segunda-feira, 20 de abril de 2015

Só não vê quem não quer

Foi durante o congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM), realizado na UNESP, em São Paulo, na última semana de agosto do ano passado, que oficializamos a turnê do Coro de Câmara de Campina Grande. Juntamente com a professora Julie Cássia Cavalcante, que havia participado do Festival Internacional de Música de Campina Grande, discutimos e definimos as estratégias. É certo que um empreendimento dessa natureza exige ousadia e investimentos dos dois lados. Por isso, ficamos responsáveis pelas despesas com passaportes, seguros e passagens, enquanto os anfitriões se encarregaram da hospedagem, alimentação e transporte local.

No Brasil, nossas propostas não ecoaram nos gabinetes superiores. Não obstante, seguimos adiante, resolutos. Gradualmente, alçamos degraus. Para custear todo o investimento, contamos com o apoio de diversas pessoas, instituições e empresas de Campina Grande e de Teresina, no Piauí. Arregaçamos as mangas. Coletamos roupas, utensílios e objetos para vendê-los em brechós, nas feiras livres. Alguns se valeram do velho e conhecido livro de ouro. Outros recorreram aos empréstimos bancários. Vários cantores arcaram com suas próprias passagens e também contaram com a ajuda dos familiares. O processo foi bastante complicado por conta da crise econômica, pois a oscilação do dólar, nesse período, alterou consideravelmente o preço das passagens.

Enquanto lutávamos para conseguir os recursos, na França todos se preparavam, dividindo os locais onde ficaríamos hospedados, fazendo um planejamento detalhado, incluindo atividades educativas, artísticas, sociais e culturais. Professores e alunos do Conservatório de Olivet e da Escola de Música de Gien se engajaram nesse projeto, sob a liderança de Julie Cássia e Olivier Petit. Várias vezes, por telefone, buscamos soluções para situações inesperadas, fazendo os ajustes necessários.

Na mala, além dos agasalhos, presentes para os anfitriões, dentre os quais cachaça, rapadura, cuscuz, massa de tapioca e produtos artesanais paraibanos. No que diz respeito ao repertório, apresentamos um pouco da nossa diversidade, interpretando obras sacras e seculares do período colonial aos dias de hoje, destacando, sobretudo, os compositores da região. A proposta de promover um grande encontro entre culturas, explorando outros aspectos além dos musicais, foi extremamente positiva e enriqueceu o intercâmbio. Após uma semana de convívio intenso, aprendemos sobre a história da França, seus símbolos, valores, tradições, língua e, naturalmente, a culinária, tão rica em sabores, aromas, cores e texturas. A recíproca foi verdadeira e eles também aprenderam muito sobre nosso país. Conforme destacado na reportagem publicada no jornal da cidade de Gien, no dia seguinte à nossa apresentação, o Brasil é muito mais que futebol e carnaval. Em outros termos, poderíamos acrescentar: Campina Grande não é só festa junina e a UFCG, além dos cursos de engenharia, tem muito o que mostrar ao mundo.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

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