segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

As cadências da vida

Os irmãos Joana, Sebastião, Severina e Maria Leôncio moravam em frente a residência da minha avó, Dona Nuca, num casebre construído em terreno íngreme. Povoaram, durante muito tempo, o meu imaginário, tanto pelo fascínio que exerciam quanto pelo medo que suscitavam. Eram misteriosos e viviam num ambiente minúsculo, sombrio, iluminado por macilentas lamparinas, ao lado de um denso matagal.

Joana era muito forte e conseguia carregar enormes pedaços de madeira encontrados na rua, que usava para acender o fogo no qual preparava as refeições da família. Era a chefe da casa e evitava sorrir, pois só pensava nas aventuras de Sebastião, nos devaneios de Severina e na boemia de Maria. Sabia de tudo o que se passava na Serra porque, do interior da casa, além de vigiar os irmãos, era, igualmente, os olhos abertos na escuridão, que espiavam o vai-e-vem das ruas através das frestas da porta e da janela daquela casa estreita.

Sebastião era alto e andava sempre penteado, pois trabalhava numa barbearia, na Rua José do Patrocínio. No pequeno salão havia uma cadeira pesada, toda torneada em ferro fundido, e um espelho quebrado, que refletia a imagem dos objetos adormecidos sobre a mesa empoeirada e que ele manipulava com maestria. O estampido da sua voz contrastava com a coreografia dos seus gestos, sempre compassados e precisos. Sebastião gostava de conversar e, quando parava para amolar a navalha, narrava as suas caçadas, descrevendo em detalhes como havia capturado cobras, tatus, avoantes e tantas outras criaturas.

Severina era louca e tinha o rosto cheio de manchas e sinais. Por conta da demência, os irmãos expulsaram-na de casa, obrigando-a a morar no quintal, onde se abrigava debaixo das árvores e plantas. Usava várias roupas ao mesmo tempo, todas sobrepostas. Muitos dos seus vestidos, longos e coloridos, eram confeccionados à mão, com retalhos diferentes. Nas noites de lua cheia, Severina despia-se completamente. Mesmo pesada e disforme, caminhava com pressa. Sentada na calçada da casa da minha avó, emitia um som contínuo, misto de canto e fala, através do qual dizia manter contato com o infinito do seu universo.

Maria era magra e ágil como os gatos. Sobreviveu a sete atropelamentos. Ignorou todas as seqüelas, vivendo na cadência do samba, inspirada na música de Ataulfo Alves. Tentamos alertá-la sobre a fragilidade da vida. Insensível, desprezava-nos e dizia: “Cala a boca, esse menino!” Maria sabia que o seu destino era irredutível e dele não queria fugir. A todo momento nos lembrava, sutilmente, cantando, com voz rouca e insistente, os versos da sua canção favorita: “sei que eu vou morrer, mas não sei a hora...” Maria, ciente da peremptoriedade dos dias, das coisas, das pessoas, viveu intensamente e feliz.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O gesto, o corpo e o som.

A expressão gestual do regente é uma ferramenta importante no processo de interpretação musical e está diretamente ligada à consciência e controle dos movimentos corporais. O desenvolvimento da técnica gestual deve aliar, ao domínio dos gestos padrões, aspectos que traduzam a individualidade do regente sem, contudo, priorizar os últimos em detrimento dos primeiros.

A postura mais adequada à regência deve ser determinada de acordo com o biótipo de cada indivíduo e em consonância com as necessidades da obra interpretada e/ou do grupo dirigido. O regente deve equilibrar-se, mantendo os pés firmes no chão e as pernas levemente afastadas, enquanto os ombros precisam ficar soltos e frouxos, as mãos e os braços penderem livremente para baixo com o antebraço levemente erguido à altura do peito. Apesar da diversidade de orientações em torno das técnicas de regência, pode-se dizer que existem dois princípios gerais que orientam a atividade gestual do regente: o primeiro trata da independência dos braços, ou seja, é importante evitar, na medida do possível, que eles executem simetricamente movimentos idênticos; o segundo faz referência aos movimentos da mão direita (tactus) e da mão esquerda (expressão musical, agógica, dinâmica e/ou fraseológica).

