquanto lutávamos para conseguir os recursos, na França todos se preparavam, dividindo os locais onde ficaríamos hospedados, fazendo um planejamento detalhado, incluindo atividades educativas, artísticas, sociais e culturais. Professores e alunos do Conservatório de Olivet e da Escola de Música de Gien se engajaram nesse projeto, sob a liderança de Julie Cássia e Olivier Petit. Várias vezes, por telefone, buscamos soluções para situações inesperadas, fazendo os ajustes necessários.

Na mala, além dos agasalhos, presentes para os anfitriões, dentre os quais cachaça, rapadura, cuscuz, massa de tapioca e produtos artesanais paraibanos. No que diz respeito ao repertório, apresentamos um pouco da nossa diversidade, interpretando obras sacras e seculares do período colonial aos dias de hoje, destacando, sobretudo, os compositores da região. A proposta de promover um grande encontro entre culturas, explorando outros aspectos além dos musicais, foi extremamente positiva e enriqueceu o intercâmbio. Após uma semana de convívio intenso, aprendemos sobre a história da França, seus símbolos, valores, tradições, língua e, naturalmente, a culinária, tão rica em sabores, aromas, cores e texturas. A recíproca foi verdadeira e eles também aprenderam muito sobre nosso país. Conforme destacado na reportagem publicada no jornal da cidade de Gien, no dia seguinte à nossa apresentação, o Brasil é muito mais que futebol e carnaval. Em outros termos, poderíamos acrescentar: Campina Grande não é só festa junina e a UFCG, além dos cursos de engenharia, tem muito o que mostrar ao mundo.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Valsa para um amor

O casamento do compositor Reginaldo Carvalho com Liliane Penna foi amplamente divulgado no noticiário carioca da época. Toda a história do encontro do casal é narrada no jornal Última Hora, edição do dia 6 de junho de 1955. Segundo o documento, Liliane, 19 anos, era filha de João Teixeira Penna[1], vice-cônsul do Brasil em Marselha. Reginaldo, que àquela época estava com 22 anos, conheceu Liliane em Paris, na casa de amigos. Foi amor à primeira vista e, por esta razão, ele pediu a mão da moça em casamento pouco tempo depois. O pai de Liliane foi desfavorável à proposta, alegando que ela ainda era muito jovem. Descontentes, os jovens apaixonados decidiram fugir para a Escócia, pois lá poderiam realizar o sonho do matrimônio sem o consentimento dos pais. O filho do embaixador do México em Paris, Fernando Luís Legardi, que também estava voltando de Gretna Green, onde acabara de casar-se com uma italiana, orientou os dois nesse processo.

Conforme relato do jornal, “agora, a Lei exige que o casamento seja realizado pelo ‘Registrar’, o oficial do registro civil, o qual, mediante a importância de 10 shillings entrega a certidão sem que seja necessário publicar os corriqueiros ‘banhos’ ou proclamas. Mas as três semanas de residência na Escócia continuam obrigatórias. Liliana (sic) e Reginaldo explicaram ao ‘Registrar’ o seu caso. O ‘magistrado’ preencheu as formalidades. Restam agora apenas alguns documentos a assinar. Eram precisas duas testemunhas. Liliana (sic) e Reginaldo não conheciam pessoa nenhuma de Gretna Green, mas dois habitantes da aldeia ofereceram seus serviços. Agora os dois namorados esperam apenas o prazo das três semanas. (Jornal Última Hora, Rio de Janeiro, página 3, 6 de junho de 1955).”

Quando indagada sobre quantos filhos gostaria de ter, Liliane menciona seis ou sete, como nos grandes romances, ressaltou. Segundo o repórter, Reginaldo confirmou as expectativas da futura esposa, mexendo apenas com os ombros. O certo é que desse casamento nasceram três filhos: Sérgio (já falecido), Marcos e Naire.

