sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Por uma prática coral educativa

No último Congresso da Associação Nacional de Pesquisa em Música (ANPPOM), realizado em João Pessoa-PB, apresentei, em conjunto com Jeter Maurício da Silva Nascimento, os resultados de uma pesquisa que desenvolvemos por meio do Programa Institucional de  Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), intitulada Por uma prática coral educativa: Uma proposta de utilização do Guia Prático, de Heitor Villa-Lobos. O texto completo pode ser acessado gratuitamente nos Anais do referido congresso (http://goo.gl/FyWK8a), páginas 1824-1831.

A pesquisa teve como objetivo discutir os pressupostos metodológicos do ensaio coral à luz da educação contemporânea, contribuindo para o desenvolvimento desta prática pedagógico-musical e, consequentemente, o aprimoramento do processo de ensino-aprendizagem em música. Utilizou-se o Guia Prático, de Heitor Villa-Lobos, para demonstrar como o regente/educador musical pode trabalhar diferentes conceitos musicais por meio do repertório coral, substituindo o treinamento pela aprendizagem procedimental. A investigação, com caráter teórico, foi dividida em três etapas. Na primeira, discutiram-se os fundamentos da aprendizagem musical, com especial atenção para o trabalho de J. A. Sloboda (A Mente Musical: A psicologia cognitiva da Música, Londrina: EDUEL, 2008). Na segunda, analisou-se o Guia Prático, do qual foram extraídas obras com diferentes características. Na última, propôs-se uma metodologia de ensaio baseada no repertório selecionado, pois a análise das canções mostrou que vários conteúdos musicais podem ser trabalhados pelo regente/educador, potencializando os aspectos educativos da prática coral.

Baseados nos estudos de Sloboda (2008), concluímos que o processo de aprendizagem e aquisição de uma habilidade, neste caso o solfejo, precisa ser pensado em todas as suas etapas, porque o conhecimento só consegue afetar o comportamento se houver uma regra de produção que possa agir sobre ele, visto que todo comportamento é procedimental. Por isso,  os alicerces de qualquer aprendizagem são a repetição e o retorno. As técnicas pedagógicas de ensaio e exercício são extensões da necessidade natural de repetir, não imposições totalmente externas. O progresso só é alcançado mediante um grau de prática repetitiva, que excede o que seria prazeroso ou intrinsecamente gratificante. Logo, a abordagem do solfejo, de forma isolada e descontextualizada na prática coral, pode comprometer este processo. Assim, é preciso associar o repertório aos conteúdos estudados.

Os resultados da pesquisa não são conclusivos. Espera-se que a proposta possa ser discutida e adaptada a outros repertórios, dinamizando o processo de ensino-aprendizagem no ensaio coral, incluindo coros infantis, juvenis e adultos, substituindo a ineficiente prática do treinamento baseado na imitação, que comumente ocorre quando o cantor reproduz acriticamente aquilo que o regente lhe oferece, por uma forma mais consciente de aquisição do conhecimento. Desta forma, regentes e cantores sairão desse comportamento eminentemente bancário e passivo, usando a máxima Freiriana, e caminharão em direção a uma ação inteligente, baseada na construção de conhecimentos musicais significativos.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

terça-feira, 31 de julho de 2012

Programa Diversidade

O Programa Diversidade (TV Itararé – TV Cultura) completou cinco anos esta semana. Sob o comando do jornalista Saulo Queiroz, esta revista cultural tem contribuído para divulgar e promover a arte em Campina Grande e no estado da Paraíba. O quadro Um toque de classe, apresentado no terceiro bloco sempre às quartas-feiras, foi concebido com o objetivo de aproximar a música de concerto do grande público, criando referências para o processo de recepção e apreciação de diferentes obras.

Ao longo dos últimos três anos foram produzidos cem programas abordando diversos compositores e peças, música vocal e instrumental, sinfônica e de câmara, sacra e secular, para solistas e múltiplas formações instrumentais. As principais características do concerto, da sinfonia, da paixão, do oratório, da ópera, da cantata e dos musicais estiveram na pauta das discussões, assim como a estrutura da orquestra, a história da regência, o processo de preparação do músico, os cuidados com a voz. O trabalho de compositores e intérpretes europeus, norte-americanos e brasileiros, novos e consagrados, recebeu destaque em várias edições semanais, incluindo nomes como Bach, Mozart, Ravel, Poulenc, Guarnieri, Mignone, Gilberto Mendes, José Maurício Nunes Garcia e Eli-Eri Moura.

