quinta-feira, 28 de julho de 2011

Guia Prático

A Academia Brasileira de Música (www.abmusica.org.br) e a FUNARTE (www.funarte.gov.br) publicaram, em 2009, o Guia Prático para a Educação Artística e Musical, de Heitor Villa-Lobos. Conforme descrito no preâmbulo do primeiro volume, muitos fatores contribuíram para o (re) lançamento da obra, dentre os quais: 1) a obrigatoriedade do ensino de música na escola (Lei 11.769, de 2008); 2) a celebração, em 2009, dos 50 anos de morte de Villa-Lobos; e 3) os projetos editoriais da ABM.

A edição bilíngue, dividida em quatro partes, é sofisticada, apresentando textos técnicos assinados por Manoel Aranha Corrêa do Lago, Sérgio Barboza e Maria Clara Barbosa. As fotografias impressas nas capas e contracapas são documentos raros, que revelam um pouco da magnitude do projeto político, pedagógico e artístico liderado por Villa. A idéia inicial do compositor era publicar seis volumes com assuntos diferentes, incluindo, dentre outros, cantigas infantis, hinos, canções escolares, música litúrgica e com temas ameríndios, africanos e americanos. No entanto, apenas o primeiro volume foi publicado, contendo 137 peças, fundamentalmente obras do cancioneiro infantil, sendo 58 para coro a cappella (uma, duas, três e/ou quatro vozes) e 79 para canto com acompanhamento (piano, conjunto instrumental) e/ou piano solo.

As canções, presentes no inconsciente musical brasileiro, são fáceis de assimilar e estão escritas numa região cômoda para todas as categorias vocais. Nas obras com acompanhamento, por exemplo, as passagens mais complexas, tanto sob a perspectiva harmônica quanto rítmica, são reservadas para o conjunto instrumental, que é indeterminado, ad libitum. Este é, certamente, um dos aspectos mais relevantes da coletânea, visto que o regente/educador poderá combinar vozes e/ou instrumentos de acordo com os recursos disponíveis. Segundo os editores, as canções que integram o Guia Prático advém das coletas realizadas por Villa-Lobos e sua equipe e, mais especificamente, de vários outros documentos musicais, dentre os quais o Ensaio sobre a música brasileira (Mário de Andrade, 1928); A Música no Brasil (Guilherme T. Pereira de Melo, 1908); Ciranda, cirandinha – coleção de cantigas populares e brinquedos (João Gomes Júnior e João Batista Julião, 1924); e Os nossos brinquedos – contribuição para o folclore brasileiro (Alexina Magalhães Pinto, 1909).
 

O Guia é uma excelente fonte para a pesquisa de repertório, razão pela qual é uma antologia indispensável na biblioteca de qualquer escola e de todo regente. As obras, acessíveis a grande maioria dos nossos coros, podem ser interpretadas por grupos de vozes afins e/ou mistos, de diferentes faixas etárias, inseridos nos mais variados contextos sociais, educacionais e artísticos. Esta versão do estudo folclórico musical de Villa-Lobos, valiosa e atual, resgata elementos importantes da nossa história, contribuindo para a preservação e a divulgação do patrimônio cultural e da memória musical brasileira.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Aquarela

No início dos anos oitenta, a paisagem do entorno do Açude Novo foi completamente alterada com a urbanização da Rua das Imbiras, dos Coqueiros de Zé Rodrigues e a construção do Parque do Povo. A inauguração do Centro Cultural, no coração da cidade, possibilitou o acesso de inúmeros jovens ao mundo da arte e da literatura, sobretudo com a instalação da Fundação Artístico-Cultural Manuel Bandeira (FACMA) naquele complexo educacional.

Os cursos oferecidos pela FACMA eram muito concorridos. A clientela que, por exemplo, participava das aulas de redação, recebendo a orientação de Angelina Duarte, Graças Reis e Thelma Cartaxo, era formada principalmente por alunos das escolas públicas estaduais. Foi ali, naquele espaço onde hoje funciona a sala de dança, que tive, pela primeira vez, contato com a obra de grandes escritores da nossa literatura. Nos encontros semanais, líamos e estudávamos materiais diversos, que usávamos como base para a construção de novos textos e poemas. Quando nos debruçávamos sobre o rico corpus da música popular brasileira, analisando as canções de Chico, Milton e Tom, também cantávamos, a cappella e/ou acompanhados por um violão, vivenciando um intenso processo intersemiótico.