Gretna Green Romantic Waltz, disponível no endereço http://goo.gl/lhR4oN, foi escrita em 1955 para piano solo. A obra é, em certa medida, uma homenagem à pequena vila de Gretna Green, localizada no sul da Escócia, traduzindo, portanto, o espírito de Reginaldo Carvalho naquele momento de intensa paixão. A valsa, dividida em três partes, tem uma curta introdução, notadamente jazzística. Melodia e harmonia, nas demais seções, criam uma atmosfera romântica, que nos remete aos salões de bailes nos quais casais enamorados dançam, celebrando a vida e o amor.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)


[1] No Jornal Última Hora, o nome do pai de Liliane aparece como Ricardo Penna. Em entrevista a este pesquisador, a filha de Reginaldo Carvalho fez a correção, informando que o nome do seu avô materno era João Teixeira Penna. Na ocasião, ela também confirmou que o nome da mãe é Liliane e não Liliana, como consta no jornal.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Ladrão em noite de chuva

A obra Do tamanho de um defunto, de Millôr Fernandes, foi escrita originalmente para teatro e publicada pela Civilização Brasileira, em 1957. A estreia do espetáculo aconteceu no Teatro de Bolso (Rio de Janeiro). Posterirormente, o texto foi adaptado pelo próprio autor para o cinema, recebendo o título Ladrão em noite de chuva, cuja trilha sonora tem a assinatura de Reginaldo Carvalho.

O longa Ladrão em noite de chuva foi produzido por Aloísio Leite e Armando Cavalcanti de Albuquerque. Conforme dados da Cinemateca Nacional, “o projeto do filme começou em 1955 numa associação entre Millôr Fernandes, Armando Couto e Ludy Veloso na empresa Lu-Mi-Ar com distribuição pela Unida Filmes de Mário Falaschi. As filmagens começaram, porém, somente em 1958. O nome de Millôr Fernandes também aparece como Vão Gogo, Emanuel, que assinava na revista O Cruzeiro. Mosquito é pseudônimo de Paulo Nunes. A fonte ACPJ/I indica distribuição pela B. C. Filmes com apresentação da Satélite Filmes; Armando Cavalcanti de Albuquerque teria se encarregado da sonografia. A fonte ALSN/DFB-LM indica produção de 1961.”[1] Este filme foi censurado e a única cópia disponível provavelmente encontra-se na Cinemateca Nacional.

Sábato Magaldi, no livro Panorama do Teatro Brasileiro, publicado pela Global Editora (2013), ressalta que, neste texto, Millôr faz uma crítica à organização administrativa do Rio nos anos cinquenta “com a anedota do ladrão que escolheu a casa do médico, entre outros motivos, porque pertence a um distrito policial, enquanto a casa ao lado já pertence a outro, cujo delegado não perdoa os presos. Sente-se a tremenda solidão de uma cidade em noite de chuva, em que ninguém deixa o seu recolhimento para o gesto de solidariedade, a ponto de levar o ladrão ao raciocínio: “... vou-lhe ensinar uma coisa, madame: quando precisar socorro não grite ‘Ladrão! Assassino!’, que ninguém vem. Grite ‘Fogo, Incêndio!’, que logo corre uma multidão. A gente não é boa, madame, mas é curiosa.”

A trilha, escrita para clarineta em si bemol, trompete, contrafagote e percussão (tambor e tarol), tem 35 seções, totalizando cerca de 30 minutos. A edição, elaborada por mim e Alexsandro Lima para o projeto SESC Partituras, foi feita a partir da grade manuscrita (medindo 33 cm x 23,5 cm) elaborada pelo próprio Reginaldo Carvalho. A obra editada está disponível no endereço http://goo.gl/OXWQSZ. Para definir o tempo da performance de cada quadro, os intérpretes devem observar a duração indicada pelo compositor. A textura é homorrítmica, muito embora apresente pontos de imitação. Nota-se uma alusão à canção Rosa Amarela e às Bachianas Brasileiras Nº 2, mais particularmente a conhecida melodia d’O trenzinho caipira, reforçando as conexões de Reginaldo Carvalho com Heitor Villa-Lobos.
  
