segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A despedida

O dia amanheceu. As cores invadiram o horizonte, acentuando a sua exuberância. No jardim, begônias, gerânios e antúrios, tão belos e frágeis, aguardam sedentos. A água escorre por entre os vasos. Formigas começam a caminhar. Nos troncos inertes, colônias de cogumelos e orquídeas vaidosas. Elas exibem longos pendões recheados com minúsculas pétalas que parecem gotículas de ouro. Borboletas e marimbondos dividem o néctar dos hibiscos alaranjados e rosas. Embaixo das longas folhas das samambaias, zunzum e vaivém de vultos. São os duendes, que cantam silenciosamente. Nestes tempos de feromônio abundante, a joaninha, com seu vestido vermelho, tal qual uma dançarina de tango, caminha faceira sobre um caule suculento à procura do seu parceiro ou, quem sabe, de um beijo-de-frade, enquanto, no subsolo, as minhocas fecundam a terra, deixando-a mais úmida e grávida de desejos. Sortilégios, sacrilégios e licenciosidades primaveris.

Caminho sem destino. Nas curvas da cidade, na avenida principal, à sombra dos ipês, que despertam tardiamente, tapetes coloridos dançam ao som do vento que passa, rodopiando num moto continuum. Ao cruzá-los, folhas, flores e frutos espalham por todos os cantos aromas secretos, intensificando a volúpia e a doçura do cio da terra e dos homens. Olhos, nariz e boca captam a beleza efêmera daquele instante que as mãos e os versos, ansiosamente, tentam decifrar e registrar.

É meio-dia. Subo uma ladeira. Do alto de uma bela vista, o espelho d’água fervilha com o calor do sol, iluminando os pequenos montes que demarcam os limites de um lugar qualquer. Bougainvilles e flamboyants quebram a hegemonia daquela paisagem quase monocromática, indicando caminhos e labirintos ainda não desvendados. Ao longe, as silhuetas dos pescadores, que lançam suas redes à procura dos peixes de outrora, se inserem naquele cenário como personagens de um teatro de sombras. Atrás daqueles gestos e véus, tudo é movimento, indefinição.

Volto para casa ao entardecer. A lua surge por entre as palmeiras às margens do lago represado. Aquele corpo cintilante, madrepérola, destaca-se no firmamento ainda azul. Bruxas e fadas, que em noite de lua cheia aguçam os sentidos farejando a essência das coisas e dos seres, curvam-se perante majestosa presença. Imóveis, todos contemplam a hóstia celeste, um extasiante farol no céu da cidade em festa. No rádio, anunciam, solenemente, a hora do ângelus. A maviosa voz de Stevie Wonder preenche o hiato entre a terra e o espaço com a melodia e os acordes de Bach e Gounod, levando consigo muitos segredos. Subitamente, uma luz verde aparece. Buzinas e roncos de motores me despertam. Saio, seguindo o vento e a canção, percebendo as permanências e transitoriedades, a acidez e a doçura da natureza, da vida e do coração neste fim de estação.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 9 de outubro de 2011

Canto do povo de um lugar

O Painel FUNARTE de Regência Coral realizado em Vassouras, Rio de Janeiro, teve como parceiro o Programa de Integração pela Música (www.pim-org.com), contando com a participação de vários alunos de diversas cidades daquela região fluminense, bem como de outros estados, dentre os quais Minas Gerais e Paraíba. Ao meu lado, na equipe docente, estavam Gisele Cruz e Mário César, ambos de São Paulo. Juntos, trabalhamos sob a liderança da professora Maria José Queiroz, a grande gestora e também defensora deste importante projeto.

Como em todos os outros Painéis, recebemos alunos e profissionais da área de música, engajados em diferentes contextos, assim como pessoas sem nenhuma experiência. Abordamos conteúdos variados, sempre numa perspectiva pragmática, incluindo técnica vocal, cuidados com a voz, seleção de repertório, gestual para a regência, classificação vocal e organização e metodologia do ensaio. Um ponto recorrente nas nossas discussões foram os aspectos sociais, educacionais e artísticos da prática coral, sobretudo em virtude da Lei 11.769/2008, que trata da obrigatoriedade do ensino de música em todos os níveis da educação básica.

As canções brasileiras, portuguesas e africanas que interpretamos naquela semana exploraram vários aspectos do fazer musical, ressaltando, ao mesmo tempo, a estreita relação entre corpo, movimento e som, assim como os laços entre música e história, tão bem preservados no patrimônio arquitetônico e na memória daquela cidade, outrora chamada Princesinha do Café e Cidade dos Barões. Tivemos a oportunidade de cantar a cappella e com acompanhamento, em uníssono e polifonicamente. Usamos percussão corporal para criar efeitos e ressaltar os elementos expressivos do texto musical e poético. Compomos coletivamente, usando como base a escala pentatônica e os sons e ruídos do ambiente. Assim, brincamos com o passado e o presente; com o uivo do vento, que se move nas entranhas das serras; com o chiado das vassouras de palha, que limparam o assoalho daquelas ruas estreitas por onde escravos e nobres caminharam; com o apito da velha Maria Fumaça, subindo e descendo ladeiras, transportando a riqueza dos cafezais; com o badalar dos sinos da imponente igreja matriz, rodeada por centenárias palmeiras imperiais, no alto do morro, no coração da cidade.