O tema educação musical também foi discutido por conta da Lei 11.769/2008, que trata da obrigatoriedade do ensino de música na educação básica. A meta é contribuir para a reflexão, ressaltando a importância da educação musical, apresentando os materiais instrucionais
disponíveis no mercado, pois a música, enquanto fenômeno universal e linguagem socialmente construída, conforme ensina Maura Penna, precisa ser compreendida numa perspectiva pluralizada, multicultural, desmistificada. Por isso, a ênfase no diálogo entre o novo e o velho, a vanguarda e a retaguarda, o regional e o internacional, cada um com suas idiossincrasias, suas sonoridades, suas fatias irrefutáveis da verdade.

Nestes cem encontros foram apresentados mais de quinhentos minutos de muita música, entretenimento e informação. Tudo isso produzido e referenciado por fontes bibliográficas, recursos audiovisuais, partituras, dicionários, jornais e revistas de músicas, documentos impressos e disponíveis na internet. Todos os programas podem ser vistos no Youtube (
www.youtube.com/user/ProgramaDiversidade). Os números associados ao canal são expressivos: 2.599 vídeos; 3.510.770 exibições; 1.321 inscritos (dados do dia 31/7/2012). Indiscutivelmente, desfrutar da companhia de telespectadores nobres e sensíveis é um privilégio e motivo de contentamento. Por isso, é preciso agradecer a todos pela companhia, sugestões, críticas e elogios. Essa interação é fundamental para o sucesso do projeto, que é concebido para um público cativo, crescente e apaixonado por Arte que, certamente, continuará acompanhando este programa por vários anos. Como costumeiramente se diz ao término de cada edição, o nosso toque de classe fica por aqui. Até a próxima semana.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sábado, 9 de junho de 2012

Mais um Festival

A Universidade Estadual da Paraíba e a Universidade Federal de Campina Grande anunciam com grande alegria a realização do terceiro Festival Internacional de Música de Campina Grande, que este ano acontece de 2 a 7 de julho. O corpo docente, formado por profissionais de diferentes estados e países, conta com vários nomes, dentre os quais Nailson Simões (trompete), Wolfgang David (violino), Marcelo Jaffé (viola), Claudio Gonella (fagote), Kathy Price (canto) e Randall Hooper (regência).

O Festival é uma grande oportunidade de encontro, troca de experiências e saberes entre todos os participantes. É o espaço propício para a reflexão crítica, para repensar práticas e metodologias, redirecionar caminhos, renovar esperanças e ideais. Além dos tradicionais cursos, o evento oferece uma oficina de lutheria, voltada para a restauração e manutenção dos instrumentos de cordas friccionadas. A meta é estimular os jovens nesta área, oferecendo-lhes mais uma oportunidade de profissionalização. Para atender ao grande público, vários concertos serão realizados diariamente. Os concertos da tarde têm como alvo plateias específicas, dentre os quais os grupos da melhor idade e as crianças das escolas públicas e projetos sociais mantidos pela UEPB, UFCG, ONGs e Fundações. Ao entardecer, o Mosteiro das Clarissas abrirá suas portas para concertos temáticos, dentre os quais Uma Noite no Barroco, coordenado por Edmundo Hora, uma das maiores autoridades no assunto no Brasil. À noite, no Teatro Municipal Severino Cabral, os músicos convidados interpretarão obras clássicas da literatura musical de diferentes períodos, autores e estilos. Para estimular a participação e a presença maciça da população, todos os concertos serão gratuitos.

Graças ao apoio da FUNARTE, do Ministério da Cultura e da Yamaha, assim como a colaboração da FURNe e do PaqTcPB, Campina Grande terá a chance de conhecer o trabalho de artistas novos e consagrados, a exemplo da renomada pianista Eudóxia de Barros. Além dela, o Quaternaglia Guitar Quartet, que comemora vinte anos de estrada; a Orquestra de Contrabaixos Tropical, liderada pelo francês Tibô Delor, que apresentará o show Carrancas Brasileiras; o Quinteto Sopro Novo Yamaha; e a ópera de câmara Domitila, do compositor João Guilherme Ripper, escrita para soprano, clarinete, violoncelo e piano. Este espetáculo foi agraciado com o Prêmio FUNARTE circuito de Música Clássica 2010, e apresentado no segundo semestre do mesmo ano nas cidades de Porto Alegre, Joinville, Cuiabá, Campo Grande e Dourados. 