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

[1] Disponível no site http://cinemateca.gov.br Último acesso em 20 de março de 2015.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

O Cavalinho Azul

Em maio de 1960, Maria Clara Machado estreou o espetáculo O Cavalinho Azul, obra em um ato e com nove quadros. A montagem foi do TABLADO, no Rio de Janeiro, e Reginaldo Carvalho compôs a trilha sonora da peça, que foi executada por Martha Rosman (piano), Livolsi Bartolomeo (contrabaixo) e Carlos Guimarães (piano). A direção do espetáculo foi da própria Maria Clara Machado, acompanhada por Heloisa Guimarães (assistente de direção), Anna Letycia (cenário), Kalma Murtinho (figurinos), Fernando Pamplona (iluminação), dentre outros profissionais. O Cavalinho Azul narra a história de Vicente, um menino que, na companhia de uma amiga que conheceu no circo, viaja o Brasil em busca de seu antigo cavalo, que fora vendido por seus pais. Para o menino, o cavalo é lindo, todo azul, com o rabo branco; para os adultos, um velho pangaré marrom. Ao longo do caminho, Vicente e sua amiga enfrentam dificuldades e dialogam com várias personagens.
A trilha sonora, para flauta, piano e contrabaixo, está organizada em onze seções, assim distribuídas: 1A (Introdução); 1B (Sonho); 3A (Calmamente) e 3B (Tema do Menino); 5A (Valsa de Circo); 5B; 10 (Dança dos Elefantes); 13; 14A (Meninas), 14B (Velhas) e 14C. A sequência dos movimentos, conforme descrito na parte de flauta, na cópia manuscrita feita por Livosli Bartolomeo, é a seguinte: 1A. Em seguida, 1B. Repete 1B. 3A, 3B, 5A, 5A e 5B. Baixo solo. 10. 5A. 13. 14A e 14B (repetir várias vezes, alternando 14A e 14B, cada vez mais lento). 14B. Em seguida, 1B, 5B, 5A, 1B, 14B, 3B e a Batucada Final (provavelmente referindo-se ao 14C).
Ao longo da pesquisa, não encontramos nos documentos originais a parte cavada do piano relativa ao movimento 10, Dança dos Elefantes. Para fins de edição, utilizou-se a grade manuscrita, elaborada por Reginaldo Carvalho, na qual a referida seção aparece completa até o décimo compasso. Os cinco compassos restantes deste movimento foram acrescentados pelos editores com base nos elementos utilizados previamente pelo compositor. O mesmo se aplica à seção do Baixo Solo. Presume-se que seja uma seção para livre improvisação. Para conferir a partitura editada, visite http://goo.gl/dDTr5t.
Além do Brasil, a peça também foi apresentada em Paris, em maio de 1965. O texto foi traduzido por Michel Simon, com direção de Manuel Montoro e cenários e figurinos de Beatrice Tanaka. É possível que as conexões pessoais e profissionais do compositor com a França possam ter contribuído diretamente para a produção do espetáculo na Cidade Luz. O certo é que a temporada foi sucesso de público, destacando-se a presença de Maria Clara Machado e Reginaldo Carvalho na estreia. Com a publicação da composição original da peça O Cavalinho Azul, o SESC Partituras resgata uma página importante da história do teatro e da música brasileira, revelando, ao mundo, mais uma faceta deste prolífico compositor.
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

terça-feira, 7 de abril de 2015

Reginaldo Carvalho no SESC Partituras

O SESC Partituras, na Paraíba, homenageia este ano o compositor Reginaldo Carvalho (Guarabira-PB, 1932 – João Pessoa-PB, 2013). Serão realizados três concertos com a produção instrumental e vocal deste paraibano e todas as obras interpretadas ficarão disponíveis no site do projeto para download gratuito. O catálogo composicional de Reginaldo Carvalho possui uma larga variedade e quantidade de peças, escritas para diferentes formações, muitas das quais não se encontram mais em seu arquivo pessoal, razão pela qual temos pesquisado e resgatado esse repertório nos últimos anos.

O foco do primeiro programa é a música instrumental. Serão apresentadas composições para piano e trilhas para teatro e cinema escritas entre os anos cinquenta e sessenta, no Rio de Janeiro e em Paris. Essas obras, de certo modo esquecidas, ganharão vida novamente neste sábado, dia 11 de abril, na sala Radegundis Feitosa, da UFPB, em João Pessoa, por meio dos músicos José Henrique Martins (piano), Mirna Hipólito (flauta), Danilo Andrade (contrabaixo), Jean Márcio (trombone), Cayo Mattos (contrafagote) e Lucas Andrade (clarineta). O segundo e o terceiro concerto serão dedicados à música vocal, tanto coral como para solista, campo no qual Reginaldo Carvalho produziu proficuamente.