Conforme decidimos no primeiro semestre, na reunião de planejamento com toda a equipe, registramos os encontros, os ensaios, o processo criativo e os depoimentos dos participantes. Este material será utilizado na montagem de um Painel virtual, contendo as experiências realizadas em Campo Grande-MS, Vassouras-RJ e Quixadá-CE, e ficará à disposição do público no site da FUNARTE (www.funarte.gov.br/projetocoral). Nossa meta, com este trabalho, é retratar diferentes ambientes e paisagens sonoras, as múltiplas faces do canto coral brasileiro, o canto do povo de um lugar.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 11 de setembro de 2011

A promessa


Encerramos, na última sexta-feira, o curso de Capacitação em Educação Musical, uma realização da Prefeitura Municipal de Campina Grande (PMCG) em parceria com a Fundação Universitária de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (FURNE) e Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). O curso, com duração de 180 horas, surgiu em função da Lei 11.769/2008, que tornou obrigatório o ensino de Música em todos os níveis da educação básica, tendo como objetivo principal qualificar músicos e professores da rede municipal.

Durante o período de realização do curso, os alunos tiveram a oportunidade de aprofundar os conhecimentos em várias disciplinas. Os conteúdos abordados possibilitaram a compreensão da importânica e dos fundamentos políticos, sociais, culturais e psicológicos da educação musical, contribuindo para a reflexão sobre a práxis pedagógica local. Após a conclusão das aulas, que foram ministradas de forma teórica e prática, os alunos estagiaram em seis escolas públicas, a saber: Escola Agrícola da Vila Florestal (Lagoa Seca), Escola Tiradentes (Santa Rosa), Creche Amenaíde Santos (Santa Rosa), Escola Leonardo Vitorino (Pedregal), Escola Maria das Vitórias (Bairro das Cidades) e CEAI Elpídio de Almeida (Ramadinha II). Em todas as escolas foram realizadas oficinas de canto e movimento, confecção e exposição de instrumentos, bem como apresentações artísticas. A receptividade e a participação dos gestores, da equipe de professores e dos alunos das escolas visitadas foram excelentes, ratificando a premissa de que a Música é mais que bem-vinda e necessária dentro do contexto escolar.

Na solenidade de encerramento, o Secretário de Educação do Município de Campina Grande acatou as propostas apresentadas no nosso relatório, garantindo, dentre outras coisas: 1) que serão tomadas todas as providências no sentido de assegurar o cumprimento da Lei 11.769/2008; 2) que será criado o cargo de professor de Música dentro do quadro funcional da PMCG; e 3) que a PMCG envidará todos os esforços para realizar, o mais breve possível, um concurso público para o provimento do cargo de professor de Música. Falamos, ainda, sobre a criação de uma coordenação municipal para o Ensino de Música, bem como sobre a necessidade de aparelhar todas as creches e escolas com instrumentos musicais e outros equipamentos que permitam o desenvolvimento de diversas práticas educativas e musicais.

A ação conjunta da PMCG, da FURNE e da UFCG gerou frutos positivos, aproximando a academia da realidade local. Estamos cientes de que este foi apenas o passo inicial e que parcerias desta natureza podem e devem ser repetidas ao longo da caminhada. As palavras dos gestores municipais encheram de alegria e esperança os corações dos alunos participantes daquele curso de capacitação, que esperam ansiosos pelo cumprimento de tais promessas, essenciais para a emancipação do ensino de Arte e Música na Rainha da Borborema.

Vladimir Silva  (silvladimir@gmail.com

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O reencontro

Minha antiga professora de português estava sentada no banco da praça, despercebida, espiando o sobe e desce das ruas. Fiquei surpreso quando a avistei. Parei. Cautelosamente, dirigi-lhe a palavra, evitando assustá-la, sem esperar que me reconhecesse repentinamente, afinal a última vez que nos vimos foi há mais de três décadas.
 
Boa tarde, professora. Foi assim que iniciei a conversa. Ela me olhou com espanto, querendo saber quem era aquele estranho. Depois, atendeu-me com a simpatia de sempre, lábios encarnados, tal como nos anos em que assistia às suas aulas no Colégio Estadual. Identifiquei-me. Contei-lhe que fora seu aluno e que, quase todos os dias, no início da tarde, a esperava naquela praça. (Era com ela que eu seguia de carona até a escola, economizando o dinheiro da condução para comprar os livros da coleção Para Gostar de Ler, recheada com crônicas de Braga, Sabino, Veríssimo e Drummond.) Falei-lhe do fusca verde-abacate, bem conservado, que ela cuidadosamente conduzia. Ela me interrompeu, lembrando que possuíra três fuscas: um era azul; o outro, bege; o último foi esse aí, que você andou.
 