A lista completa dos professores, cursos, programação, bem como outras informações sobre o evento, podem ser obtidas no site www.fimcg.art.br A Rainha da Borborema, a terra do maior São João do Mundo, está de braços abertos para recebê-los e acolhê-los, no frio da serra, com o calor da amizade, do amor e da música. Que venham todos, então, para mais um Festival.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

sábado, 28 de abril de 2012

Hail, gladdening light!*

Today we are celebrating the choral excellence of Dr. Kenneth Fulton, a man whose career as a professor, conductor, researcher, and music maker has touched and changed many lives. My life is one such example. There are two distinct periods in my life: the time before I arrived in the United States and the time after the four years I spent here. During those four years at LSU Dr. Kenneth Fulton was the most important influence in my thinking about music, myself, teaching and education. Because of his teaching and passion for music, I know I’m a stronger professor, a fine musician, and a better human being.

One of the most remarkable experiences during my time at LSU was in the summer of 2001. I was taking Contemporary Choral Literature and I had to present a seminar on Penderecki’s St. Luke Passion. I was scared and afraid because that was my first seminar here at LSU. For those of you not familiar with that piece, it is one of the most important works written in the twentieth century. It is a very long piece, rich in details and very intricate. In addition to these musical issues, I also had the language barrier. I tried, unsuccessfully, to escape from the very hard task of preparing a seminar on the piece. Besides ignoring my complaints, Dr. Fulton encouraged and supported me on the challenge. I spent many hours analyzing that piece, relating music to text, as well as evaluating some tonal aspects never discussed before. It was an experience of a life time – as you told me it would be.

Dr. Fulton, your legacy extends far beyond the United States. You saw that first hand when you came to Brazil last year. As you mentioned to me, my students have some kind of fire in their eyes, a passion for knowledge and music. That is because of you. You taught me to love music even more.

I am grateful to you for all the hours of consultation, meetings, comments, suggestions, professionalism, and friendship while I was at LSU. Unquestionably, you made LSU an unparalleled experience. And, your commitment to music and your former students doesn’t end when we graduate and leave LSU. I will continue to value your advice as a colleague as I build a robust choral program at my university in Brazil. I am honored you are part of my development as a professor and musician. I hope to follow your example of teaching students to become ambassadors of music so they in turn will share their love of music with others just as you have done.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

This text was originally presented on April 21, 2012 during the ceremonies in honor of the choral excellence of Dr. Kenneth Fulton, a lifetime of music-making! Hail, gladdening light is one of his favorite pieces. To watch the video of the concert, visit http://www.ustream.tv/recorded/22056381 I would like to thank Pam Kaster for revising the text.

domingo, 22 de abril de 2012

Guajira espúria

A Guajira espúria é um dos temas incluídos na Chegança de Mouros, coletada na cidade de Natal-RN, por Mário de Andrade, e inserida no livro Danças Dramáticas do Brasil, primeiro tomo, publicado pela Editora Itatiaia em convênio com o Instituto Nacional do Livro e a Fundação Nacional Pró-Memória, de Belo Horizonte, em 1982. No início deste ano, compus uma obra para coro misto a quatro vozes usando o material coletado por Mário de Andrade, que registrou a chegança na versão fonética mais aproximada, tomando como base a dicção dos seus colaboradores. A transcrição prosódica do pesquisador foi mantida na composição, razão pela qual regentes e cantores devem atentar para este aspecto durante o processo interpretativo. Originalmente, a canção possui dez versos. No entanto, nesta composição usei apenas as estrofes um, dois, quatro, sete e dez.

A obra está divida em três seções, sendo a primeira até o compasso 31, a segunda até o compasso 50 e a última até o 62. Enquanto a primeira e terceira seção são notadamente homofônicas e baseadas no mesmo material, a seção intermediária é contrastante, evocando o espírito seresteiro e modinheiro da música brasileira da primeira metade do século XX. Sob a perspectiva melódica e harmônica, a obra apresenta elementos modais típicos do Nordeste brasileiro. A alternância do compasso ternário simples com o binário composto enriquece o caráter rítmico e dançante típico da guajira, de origem cubana.

