domingo, 10 de março de 2013

À noite, no Rio.

A noite estava quente, abafada. Era o prenúncio da chuva que já se aproximava da Baía de Guanabara. Enquanto aguardava o jantar, aproveitei a brisa inconstante que vinha do mar de Copacabana e adentrava o apartamento, agitando cortinas, flores e pensamentos. Não demorou muito e aquele cheiro forte de terra molhada invadiu o espaço, misturando-se ao aroma mediterrâneo que escapava da cozinha. Do canto da sala, tudo era movimento, transparência. Gotículas escorriam sobre a janela de vidro. O cuscuz marroquino exalava um vapor sinuoso, sensual. Na cuba de cristal tcheco, o gelo morria lentamente.

Sentei-me à mesa. Entre garfos, facas e taças, conversas e bebidas. Muito havia para ser dito, compartilhado, afinal tantas luas já passaram desde o último encontro. Projetos, caminhos, risos e expectativas sobre os pratos coloridos. Mastiguei tudo vagarosamente, saboreando o tempero da comida e da amizade. Depois da torta com amêndoas e chocolate, as imagens projetadas no monitor trouxeram à tona o passado recente, vivo. Fatos nunca antes revelados fizeram brotar o riso e o encanto. O relógio acusou a urgência das horas. Despedi-me com promessas que me acompanharam pelo corredor estreito, até a porta do elevador.

Na rua, ao longe, alguém ouvia Tom. É verdade. As águas de Março estão fechando o verão. As poças sobre a calçada testemunhavam aquela despedida. O táxi chegou. Acomodei-me. Indagado pelo motorista, revelei o meu destino, que curso seguir. O carro saiu sem pressa, atravessando o breu do horizonte, que era rompido esporadicamente pela fúria dos raios que traçavam formas irregulares no céu, delineando as curvas afeminadas do Pão de Açúcar. Do outro lado, no Corcovado, o Cristo também irradiava uma luz branca e forte, uma referência na escuridão. As embarcações, na Lagoa, balançavam calmamente, velando os sonhos dos pescadores.

As melodias em modo menor que o motorista ouvia embalavam o trajeto, encurtando distâncias, criando atalhos. Perguntou-me se conhecia aquele grupo que estava cantando. Apesar de parecer familiar, disse-lhe que não. Ouço estas músicas há dois anos, confessou-me com voz solene, anunciando que era um álbum com canções sacras que sua filha havia recebido no dia do fatídico acidente automobilístico que dizimara a vida dela. Tentei expressar minha compaixão. Veja como é a vida, interrompeu-me com veemência e um sorriso triste, dizendo que, se estivesse fisicamente presente, ela completaria, naquele dia, nove de março, trinta e três anos. As luzes do Aterro do Flamengo iluminaram a estrada por um instante. Contudo, seguimos reticentes, cruzando avenidas, tentando entender a mística da vida. À noite, no Rio, no quarto do hotel, naquele não-lugar, reordenei a mala, guardei a solidão, o grito silencioso, as muitas (in)certezas, as dores imensuráveis e intangíveis da humanidade.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

*Para Zezé Queiroz, Angelo Dias, Samuel Kerr e o taxista anônimo, pai da Chris.

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