domingo, 11 de setembro de 2011

A promessa


Encerramos, na última sexta-feira, o curso de Capacitação em Educação Musical, uma realização da Prefeitura Municipal de Campina Grande (PMCG) em parceria com a Fundação Universitária de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (FURNE) e Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). O curso, com duração de 180 horas, surgiu em função da Lei 11.769/2008, que tornou obrigatório o ensino de Música em todos os níveis da educação básica, tendo como objetivo principal qualificar músicos e professores da rede municipal.

Durante o período de realização do curso, os alunos tiveram a oportunidade de aprofundar os conhecimentos em várias disciplinas. Os conteúdos abordados possibilitaram a compreensão da importânica e dos fundamentos políticos, sociais, culturais e psicológicos da educação musical, contribuindo para a reflexão sobre a práxis pedagógica local. Após a conclusão das aulas, que foram ministradas de forma teórica e prática, os alunos estagiaram em seis escolas públicas, a saber: Escola Agrícola da Vila Florestal (Lagoa Seca), Escola Tiradentes (Santa Rosa), Creche Amenaíde Santos (Santa Rosa), Escola Leonardo Vitorino (Pedregal), Escola Maria das Vitórias (Bairro das Cidades) e CEAI Elpídio de Almeida (Ramadinha II). Em todas as escolas foram realizadas oficinas de canto e movimento, confecção e exposição de instrumentos, bem como apresentações artísticas. A receptividade e a participação dos gestores, da equipe de professores e dos alunos das escolas visitadas foram excelentes, ratificando a premissa de que a Música é mais que bem-vinda e necessária dentro do contexto escolar.

Na solenidade de encerramento, o Secretário de Educação do Município de Campina Grande acatou as propostas apresentadas no nosso relatório, garantindo, dentre outras coisas: 1) que serão tomadas todas as providências no sentido de assegurar o cumprimento da Lei 11.769/2008; 2) que será criado o cargo de professor de Música dentro do quadro funcional da PMCG; e 3) que a PMCG envidará todos os esforços para realizar, o mais breve possível, um concurso público para o provimento do cargo de professor de Música. Falamos, ainda, sobre a criação de uma coordenação municipal para o Ensino de Música, bem como sobre a necessidade de aparelhar todas as creches e escolas com instrumentos musicais e outros equipamentos que permitam o desenvolvimento de diversas práticas educativas e musicais.

A ação conjunta da PMCG, da FURNE e da UFCG gerou frutos positivos, aproximando a academia da realidade local. Estamos cientes de que este foi apenas o passo inicial e que parcerias desta natureza podem e devem ser repetidas ao longo da caminhada. As palavras dos gestores municipais encheram de alegria e esperança os corações dos alunos participantes daquele curso de capacitação, que esperam ansiosos pelo cumprimento de tais promessas, essenciais para a emancipação do ensino de Arte e Música na Rainha da Borborema.

Vladimir Silva  (silvladimir@gmail.com

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O reencontro

Minha antiga professora de português estava sentada no banco da praça, despercebida, espiando o sobe e desce das ruas. Fiquei surpreso quando a avistei. Parei. Cautelosamente, dirigi-lhe a palavra, evitando assustá-la, sem esperar que me reconhecesse repentinamente, afinal a última vez que nos vimos foi há mais de três décadas.
 
Boa tarde, professora. Foi assim que iniciei a conversa. Ela me olhou com espanto, querendo saber quem era aquele estranho. Depois, atendeu-me com a simpatia de sempre, lábios encarnados, tal como nos anos em que assistia às suas aulas no Colégio Estadual. Identifiquei-me. Contei-lhe que fora seu aluno e que, quase todos os dias, no início da tarde, a esperava naquela praça. (Era com ela que eu seguia de carona até a escola, economizando o dinheiro da condução para comprar os livros da coleção Para Gostar de Ler, recheada com crônicas de Braga, Sabino, Veríssimo e Drummond.) Falei-lhe do fusca verde-abacate, bem conservado, que ela cuidadosamente conduzia. Ela me interrompeu, lembrando que possuíra três fuscas: um era azul; o outro, bege; o último foi esse aí, que você andou.
 
Na mesma hora, senti a fragrância marcante do seu perfume invadindo aquele carro, nos envolvendo nesta ambiência misteriosa dos aromas. Era o mesmo bálsamo que Vovó usava. Lentamente, as histórias chegavam num turbilhão de sensações e emoções. Lembrei-me de Daninha, minha tia-avó, que zelosamente, na Semana da Pátria, colocava duas fitas, uma verde e outra amarela, no bolso da minha farda caqui. Revi o diretor do Estadual tecendo explicações sobre a história do Brasil, no pátio da escola, antes da execução dos hinos Nacional e da Independência. Ouvi o eco distante do som da minha inseparável flauta doce, que levava todos os dias para animar os colegas na hora do recreio. Recordei, com toda a intensidade daquele instante, o dia no qual a professora me pediu para ler, em voz alta e na frente da turma, a fábula O caracol e a pitanga, de Millôr Fernandes, que narra a história de um caracol que deseja alcançar o cume da pitangueira, mas é desencorajado por uma formiga-maluca, “dessas que vão e vêm mais rápidas que um coelho de desenho animado”.
 
Certamente, naquele breve reencontro, ela também vasculhou fatos entre as sombras das suas memórias, quase todas perdidas no lusco-fusco do tempo. Reticências. Uma janela, ao longe, abriu-se e fechou-se. A minha velha mestra continua alegre, elegante, tranquila. Passa o tempo naquele não-lugar, observando o mundo, embaixo dos arvoredos enrugados e escurecidos que um dia me abrigaram. Percebendo a urgência dos meus gestos e a inquietação dos meus filhos, despediu-se sorrindo, feliz, parafraseando Millôr: Vá indo, sem pressa. Quando chegar lá em cima, quem sabe, vai ser tempo de pitanga.
 
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)