sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Uma viagem para lá de Venturosa

Durante uma viagem que fiz para Maceió com um dos meus coros, fomos obrigados a parar por conta de um problema na cruzeta do ônibus. Quando fui informado sobre o ocorrido, fiquei na dúvida se, naquele contexto, a palavra cruzeta designava a peça transversal na extremidade do eixo traseiro do veículo ou, como é costume por essas bandas da Paraíba, se estávamos fazendo referência a algo ruim, neste caso aquele ônibus velho e mal conservado. A verdade é que não tínhamos mais condições de seguir adiante.

Ficamos parados em Venturosa, pequeno vilarejo no interior de Pernambuco. Era preciso providenciar a remoção do ônibus, abrigo, comida e transporte para os viajantes. A noite estava chegando. Saí à procura de um telefone público, uma vez que não tínhamos sinais nos celulares. Precisava ligar para a seguradora e para o meu chefe a fim de resolver o imprevisto. O guincho chegou e rebocou o veículo quebrado. Meus coristas e suas malas ficaram às margens da rodovia, na casa de Dona Luiza, que os abrigou fraternalmente.

No vilarejo existem apenas dois hotéis, cujos leitos estavam todos ocupados naquela noite. Alguém, sensibilizado com a situação, sugeriu que tentássemos a pousada de um Fulano de Tal, que, desculpem, não lembro o nome agora. Chegando ao alojamento, descobri que se tratava de um pequeno bordel com luzes vermelhas, pequenos quartos e camas de mola com colchão de palha. Aquele ambiente singular me fez lembrar os prostíbulos dos romances de Jorge Amado. Sorri bastante quando me vi naquele lugar, imaginando meus coristas deitados naquelas camas gastas e impregnadas com os desejos e segredos dos amantes. Previ a repercussão e as manchetes dos jornais no dia seguinte: "Escândalo em Venturosa! Coral faz orgia em cabaré de Pernambuco." Fiquei pensando na confusão que seria causada por conta do nosso pernoite naquele estabelecimento. Dissipei meus pensamentos e desisti. A minha última opção era, então, voltar para Arcoverde, a cidade mais próxima. Alugamos um microônibus com capacidade para vinte pessoas. Isso é um eufemismo, na verdade, porque aquilo era uma marinete, um resto de alguma coisa que, num passado muito remoto, havia sido usado como transporte coletivo. Porém, naquele momento, foi a nossa salvação. Eu não sei dizer como carregamos tanta gente e bagagem naquele minúsculo veículo nem quanto tempo gastamos para percorrer aqueles trinta quilômetros.

Chegamos a Arcoverde e ficamos hospedados num hotel familiar. No dia seguinte, fomos para Maceió, onde passamos três dias. Cantamos, fizemos sucesso. Na volta, outro problema no ônibus. Paramos novamente em Arcoverde. Quando passei pelo vilarejo e avistei o velho bordel, sorri, pensando nos momentos venturosos que vivemos ali.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Salve, Amazônia!

Participei do Festival Folclórico de Parintins como membro do júri técnico. Minha função era avaliar os aspectos musicais das Agremiações Boi Bumbá Garantido e Boi Bumbá Caprichoso. Assim como a floresta, o festival também tem dimensões grandiosas. Cada boi se apresenta com milhares de brincantes para uma platéia formada por cinquenta mil espectadores, que lotam, ao longo dos três dias de festa, as arquibancadas do bumbódromo. Comenta-se que o investimento total do evento, que envolve recursos públicos e da iniciativa privada, ultrapassa os quinze milhões de reais. No entanto, o aspecto mais relevante do Festival de Parintins extrapola os aspectos quantitativos. A grandeza da festa está nos seus elementos artísticos e culturais. A unicidade do espetáculo, que é todo baseado na história, lendas e tradições da região, é obtida, assim como na ópera, pela integração de múltiplas linguagens, dentre as quais a música, a pintura, a escultura, a dança, o teatro e a literatura.