Certo dia, quando estávamos dissecando a canção Aquarela, àquela época mais um sucesso da dupla Toquinho e Vinicius, alguém me convidou para ingressar no Facmadrigal, o coro da Fundação. Devo confessar que fui para o ensaio sem muitas pretensões. No entanto, quando ouvi o grupo, fui seduzido pela magia e pelo mistério da polifonia vocal. Senti que todo o meu ser ansiava por aquele momento há bastante tempo. Ingressei no naipe dos tenores e lentamente me vi envolvido naquela trama física, afetiva, sonora, espiritual. Interpretávamos de tudo, incluindo música sacra e popular, que o maestro Sérgio Telles arranjava com muito zelo, pensando no conjunto de cantores e amigos.

O Facmadrigal foi minha primeira escola. Os anos que passei por lá foram muito importantes, pois adquiri valores que foram essenciais para a minha trajetória. Lembro-me que, durante um ensaio, num momento de descontração, comecei a brincar, balançando os braços em todas as direções, tentando imitar o maestro, regendo uma das peças do nosso repertório. Os meus gestos burlescos, além de provocarem o riso dos colegas, chamaram a atenção do regente, que, à distância e escondido, me observava e, depois de olhar atentamente aquela encenação, me nomeou seu assistente. Desde então, e à semelhança do que ocorrera com o bairro São José, tudo mudou. Passei a viver entre a alternância e a permanência, a ruptura e a conciliação, o singular e o plural, o medo e a ousadia, trilhando caminhos, construindo pontes, ouvindo vozes, pintando paisagens luminosas, transparentes e suaves como as matizes de uma aquarela que, tenho certeza, jamais descolorirá.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O Festival e o riso

O segundo Festival Internacional de Música de Campina Grande foi um sucesso. E o êxito do evento pode ser atribuído a vários fatores, dentre os quais o comprometimento da Universidade Federal de Campina Grande e da Universidade Estadual da Paraíba, o apoio de diversos setores da iniciativa privada, o engajamento da equipe de produção e a integração dos alunos e professores.

Durante uma semana, tivemos o prazer de conviver com mais de duzentos alunos e professores de diferentes estados e países. Ao longo dos dez concertos realizados nas dependências do recém inaugurado Teatro Municipal Severino Cabral foram interpretadas mais de sessenta obras, música vocal, instrumental, sacra, secular, para solista e/ou grupos de câmara. A cada noite o público era surpreendido com as performances dos artistas convidados. Foi assim no concerto de abertura; na apresentação do Coro de Câmara, da Universidade Federal de Campina Grande; na noite dedicada ao compositor Franz Liszt, oportunidade na qual os virtuosos pianistas reinaram soberanamente; na estreia do Quinteto de Sopros da Paraíba; e no concerto de encerramento, quando o Coro e a Orquestra do Festival interpretaram, sob forte comoção, o Requiem para um trombone, do compositor Eli-Eri Moura.
 
As noites frias da Rainha da Borborema foram aquecidas com os aplausos calorosos e amáveis das mais de sete mil pessoas que lotaram as dependências do Municipal. As enormes filas na porta de entrada daquele templo e a quantidade de pessoas sentadas nos corredores e laterais do Teatro anunciavam uma nova era para a música no cenário estadual e a consolidação do evento no âmbito regional e (inter) nacional. Os milhares de acessos à página do Festival na internet (www.festival.musica.ufcg.edu.br) comprovam a existência de um vasto público interessado na arte musical, o que deveria incitar a implementação de políticas públicas neste sentido.
 
Festival é sinônimo de encontro, celebração e alegria. Por isso, nestes dias, o frescor e o contentamento se espalharam pelo céu da Serra, intensificando o seu brilho, ratificando, mais uma vez, o espírito empreendedor desta cidade, a sua bravura, a sua vocação para as artes. O espírito leve e jovial, as mentes e os corações abertos de todos aqueles que fizeram esta segunda edição do Festival invadiram a UFCG, a UEPB e a Casa de Seu Cabral, contagiando a plateia, favorecendo a conjunção da poesia com a música, do novo com o velho, da periferia com o centro, do universal com o regional, da vida com a arte. Os resultados alcançados nos ensinam que estamos no caminho certo, que precisamos de outras provocações, novos desafios, e, sobretudo, felicidade em abundância, pois, como assinala Caio Fernando Abreu, só o riso resiste a todas as ciladas do tempo.
 
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)