Na mesma hora, senti a fragrância marcante do seu perfume invadindo aquele carro, nos envolvendo nesta ambiência misteriosa dos aromas. Era o mesmo bálsamo que Vovó usava. Lentamente, as histórias chegavam num turbilhão de sensações e emoções. Lembrei-me de Daninha, minha tia-avó, que zelosamente, na Semana da Pátria, colocava duas fitas, uma verde e outra amarela, no bolso da minha farda caqui. Revi o diretor do Estadual tecendo explicações sobre a história do Brasil, no pátio da escola, antes da execução dos hinos Nacional e da Independência. Ouvi o eco distante do som da minha inseparável flauta doce, que levava todos os dias para animar os colegas na hora do recreio. Recordei, com toda a intensidade daquele instante, o dia no qual a professora me pediu para ler, em voz alta e na frente da turma, a fábula O caracol e a pitanga, de Millôr Fernandes, que narra a história de um caracol que deseja alcançar o cume da pitangueira, mas é desencorajado por uma formiga-maluca, “dessas que vão e vêm mais rápidas que um coelho de desenho animado”.
 
Certamente, naquele breve reencontro, ela também vasculhou fatos entre as sombras das suas memórias, quase todas perdidas no lusco-fusco do tempo. Reticências. Uma janela, ao longe, abriu-se e fechou-se. A minha velha mestra continua alegre, elegante, tranquila. Passa o tempo naquele não-lugar, observando o mundo, embaixo dos arvoredos enrugados e escurecidos que um dia me abrigaram. Percebendo a urgência dos meus gestos e a inquietação dos meus filhos, despediu-se sorrindo, feliz, parafraseando Millôr: Vá indo, sem pressa. Quando chegar lá em cima, quem sabe, vai ser tempo de pitanga.
 
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Guia Prático

A Academia Brasileira de Música (www.abmusica.org.br) e a FUNARTE (www.funarte.gov.br) publicaram, em 2009, o Guia Prático para a Educação Artística e Musical, de Heitor Villa-Lobos. Conforme descrito no preâmbulo do primeiro volume, muitos fatores contribuíram para o (re) lançamento da obra, dentre os quais: 1) a obrigatoriedade do ensino de música na escola (Lei 11.769, de 2008); 2) a celebração, em 2009, dos 50 anos de morte de Villa-Lobos; e 3) os projetos editoriais da ABM.

A edição bilíngue, dividida em quatro partes, é sofisticada, apresentando textos técnicos assinados por Manoel Aranha Corrêa do Lago, Sérgio Barboza e Maria Clara Barbosa. As fotografias impressas nas capas e contracapas são documentos raros, que revelam um pouco da magnitude do projeto político, pedagógico e artístico liderado por Villa. A idéia inicial do compositor era publicar seis volumes com assuntos diferentes, incluindo, dentre outros, cantigas infantis, hinos, canções escolares, música litúrgica e com temas ameríndios, africanos e americanos. No entanto, apenas o primeiro volume foi publicado, contendo 137 peças, fundamentalmente obras do cancioneiro infantil, sendo 58 para coro a cappella (uma, duas, três e/ou quatro vozes) e 79 para canto com acompanhamento (piano, conjunto instrumental) e/ou piano solo.

As canções, presentes no inconsciente musical brasileiro, são fáceis de assimilar e estão escritas numa região cômoda para todas as categorias vocais. Nas obras com acompanhamento, por exemplo, as passagens mais complexas, tanto sob a perspectiva harmônica quanto rítmica, são reservadas para o conjunto instrumental, que é indeterminado, ad libitum. Este é, certamente, um dos aspectos mais relevantes da coletânea, visto que o regente/educador poderá combinar vozes e/ou instrumentos de acordo com os recursos disponíveis. Segundo os editores, as canções que integram o Guia Prático advém das coletas realizadas por Villa-Lobos e sua equipe e, mais especificamente, de vários outros documentos musicais, dentre os quais o Ensaio sobre a música brasileira (Mário de Andrade, 1928); A Música no Brasil (Guilherme T. Pereira de Melo, 1908); Ciranda, cirandinha – coleção de cantigas populares e brinquedos (João Gomes Júnior e João Batista Julião, 1924); e Os nossos brinquedos – contribuição para o folclore brasileiro (Alexina Magalhães Pinto, 1909).
 

O Guia é uma excelente fonte para a pesquisa de repertório, razão pela qual é uma antologia indispensável na biblioteca de qualquer escola e de todo regente. As obras, acessíveis a grande maioria dos nossos coros, podem ser interpretadas por grupos de vozes afins e/ou mistos, de diferentes faixas etárias, inseridos nos mais variados contextos sociais, educacionais e artísticos. Esta versão do estudo folclórico musical de Villa-Lobos, valiosa e atual, resgata elementos importantes da nossa história, contribuindo para a preservação e a divulgação do patrimônio cultural e da memória musical brasileira.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Aquarela

No início dos anos oitenta, a paisagem do entorno do Açude Novo foi completamente alterada com a urbanização da Rua das Imbiras, dos Coqueiros de Zé Rodrigues e a construção do Parque do Povo. A inauguração do Centro Cultural, no coração da cidade, possibilitou o acesso de inúmeros jovens ao mundo da arte e da literatura, sobretudo com a instalação da Fundação Artístico-Cultural Manuel Bandeira (FACMA) naquele complexo educacional.