A música é o elemento fundamental do show, pois serve como base para o desenvolvimento dos enredos. O apresentador, o puxador de toadas e o amo do boi cantam acompanhados por uma banda, que faz a sustentação harmônico-melódica, e por um conjunto percussivo, formado por mais de quatrocentos músicos. A batida da toada e a energia da percussão são avassaladoras, enfeitiçam e nos convidam ao movimento. O comportamento das torcidas revela o poder e a força da música, que leva as multidões ao êxtase. As galeras dos dois bois atuam como espectadores e, ao mesmo tempo, atores coadjuvantes. Algumas vezes, cantam e dançam; outras, contracenam e respondem aos desafios do apresentador. A disputa se desenrola num ambiente de respeito mútuo entre os grupos rivais. Quando um boi está em cena, a torcida do boi contrário silencia, contempla e vigia atentamente. Os erros determinam o resultado da competição.

As alegorias são confeccionadas com produtos variados, incluindo recursos naturais extraídos do manancial amazônico, assim como materiais alternativos e recicláveis. A plumagem das fantasias é sintética, reforçando o discurso em prol da preservação, amplamente difundido nas letras das toadas dos bumbás. A plasticidade do espetáculo traduz a variedade estética dos povos que habitam a selva. Nas mãos dos artistas, os seres fantásticos, as serpentes, os rios, a floresta, o índio e o caboclo ganham formas agigantadas, ricas em movimentos, texturas, formas, sons, cheiros, cores e efeitos especiais.

Encantou-me a beleza e a riqueza da cultura do povo amazonense que, recriando utopias e revivendo tradições, assume, sem medo ou vergonha, a sua identidade índia e cabocla. O vermelho e o azul, a estrela e o coração, a toada e a marujada, o boi e o repente são os símbolos da grande nação mestiça brasileira. A Amazônia é nossa, salve!

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Primavera

É gratificante visitar a Casa Dom Barreto, em Teresina, por conta da alegria e felicidade dos anfitriões. Sempre que passamos por lá, somos recebidos com festa. Mesmo nos dias mais tristes, meninos e meninas não perdem a espontaneidade e o sorriso. E no último dia onze de outubro não foi diferente: nos brindaram com uma calorosa recepção. O motivo da nossa visita era realizar um pequeno recital em homenagem às crianças, em virtude das comemorações do dia doze. No repertório, a Cantata da fauna e da flora, que escrevi para celebrar a primavera. Enquanto nos preparávamos, as crianças cantaram várias canções, incluindo música folclórica, popular e religiosa. Durante a curta apresentação, um garoto, de aproximadamente 10 anos, animou o grupo, sugerindo as músicas que seriam interpretadas, dando as indicações de tempo, os cortes e as entradas. Sem dúvidas, um regente cheio de garra, força e determinação.

Seguindo o roteiro, eu e meu fiel grupo de alunos e ex-alunos (no dizer de Rodrigo Melo, os discípulos e baluartes) nos arrumamos e começamos a apresentação. Os textos das canções falam dos múltiplos sentidos da primavera: celebração, acolhimento, respeito, agradecimento, superação e renascimento. A platéia, que havia aprendido alguns dos refrões, cantou em conjunto conosco, transformando aquele momento, tão simples e intenso, em algo inesquecível.

Ao término da apresentação, ouvi diferentes relatos. Algumas pessoas destacaram a importância do evento para as crianças e para os intérpretes; outras falaram sobre o poder transformador da música e sobre a necessidade de oferecer à comunidade atividades variadas, similares àquela que havíamos realizado. Senti que a felicidade estava ali, presente, porque, no ar, pairava uma sensação de plenitude, graça, paz. A experiência, mais que relevante, foi transformadora. Saímos de lá com a certeza de que não éramos mais os mesmos. Parece que os alunos perceberam que aquilo que eles estudam e apreendem na universidade só tem sentido e só é validado na medida em que está sendo aplicado na prática, ajudando a modificar o cidadão e o seu contexto sócio-cultural. E para mudar é preciso querer mudar, ter iniciativa, indicar caminhos, sugerir alternativas, corrigir desvios, ter garra e força.

São estas atitudes proféticas que renovam as nossas esperanças, ampliam os nossos limites, nos convidam à ação, porque como artistas, músicos, professores precisamos manifestar, anunciar, pensar, antever, crer e trabalhar pela construção de um mundo novo, mais humano, justo, solidário, repleto de arte, música e vida. Naquela tarde ensolarada, (re) vivemos a experiência da primavera de forma real e verdadeira. Cantamos o viver, o existir, o amor. Nossos sorrisos e lágrimas ignoraram o calor e refrescaram a terra que semeamos com nossos sonhos e desejos e de onde nascerão novas flores, novos homens, novos versos, novas canções.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)