segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Ai, Mouraria...

Fomos recebidos em Évora pela professora Liliana Bizineche, que nos levou para a estalagem, na Rua do Raymondo. Lá, no coração das muralhas, ficaríamos hospedados por uma semana numa bela construção histórica.

O maestro Yan Mirkitumov preparou o coro, formado por alunos da graduação em Música. Nos primeiros contatos, construímos a sonoridade do conjunto, lapidamos aspectos técnicos, expressivos e artísticos. A presença do Loiret’s Singers, liderado por Julie Cássia Cavalcante, da pianista Regiane Yamaguchi e do compositor Danilo Guanais deu à Missa de Alcaçus mais vida, força, sentido. O crescimento do grupo foi notório ao longo dos encontros e culminou com o concerto no Teatro Garcia de Rezende, encerrando o IV Festival de Música da Universidade de Évora. Os aplausos ininterruptos e calorosos indicavam o reconhecimento do trabalho.

Nas horas vagas, passeamos. Uma das experiências mais impactantes foi a visita à Capela dos Ossos, uma construção do século XVII que nos fez pensar sobre a vaidade e a fragilidade da vida. A insígnia cravada no pórtico principal assim dizia: “nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos.” O acervo da Sé é deslumbrante, assim como o som do órgão da Igreja de São Francisco. Na Praça do Giraldo, preciosidades na livraria que abrigava autores portugueses clássicos e modernos. No meio das obras, uma rara coletânea de poemas eróticos e sobre outros temas de Bocage, muitos dos quais podem ser lidos na internet (veja aqui). No dia de Todos os Santos, entrei numa loja e me deparei com várias imagens sagradas: Fátima, Conceição e Iemanjá. Fotografei-as, porque fiquei pensando na globalização, no sincretismo religioso, nessa cidade medieval com uma bodega chinesa trans-meta-pós-moderna, cujo proprietário não fala português. O frenesi gastronômico foi intenso. Saboreamos, dentre tantas delícias, açorda, sopa de beldroegas, pezinhos e bochechas de porco preto, tudo isso temperado com coentros, poejos, louro, alho e azeite. A água Penacova e o vinho Pouca Roupa alimentaram nossa imaginação e também o senso de humor. O percussionista carioca David William apresentou-nos um sofisticado cardápio e uma seleta carta de bebidas, quando jantamos na simpática Chouriçaria da Praça, restaurante no qual trabalha como gerente. No dia do concerto, é certo que tive problemas com minha roupa, que já não cabia em meu corpo, parecia ter encolhido.

Naqueles dias no Alentejo fez calor e frio, teve sol, chuva, lua cheia. Comemos e bebemos, conversamos e cantamos, alimentamos o corpo, o espírito, a amizade, os sonhos, os projetos, o instante-já. Quando sentíamos a melancolia dos saciados, e à semelhança de Amália Rodrigues, Graça Arrais nos consolava cantarolando um fado muito conhecido, que ecoava por entre as ruas estreitas de Évora, traduzindo nossos afetos: “Ai, Mouraria... onde um dia eu deixei presa a minha alma.”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

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