domingo, 12 de novembro de 2017

Rumo ao comboio, na direção do Alentejo.

Encontrei o professor Paulo Lourenço na Escola Superior de Música de Lisboa. Conheci a estrutura da instituição e tive a oportunidade de apresentar duas obras de minha autoria, Guajira Espúria e Cantate Domine, para o coro da graduação e o de câmara. Os resultados foram positivos, muito embora o curto período de tempo.

Na companhia do maestro, visitei a Fundação Calouste Gulbenkian, uma referência mundial quando o assunto é arte, ciência e educação. Andamos por vários espaços, incluindo a sala do coro, do qual ele é regente titular, bem como o palco principal onde a orquestra acabara de ensaiar sob a direção do maestro emérito Lawrence Foster, que também tive a oportunidade de cumprimentar nos camarins. Almoçamos no amplo restaurante, no andar superior, de cuja varanda contempla-se o jardim. Conversamos sobre a literatura coral luso-brasileira, as obras dos compositores Eurico Carrapatoso e Reginaldo Carvalho. Ouvi-o falar sobre a criação da Associação Portuguesa de Canto Coral, que nascera sob a sua direção e com o apoio da International Federation for Choral Music (IFCM), cuja presidente, Emily Kou Vong, esteve presente à cerimônia inaugural.

Despedi-me do professor e parti em direção à Santa Apolônia, onde estava o amigo Danilo Guanais, que havia chegado de São Paulo há poucas horas. Por conta do transbordo, fomos de lá até à estação Lisboa-Oriente. Como tínhamos tempo e estávamos com fome, resolvemos comer um pouco. Iniciamos nossas aventuras gastronômicas experimentando as queijadas alentejanas acompanhadas por um café cheio, uma bica com um pouco mais de café e a chávena quase totalmente completa. Depois, tentamos mudar nosso bilhete para a primeira classe, mas desistimos porque seria um luxo desnecessário para uma viagem tão curta.

Na hora prevista, chegamos à plataforma. Havia dois trens estacionados. Ficamos no local indicado, aguardando o embarque. Enquanto nós contemplávamos as linhas paralelas, transversais e oblíquas do teto, acompanhando o sol que brincava de esconde-esconde naquela polifonia celestial, um suíço caminhava em círculos, tal qual os ponteiros do relógio no seu braço, sussurrando impropérios num arcaico dialeto Schwiizerdütsch. Não sei como, mas entendi tudo. Ele estava incomodado com a pontualidade lusitana, reclamava porque as portas ainda estavam fechadas, pois já eram dezessete horas e nós partiríamos em dois minutos. Guiado pela intuição, descobri que estávamos no lugar errado. Como bom tenor, disse enfaticamente: Corre, Danilo, nosso trem vai partir! Não sei se o suíço entendeu, mas ele foi o primeiro a disparar na direção da outra locomotiva. Fizemos o mesmo, pois não queríamos perder o transporte nem alimentar essa falsa ideia de que os brasileiros literalmente deixam tudo para o último minuto. Corremos desesperadamente, carregando o peso dos nossos corpos, dos estigmas e das malas, rumo ao comboio, em direção ao Alentejo.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

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