Gretna Green Romantic Waltz (Gretna Green, Escócia, 1955), para piano, é uma valsa que celebra o casamento de Reginaldo Carvalho com Liliane Penna. (Posteriormente, falaremos sobre as circunstâncias deste matrimônio, bastante incomuns para a época.) Breve Meditação (Rio de Janeiro, 1955) é uma peça para órgão Hammond, instrumento eletromecânico desenvolvido e construído por Laurens Hammond, nos anos trinta, e que gozou de grande popularidade. Tatu (Paris, 1954) é um coco para piano, que tem como tema as canções que o compositor ouvia na infância, nas feiras livres de Guarabira e por todo o brejo. Além dessas, fazem parte do programa duas obras para cinema e teatro: Ladrão em noite de chuva (Rio de Janeiro, 1959-1960) e O Cavalinho Azul (Rio de Janeiro, 1960), com texto de Maria Clara Machado. Essa última é uma das obras mais conhecidas de Reginaldo Carvalho, tendo projetado o seu nome no meio teatral e cinematográfico. A trilha do Ladrão em noite de chuva foi escrita para o longa produzido por Aloísio Leite e Armando Cavalcanti de Albuquerque. Este filme foi censurado e talvez a única cópia disponível esteja localizada na Cinemateca Nacional.

A edição de todas as partituras apresentadas nesta série de concertos foi feita em parceira com Alexsandro Lima, tomando como base os manuscritos do compositor. Agradeço a Rosanna Chaves (SESC-PB) e Thiago Sias (SESC-DN) pela iniciativa e oportunidade, e a Naire Vilar, filha de Reginaldo Carvalho, pela disponibilidade e confiança. Por meio do SESC Partituras, essas obras serão preservadas, contribuindo para a difusão da memória musical paraibana e brasileira.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 5 de abril de 2015

Paris, primavera, páscoa e paixão

Minhas conexões com a França remontam à época na qual iniciei os estudos musicais, participando do quarteto de flautas doces do Departamento de Artes da Universidade Federal da Paraíba, campus Campina Grande, na companhia de Carlos Alan, Marconi Siqueira e Francisco Metri. Com este grupo, interpretei obras compiladas por Pierre Phalèse e Pierre Attaignant. A simplicidade daquelas danças me fascinava. Nesse momento, também comecei a frequentar a Cultura Francesa.

Ao ingressar no FACMADRIGAL, o encanto se acentuou. Sérgio Telles, nosso maestro, herdara de Nelson Mathias e Célia Bretanha, com quem havia trabalhado no Coral da UPFB entre 1978 e 1982, a leveza e a sonoridade da escola francesa. Contaminado, dediquei-me durante dez anos à interpretação da música renascentista, abordando, particularmente, a chanson française, com o Nós e Voz. Nos divertimos com as narrativas dúbias de Sermisy, Certon e Passereau e com as desafiadoras canções descritivas de Janequin, a serviço da corte do Rei Francisco Primeiro. Em 1996, descobri que a ópera estava ao meu alcance. Foi Jasmin Martorell, esse catalão-francês que conheci em Olinda, quem me fez esta revelação. Aliás, foi por intermédio dele que as portas do Conservatoire de Toulouse se abriram para a minha temporada naquela cidade avermelhada, onde passei seis meses estudando canto, sob sua orientação, em 1998. Na ocasião, conheci o Valle de La Loire e visitei o castelo de Chambord, decorado com salamandras, fleur de lis e tantos outros símbolos da realeza. A riqueza dos detalhes arquitetônicos me fazia pensar contrapontisticamente. Toulouse, Orléans e Paris fizeram parte da minha rota naquele final de década. Posteriormente, em 2002, voltaria à Paris, como membro do LSU A Cappella Choir, sob a direção do mestre Kenneth Fulton, para uma série de apresentações na Cathédral Notre Dame e na Église de la Madeleine.