Os cursos oferecidos pela FACMA eram muito concorridos. A clientela que, por exemplo, participava das aulas de redação, recebendo a orientação de Angelina Duarte, Graças Reis e Thelma Cartaxo, era formada principalmente por alunos das escolas públicas estaduais. Foi ali, naquele espaço onde hoje funciona a sala de dança, que tive, pela primeira vez, contato com a obra de grandes escritores da nossa literatura. Nos encontros semanais, líamos e estudávamos materiais diversos, que usávamos como base para a construção de novos textos e poemas. Quando nos debruçávamos sobre o rico corpus da música popular brasileira, analisando as canções de Chico, Milton e Tom, também cantávamos, a cappella e/ou acompanhados por um violão, vivenciando um intenso processo intersemiótico.

Certo dia, quando estávamos dissecando a canção Aquarela, àquela época mais um sucesso da dupla Toquinho e Vinicius, alguém me convidou para ingressar no Facmadrigal, o coro da Fundação. Devo confessar que fui para o ensaio sem muitas pretensões. No entanto, quando ouvi o grupo, fui seduzido pela magia e pelo mistério da polifonia vocal. Senti que todo o meu ser ansiava por aquele momento há bastante tempo. Ingressei no naipe dos tenores e lentamente me vi envolvido naquela trama física, afetiva, sonora, espiritual. Interpretávamos de tudo, incluindo música sacra e popular, que o maestro Sérgio Telles arranjava com muito zelo, pensando no conjunto de cantores e amigos.

O Facmadrigal foi minha primeira escola. Os anos que passei por lá foram muito importantes, pois adquiri valores que foram essenciais para a minha trajetória. Lembro-me que, durante um ensaio, num momento de descontração, comecei a brincar, balançando os braços em todas as direções, tentando imitar o maestro, regendo uma das peças do nosso repertório. Os meus gestos burlescos, além de provocarem o riso dos colegas, chamaram a atenção do regente, que, à distância e escondido, me observava e, depois de olhar atentamente aquela encenação, me nomeou seu assistente. Desde então, e à semelhança do que ocorrera com o bairro São José, tudo mudou. Passei a viver entre a alternância e a permanência, a ruptura e a conciliação, o singular e o plural, o medo e a ousadia, trilhando caminhos, construindo pontes, ouvindo vozes, pintando paisagens luminosas, transparentes e suaves como as matizes de uma aquarela que, tenho certeza, jamais descolorirá.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O Festival e o riso

O segundo Festival Internacional de Música de Campina Grande foi um sucesso. E o êxito do evento pode ser atribuído a vários fatores, dentre os quais o comprometimento da Universidade Federal de Campina Grande e da Universidade Estadual da Paraíba, o apoio de diversos setores da iniciativa privada, o engajamento da equipe de produção e a integração dos alunos e professores.

Durante uma semana, tivemos o prazer de conviver com mais de duzentos alunos e professores de diferentes estados e países. Ao longo dos dez concertos realizados nas dependências do recém inaugurado Teatro Municipal Severino Cabral foram interpretadas mais de sessenta obras, música vocal, instrumental, sacra, secular, para solista e/ou grupos de câmara. A cada noite o público era surpreendido com as performances dos artistas convidados. Foi assim no concerto de abertura; na apresentação do Coro de Câmara, da Universidade Federal de Campina Grande; na noite dedicada ao compositor Franz Liszt, oportunidade na qual os virtuosos pianistas reinaram soberanamente; na estreia do Quinteto de Sopros da Paraíba; e no concerto de encerramento, quando o Coro e a Orquestra do Festival interpretaram, sob forte comoção, o Requiem para um trombone, do compositor Eli-Eri Moura.
 
As noites frias da Rainha da Borborema foram aquecidas com os aplausos calorosos e amáveis das mais de sete mil pessoas que lotaram as dependências do Municipal. As enormes filas na porta de entrada daquele templo e a quantidade de pessoas sentadas nos corredores e laterais do Teatro anunciavam uma nova era para a música no cenário estadual e a consolidação do evento no âmbito regional e (inter) nacional. Os milhares de acessos à página do Festival na internet (www.festival.musica.ufcg.edu.br) comprovam a existência de um vasto público interessado na arte musical, o que deveria incitar a implementação de políticas públicas neste sentido.
 
Festival é sinônimo de encontro, celebração e alegria. Por isso, nestes dias, o frescor e o contentamento se espalharam pelo céu da Serra, intensificando o seu brilho, ratificando, mais uma vez, o espírito empreendedor desta cidade, a sua bravura, a sua vocação para as artes. O espírito leve e jovial, as mentes e os corações abertos de todos aqueles que fizeram esta segunda edição do Festival invadiram a UFCG, a UEPB e a Casa de Seu Cabral, contagiando a plateia, favorecendo a conjunção da poesia com a música, do novo com o velho, da periferia com o centro, do universal com o regional, da vida com a arte. Os resultados alcançados nos ensinam que estamos no caminho certo, que precisamos de outras provocações, novos desafios, e, sobretudo, felicidade em abundância, pois, como assinala Caio Fernando Abreu, só o riso resiste a todas as ciladas do tempo.
 
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 15 de maio de 2011

II Festival Internacional de Música de Campina Grande

Está no ar a página do II Festival Internacional de Música de Campina Grande (www.festival.musica.ufcg.edu.br), que, este ano, acontece no período de 4 a 9 de julho. O Festival é uma promoção conjunta da Universidade Federal de Campina Grande, Universidade Estadual da Paraíba e Fundação Parque Tecnológico, contando com o apoio de diversas instituições públicas e privadas.