O campo de trabalho do regente pode ser delimitado na região localizada entre o baixo ventre e os olhos. É relevante observar ainda que toda informação musical, seja no começo, no transcurso ou no final da obra, será reforçada por intermédio da conjugação entre gesto e expressão facial, recursos complementares imprescindíveis à concretização das intenções musicais. Para obter o grau de precisão e controle dos movimentos de forma ideal, é imprescindível, então, recorrer sistematicamente à força expressiva do olhar, pois, como Sérgio Magnani observa, os olhos chamam, estimulam, comunicam a cor desejada do som e sublinham os contornos da frase. Além disso, os olhos chamam outros olhos, mantêm desperta a atenção, estabelecem o contato humano e a empatia emocional.

Todo gesto preparatório deve indicar as principais características da composição, o tempo, a intensidade, a articulação, a expressão e o caráter. A intenção é necessária e antecede a criação dos gestos musicais e é por esta razão que o regente deve possuir um domínio soberano da representação mental da partitura, pois só assim será capaz de recriar em sua fantasia a imagem sonora ideal da obra. Neste sentido, Bernadete Zagonel, no livro O que é gesto musical, assegura que, de algum modo, cada partitura escrita necessita de uma partitura gestual que permite o nascimento da obra realizada. Assim, a exteriorização gestual deve ser, portanto, o resultado das representações mentais e da abstração da obra como um todo, e não simplesmente uma ação mecânica e automatizada por meio de padrões estabelecidos.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Credo

O Credo, Op. 148, do compositor Liduino Pitombeira (Russas-CE, 1962), é uma composição para solistas, coro e orquestra de cordas. A obra, que tem 141 compassos e aproximadamente cinco minutos de duração, foi composta para completar a Missa Diligite, única peça litúrgica de grande porte de Camargo Guarnieri (1907–1993), escrita em 1972 e que contém apenas cinco partes: Kyrie, Gloria, Sanctus, Benedictus e Agnus Dei.

Apesar do vínculo com a Missa Diligite, o Credo pode ser executado como obra independente. Nas notas explicativas da partitura, Liduino Pitombeira comenta que a sua composição, embora não siga uma formatação preponderantemente modal como a Missa de Guarnieri, “emprega referenciais estilísticos associados ao grande compositor do Tietê, principalmente no que diz respeito às harmonias construídas por quartas, ao mesmo tempo em que utiliza, em abundância, conexões cromáticas parcimoniosamente construídas, estruturas essas que guardam íntima relação com o romantismo tardio.”

O Credo, Op. 148 está dividido em várias seções, que têm diferentes centros tonais. Alguns trechos são harmonicamente instáveis, sobretudo aqueles nos quais prevalecem as mediantes cromáticas e os acordes formados por quartas. Quando o tenor solista canta os versos Deum de Deo, lumen de lumine, o compositor reduz toda a atividade rítmica e harmônica, sugerindo uma passagem em forma de recitativo. A seção para coro a cappella contribui para a construção do clímax, que ocorre quando a solista canta o verso qui propter nos homines, ratificando a premissa maior do Cristianismo, a salvação da humanidade através da redenção do Cordeiro. Neste trecho, que matematicamente corresponde ao corte áureo, Liduino Pitombeira recorre ao simbolismo musical para reforçar a relação entre texto e música, representando a solidão do Cristo, pendurado na cruz, daí a passagem para solista, a pausa na orquestra e no coro.

O processo de preparação da estreia mundial do Credo, Op. 148 foi bastante dinâmico, especialmente por conta da exigüidade do tempo, já que tivemos apenas duas semanas de ensaio. A Orquestra Sinfônica de Campina Grande (Sivuca), o Coro da Graduação e o Coro em Canto abraçaram o projeto, superando as dificuldades e os desafios técnicos, musicais e vocais, com muita dedicação e estudo. Este evento marcou o início de um novo tempo na Unidade Acadêmica de Artes, da Universidade Federal de Campina Grande, que recebeu os primeiros alunos da graduação em Música este semestre. A nossa meta (e profissão de fé!) é realizar projetos desta natureza, priorizando, sempre que possível, a interpretação da música do nosso tempo, dos nossos compositores, com nossos alunos. Quem tiver interesse em assistir ao vídeo da estréia do Credo, Op. 148 deve seguir o link http://www.youtube.com/watch?v=WHxgdqkShIs e conferir a nossa apresentação na Catedral de Nossa Senhora da Conceição, em Campina Grande.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Rapadura é doce, mas não é mole.

