segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O ocaso e os acasos

Sexta-feira, enquanto a cidade se preparava para as folias de momo, resolvi limpar o carro. Segui até o posto onde costumeiramente faço a faxina. Fui recebido pelo atendente, que me perguntou se a lavagem seria completa. Acenei positivamente e caminhei para a área de espera. Por ali, outro funcionário trabalhava embalado pelos sucessos da temporada.

No largo terreno, um casal New Hampshire passeava majestosamente. Com corpos robustos e passos firmes, envoltos numa plumagem avermelhada e preta, as aves esbanjavam beleza e poesia, como os brincantes, os foliões. Se, por um lado, Jackson me fazia pensar no desfile do Galo da Madrugada que ocorreria dentro de poucas horas, Jaqueline, por outro, era uma referência às porta-bandeiras da Marquês de Sapucaí. Intrigado, pensei se seria prudente deixar os animais soltos, pois eles tanto poderiam usar nossos carros como poleiros, sujando-os novamente, quanto poderiam ser atropelados por um dos veículos ali estacionados. Quando Jackson chegou aqui, disse o empregado que acompanhava meu olhar à distância, ele tomou conta do terreiro, demarcando o território, conquistando a vizinhança. Mas havia uma certa tristeza em seu cantar, completou mudando o tom da voz. Eu acho que ele estava se sentido muito sozinho e a solidão, o senhor sabe, não é boa companhia. Foi por isso que eu trouxe Jaqueline para viver aqui. Desde então, as manhãs dos nossos quintais são invadidas pelo som brilhante do seu clarinar e o frenesi percussivo do tatalar das suas asas.

O latido do labrador negro nos interrompeu. Dirigi meu olhar para o fundo da garagem, de onde também ele nos observava fixamente, querendo participar da conversa. Esse aí tem dois anos, disse o homem espremendo a flanela ensopada. Apoiando-se no braço da cadeira, acocorou-se ao meu lado e, com a urgência de quem compartilha segredos, completou com voz grave: ele e o irmão eram muito parecidos. Tinham o pelo liso, preto retinto. Os olhos eram cor de mel, assim como esse céu de fim de tarde. Eles eram tão semelhantes que eu acho que eram gêmeos idênticos. Às vezes, eu me confundia e não conseguia distingui-los, porque a cara de um era o focinho do outro. Por isso, resolvi chamá-los de King Kong. Quando um deles desapareceu, a dúvida só aumentou. E como eu nunca tive certeza de quem era quem, passei a chamar o que ficou comigo de King Kong, para evitar confusão, entende, disse arrematando.

Naquele ocaso de verão, lembrei de tantos acasos. Sorri por conta daquele homem e suas histórias, vendo Jackson, Jaqueline, King (e) Kong. Refleti sobre a nossa existência, a condição animal-humana, o carnaval e as infinitas possibilidades de reinvenção do ordinário, da vida cotidiana.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

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