A estreia da obra ocorreu nos Estados Unidos da América, com o Texas A & M University Concert Chorale, sob minha regência (http://goo.gl/p5MjMB). Durante a preparação, colaborei dando sugestões sobre o tempo e a pronúncia do Português Brasileiro, levando em consideração as idiossincrasias do texto. Um fato interessante nesse processo foi a minha participação em um dos ensaios do grupo por meio do SkypeTM. Discuti com o maestro Randall Hooper a melhor forma de viabilizar esse encontro virtual e no dia e horário combinados tive a honra de acompanhar o nascimento da obra.

Após uma semana naquela universidade, regendo, cantando e proferindo palestras, volto para o Brasil com vários projetos em andamento. O primeiro deles é que pretendemos trazer o TAMUC Chorale e seu regente para o Festival Internacional de Música de Campina Grande. A segunda é que também iremos levar o Coro de Câmara de Campina Grande, ainda este ano, para aquela universidade. Enquanto voo, penso na velocidade, no tempo e nas distâncias percorridas. Fiquei imaginando como Mário de Andrade reagiria ao saber que os frutos da sua pesquisa foram ressignificados, ganhando novos sentidos em terras estadunidenses, e o que ele diria sobre aquele ensaio via internet. Tal como na guajira, a permanência e a alternância são marcas da nossa contemporaneidade e diluem nossas fronteiras, ora nos afastando, ora nos aproximando.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Repertório para coro infanto-juvenil

A FUNARTE lançou uma nova série para coro infanto-juvenil com as seguintes composições: Dúvidas (André Protasio), Bolocochê (André Vidal), Por entre os quintais (Aurélio Melo), Água (Cadmo Fausto), Adultos e crianças (Danilo Guanais), Alegria (Thelma Chan), Receita de alegria (Vinicius Carneiro) e Fábula (en)cantada, de minha autoria. As obras foram concebidas com o intuito de ampliar o repertório infanto-juvenil, apresentando composições, a cappella e com acompanhamento, acessíveis para a grande maioria dos grupos brasileiros.

Esta fábula aborda o comportamento humano, ressaltando os perigos e as consequências das ações insensatas e imprudentes. A obra foi escrita para coro infantil a duas vozes e com acompanhamento instrumental, formado por piano e dois instrumentos melódicos, sendo um grave e outro agudo, que, na partitura, estão indicados como oboé e violoncelo, respectivamente. No entanto, tendo em vista as dificuldades que muitos grupos poderão encontrar, deve-se, em caso de necessidade, substituir o oboé e o violoncelo por outros instrumentos melódicos com características similares. O piano também pode ser substituído por um teclado eletrônico. Quando não for possível executar a parte do piano tal como ela se apresenta, o pianista poderá tomar como referência as cifras, que definem a sintaxe harmônica da composição. Do mesmo modo, um violão poderá ser acrescentado na inexistência do piano ou do teclado. A obra está dividida em três seções, cujos afetos são definidos harmonicamente. A primeira seção, em dó maior, introduz o tema da história e o verso inicial pode ser cantado por um solista ou pequeno grupo de cantores. A ideia é criar um ambiente narrativo num estilo quase recitativo. A seção intermediária, em dó menor, é mais dramática, ritmicamente intensa e caracterizada pelo diálogo entre vozes e instrumentos. A última seção, em dó maior, retoma o lirismo da introdução, apresentando a moral de cada verso e da fábula como um todo. A extensão vocal é cômoda (Dó3–Ré4) e a melodia, que é predominantemente diatônica e por graus conjuntos, está diretamente vinculada ao texto.


Durante o processo de preparação e interpretação, o regente poderá desenvolver trabalhos interdisciplinares, expandindo o campo de conhecimento do aluno, promovendo a interação da música com outras áreas, visto que esta história pode ser o ponto de partida para vários estudos e reflexões. Sempre que possível, e com muita discrição, deve-se recorrer aos recursos cênicos, representando os diferentes momentos da trama, que ganhará mais expressividade com o auxílio da cenografia e dos adereços.


A estreia da obra ocorreu no encerramento do Painel FUNARTE de Regência Coral realizado em Vassouras-RJ, ano passado. Para baixar as composições gratuitamente, basta visitar o site do Projeto Coral (http://www.funarte.gov.br/projetocoral/?page_id=272).


Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ô abre alas...