Todo início de ano, leio, no primeiro ensaio, as regras que nortearão o trabalho nos meus coros. Esclareço para os participantes que o objetivo do grupo é desenvolver um trabalho à luz da teoria musical, solfejo, história da música e técnica vocal e que, para tanto, realizaremos aulas teóricas e práticas, assim como atividades individuais e coletivas com a meta de aprimorar a leitura musical e a qualidade vocal. Defino o local, os dias e os horários dos ensaios e informo que quaisquer mudanças serão comunicadas antecipadamente. Explico que não há tolerância para atrasos e aviso que os chefes de naipe anotarão os horários de chegada dos retardatários, cuja permanência na equipe será avaliada. Peço para que todos agendem as suas tarefas, resguardando os dias e horários dos ensaios e apresentações. Para evitar o improviso e os convites de última hora, marco os ensaios gerais e concertos do coro no início de cada semestre para assegurar a participação dos cantores em todos os eventos.

Peço a todos que, antes de falar, levantem a mão e aguardem pelo momento mais apropriado para interferir. Recomendo que eles tentem resolver os problemas sozinhos, pensando, olhando para a partitura. Se a dúvida persistir, aí, sim, devem pedir ajuda. Aviso que não quero ouvir opiniões e comentários inapropriados, intromissão no meu trabalho. Se julgar necessário, solicito sugestões. Exijo que os cantores venham para os ensaios com as partituras, lápis e borracha, pois quero que anotem as minhas observações. Eles precisam facilitar o meu trabalho, numerando os compassos, identificando o tom da música e marcando as respirações, que, geralmente, coincidem com a pontuação. Tudo isso tornará o ensaio mais produtivo, dinâmico e prazeroso.

Ensino que expressões como muito obrigado, com licença, desculpas, por favor e parabéns criam um ambiente de trabalho favorável. Explico que as minhas críticas são sempre técnicas, pois cantores são suscetíveis e, às vezes, pensam que se trata de questão pessoal. Comento a diferença entre participação e colaboração e revelo que a minha meta é trabalhar com pessoas independentes, que tenham iniciativas e ajam por conta própria.

Comparo as regras que estabeleço com aquelas encontradas nos tribunais, nos aeroportos, nos bancos, nos laboratórios. E antes que me acusem de autoritário, como certamente alguns já o fizeram, antecipo que estas normas nasceram da minha experiência cotidiana, razão pela qual não pretendo que sejam consensuais ou universais, visto que funcionaram e somente valem para os meus coros. Finalmente, enfatizo que as normas, apesar de duras, são necessárias porque nos permitem trabalhar com organização, disciplina, respeito, método e sistematicidade, ingredientes indispensáveis para a consecução de objetivos artísticos e educacionais qualitativamente decentes e elevados.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Querubina e a vaca braba

Querubina nasceu em Arara, brejo paraibano. Mudou-se para Campina Grande e veio morar na Rua das Imbiras, num pequeno quarto anexo à minha casa. Sempre estava por perto e, em virtude da proximidade, era considerada parte da nossa família. A sua vida não era fácil, já que passava o dia catando e coletando latas pelas ruas do São José. Além dos problemas físicos, trazia, na alma, muitas desventuras, a mais trágica, certamente, o fato de não saber o paradeiro dos dois filhos, separados há mais de trinta anos. As esperanças do reencontro pareciam remotas até o dia em que ficamos sabendo que Campina Grande participaria do programa Cidade contra Cidade, uma competição televisiva apresentada por Sílvio Santos, no final da década de setenta.

A Rainha da Borborema ficou em polvorosa com a notícia. A população queria saber quais seriam as diversas provas da gincana e como seria o processo de preparação, afinal era preciso participar e, quem sabe, ganhar aquele jogo. Dentre as muitas provas, havia uma que consistia em promover o reencontro entre pessoas que estavam separadas há muito tempo. Vários casos foram apresentados, incluindo o de Querubina, que foi o escolhido.