Recentemente, pesquisando a obra de Reginaldo Carvalho, identifiquei seus laços afetivos e profissionais com a França. Além de morar e estudar aqui, casou-se com uma francesa. Andou por Marseille, Bordeaux, Aix-en-Provence e viveu o frenesi da Cidade Luz no auge entre os anos cinquenta e sessenta. Ontem, andando pelo Boulevard Saint-Germain, nos arredores da l’Opéra Garnier, sentei-me para tomar um café naquele reduto no qual se encontravam artistas, músicos, escritores e filósofos, dentre os quais, provavelmente, Olivier Messiaen, Paul Le Flem, Pierre Schaffer, Jean Piaget, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre e Reginaldo Carvalho.

Nesta temporada na França, revejo o passado-presente, celebrando, ao mesmo tempo, o aniversário da minha esposa, do meu filho e também as nossas bodas. Aguardo, com enorme expectativa, a chegada do Coro de Câmara de Campina Grande, que está vindo para uma série de concertos nas cidades de Olivet e Gien, na região central. É abril. E Paris é primavera, páscoa, paixão.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

domingo, 22 de março de 2015

Trajetórias

À semelhança do ano passado, quando durante o carnaval estive na University of Central Oklahoma, este ano, atendendo ao convite da professora Sara Lynn Baird, fui para o Alabama, onde passei uma semana atuando como professor visitante na Auburn University. Lá, proferi palestras, realizei recital solo, regi o coro de câmara da instituição e falei sobre as ações que desenvolvemos em Campina Grande. A universidade possui mais de cem alunos matriculados nos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Música, contando com variados grupos instrumentais e vocais, dentre os quais cinco coros, todos sob a coordenação dos professores William e Rosephayne Powell.

Nas minhas atividades, mostrei a diversidade da música brasileira e usei como referência Padre José Maurício Nunes Garcia, Camargo Guarnieri, Cartola, Luiz Gonzaga, dentre outros compositores. Estudantes e professores vibraram quando escutaram a versão de Marco Granados e Jovino Santos Neto para o clássico 1 X 0, de Pixinguinha (http://goo.gl/8wiwv9). No recital solo, no qual fui acompanhado pela pianista Laurelie Gheesling, cantei Alberto Nepomuceno, José Siqueira, Dierson Torres, Marlos Nobre, José Alberto Kaplan e Antônio Ribeiro, revelando as particularidades da nossa canção numa perspectiva histórica. No concerto com o Auburn University Chamber Choir, realizado na Igreja Batista local, regi As sete palavras da oração dominical, de Reginaldo Carvalho, o Salmo 121, de Eli-Eri Moura, e Cantate Domino, obra de minha autoria, dedicada ao referido grupo. Para ver os vídeos da estreia das duas últimas composições, basta seguir os links  http://goo.gl/ExEUtd e http://goo.gl/K9kYWq.

Naquele curto período, também tive a oportunidade de viajar até Starkville. Queria encontrar velhos amigos na Mississippi State University, dentre os quais Gary Packwood, Jeonai Nascimento, Karen Lee Murphy e Rosangela Sebba. Conhecer o compositor Mark Hayes foi, indiscutivelmente, um momento singular da minha rápida passagem pela MSU, sobretudo porque, após o jantar, tive a honra de cantar On Eagles Wings, uma das minhas canções preferidas, com ele me acompanhando ao piano. O encontro terminou em grande estilo, pois Mark Hayes aceitou nosso convite e confirmou a sua participação na sexta edição do Festival Internacional de Música de Campina Grande, que acontece de 13 a 18 de julho deste ano. Além dele, vamos receber três professores da Auburn University que irão lecionar Clarineta, Regência Coral, Piano e Técnica de Alexander.

Pernoitei no Mississippi. E quando amanheceu, acordei revigorado e parti com os sonhos que sempre carrego comigo. No caminho de volta para o Alabama, a estrada era longa, mas as distâncias eram curtas; fazia frio, mas havia sol; a terra estava seca, mas a vida era latente; as horas passavam lentamente, mas o tempo voava; o silêncio invadia o carro, mas eu ouvia meus pensamentos; o satélite insistia em definir a rota, mas eu já sabia a minha trajetória.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)