O corpo docente será formado pelos seguintes professores: Adriana Linares (Viola – Venezuela/EUA), Angelo Dias (Barítono – Brasil), Carlos Rieiro (Clarinete – Argentina/Brasil), David Gardner (Violoncelo – Inglaterra/Brasil), Marília Álvares (Soprano – Brasil), Karl H. Schwebel (Trompete – Brasil), Heleno Costa (Fagote – Brasil), Hye-Youn Park (Piano – Coreia/Alemanha), José Henrique Martins (Piano – Brasil), Jean Márcio (Tuba – Brasil), José Medeiros (Oboé – Brasil), Katie Kresek (Violino – EUA),
Kenneth Fulton (Regência – EUA), Lemuel Guerra (Chorusmaster – Brasil), Manuel Matarrita (Piano – Costa Rica), Mario Ulloa (Violão – Brasil/Costa Rica), Mauro Bertoli (Piano – Itália/Canadá), Netanel Draiblate (Violino – Israel/EUA), Thibault Delor (Contrabaixo – França/Brasil), Renan Rezende (Flauta – Brasil), Radegundis Tavares (Trompa – Brasil), Sandoval Moreno (Trombone – Brasil) e Vladimir Silva (Regência – Brasil).

O Festival Internacional de Música  é um evento sui generis no estado da Paraíba, projetando o nome da cidade e das instituições promotoras para vários cantos do país e diferentes continentes. É, portanto, uma oportunidade ímpar para intercâmbio entre profissionais e estudantes, contribuindo para expandir o mercado de trabalho dos músicos, assim como o desenvolvimento de políticas públicas voltadas para a arte e a cultura em nossa região. Este ano, o Festival acontece no Teatro Municipal Severino Cabral (http://www.teatroseverinocabral.com.br/index2.php), reinaugurado recentemente. Durante uma semana serão desenvolvidas várias atividades, incluindo aulas e concertos. A expectativa é que alunos de diversas partes do Brasil se inscrevam e que um grande público compareça para prestigiar aos espetáculos musicais, que acontecerão sempre à noite e terão entrada gratuita.

A entrega do Prêmio Radegundis Feitosa marcará o encerramento do Festival. Este prêmio será outorgado a um músico ou entidade artístico-cultural com relevante atuação no âmbito local, regional ou nacional. Para marcar a entrega do referido prêmio, o Coro e a Orquestra do Festival apresentarão o Requiem para um trombone, do compositor Eli-Eri Moura, escrito in memoriam do grande trombonista paraibano. Nesta ocasião também será feita a assinatura de um acordo de cooperação mútua entre a UFCG e a UEPB, que incluirão em seus orçamentos anuais uma verba específica para o Festival, garantindo, desta forma, sua continuidade pelos anos vindouros. Sintam-se, portanto, convidados para o nosso Festival e para conhecer as belezas da Rainha da Borborema, esta cidade que, como bem descreve Fernando Silveira, é “eterno poema, de amor à beleza, ó recanto abençoado do Brasil, onde o Cruzeiro do Sul resplandece, capital do trabalho e da paz!”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 17 de abril de 2011

Repensando o ensaio coral

Para assegurar a plenitude do processo de ensino-aprendizagem da prática coral é fundamental que a sala de ensaios seja preparada adequadamente. Deve-se cuidar da iluminação e da ventilação, natural e artificial, pois o conforto térmico contribui para o bem-estar do coro. O tratamento acústico do espaço é determinante para o sucesso do trabalho, influenciando na realização do repertório e na sonoridade coral. O espaço físico precisa ser adequado ao tamanho do coro e às atividades que serão desenvolvidas. Cadeiras, armários, mesas, quadros, além de outros equipamentos, tais como pianos, aparelhos de som e televisão, devem ser alocados em lugares estratégicos e acessíveis.

Na sala de ensaio, os cantores devem ter à disposição partituras legíveis e bem editadas, papel em branco, lápis e borracha. Estes recursos materiais podem ser utilizados para registrar as anotações pessoais e as observações do regente. Ao contrário daquilo que comumente ocorre na prática orquestral, coralistas ainda não desenvolveram o hábito de anotar as indicações do regente na partitura. É necessário estimulá-los, explicando-lhes as razões das solicitações ou comentários, fazendo com que eles compreendam o texto poético e musical das obras. Aproveitar cada momento deste encontro de permutas e aquisição de saberes é, portanto, o princípio norteador do fazer pedagógico do regente, porque no ensaio coral ocorre um intenso processo educativo, que é dialógico e fruto da parceria entre os cantores e o regente.

Para que o ensaio se torne significativo, seria interessante substituir, gradualmente, a ineficiente prática da aprendizagem por imitação e repetição, que comumente ocorre quando o cantor reproduz acriticamente aquilo que o regente lhe oferece, por uma forma mais consciente de aquisição do conhecimento, na qual o coralista possa dar uma contribuição mais efetiva e pessoal. O cantor, nesta perspectiva, passaria a agir proativamente, enumerando compassos, marcando respirações, solfejando partes e solucionando, sempre que possível e por conta própria, os problemas rítmicos, melódicos e vocais encontrados no repertório. Estas são iniciativas importantes que deveriam ser estimuladas e incorporadas à práxis cotidiana dos nossos coros. Certamente, os ensaios se tornariam mais instigantes, pois os conteúdos e desafios impostos pelo repertório seriam superados de forma sistemática, metódica, dinâmica, eficaz.

