segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Mas o meu pires é de porcelana

Entre 1988 e 1992, estudei na Universidade Federal da Paraíba, Campus I, em João Pessoa. Foi o tempo da Licenciatura em Educação Artística, com habilitação em Música, época na qual também tive aulas de Composição com o professor José Alberto Kaplan, de Piano com Germana Vidal e de Técnica Vocal com Tika Porto. A Flauta Transversa, meu instrumento por mais de dez anos, ficou em segundo plano nesse período. Além dessas atividades, cantava no Coral Universitário da Paraíba “Gazzi de Sá” e também auxiliava o maestro Eli-Eri Moura.

Em 1989, quando Eli-Eri deixou a direção do coro para ingressar no mestrado em Composição na McGill University, no Canadá, assumi temporariamente, ao lado do colega Anderson Florentino, o CORALUP. Era assim que carinhosamente chamávamos o Gazzi de Sá. A tarefa não foi fácil, pois substituir alguém é sempre um grande desafio. E quando se trata de um coro o serviço é ainda mais delicado, especialmente por conta das relações de poder que se estabelecem entre o ex-cantor, agora em posição de liderança, e seus colegas. O certo é que era preciso continuar o trabalho e manter o mesmo nível de excelência do grupo.

O CORALUP havia sido selecionado para participar de um festival em Córdoba, na Argentina. Estávamos empolgadíssimos, com tudo encaminhado, e o maestro havia nos orientado a não alterar os planos, mesmo com a saída dele. Continuamos a peregrinação pelos corredores da universidade, pedindo ajuda para viajar. Precisávamos do transporte, pois lá, na terra do tango, teríamos a hospedagem e a alimentação. Tomamos muito chá de cadeira, acompanhamos o Magnífico em várias solenidades, fomos ignorados e acalentados com promessas vazias. Depois de muita peleja, conseguimos o que queríamos. Viajamos de ônibus. Logo após cruzarmos Alagoas, o ar-condicionado quebrou. Passamos seis dias atravessando o Brasil, no meio do calor, parando para alguns concertos e muitos consertos. Na Argentina, fizemos sucesso com os Respingos, de Eli-Eri Moura e Paulo Leminski. Esse irreverente ciclo foi escrito para solistas, coro e banda, formada por trompete, baixo, teclado e bateria. Entramos para a história daquele tradicional encontro. O brilho dos flashes e o sol de verão não permitiram que a noite chegasse nem que o vento frio dos pampas, que invadia o ônibus por entre as frestas das janelas, congelasse nossos corações na viagem de volta.

Analisando o que vivenciei, percebo que muito pouco ou quase nada mudou. O discurso é o mesmo. Nossas instituições continuam sem recursos claramente definidos para a arte. Ainda prevalece, em muitos casos, a política do balcão, dos favores. Naquela época, estudante e sem trajetória, eu pedia com um pires de plástico à mão. Hoje, continuo pedinte, mendigando à procura de apoio, mas o meu pires é de porcelana.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

Um comentário:

Maria Araujo disse...

Oi Vladimir, você reportou-se a uma época muito especial, a qual tive a honra de participar. Fui regida pelo maestro Elieri Moura no coral universitário Gasi de Sá, e tive um longo tempo participando do côro lírico no Espaço Cultural, onde graças ao esforço da profª Tica Porto, caminhamos muito. Não viajei com vcs. Mas deixo aqui minha alegria ao ver seu texto.

Postar um comentário