A viagem mais longa que ela havia feito em toda a vida foi entre sua terra natal e Campina, que estão separadas por aproximadamente cinqüenta quilômetros. Agora, o desafio era maior, pois teria que viajar de avião e para um lugar longe e desconhecido. Ajudamos na preparação, fizemos um planejamento e, dias depois, ela apareceu na televisão em rede nacional. Ficamos felizes e envaidecidos ao vê-la tão bonita e alegre naquele programa. Tudo estava saindo conforme o planejado até o momento em que o apresentador lhe pediu para dizer, o mais rápido possível, a expressão “abracadabra”. Querubina, na sua ingenuidade brejeira, repetiu “a vaca é braba”. O riso foi geral e só cessou quando vimos que a sua missão estava completa e que, finalmente, ela havia reencontrado os dois filhos.

Ao retornar para Campina, todos a cumprimentavam e sorriam, lembrando da história da vaca. Querubina logo voltou ao anonimato, retomou a rotina e passou a caminhar pelas ruas do bairro. À noite, quando apagávamos as luzes e nos deitávamos, ela despertava e ligava o rádio de pilha. Como um anjo querubim a nos velar, ela estava por trás daquela parede, olhos e ouvidos abertos. Eu adormecia embalado pela música da madrugada e pelo murmurinho das folhas da goiabeira, que balançavam com o vento gelado. Enquanto isso, Querubina abria e fechava as latas que arrecadara na sua jornada diária e nas quais, suponho, guardava, secretamente, os meus sonhos, assegurando-me que eles ficariam, assim como os seus filhos, ali e para sempre.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Por uma poética das possibilidades

O maior desafio do educador, na era da educação mercantilista, é manter-se fiel aos seus princípios. Perante o conflito ideal versus real, é preciso encontrar o equilíbrio necessário entre ceder o possível sem, contudo, perder de vista a meta almejada. A nossa missão é difícil; a nossa responsabilidade, enorme; a nossa ação, imprescindível. As opções que fizermos agora serão projetadas a curto, médio e longo prazo e contribuirão para definir a realidade econômica, social, política e cultural do nosso país.

O espaço da Música na escola é fundamental para o processo de construção da cidadania. Logo, é um equívoco atribuir-lhe uma função tão-somente transversal e secundária dentro do currículo, considerando-a como um auxílio para outras disciplinas. Música é uma área com conteúdos específicos e é preciso inseri-los e trabalhá-los no contexto educacional de forma sistemática e metódica. Por esta razão, o professor de Música não deve assumir funções que não lhe sejam pertinentes. O nosso compromisso é, sobretudo, com o intrínseco, com aquilo que é da própria Música. Uma grande conquista, neste sentido, foi a promulgação da Lei 11.769, de 18/08/2008, que regulamenta a obrigatoriedade da educação musical no ensino fundamental e médio de todo o país. Agora, precisamos fazer valer a lei e discutir as diretrizes curriculares.

Faz-se necessário ensinar Música e Arte porque o mundo continua e continuará precisando de compositores, músicos, ouvintes críticos, regentes, pintores, escultores, dançarinos, fotógrafos, cineastas, diretores. Nossos corpos e mentes precisam viajar pelo universo do som e do silêncio; da cor, da forma e das texturas; do movimento e da ação; dos sonhos, da utopia, da emoção e da imaginação. Lembram de Lupicínio Rodrigues com a canção Felicidade? “O pensamento parece uma coisa à-toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar.” Talvez ele quisesse dizer e como é que a gente voa, quando começa a cantar, a tocar, a ouvir, a compor, a dançar, a pintar, a representar. Nossos limites se alargam quando aliamos à imaginação o poder criativo e expressivo da Arte.

Diante dos desafios que vivenciamos, não podemos deixar o barco à deriva e abandonar o destino dos nossos alunos, sejam eles da escola privada ou pública. Os conflitos devem servir para reforçar os nossos ideais, a necessidade de democratizar o acesso e o consumo da Música. Este processo é lento e, como Guimarães Rosa nos fala no conto A terceira margem do rio, “é no devagar depressa do tempo que as coisas vão mudando.” Sejamos perseverantes, então. Portanto, que a nossa fé não esmoreça; que os nossos sonhos sejam sempre renovados; que os nossos horizontes sejam sempre expandidos; que a possibilidade de dias melhores seja nosso alimento, a nossa poética cotidiana.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)