Recitais e concertos devem ser compreendidos, portanto, como os produtos finais do trabalho desenvolvido ao longo de vários ensaios criteriosamente planejados e organizados. Tais atividades artísticas são ferramentas de avaliação importantes para a consistência da interpretação musical. No entanto, concebê-las como primordiais, como meta e objetivo exclusivos da prática coral, significa transferir o foco de atenção do processo para o produto. Que o ensaio seja, assim, entendido como construção coletiva, contando, em todas as suas etapas, com a colaboração e o engajamento de cantores e regente, favorecendo o crescimento musical, vocal, intelectual, afetivo e emocional de todos.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com

domingo, 10 de abril de 2011

A feira

Sábado é dia de feira em Campina Grande. Pelas ruas da cidade, além dos campinenses, circulam aqueles que vivem no entorno da Rainha da Borborema, que se encontram para comprar e vender mercadorias, dinamizando a economia local. O trânsito fica ainda mais caótico, sobretudo onde se encontra o amplo e diversificado mercado central, que, como orgulhosamente dizem por aqui, é um dos maiores do Nordeste.
 
Na Vila Nova da Rainha, é possível encontrar uma grande variedade de plantas ornamentais, advindas do brejo paraibano e do agreste pernambucano. A policromia daquelas rosas e gérberas, sempre vivas, contrasta com a paisagem monocromática e inerte dos quiosques que vendem carnes e peixes. Ali, os animais eviscerados, decapitados e desossados espiam com os olhos semicerrados e bocas entreabertas, emitindo um grito silencioso, chamando a atenção para a fragilidade da condição humana, animal. Este emaranhado de gestos, olhares e odores seria o cenário perfeito para o nascimento de Jean-Baptiste Grenouille, personagem principal do filme Perfume – A história de um assassino, dirigido por Tom Tykwer.
 
Andando pelos becos e vielas, subindo e descendo ladeiras, ouve-se de tudo. De um lado ecoam os gritos dos vendedores e seus pregões, que Carl Orff, se ainda estivesse vivo e por aqui passasse, certamente os incluiria nos seus livros e métodos de educação musical. Do outro, o modalismo da cantoria de viola, do repente e do desafio que tanto fascinaram e influenciaram o compositor José Alberto Kaplan. Lá embaixo, na rua onde são comercializados pintos e galinhas e na qual, curiosamente, também estão localizados os bordéis, incluindo o que sobrou do Cassino Eldorado, o cabaré mais famoso e bem frequentado da cidade na primeira metade do século vinte, as radiolas tocam canções de amor de ontem e hoje.
 
A feira é um labirinto multisensorial, tablado de muitos conflitos, como mostrou Lourdes Ramalho na sua obra tragicômica, A Feira, já encenada diversas vezes no Brasil. Palco no qual brilharam Maria Pororoca, Carminha Vilar e Zefa Tributino, as damas do conhecido Eldorado, todas imortalizadas no Forró em Campina, de Jackson do Pandeiro, aquele ambiente mercantil evoca as práticas comerciais da Idade Moderna, o universo musical renascentista francês, a polifonia imitativa e descritiva da canção Les cris de Paris, de Clement Janequin. Assim como nA Feira de Caruaru, enaltecida pela dupla Onildo Almeida e Luiz Gonzaga, na feira de Campina, grande e sui generis como ela o é, “de tudo que há no mundo, nela tem pra vender.” Entre balaios, cores, aromas e sabores, a vida, livre como o mercado a céu aberto, é puro movimento, festa e fantasia nesta Feira de mangai, que em cada canto de rua tem um sanfoneiro fazendo floreio pra gente dançar.
 
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Música para a Quaresma

A Quaresma é o período que vai da Quarta-Feira de Cinzas até a Páscoa. Para a Igreja, este é um momento de conversão, meditação e penitência, motivo pelo qual a liturgia adquire conotações específicas, conforme descrito nos documentos eclesiásticos. O roxo é predominante nos altares e paramentos sacerdotais. Dentre os itens proibidos nas celebrações ao longo deste tempo litúrgico estão as orações e cânticos de louvor, como, por exemplo, o Gloria e o Aleluia, as flores no altar e o uso do órgão, que só é permitido nos domingos e férias para acompanhar o canto.

A literatura coral escrita para a Quaresma e para o Tríduo Pascal, que congrega as celebrações da Quinta-Feira (In Coena Domini), Sexta-feira (In Passione Et Morte Domini) e Sábado Santo (Sabbato Sancto), é muito ampla. Esta música, seja para coro a cappella ou acompanhado, pode ser inserida em diferentes contextos litúrgicos e/ou paralitúrgicos. Ela é rica em simbolismo musical, visto que os compositores captam a essência dos textos, representando os diferentes afetos e estados emocionais que eles suscitam. Esta retórica musical pode ser percebida numa simples antífona monofônica medieval, como, por exemplo, Ubi caritas, quanto nos complexos motetos de Poulenc (Timor et tremor, Vinea mea electa, Tenebrae factae sunt e Tristis est anima mea).

