quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Alecrim

Cheguei a Lisboa ao entardecer. Fui recebido pelo amigo Myguel Santos e Castro, que me fez andar por ruas, templos e praças, subindo e descendo ladeiras que me remetiam às cidades históricas brasileiras. Contemplamos o pôr-do-sol às margens do alaranjado Tejo, ouvindo um samba com sotaque moçambicano. Depois, entre taças e talheres, queijos e vinhos, conversamos sobre política, educação e música, comparando os limites e as possibilidades das nossas realidades. Entretidos, só percebemos a premência das horas e dos gestos quando vimos a lua crescente deslizando lentamente na janela de vidro.

Com o dia claro, no Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa continental, contemplei o horizonte azul, entre o mar levemente agitado e o sólido e despido céu. Imaginei o tráfego das caravelas e o vai-e-vem em direção ao Novo Mundo, rasgando o Atlântico pesadamente. Na ida, partiam carregadas com o ouro negro. Na volta, abarrotadas com o mineral. Nesse instante, o vento forte me fez lembrar as muitas aventuras do romance Terra Papagalli, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, uma “narração para preguiçosos leitores da luxuriosa, irada, soberba, invejável, cobiçada e gulosa história do primeiro rei do Brasil.”

Nas curvas da estrada de Sintra, avistei castelos e casarios suntuosos, escondidos por entre a vegetação rica e multicolorida, acentuando a nostalgia que a estação evoca, tudo em tons pasteis, no modo menor, tal qual em Chant d’Autoumne, de Armand Silvestre e Gabriel Fauré. No meu percurso, fui da Boca do Inferno à igreja da Freguesia de São Domingos de Rana, onde ocorrem as folias de reis, época na qual também celebro meu nascimento. Numa das áreas mais nobres da região metropolitana da capital portuguesa, tive a oportunidade de conhecer o Vox Laci, um projeto dedicado ao canto coral, coordenado pelo meu anfitrião e que está em funcionamento há muitos anos.

Fui convidado para uma maratona de ensaios com o coro infantil, o jovem, o comunitário e o de câmara. Ouvi-os, apresentei minhas obras e juntos cantamos Movimentando, O bercinho de Jesus e Na manjedoura. Depois, a surpresa: um arranjo bem simples de uma canção tradicional portuguesa, Alecrim, com arranjo de Gabriel Levy. A ideia era transitar numa pista de mão dupla, ensinando e aprendendo, cantando e ouvindo o repertório daqui e dalhures. Sorrimos muito, descobrindo nossas comunalidades e especificidades, tanto as linguísticas quanto as musicais. Enquanto na minha concepção a peça deveria ser cantada lentamente, por conta do jogo contrapontístico e da harmonia, para os nativos tratava-se de uma dança campesina, festiva, alegre. Como se diz informalmente nas terras lusitanas, a experiência foi brutal. Superamos nossas dicotomias e vimos florescer, gradualmente e de forma espontânea, a música, a amizade e os novos projetos, tal qual o alecrim dourado, que nasce no campo sem ser semeado.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

Um comentário:

Isak Lucena disse...

Meu amigo Vladimir, teu texto é tão descritivo que fui vendo todas as imagens e, por conhecer você e Myguel, me vi andando junto dos dois novamente como fizemos em Barcelona.
Fico feliz ao saber que os apresentei e mais ainda em contemplar o sucesso dos que tenho tanta estima e admiração.
Um grande abraço meu amigo!

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