sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Cantares Piauienses

Reginaldo Carvalho pesquisou a música brasileira de tradição oral, estudando o reisado, o boi, o cavalo piancó, o coco, a ciranda, o baião, dentre outros folguedos. Por meio destas investigações, coletou material para aulas e também seu trabalho composicional. Em 1996, a Fundação Cultural Monsenhor Chaves (Teresina-PI) publicou uma coletânea de arranjos intitulada Cantares Piauienses, contendo catorze pequenas peças, cujas melodias, na sua maioria, são oriundas de distintas localidades do estado do Piauí, dentre as quais Amarante, Santa Filomena, Campo Maior, Floriano, Pio IX e Teresina. O livro é dedicado ao professor Raimundo Wall Ferraz e também é uma homenagem ao Coral do Amparo, grupo com o qual Reginaldo Carvalho trabalhou durante muitos anos.

Na coleção Cantares Piauienses, Reginaldo Carvalho explora diferentes possibilidades harmônicas. Ele emprega poliacordes e cria uma sonoridade moderna, sem, contudo, perder o aroma que o modalismo da música de tradição oral do Nordeste evoca e que, como já dito em outras ocasiões, permeia a sua escrita. Essa mistura, simples e sofisticada ao mesmo tempo, revela como Reginaldo Carvalho trata os elementos intrínsecos e extrínsecos, conciliando o novo e o velho, ratificando, em certa medida, uma das facetas do seu feitio composicional.

Sob a perspectiva interpretativa, algumas peças são complexas por conta da harmonia e da estrutura rítmica que apresentam. Reginaldo Carvalho era fissurado na questão prosódica, na correta acentuação das palavras, evitando o que ele chamava de silabada, que comprometia o entendimento do texto. Por isso, ele é bastante explícito na indicação da articulação e nos efeitos agógicos que deseja produzir.  Na peça Cavalo Piancó, por exemplo, os acentos ressaltam os aspectos coreográficos da dança, que é executada pelos brincantes que imitam, como ele mesmo diz, sem maldade alguma, sorridentes e cantando, pessoas idosas cavalgando num cavalo piancó, isto é, um cavalo manco, coxo. Já na obra A cigana, além da complexidade rítmica, há também o desafio harmônico. Ao falar sobre essa peça, em particular, Reginaldo Carvalho disse que quando viu, pela primeira vez, a figura da cigana, num reisado, em Teresina, no início dos anos setenta, o violão que acompanhava o grupo, na ocasião, estava completamente desafinado, fato que o inspirou na concepção do referido arranjo para coro misto, justificando, dessa forma, o uso sistemático do cromatismo, que cria ambiguidade e faz lembrar aquele violão.

Os arranjos que integram a coleção Cantares Piauienses serão publicados, de forma avulsa, pelo projeto SESC Partituras (https://goo.gl/0futH7) e também serão apresentadas no último concerto da série, este ano, dia 12 de setembro, na terra natal do compositor, Guarabira, no brejo paraibano. Caberá, novamente, ao Coro de Câmara de Campina Grande o honroso desafio e a nobre missão de interpretar esse patrimônio, ainda pouco conhecido, da literatura coral brasileira.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

Nenhum comentário:

Postar um comentário