quarta-feira, 29 de junho de 2016

Três anos sem Reginaldo Carvalho

Há três anos Reginaldo Carvalho partiu. Era véspera da abertura do quinto Festival Internacional de Música de Campina Grande, quando recebi o telefonema que me trouxe tão triste notícia. Um filme passou pela minha cabeça. As imagens afloraram buliçosamente. Um misto de choro e riso invadiu os instantes seguintes, que foram (in)tensos. Hoje, melhor mesmo é pensar na vida, como tão bem fez o experiente compositor.

Quando eu estava morando em Salvador, por conta do Mestrado na UFBA, fiz uma análise da obra Rezação, de Reginaldo Carvalho. Como a composição fora publicada entre os anos 70 e 80, e os recursos editoriais naquele período eram precários, propus uma nova edição da Cantata. Preparei a partitura e enviei o manuscrito para ele, que morava em Teresina há muitos anos. Ao receber o material, pediu-me tempo para analisá-lo. Decorridas algumas semanas, contatei-o, porque precisava concluir o trabalho. Reginaldo Carvalho, que àquela época possuía um fusquinha azul celeste do início da década de setenta, disse-me que fizera várias anotações no documento. No entanto, com o riso contido, continuou: “Nego Véi, não tenho como enviar a edição final, porque, ao cruzar a ponte no sentido Zona Leste-Centro, um vento forte invadiu o meu carro e levou todos os papeis para o leito do Rio Poty. O paradeiro, agora, só o Crispim, o Cabeça de Cuia, sabe. Tem coragem de perguntar para ele?”

Reginaldo Carvalho, conhecedor da cultura de tradição oral e da música do povo de tantos lugares, em sua fala e gestos ouvíamos os causos daqui e de algures, de ontem e de hoje, os resquícios de Guarabira, sua terra natal, de Ipuarana, do brejo paraibano, do sertão piauiense, das terras fluminenses, da Cidade Luz. Contador de histórias, gostava de falar, como diria Décio Pignatari, sobre o que ouviveu, narrativas sui generis, o fundamento da sua literatice de cordão, como ele assim ironicamente denominava.

Nestes dias, nos quais encerramos mais um ciclo junino, recorro ao diálogo do Sol e da Lua, extraído da Cantata que escrevi há pouco tempo: “Tolos aqueles que acham / que, matando, vão calar / a voz do artista-profeta / que nos  ensina a pensar, / pois o espírito não morre / vai viver noutro lugar. / A morte não é final, / nossa existência é infinita; / toda essência se renova / para quem nela acredita / e guarda no dentro do peito / num coração que palpita.” Reginaldo Carvalho continua cá, entre nós, e, dentro de um ano, em julho de 2017, terei a oportunidade de mostrar isso ao mundo, numa conferência que apresentarei sobre a sua obra, no 11th World Symposium on Choral Music, que será realizado em Barcelona.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com) 

Um comentário:

joao valter disse...

Saudades do grande mestre!

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