Uma poeira branca invadia a Rua das Imbiras nas manhãs de carnaval por conta da brincadeira do mela-mela. As crianças mais habilidosas, além da caixa amarela de Maizena e do talco Pom-Pom, portavam também poderosas lanças, armas construídas artesanalmente com canos de PVC, com um êmbolo feito de cabo de vassoura e sandálias Havaianas, que serviam como bombas para sugar e esguichar água em todos os passantes que ousavam cruzar aquele campo de guerra estreito e esburacado. A algazarra era grande quando um desavisado caia nas armadilhas que aprontávamos. Às vezes, o clima ficava levemente tenso, sobretudo quando alguém se chateava com a sujeira e a imundície espalhadas pelo corpo ou quando rivalizávamos com a turma dos Coqueiros de Zé Rodrigues.
 
Defronte à minha casa, alguns escutavam os sambas do sudeste; à esquerda, os trios baianos; à direita, os frevos de Claudionor Germano e Capiba, madeira de lei que o cupim não rói. O som percutido da La Ursa e dos Bois Novinho e Tungão completavam a heterofonia. Quando os grupos passavam, todos paravam para ver. Meus pais ofereciam moedas para que o boi dançasse em frente à nossa casa. Gradualmente aquele ostinato rítmico se tornava mais intenso, contagiando a todos. O cavalo-marinho, aqui denominado “Veia da Bundona”, dançava e perseguia os mais assustados, que fugiam sem rumo. Os papangus também eram temidos.
 
As matinês na AABB e no Clube Paulistano eram concorridas. Os salões ficavam lotados com famílias de todos os recantos da cidade. Quando as primeiras notas do frevo Vassourinhas soavam, o grito da multidão ecoava longe. Vovó Nuca, com muita paciência, passava horas tentando persuadir o homem da portaria a nos deixar entrar gratuitamente. Ela alegava que não tínhamos dinheiro e que Tio Lauro, o filho dela que era garçom, estava trabalhando ali, naquele dia, no bar do clube. Ela sempre conseguia, porque seus argumentos eram imbatíveis. Quando o baile terminava, no início da noite, era hora de assistir aos desfiles das troças, blocos e escolas de samba na Maciel Pinheiro, na João Pessoa ou às margens do Açude Velho, onde também transitavam pessoas travestidas de todos os tipos. Certa vez, coloquei na cabeça uma vassoura de palha com um cartaz, dizendo: doido varrido. É verdade! Todo louco tem uma mania.
 
Com a inauguração dos eventos religiosos na Rainha da Borborema e o acidente que vitimou meu primo Flávio, filho do Tio Lauro, nesta época do ano, o silêncio fez morada, emudecendo as festas pagãs. Hoje o boi passou por aqui. Meus filhos, olhos e corações eufóricos, entraram em casa, vestiram a fantasia e seguiram o cortejo, irônicos, como quem abre alas, reinventando as folias de momo, do destino e da vida.
 
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sobre o espanto

Sempre que viajo, exploro caminhos diversos, estradas retas, seguras e planas, outras sinuosas, cheias de subidas e descidas. Se o caminho é desconhecido, a atenção é dobrada, pois qualquer erro pode ser fatal. Por isso, tento obter informações sobre a trafegabilidade das rotas. Já quando ando por trajetos conhecidos, a sensação de segurança é maior, porque, de certa forma, reconheço o porvir atrás de cada montanha, no fim de cada reta. O percurso passa a ser uma redescoberta. As paisagens, por conta da luz do sol ou do brilho da lua, da vida que brota com a chuva ou da morte que chega com a seca, ganham novos contornos, adquirem outros sentidos, me levam a pensar sobre a transitoriedade do olhar.

Assim também ocorre com a música. Quando me deparo com uma nova obra, preciso estudá-la, ouvi-la. Procuro encontrar pontos de referência, compreender a sua estrutura, elaborar uma proposta interpretativa fundamentada em parâmetros técnicos, físicos, psicológicos, auditivos. Com o repertório habitual, a tarefa é mais desafiadora, pois é necessário remover preconceitos, transpor as fronteiras de uma intimidade viciada, quase caduca. Para descobrir significados latentes, mas ainda não revelados, releio as composições pausadamente. Busco os detalhes rítmicos, melódicos, harmônicos, como se dá a relação entre texto e música, dinâmica, articulação e andamento. Quero os elementos outrora despercebidos e ignorados, mas que, agora, chegam à superfície, potencializando as múltiplas faces do objeto.

