segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A despedida

O dia amanheceu. As cores invadiram o horizonte, acentuando a sua exuberância. No jardim, begônias, gerânios e antúrios, tão belos e frágeis, aguardam sedentos. A água escorre por entre os vasos. Formigas começam a caminhar. Nos troncos inertes, colônias de cogumelos e orquídeas vaidosas. Elas exibem longos pendões recheados com minúsculas pétalas que parecem gotículas de ouro. Borboletas e marimbondos dividem o néctar dos hibiscos alaranjados e rosas. Embaixo das longas folhas das samambaias, zunzum e vaivém de vultos. São os duendes, que cantam silenciosamente. Nestes tempos de feromônio abundante, a joaninha, com seu vestido vermelho, tal qual uma dançarina de tango, caminha faceira sobre um caule suculento à procura do seu parceiro ou, quem sabe, de um beijo-de-frade, enquanto, no subsolo, as minhocas fecundam a terra, deixando-a mais úmida e grávida de desejos. Sortilégios, sacrilégios e licenciosidades primaveris.

Caminho sem destino. Nas curvas da cidade, na avenida principal, à sombra dos ipês, que despertam tardiamente, tapetes coloridos dançam ao som do vento que passa, rodopiando num moto continuum. Ao cruzá-los, folhas, flores e frutos espalham por todos os cantos aromas secretos, intensificando a volúpia e a doçura do cio da terra e dos homens. Olhos, nariz e boca captam a beleza efêmera daquele instante que as mãos e os versos, ansiosamente, tentam decifrar e registrar.

É meio-dia. Subo uma ladeira. Do alto de uma bela vista, o espelho d’água fervilha com o calor do sol, iluminando os pequenos montes que demarcam os limites de um lugar qualquer. Bougainvilles e flamboyants quebram a hegemonia daquela paisagem quase monocromática, indicando caminhos e labirintos ainda não desvendados. Ao longe, as silhuetas dos pescadores, que lançam suas redes à procura dos peixes de outrora, se inserem naquele cenário como personagens de um teatro de sombras. Atrás daqueles gestos e véus, tudo é movimento, indefinição.

Volto para casa ao entardecer. A lua surge por entre as palmeiras às margens do lago represado. Aquele corpo cintilante, madrepérola, destaca-se no firmamento ainda azul. Bruxas e fadas, que em noite de lua cheia aguçam os sentidos farejando a essência das coisas e dos seres, curvam-se perante majestosa presença. Imóveis, todos contemplam a hóstia celeste, um extasiante farol no céu da cidade em festa. No rádio, anunciam, solenemente, a hora do ângelus. A maviosa voz de Stevie Wonder preenche o hiato entre a terra e o espaço com a melodia e os acordes de Bach e Gounod, levando consigo muitos segredos. Subitamente, uma luz verde aparece. Buzinas e roncos de motores me despertam. Saio, seguindo o vento e a canção, percebendo as permanências e transitoriedades, a acidez e a doçura da natureza, da vida e do coração neste fim de estação.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

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