quinta-feira, 9 de abril de 2015

Ladrão em noite de chuva

A obra Do tamanho de um defunto, de Millôr Fernandes, foi escrita originalmente para teatro e publicada pela Civilização Brasileira, em 1957. A estreia do espetáculo aconteceu no Teatro de Bolso (Rio de Janeiro). Posterirormente, o texto foi adaptado pelo próprio autor para o cinema, recebendo o título Ladrão em noite de chuva, cuja trilha sonora tem a assinatura de Reginaldo Carvalho.

O longa Ladrão em noite de chuva foi produzido por Aloísio Leite e Armando Cavalcanti de Albuquerque. Conforme dados da Cinemateca Nacional, “o projeto do filme começou em 1955 numa associação entre Millôr Fernandes, Armando Couto e Ludy Veloso na empresa Lu-Mi-Ar com distribuição pela Unida Filmes de Mário Falaschi. As filmagens começaram, porém, somente em 1958. O nome de Millôr Fernandes também aparece como Vão Gogo, Emanuel, que assinava na revista O Cruzeiro. Mosquito é pseudônimo de Paulo Nunes. A fonte ACPJ/I indica distribuição pela B. C. Filmes com apresentação da Satélite Filmes; Armando Cavalcanti de Albuquerque teria se encarregado da sonografia. A fonte ALSN/DFB-LM indica produção de 1961.”[1] Este filme foi censurado e a única cópia disponível provavelmente encontra-se na Cinemateca Nacional.

Sábato Magaldi, no livro Panorama do Teatro Brasileiro, publicado pela Global Editora (2013), ressalta que, neste texto, Millôr faz uma crítica à organização administrativa do Rio nos anos cinquenta “com a anedota do ladrão que escolheu a casa do médico, entre outros motivos, porque pertence a um distrito policial, enquanto a casa ao lado já pertence a outro, cujo delegado não perdoa os presos. Sente-se a tremenda solidão de uma cidade em noite de chuva, em que ninguém deixa o seu recolhimento para o gesto de solidariedade, a ponto de levar o ladrão ao raciocínio: “... vou-lhe ensinar uma coisa, madame: quando precisar socorro não grite ‘Ladrão! Assassino!’, que ninguém vem. Grite ‘Fogo, Incêndio!’, que logo corre uma multidão. A gente não é boa, madame, mas é curiosa.”

A trilha, escrita para clarineta em si bemol, trompete, contrafagote e percussão (tambor e tarol), tem 35 seções, totalizando cerca de 30 minutos. A edição, elaborada por mim e Alexsandro Lima para o projeto SESC Partituras, foi feita a partir da grade manuscrita (medindo 33 cm x 23,5 cm) elaborada pelo próprio Reginaldo Carvalho. A obra editada está disponível no endereço http://goo.gl/OXWQSZ. Para definir o tempo da performance de cada quadro, os intérpretes devem observar a duração indicada pelo compositor. A textura é homorrítmica, muito embora apresente pontos de imitação. Nota-se uma alusão à canção Rosa Amarela e às Bachianas Brasileiras Nº 2, mais particularmente a conhecida melodia d’O trenzinho caipira, reforçando as conexões de Reginaldo Carvalho com Heitor Villa-Lobos.
  
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

[1] Disponível no site http://cinemateca.gov.br Último acesso em 20 de março de 2015.

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