Todas as vezes que ando por estradas familiares, reencontro um velho amigo, releio um livro, revejo um filme ou reinterpreto uma composição, espero ansioso pelo momento do sobressalto, quando, de repente, terei a chance de encontrar a novidade. É neste instante que o espanto toma conta dos meus olhos, invade meus ouvidos, alegra meu coração. O deslumbramento impulsiona o gesto criador, a fruição estética, dinamizando a minha percepção da arte, da música, do belo, do outro, da vida.

Recentemente, ao visitar o Meio Norte do Brasil, fui surpreendido de diversas formas. Primeiro, ao reencontrar os integrantes do meu antigo coro, conversando e cantando, sorrindo e chorando, revivendo emoções passadas e presentes. Depois, passeando por outras paragens, ao descobrir Maramar, uma pequena vila de pescadores no limite leste do estreito e admirável litoral piauiense. Ali, onde os habitantes ainda vivem de forma simples e pacata, tive a oportunidade de me reinventar, afastado dos ruídos do mundo interior e exterior. Assombrado com o silêncio dos tempos, ouvi o rugido do mar, senti o vento forte no rosto, testemunhei o movimento das dunas, o encontro do rio com o mar, selado com um beijo longo, demorado e buliçoso, como o vai-e-vem dos amantes, que brincam perdidos no breu das noites estreladas, naquele pedaço do paraíso.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O poder da educação e do amor

Eu o conheci há alguns anos. Ele foi meu aluno no curso de graduação em música. Suas atitudes chamavam a minha atenção. Parecia estar sempre despreparado, visto que entregava os exercícios incompletos, interrompia as aulas com perguntas inadequadas, gargalhava importunamente. Passei algum tempo para compreender que tal comportamento era conseqüência dos vários problemas que afetavam a vida daquele estudante.

Seus gestos e hábitos mudaram com a timidez das luas minguantes. O  esforço era nítido. Passou a frequentar as aulas assiduamente, trazendo livros, textos e tarefas organizadas. Convidei-o para ingressar no coro que estava dirigindo, porque sabia que a prática coral seria decisiva naquele processo de aprendizagem musical e resgate da auto-estima. Ele aceitou a proposta e integrou-se ao grupo, participando dos ensaios e apresentações frequentemente, solfejando, cantando, ampliando seu círculo de amizade, superando limites e medos, vivendo ativamente os vários encontros e momentos de integração social, cultural e afetiva. Os colegas, professores e familiares perceberam as diferenças. Certo dia fui interpelado por suas irmãs, que me contaram um pouco da vida dele e das mudanças ocorridas desde o seu ingresso no coro. Agradeceram-me, falaram em milagres, que Deus usara o meu trabalho para converter um destino, salvar uma vida. Naquele terreno movediço, tentei ser imparcial escutando um testemunho comovente, procurando entender a força da fé e os sigilos que habitam o hiato entre o céu e a terra.

No tempo certo, chegada a hora da partida, troquei o calor da Chapada pelo frio da Serra. Trouxe no peito as marcas de uma trajetória intensa, uma saudade dolente e a certeza de que, à semelhança do poeta, continuaria cuidando daqueles que cativei. Distanciei-me das minhas benquerenças temporariamente, pois o silêncio é um bálsamo para as dores incomensuráveis. Numa manhã ensolarada, abro o email e vejo uma mensagem do meu aluno. Ele fala com entusiasmo dos seus avanços, do curso de flauta doce e violino, da aprovação nas aulas de Linguagem e Estruturação Musical, da dura realidade do estágio docente nas escolas públicas, das expectativas de emprego e da experiência de cantar, numa igreja qualquer, durante a Semana Santa, o primeiro solo da vida, o salmo responsorial, naquela que simbolicamente também poderia ser considerada a celebração da sua Páscoa. Aleluias.

Há poucos dias ele me enviou o seu convite de formatura. Fiquei imaginando a feliz sensação do dever cumprido estampada no rosto dele, dos amigos e da família. Celebremos, portanto, a alegria do agora, porque a desafiadora história deste aluno – e de tantos outros – ilumina o horizonte das minhas memórias, dá sentido à minha práxis pedagógica, ratifica a função catártica da arte, a força transformadora da música, os aspectos poéticos e proféticos da missão que abracei, o poder libertador da educação e do amor.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)