sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sobre o espanto

Sempre que viajo, exploro caminhos diversos, estradas retas, seguras e planas, outras sinuosas, cheias de subidas e descidas. Se o caminho é desconhecido, a atenção é dobrada, pois qualquer erro pode ser fatal. Por isso, tento obter informações sobre a trafegabilidade das rotas. Já quando ando por trajetos conhecidos, a sensação de segurança é maior, porque, de certa forma, reconheço o porvir atrás de cada montanha, no fim de cada reta. O percurso passa a ser uma redescoberta. As paisagens, por conta da luz do sol ou do brilho da lua, da vida que brota com a chuva ou da morte que chega com a seca, ganham novos contornos, adquirem outros sentidos, me levam a pensar sobre a transitoriedade do olhar.

Assim também ocorre com a música. Quando me deparo com uma nova obra, preciso estudá-la, ouvi-la. Procuro encontrar pontos de referência, compreender a sua estrutura, elaborar uma proposta interpretativa fundamentada em parâmetros técnicos, físicos, psicológicos, auditivos. Com o repertório habitual, a tarefa é mais desafiadora, pois é necessário remover preconceitos, transpor as fronteiras de uma intimidade viciada, quase caduca. Para descobrir significados latentes, mas ainda não revelados, releio as composições pausadamente. Busco os detalhes rítmicos, melódicos, harmônicos, como se dá a relação entre texto e música, dinâmica, articulação e andamento. Quero os elementos outrora despercebidos e ignorados, mas que, agora, chegam à superfície, potencializando as múltiplas faces do objeto.

Todas as vezes que ando por estradas familiares, reencontro um velho amigo, releio um livro, revejo um filme ou reinterpreto uma composição, espero ansioso pelo momento do sobressalto, quando, de repente, terei a chance de encontrar a novidade. É neste instante que o espanto toma conta dos meus olhos, invade meus ouvidos, alegra meu coração. O deslumbramento impulsiona o gesto criador, a fruição estética, dinamizando a minha percepção da arte, da música, do belo, do outro, da vida.

Recentemente, ao visitar o Meio Norte do Brasil, fui surpreendido de diversas formas. Primeiro, ao reencontrar os integrantes do meu antigo coro, conversando e cantando, sorrindo e chorando, revivendo emoções passadas e presentes. Depois, passeando por outras paragens, ao descobrir Maramar, uma pequena vila de pescadores no limite leste do estreito e admirável litoral piauiense. Ali, onde os habitantes ainda vivem de forma simples e pacata, tive a oportunidade de me reinventar, afastado dos ruídos do mundo interior e exterior. Assombrado com o silêncio dos tempos, ouvi o rugido do mar, senti o vento forte no rosto, testemunhei o movimento das dunas, o encontro do rio com o mar, selado com um beijo longo, demorado e buliçoso, como o vai-e-vem dos amantes, que brincam perdidos no breu das noites estreladas, naquele pedaço do paraíso.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

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