segunda-feira, 5 de junho de 2017

Só para amar...

Hoje é um dia especial. Meus pais celebram cinquenta anos de matrimônio. Fazendo as contas por alto, cinco décadas totalizam aproximadamente dezenove mil dias, quase meio milhão de horas vividas por duas pessoas sob o mesmo teto. Numa época em que tudo é acelerado, instantâneo e líquido, esses números parecem uma eternidade.

Se nós pudéssemos projetar o filme da vida de vocês, Francisco e Luzenilde, certamente teríamos motivos para sorrir e chorar, pois a vida de um casal é uma colcha de retalhos formada pela dicotomia sim-não, dor-prazer, palavra-silêncio. A vida a dois não é fácil. Ela é repleta de desafios, limites, possibilidades. Cada um deve preservar a sua essência e aceitar a singularidade do outro. É mais ou menos assim como vocês: enquanto um é do Treze, o outro é do Campinense. Alguém me disse, certa vez, que um casamento só dá certo quando os dois são diferentes, quando há um besta e um sabido. O difícil é definir os papeis de cada um nesse jogo de permutas constantes. Meus vizinhos celebraram bodas de diamante, ano passado. Recentemente, Seu Silvério faleceu. Dona Lourdes perdera o homem da sua vida, o amigo inseparável, o companheiro fiel com o qual conviveu sessenta anos. Certo dia, perguntou-me atônita: e agora, meu filho, com quem eu vou arengar? Ouvimos nossas reticências como resposta.

Esta semana, enquanto dirigia, escutei numa emissora local a canção Foi Deus Quem Fez Você, clássico imortalizado na voz de Amelinha. As emoções vieram à tona evocando as memórias da nossa casa, na Rua das Imbiras, quando ouvíamos música num pequeno aparelho de som, deitados no chão vermelho, escuro e denso como o sangue que corre no coração dos amantes. Naquela hora, pensei em vocês, nas tantas narrativas que escrevemos, na celebração que estava por começar, em todos os membros da nossa família.

Posteriormente, quando eu estava escolhendo o que iria oferecer-lhes para marcar essa data tão significativa, decidi comprar um relógio e um perfume. O seu presente, meu Pai, é para lembrá-lo que o amor, diferentemente do tempo cronológico, não pode ser fatiado, medido, visto que o tempo de quem ama confunde-se com o eterno. É por isso que esses cinquenta anos passaram rapidamente. Vocês nem perceberam e, de repente, já eram pais, avós, viram a casa ficar vazia. Para você, minha Mãe, escolhi um perfume, porque eu acredito que o amor é a fragrância de Deus. Vaporizem-no para que todos sintam o seu odor. Que tudo o que vocês tocarem, nos próximos cinquenta anos, fique impregnado com o aroma do Divino, e que todos nós, tal como Luiz Bandeira, na sua célebre canção, possamos continuar cantando que “foi Deus que fez a gente somente para amar. Só para amar...”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

Um comentário:

Marcília disse...

Mui lindo, Vlads...

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