sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Fátima

Eu já falei sobre Vó Nuca, essa mulher forte, com admirável senso ético e de justiça, devota de Nossa Senhora. Foi com ela que aprendi a rezar o terço e a entoar cantigas marianas, na hora do ângelus, durante a trezena do mês de maio, que culminava com uma procissão pelo bairro São José. Naquele dia de festa, à frente do cortejo, carreguei muitas vezes um quadro ornamentado com a foto das três crianças que testemunharam as aparições da Mãe de Deus em Portugal. Ir à Fátima, durante a minha curta passagem naquelas terras, significava, portanto, conhecer in loco o que ouvira da boca e do coração da minha avó materna.

A viagem até a região central do país foi tranquila, o caminho estava livre. A paisagem bucólica, entrecortada por vilarejos, parece ter diminuído o tempo e a distância. Cheguei antes do almoço e comecei a visita pela pequena casa onde viveram Lúcia, Jacinta e Francisco. No acervo museológico, os móveis e os utensílios eram coadjuvantes daquela narrativa de vida e fé. O balido das ovelhas, soltas no pequeno redil defronte à casa com paredes de pedras acinzentadas, recriava a atmosfera pastoril das primeiras décadas do século vinte, época na qual ocorreram as visões da Senhora do Rosário.

Caminhei sozinho, explorando aquele lugar. Desci pelo longo jardim e parei num dos locais onde a Virgem apareceu. Enquanto um grupo orava, outro, mais afastado, lia passagens bíblicas taciturnamente. Fui à Basílica da Santíssima Trindade, inaugurada nas celebrações dos noventa anos do Milagre do Sol. O templo, que tem sido alvo de muitas críticas por conta da sua modernidade, tem obras de vários artistas, incluindo a irlandesa Catherine Green, que produziu o enorme crucifixo em bronze suspenso sobre o altar e que apresenta o Cristo com traços do homem pré-histórico. Em matéria de arte, tais debates reiteram a prevalência do espírito conservador no ventre das igrejas, respaldando, em certa medida, o pensamento fundamentalista tão em voga em nosso meio e que tem reduzido a possibilidade do diálogo, da reflexão, da mudança, da diferença.

Explorei todo o espaço lembrando o que Dona Nuca contara e cantara, o que cultivei, aprendi e vivi na infância. Passei pela pequena capela, ao lado da Cova da Iria, adentrei o Santuário e prostrei-me silenciosamente, reordenando as memórias, revisitando a história, reverenciando os meus mortos, percebendo, ao longe, o badalar dos sinos e um cantochão familiar. Fechei os olhos, abri o peito, entrei em êxtase e ouvi o eco dos meus temores, de tantos sonhos, da minha gratidão. Renovado, andei um bocadinho pelo mercado, entrando em muitas lojas, à procura de mais uma peça para a minha coleção de imagens que representam as mulheres, as mães, o sagrado feminino, as Marias, Fátima.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

2 comentários:

Kyara disse...

Lindo texto Vladimir, ao ler fiz a mesma caminhada com você, senti o bater do seu coração e principalmente senti a nossa avó em cada passo seu. Obrigado por essa lembrança tão preciosa.

Vladimir Silva disse...

Oi, Kyara. Vó Nuca foi, de fato, uma figura ímpar. Tantas histórias e memórias para contar-viver, não é? Obrigado por ler e comentar. Abraço.

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