No Brasil, a produção de música sacra foi muito intensa durante o período Colonial-Imperial. Padre José Maurício Nunes Garcia compôs, entre 1798 e 1809, um conjunto de peças para as diferentes liturgias da Semana Santa, a maioria delas para coro misto a cappella, que foram editadas e publicadas por Cleofe Person de Matos, em 1976, no Rio de Janeiro, muitas das quais já tive a oportunidade de interpretar, a exemplo dos motetos Sepulto Domino e Domine, tu mihi lavas pedes. (Para ouvi-los, basta seguir o link www.youtube.com/watch?v=bM84wRY3rh4)

O Projeto Acervo da Música Brasileira – Restauração e Difusão de Partituras, do Museu da Música de Mariana (www.mmmariana.com.br), tem se dedicado à restauração, edição e publicação de obras preciosas da música religiosa brasileira dos séculos XVII a XX, dentre as quais aquelas escritas por Emerico Lobo de Mesquita, João de Deus Castro Lobo e Manuel Dias Oliveira. As pesquisas já deram origem a vários livros e gravações, a exemplo da coleção Matinas de Quinta-Feira Santa, do compositor mineiro Jerônimo de Souza Queiróz, interpretada pelo Conjunto Calíope e Orquestra Santa Tereza, sob a direção de Júlio Moretzsohn. A Quaresma está começando hoje. Que ao longo deste período, e independentemente da fé que professamos, possamos cantar esta literatura que é patrimônio da humanidade, ampliando o repertório dos nossos coros e enriquecendo, com beleza e lirismo, os diversos momentos da história da paixão, morte e ressurreição de Cristo.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Licores, amores e música

Viçosa do Ceará está localizada na Serra do Ibiapaba, noroeste cearense, o que lhe assegura um clima ameno, com temperatura média anual entre 22º e 24º Celsius. Chegamos por lá num fim de tarde de uma terça-feira qualquer de janeiro. Fomos recebidos com névoa e frio. Subindo e descendo ladeiras, encontramos abrigo na pousada às margens do lago central, contornado por luzes de vapor de sódio, pequenos sóis no meio da paisagem monocromática e melancólica.

O patrimônio arquitetônico colonial, tombado oficialmente pelo IPHAN, narra a trajetória histórica da cidade. Nas ruas estreitas, casas e sobrados com beirais e largas janelas se destacam. Na praça onde se encontra a igreja matriz de Nossa Senhora da Assunção, o coreto silencioso preserva parte da memória musical do lugar. É por ali que se localiza o Refúgio do Ímpares, uma antiga pensão exclusiva para solteiros. No ponto mais alto da cidade está a Igreja do Céu, de onde é possível contemplar a região e mapear as trilhas ecológicas, o caminho das pedras e das águas.

A bodega de Alfredo Miranda, construída nas primeiras décadas do século vinte, é hoje a conhecida Casa dos Licores (http://www.casadoslicores.com.br/), o lugar ideal para a compra e degustação de cachaça, licores, doces, bolinhos de nata, petas e sequilhos de coco. Como tudo em Viçosa, o ambiente também é simples e acolhedor naquele casarão: os tachos de bronze pendurados nos caibros e a policromia das bebidas artesanalmente engarrafadas contrastam com a mobília envelhecida e escura. O aroma inebriante nos convida a permanecer por lá, ouvindo as histórias sobre Seu Alfredo, que, além de comerciante, fabricava e tocava pífano, ofício que aprendeu com um curumim da região, aos seis anos de idade. (Para fabricar o instrumento, ele cortava a taboca nos dias de lua cheia, dos meses sem erres - maio, junho, julho e agosto).

Hoje, com noventa e cinco anos, ele está com a memória debilitada e os movimentos limitados em virtude dos problemas de saúde. Quando não está dormindo, fica ao lado de Dona Teresinha Mapurunga, sua esposa, que fala orgulhosamente do casal que brevemente festejará as bodas de diamante. Mestre Alfredo já não lembra os nomes das pessoas, os fatos da sua vida e as tantas histórias que contou. Restou-lhe apenas o pífano quase centenário, perfeitamente afinado com as reentrâncias da madeira e do tempo, que ele continua a tocar com beleza comovente. Graças à iniciativa do Laboratório de Estudos da Oralidade, da Universidade Estadual do Ceará, segui minha viagem com o som daquele pife em meus ouvidos e coração, pois em Viçosa, e na casa de Alfredo Miranda, a vida tem o doce sabor dos licores, dos amores e da música.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Entre o ideal e o real

Viajei pelo Nordeste do Brasil, aproveitando as férias com a família. Como de costume, calculei distâncias, estimei tempo e gastos. Recorri ao GPS disponível no celular, pois com ele seria possível seguir sem correr riscos de perder a meta almejada. Parti pelo interior da Paraíba em direção ao litoral cearense, andando por estradas silenciosas, encantado com a dança das pequenas borboletas amarelo-esverdeadas que cruzavam o meu caminho. Na divisa com o Rio Grande do Norte, o celular perdeu a conexão, alterando a rota do mapa, me levando à Santa Cruz, onde, no alto do Monte Carmelo, ergueram, recentemente, uma portentosa imagem de Santa Rita de Cássia.

