domingo, 31 de julho de 2016

A carta

Janeiro sempre foi um mês alegre. Além do meu aniversário natalício, nesta época recebíamos a visita de Tia Lúcia, a irmã da minha mãe que era freira e morava em Recife. No nosso reencontro, abraços, afetos e A Festa dos Santos Reis, um dos maiores sucessos de Tim Maia, que ela cantava suavemente, com voz de peito. Durante aquele período, com a rotina alterada, o cardápio era variado, especial. As refeições eram mais longas e repletas de novidades, incluindo a tigela com o pirão quente, o queijo do reino envolto na embalagem avermelhada, a Coca-Cola quase congelada. Na cozinha, minha mãe, minha avó e minha Tia dialogavam em contraponto, como os temas de uma fuga barroca. E nós nos deliciávamos com aquelas histórias, repletas de temperos, aromas, ruídos, movimentos ao redor e sobre a mesa. Tia Lúcia orgulhava-se do seu tino comercial: – Eu era criança e já vendia macaíbas para os meus colegas de classe, dizia com os olhos vivos. Religiosa, filha da caridade, rezava no corredor estreito da casa de Vó Nuca, vizinha à carvoaria de Seu Dedé, defronte ao altar onde estavam Maria e a Medalha Milagrosa.

Certo fim de janeiro, quando Tia Lúcia voltou para Recife ao término das férias, eu senti a sua ausência. Como a necessidade é a mãe da invenção, decidi enviar-lhe uma carta. Fui até a Mercearia do Louro, na esquina da Major Belmiro com a Doutor João Moura e comprei algumas folhas, um envelope e um selo. Na cristalinidade do papel meus sentimentos transpareciam. Eu tinha dez anos. Descrevi os vários momentos que passamos juntos, incluindo os nossos passeios, a viagem para João Pessoa, no ônibus da Real, a parada na entrada de Sapé, quando prontamente lhe dissera: – Titia, Café do Vento. É hora do lanche!

O tempo passou. Tia Lúcia sofreu um AVC que a deixou com sequelas na fala. Monossilábica, todas as palavras e frases que conseguia pronunciar eram variações sobre a partícula “tá”. Para entendê-la era necessário avaliar a entonação, o contexto, os gestos. Comentei com Vinicius e Sofia que nessa época eles carinhosamente a apelidaram de “Tia Tatatá”. E nós nos entreolhamos e sorrimos.

Hoje, amanheci assim, com um desejo enorme de mandar notícias novamente para a minha Tia, tal como fizera naquela ocasião, quando a saudade invadiu uma clara manhã, e era verão. Talvez porque hoje, quando comemoramos o seu aniversário de setenta anos, eu queira prestar-lhe uma homenagem, dizer-lhe o quanto nós a amamos. Talvez porque Tia Lúcia, assim como Elizabeth Gilbert, tenha nos ensinado que o bom da vida é comer, amar e rezar. Que a festa comece. Que a sua vida seja plena, feliz. E que eu possa ter a graça de escrever-lhe muitas outras cartas.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

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