Estava cem quilômetros distante daquilo que seria o caminho ideal. Para retomar a direção, haveria, portanto, de rever o itinerário, redefinir as estratégias. Enquanto regressava, comecei a pensar no que ocorrera, fazendo um paralelo com a nossa atividade como regentes. Nós planejamos o ensaio coral com o intuito de solucionar problemas rítmicos, melódicos, harmônicos e vocais, favorecendo a fluência musical. No entanto, mesmo estando tecnicamente preparados, continuamos reféns dos caprichos do acaso. De vez em quando, ao longo de um concerto, somos surpreendidos com desafinações, mudanças na duração e articulação das notas, pequenos atropelos antes nunca imaginados, provocados por fatores desconhecidos e que estão além do nosso domínio. Quem, por exemplo, nunca esqueceu uma entrada/corte ou se perdeu diante da partitura e, por este motivo, viu-se obrigado a adotar, como diria o professor Angelo Dias, um gestual místico, incompreensível, impressionante? Certamente, todo mundo já passou por alguma situação similar.

Há algum tempo, durante uma apresentação, o iluminador aleatoriamente acendeu um foco de luz numa intensidade diferente daquela que havíamos estabelecido no ensaio, cegando-me temporariamente. Quando mudei a direção do olhar, tentando acompanhar a partitura, não conseguia enxergar, o que quase prejudicou a atuação do conjunto. Neste momento em que a adrenalina faz o coração bater mais rápido, o mundo congela, os segundos transcorrem como uma eternidade, o prazer transforma-se em dor. Deste modo, antes das apresentações, sempre lembro aos meus alunos que, diante do inesperado, o melhor é manter o controle, respirar, conservar-se atento.

Ali, no calor escaldante do agreste potiguar, perto da santa das causas impossíveis, entrevi o real: no palco e na vida, aquilo que é planejado, por mais elaborado e consistente que seja, cede diante do imprevisível, que, como assinalaram Toquinho e Vinicius, sem pedir licença muda a nossa vida e depois convida a rir ou chorar. Desconfiado, achei melhor desligar o celular. Segui tranquilo, ouvindo o violonista Nonato Luiz. Quando necessário, parava e, sorrindo, perguntava aos moradores dos vilarejos, que conhecem e vivem na região, qual o melhor caminho a seguir.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Folias de Reis

Eu nasci com os primeiros raios de sol do dia seis de janeiro. Meus pais residiam no bairro da Liberdade, numa casa simples, nos arredores da oficina mecânica onde meu pai trabalhava. Como toda família pobre do início da década de setenta, a minha também não estava completamente preparada para me receber. Os recursos financeiros eram escassos e minha mãe não adquiriu um enxoval completo para o meu nascimento. Assim, dormi durante algumas semanas dentro de uma pequena banheira plástica, que também era usada para os meus primeiros banhos.

Seis de janeiro, no calendário litúrgico católico, é dedicado aos Santos Reis, marcando, simbolicamente, o dia em que Jesus Cristo recebeu a visita dos três magos do oriente (Belchior, Gaspar e Baltazar). Como ocorre com a maioria das festas religiosas católicas, esta também caiu no gosto popular brasileiro. Aqui na Paraíba, por exemplo, desde o início do século XX, a cidade de Queimadas é conhecida por seus festejos. É por esta razão que Tia Luísa, com fala trôpega e olhos distantes,
ainda hoje me explica porque não acompanhou o meu nascimento, já que havia passado a noite toda naquela cidade, participando das festividades, ao lado de Dona Júlia e Antônio Grilo.

Mas Tia Lúcia nunca deixou aquele acontecimento familiar passar em branco. Desde então, todo dia seis de janeiro, quando me vê, vai logo entoando os versos do sucesso de Tim Maia, que, à época, ela ouvia animadamente na pequena vitrola vermelha portátil: “Hoje é o dia de santo reis / anda meio esquecido / mas é dia da festa de santo reis / anda meio esquisito / mas é o dia da festa de santo reis...” Esta canção fez parte da trilha sonora dos meus aniversários durante vários anos. No entanto, demorei certo tempo para entender o sentido da celebração da epifania, isto é, a revelação, a manifestação do mistério de Deus.

Desde a minha primeira Festa de Reis, já tive a oportunidade de andar por vários lugares e conhecer muita gente. Nessas andanças, o Criador sempre esteve ao meu lado, em todas as situações, revelando-se de diferentes formas, às vezes nem sempre tão claras, através das inúmeras pessoas que encontrei. Por isso, eu só tenho motivos para agradecer à minha família, esposa e filhos; aos meus mestres, alunos e colegas de trabalho; a todos os amigos, de todos os tempos e partes, de todas as cores e credos, que cruzaram o meu caminho, que ajudaram a construir aquilo que fui, sou e serei. Meu desejo é que juntos possamos continuar, por muitos anos, celebrando outras folias, apresentando e manifestando as faces misteriosa, amorosa, misericordiosa, musical e poética de Deus.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)